terça-feira, 10 de outubro de 2017

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas que sofrem emocionalmente e as que têm tendência ao suicídio. O grupo é formado por vítimas da desigualdade social alarmante no Brasil.Nossos governantes não atendem esta demanda no sistema de saúde público altamente falido. Esta organização é literalmente não governamental, ela funciona com o apoio de voluntários, psicólogos, e muitos profissionais que atuam fazendo palestras, atendimentos em grupos e individuais.Tudo de graça, e os atendimentos acontecem nas dependências de uma Igreja, sedida gentilmente pelo padre da paróquia. Esta semana fui atender um grupo de vítimas de assédio moral no trabalho. Um grupo pequeno, porque sofre boicote das empresas que não querem associar sua imagem a este assunto tão delicado. Infelizmente quem procura o grupo, já sofreu humilhação, está com a sua dignidade ferida e desempregado, e além da pressão econômica e a falta de espaço no mundo está emocionalmente se sentindo desqualificado e sem forças para reverter a situação. Primeiro eu levei o teatro, eu acredito no poder das respostas incríveis que o corpo dá, e representar através do jogo, têm o poder de ressignificar modelos de autoritarismos muito arraigados nesta "casa grande senzala" que é o Brasil. Quero destacar um exercício que foi muito marcante para mim e para os participantes. Eu dei uma folha para eles e pedi que cada um andasse pela sala imaginando uma situação onde se sentiu pequeno, depois fizesse com o corpo a posição e em seguida escrevesse a palavra que resumia esta situação. Depois pedi que todos andassem expondo sua ferida para que todos vissem. E assim todos caminharam mostrando suas marcas, rótulos e como se sentiam. Depois eu pedi para que eles virassem a página e agora caminhassem pelo espaço pensando num momento em que eles se sentiram grandes e depois parassem na posição e depois de escrito, que experimentassem caminhar novamente expondo suas alegrias, emoções de amor e júbilos. Foi uma vibração bela, ver aqueles corpos sofridos e machucados pela vida, caminhando com dignidade.Dava para ver o brilho nos olhos a postura e o amor exalando na sala. No final nos abraçamos. Observei um participante que fez um depoimento sobre como se sentia pequeno, a palavra gay foi a escolhida por ele e na nossa roda de partilha, ele me disse que o Brasil é muito homofóbico e que ele assume o que ele é e se sente triste quando não é sua competência que é avaliada. Isso me deu uma sensação de revolta.Como que alguém pode ser julgado por ser o que é? De que adianta tanta tecnologia aproximando as pessoas e automatizando as forças no trabalho se a condição humana continua mesquinha? Até quando vamos assistir estarrecidos grandes tragédias no mundo, porque o sistema de saúde de certos países não valorizam a saúde emocional e mental? O que aconteceu no Brasil e nos Estados Unidos é a prova cabal. Não adianta acreditar que a crise é apenas econômica e ética. Temos uma crise baseada na ignorância dos perigos de entregarmos o poder nas mãos de psicopatas.Eu voto inclusive em exames psicológicos em pessoas que pretendem abraçar a política, não é possível que essa ausência de remorso e empatia, e a total sofisticação em saquear o Estado numa ganância incomensurável de poder não seja algo deletério. Pode ser uma pista para entender a mente de um Stalin, Hitler,os militares no Brasil,os banqueiros insanos por lucro por exemplo. Não estou afirmando que todos que estão no poder precisam de tratamento, e muito menos afirmando que uma empresa que desqualifica seus funcionários com toda a sorte de humilhações que se trata de pessoas num estado mental deplorável. Mas eu só queria entender o porquê de uma pessoa assumir um posto de comando e se sentir no direito de maltratar um funcionário que o está servindo. Olhei para aquele grupo e senti tristeza por ver jovens cheios de inteligência, capazes de trabalhar e levar uma vida feliz, bloqueados nos seus destinos, porque sofreram assédio moral.No final eu que recebi, esta é a maravilha de ser voluntária, aprender e ver que apesar de tudo, eles estavam lá olhando para esta situação e abertos para aprender a lidar com este mundo doente com muita luz. A arte é um grande canal de cura. Eu sonho com o dia em que a arte,a cultura e as ideias tomaram o poder. Nesse dia o autoconhecimento será matéria obrigatória na escola, criar, sentir o corpo e desenvolver o sentimento de pertencimento será matéria prima nas escolas, o riso, o jogo e a liberdade de ser o que se é vai contar como base de qualquer formação. A vida precisa habitar a escola, a sombra precisa tirar o bolor desta educação caquética que não ensina ninguém a ter uma projeto de vida para ser feliz, parece que as escolas ensinam muitas vezes a cultura do controle social e do preconceito. Eu sei que existem professores que conseguem furar esta escola morta e transmitem vida.No entanto é preciso ter uma natureza muito sofisticada para não se deixar contaminar.Nossa sociedade precisa na minha opinião questionar,buscar, investigar novas maneira de convivência respeitando cada ser humano. Só assim teremos realmente uma cultura de paz.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

