Sobre a infinita dimensão do olhar. Era uma aula de Biodança. A proposta do exercício era sentar com os braços estendidos com as mãos na posição de receber. O objetivo era não fazer nada, e experimentar receber um olhar amoroso, só por existir. Não havia a necessidade de criar movimentos elaborados. Duas pessoas sentadas diante de uma pessoa ofertando um olhar. Eu senti que a minha alma descansou de mim mesma. Os meus pensamentos não me sabotaram. Fiquei num estado sereno de aceitação e não julgamento. Naquele átimo, me senti aceita e acolhida. Era um lugar de absoluta presença, mergulhei no reino de Alice. E nesse lugar de infinitos nadas acontecendo eu experimentei não precisar de nenhum desempenho, ou esfôrço para me sentir pertencendo. Era uma pronfundidade da potência de um olhar, que nos convida a sair da invisibilidade para viver a plenitude de existir.
Nosso mundo está tão amortecido por telas intermediando o olhar que a plenitude da vida acontecendo, vai se esvaindo dentro de nós e do outro. São os pequenos milagres do cotidiano que muitas vezes não são sentidos quando eu sinto uma avidez pelo registro, fotografando instantes, e é justamente no abismo do tempo do inefável, da grandeza de se viver o momento que alguma coisa se infinita na minha memória. Hoje, eu estava na livraria com o meu filho e abrimos o livro "Os lusíadas" do Camões e começamos a ler juntos um trecho do livro,e de repente nos olhamos, e sorrisos brotaram naquele instante de intimidade. Um momento nosso, que não vai voltar, e eu guardei a risada do meu filho dentro de mim. Amar é uma camada muito fina que acontece no meio do nada e é todo o amor se manifestando do nada, sem explicação.
Lembrei da frase do Gombrowicz" Eu não era nada, logo podia fazer qualquer coisa."

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