quinta-feira, 5 de maio de 2016

FILOSOFIA DA DANÇA PAUL VALERY

Extratos da versão para o português do texto Philosophie de la danse (Filosofia da dança), escrito por Paul Valéry, em 1936. Versão livre por Petrucia Nóbrega para o Dia Mundial da Dança. "A dança não se limita a ser um exercício, um divertimento, uma arte ornamental e um jogo de sociedade algumas vezes, ele é coisa séria e em alguns aspectos, venerável. Toda época que compreendeu o corpo humano, ou que experimentou, pelo menos, o sentimento do mistério desta organização, de suas fontes, de seus limites, das combinações de energia e de sensibilidade que ele contém, cultivou, venerou a dança. A dança é uma arte deduzida da vida mesma, pois ela é a ação do conjunto do corpo humano; mas ação transposta no mundo, em uma espécie de espaço-tempo, que não é mais, com efeito, a mesma que aquela da vida prática. O homem percebeu que possuía mais vigor, mais flexibilidade, mais possibilidades articulares e musculares do que havia necessidade para satisfazer as necessidades de sua existência, ele descobriu que alguns de seus movimentos são procurados pela sua freqüência, sua sucessão ou sua amplitude, um prazer que ia até uma espécie de embriaguez, e tão intenso as vezes que um esgotamento total de suas forças, um tipo de êxtase, de esgotamento podia somente interromper seu delírio, sua despesa motriz exasperada. Nós temos muitas potências perceptivas e que não as utilizamos e o mesmo ocorre no que concerne aos nossos poderes de ação. Nós podemos traçar um circulo, jogar com os músculos de nossa face, marchar em cadencia, tudo isso que permite criar a geometria, a comédia e a arte militar, é a ação que é inútil em si mesma, para o funcionamento vital. Assim, os meios de relação da vida, nossos sentidos, nossos membros articulados, as imagens e os signos que comandam nossas ações e a distribuição de nossas energias que coordenam os movimentos de nossa marionete, poderiam ser empregados somente a serviço de nossas necessidades fisiológicas e se restringir a atacar o meio onde vivemos ou a nos defender contra ele, de maneira que sua única tarefa consistia na conservação de nossa existência. Poderíamos levar uma vida estritamente ocupada com as necessidades vitais, insensíveis ao que não teria um papel nos ciclos de transformação que compõem nosso funcionamento orgânico. Os animais parecem se comportam dessa maneira, mas mesmo os animais brincam, as vezes se divertem. Os macacos fazem pantomimas, os cachorros se perseguem, mas isso seria já a dança? Todas essas ações e divertimentos animais são úteis para consumir uma energia superabundante ou para manter em estado de flexibilidade ou vigor os órgãos destinados a preservar a vida. Mas e o homem? O homem é esse animal singular que se observa viver, que se dá um valor e que coloca todo esse valor que lhe agrada para se dar na importância que ele se apega as percepções inúteis e aos atos sem conseqüência física vital. Pascal colocou toda essa dignidade na reflexão, mas essa reflexão que nos edifica – a nossos próprios olhos – acima de nossa condição sensível é exatamente o pensamento que não serve a nada. Observe que não é útil ao nosso organismo nossas meditações sobre a origem da vida, sobre a morte. Mas nossa curiosidade é mais ávida que necessária, nossa atividade mais excitável que nenhum objetivo vital exige são desenvolvidas com a invenção das artes, das ciências, dos problemas universais e com a produção de objetos, de formas, de ações as quais poderíamos passar sem elas. A arte assim como a ciência faz algo útil a partir do inútil. Um filósofo pode olhar uma ação de qualquer dançarina e observando o que lhe dá prazer, ele pode também tentar tirar um prazer segundo de exprimir suas impressões em sua linguagem. De inicio ele pode recolher algumas belas imagens. Os filósofos são apetitosos por imagens (...). Eles criaram algumas celebres: um, uma caverna; outro, um rio sinistro que não podemos jamais ultrapassar; outro, um Aquiles sufocado após uma corrida com uma tartaruga inacessível. Os espelhos paralelos, os corredores que se passam uma flama, e até Nietzsche com sua águia, sua serpente, seu dançarino na corda (funâmbulo), todo um material, toda uma figuração de ideias com as quais poderíamos fazer um forte e belo ballet metafísico onde se comporia sobre acena tantos símbolos famosos. Meu filosofo não se contenta com isso. Que fazer diante da Dança e da dançarina para se dar a ilusão de saber um pouco mais que ela mesma sobre o que ela sabe melhor e que não sabemos? É necessário compensar essas ignorância técnica e dissimular seu embaraço por alguma engenhosidade de interpretação universal desta arte, a qual ele constata os prestígios. Sua entrada na dança é bem conhecida. Ele esboça o passo da interrogação. Ele se coloca a pensar sem prever um fim e em uma interrogação ilimitada, no infinito da forma interrogativa. É seu ofício. Ele joga seu jogo. Ele começa pelo começo ordinário e demanda: O que é então a dança? Ele se embaraça e