VESTIDA DE VENTO

Segundo o filósofo Gilles Deleuze(1925-1995), o corpo é potência e, ele só produz significado na presença de outro corpo. Interessante que se o corpo é significativo diante da presença, o corpo também é acontecimento. Outro filósofo Baruch Espinoza( 1632-1677) definia o corpo como uma complexa relação de movimento e repouso, velocidade e lentidão e pelo poder de afetar e ser afetado. Esta semana tive a oportunidade de vivenciar no meu corpo o que pode um corpo.Eu estava triste e fui à aula de biodança, e quando fico assim meu corpo fica sinuoso e impreciso nos movimentos. A facilitadora sugeriu um exercício em duplas,era para caminhar pela sala, juntos e em duplas sintonizando o ritmo, com uma música galopante que ressoava dentro de mim. Minha sensação era de total desamparo porque meu corpo não queria ir diante de minha nobre amiga que estava no ar quase voando, ela é assim de uma sutileza sábia desconcertante.Mas é nestas horas que um corpo pode ser afetado por outro e se ressignificar. Meu corpo triste começou a receber olhares de força cheios de significados,os nossos braços se entrelaçavam e minhas pernas bambas começaram a criar forças e de repente estava voando com ela, saltando e rindo, como duas crianças.Sua divina presença diante da minha me curou. É claro que meu corpo está treinado para entrar em sintonia muito fácil, porque já busco acessá-lo há muitos anos. Mas todo ser humano que se deixa levar pelos caminhos do corpo e confia encontra seu sentido e se revela.Importante nesta revelação é que uma vez fisgado, tudo passa a ter significado, a nossa relação com tudo se transforma. Esta presença que significa pode ser muito ampla, esta relação passa a ser com as plantas, os animais e tudo o que nos cerca. A artista Sérvia Marina Abramovic, artista super conceituada na arte do corpo,performance e instalação, em seu documentário'Espaço além- Marina Abramovic e o Brasil. Ela percorre seis estados Brasileiros em busca de processos de cura e de lugares de poder e cura através do sagrado.Marina sempre pensou sua arte como príncipio de interação e compartilhamento entre ela, sua arte e o público, estas relações são simbióticas. Em uma cena, ela firma que a natureza não precisa dos seres humanos, que a arte é um portal e nós da cidade é que precisamos aprender a sentir o silêncio, escutar e ouvir através da natureza e que não precisamos de arte na natureza, precisamos de arte nas cidades, para que além da estética, nossa percepção seja ampliada, nossa sensibilidade seja tocada em cada gesto. Hoje, estava atravessando um jardim,e percebia os raios do sol incidindo sobre elas e algumas folhas caindo, num grande balé e de repente senti um vento muito forte me envolvendo e era uma sensação de abraço do vento me enlaçando toda, me senti viva, sorri sozinha seguindo meu caminho e algumas vezes parava para abrir os braços e sentir, aí lembrava do meu destino e também fiquei pensando se estava ficando maluca por estar tendo um caso de amor com o vento, mas assim deveria ser nossos dias, apaixonados. Sustentei esse momento o quanto pude, porque ele passou e virou passado e eu sei que andarei muitas vezes por esse caminho, mas não serei a mesma, e nem o vento vai passar da mesma forma, portanto a importância de estar presente se relacionando com tudo.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NO VÔO DOS PÁSSAROS

Esta semana ministrei uma oficina com o tema a manifestação do sagrado no voo dos pássaros. Era um grupo composto por um grupo de teatro, onde os integrantes eram todos com idade acima de 40 anos, tinha um integrante de 82 anos e a filha de um aluno de 5 anos.Estávamos todos em perfeita harmonia com nossas diferenças.Levei o grupo para o meu universo que é povoado de seres encantados e mitológicos. O corpo é um grande laboratório de experiências que estão à espera de sua revelação. A diferença de um movimento extenso e intenso é algo que precisa ser falado,quando um movimento é extenso ele apenas é um corpo que se transporta no espaço de um lugar para o outro e quando esse corpo é intenso é a alma que se movimenta e é nesse movimento da alma que acontece a manifestação da alma, ou do sagrado. Expressar algo é revelar o que está oculto é a manifestação do invisível.E foi o que percebi neste grupo a leveza foi tomando espaço em cada um, o corpo foi criando uma beleza única, amor em forma de poesia corpórea.Muito interessante percebermos que ser sutil como os pássaros num mundo denso é tarefa para os corajosos, porque é preciso muita coragem para se manifestar beleza e suavidade no meio dos predadores, sem medo de ter as asas arrancadas. Foi isso que levei para mim nesta oficina, que vale a pena manter a chama da poesia acesa, abrir os braços e voar desde que as raízes sejam cultivadas. Num certo momento contei a história de uma ave mitológica Garuda, e pedi que cada um soltasse sua ave e virasse esse ser mágico meio pássaro, meio gente e vivenciassem sua mitologia pessoal. Eu vi braços abrindo, olhos brilhando, corpos sendo sutileza num grande balé da alma. Voamos.