se paralisa bem como os espíritos- o que faz pensar a um famoso embaraço de Santo Agostinho que confessa que um dia foi interpelado com a questão sobre o que é Tempo. Ele confessa saber bem, mas quando interrogado, seu espírito se perdia em encruzilhadas. Ele parava e se isolava de qualquer emprego imediato e de alguma expressão partícula. Observação profunda... Meu filosofo encontra-se hesitante sobre o que separa uma questão de uma resposta. O que é o tempo? O que é a dança? Mas, a dança é antes de tudo uma forma do tempo. Associando as duas questões a tarefa parece menos preocupante. Ele olha então a dançarina com seus olhos extraordinários, extra lúcidos que transformam tudo o que vêem em proezas do espírito abstrato. Ele decifra o espetáculo. A dançarina se envolve em uma duração que ela engendra uma duração feita de energia. Ela é instável, improvável. E a força de negar pro seu esforço o estado ordinário das coisas, ela cria a ideia de um outro estado, excepcional. Um estado que é ação, uma permanência que se faz pelo trabalho, comparável a vibrante parada de um inseto ou de um beija-flor diante de um cálice de flor que ele explora e que permanece carregado de potencia motriz, apenas um pouco imóvel, e sustentado pela batida incrivelmente rápido de suas asas. O movimento de dança é, pois repleto de uma energia de qualidade superior. “No estado dançante, todas as sensações do corpo, ao mesmo tempo, motora e movida são encadeadas e em certa ordem – que elas se demandam e se respondem umas as outras, como se repercutissem, se refletissem sobre a parede invisível da esfera das forças de um ser vivo. Com essas questões o filosofo tenta aprofundar o mistério de um corpo que, imediatamente, como por efeito de um choque interior, entra em uma espécie de vida ao mesmo tempo estranhamente instável e estranhamente regulada; e ao mesmo tempo, estranhamente espontânea, estranhamente sabia e seguramente elaborada. Esse corpo parece se destacar de seus equilíbrios ordinários. Ele joga com fineza com seu peso, do qual ele se esquiva a cada instante. Em geral, ele se dá um regime periódico mais ou menos simples, ele é dotado de uma elasticidade superior que recupera a impulsão de cada movimento. Pensamos ao peão que se sustenta sobre sua ponta e que reage tão vivamente ao menor choque. Esse corpo que dança parece ignorar o seu entorno. Parece que ele se consagra a si mesmo e a um outro objeto, um objeto capital, do qual ele se destaca ou se liberta, para o qual ele volta, mas somente para retomar o que ele foge ainda... é a terra, o solo, o lugar sólido, o plano sobre o qual pisoteamos a vida ordinária e sobre o qual procede a marcha, essa prosa do movimento humano. Sim, esse corpo dançante parece ignorar o resto, nada saber de tudo o que lhe cerca. Diríamos que ele se escuta e escuta apenas a si mesmo; diríamos que ele nada vê e que seus olhos são como jóias, dessas bijuterias desconhecidas das quais fala Baudelaire, de luzes que não lhe servem a nada.A dançarina está em um outro mundo, que não é mais aquele que se pende de nossos olhares, mas aquele que ela tece de seus passos e constrói de seus gestos. Mas, neste mundo, não há ponto de vista exterior aos atos; não há objeto a capturar (compreender), a reunir, a repelir ou a fugir, um objeto que termina exatamente uma ação e dá aos movimentos, de inicio, uma direção e uma coordenação exteriores, e em seguida, uma conclusão nítida e certa. A dança aparece ao filosofo como um “sonambulismo artificial, um grupo de sensações que permanecem em si, nas quais certos temas musculares se sucedem conforme uma sucessão que lhe institui seu próprio tempo, sua duração e completa com uma voluptuosidade e uma dileção cada vez mais intelectual. Essa vida interior da dança, em termos de psicologia, não daria um sentido novo lá onde a fisiologia domina? Vida interior, mas construída de sensações de duração e de sensações de energia que se respondem e formam como um confinamento de ressonâncias. Essa ressonância como qualquer outra, se comunica: uma parte do nosso prazer de espectador é o de se sentir tomado pelos ritmos e virtualmente, dançar nós mesmos. A dança ou o corpo dançante é visto como uma poesia geral da ação dos seres vivos, cujas metamorfoses ultrapassam a vida ordinária. O que é uma metáfora se não esse tipo de pirueta da ideia da qual aproximamos diversas imagens ou diversos nomes? E o que são todas essas figuras das quais usamos, todos esses meios, como as rimas, as inversões, as antíteses, que nos destacamos do mundo prático para nos formar, nós também, nosso universo particular, lugar privilegiado da dança espiritual? Paul Valèry refere-se a uma dançarina (Madame Argentina) que viu dançar. Ela tomou uma dança popular espanhola e trabalhou o estilo. O poeta admirou esse trabalho, pois se vê como alguém que não opõe a inteligência e a sensibilidade, a consciência refletida e os dados imediatos. Uma boa inspiração para pensar o corpo e a dança!"

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