" A CONSEQUÊNCIA DO DESTINO É AMAR"

O meu corpo comprimido,fechado e com os punhos fechados, a cabeça encostada no chão. Dancei no solo, plano baixo. Dancei a opressão e deixei o meu corpo falar. Os movimentos bruscos brigavam com o chão, com transferências de peso.Meu corpo acessou memórias desconhecidas e num certo momento meu corpo entrou numa vivência muito profunda, me trancando no porão. O corpo é um mistério. A emoção explodiu dentro do corpo, era como se toda a minha musculatura estivesse querendo sair,ampliar. Angustiada por dentro e morta por fora, o corpo se negava a voar. Tenho muitas camadas. Precisei caminhar por minhas retas, curvas, transcender o concreto armado, e me encontrar na assimetria diante do espaço vazio e da aridez do deserto que é algum espaço meu ainda inefável, inominável. Sair da "secura" do "Ser" e penetrar na poesia das árvores e do céu de minha Brasília. Coloquei meu corpo à disposição da grande experiência de dançar opressão, para merecer liberdade. Dancei num segundo momento alegria, força e sensações de brilho e trancendência. Muita coisa acendeu dentro de mim, cheguei e dancei com Deus. No final da dança eu encontrei o olhar de quem me assistia, atônitos, maravilhados com as imensas possibilidades de renascimento em vida. Amigos estudantes das lições do nosso grande mestre, o nosso corpo. Dançar nos palcos da vida e dançar a minha vida, me salvaram da morte. A vida! Seus ciclos, repletos de amigos, família, flores , dores e sabores. Felicidade é estar vivo, inteiro e integrado ao grande mar de mistério que somos nós, os outros e o universo. Para mim isso é Deus, uma grande consciência cósmica, um acontecimento.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

" EU SOU TREZENTOS"

Assisti um documentário sobre a guerra na Síria, mais precisamente sobre Komane, que foi invadida pelo Estado Islâmico e foi totalmente devastada.Os curdos perseguidos se refugiaram na Turquia, e aos poucos estão voltando para a sua cidade, suas origens e tentam reconstruir o que sobrou da cidade. Me chamou a atenção uma mulher que encontrou sua casa toda destruída e não estava lamentando nada e sim estava feliz por voltar para suas memórias, sua cultura e por estar viva. Outro ser humano incrível se dedicou a difícil missão de desativar as bombas que foram deixadas,ele arriscava sua vida para salvar as gerações futuras de morrer caso uma bomba explodisse, e foi o que aconteceu com ele, que morreu tentando livrar os habitantes de sua cidade de mais mortes.Fiquei muito impressionada com a humanidade retratada no meio de uma total falta de recursos, falta água, saneamento básico, comida, praticamente tudo e mesmo assim eles preferem voltar a viver como refugiados. Eu vi beleza naqueles olhos que já viram tudo que contém o terror, beleza no meio do sofrimento, uma vontade de resgatar em cada gota oferecida o valor da vida, a importância do humano. Pensei na nossa cultura ocidental que fala tanto de paz e amor e ao mesmo tempo está tão amortecida e anestesiada que a dor do outro não é vista. Fiquei contemplando aquelas histórias, como o médico que está cantando e resgatando as danças e cantos como resistência e sentido, a esperança. Deve ser por isso que nós precisamos da arte,para nos mostrar o caminho de transcendência da dor ou alguma resposta para o sofrimento. Estudei na faculdade o gênero teatral teatro do absurdo, as primeiras peças de teatro que trabalhei como atriz foram " A cantora careca" do Dramaturgo Eugéne Ionesco (1909-1994) e do Qorpo Santo (1829-1883- Porto Alegre), escrito desta forma mesmo, que me fizeram pensar na condição humana e o paradoxo do cotidiano. Eu nunca pensei que até chegar com todo o peso da verdade na minha cara, que tudo o que eu via de falta de sentido na condição humana através das relações humanas eu presentifiquei no meu corpo e na minha voz em cena, foi uma ligação automática que deu nome a todas as contradições da minha família a tudo o que via. E foi numa busca incessante por sentido e beleza que decidi investigar a condição humana pela via da beleza transcendendo a dor, porque eu sei o quanto me custa caro me sentir incompreendida. Quando entro em cena é por pura tentativa de ser aceita deixando minha alma nua, meu corpo pensamento cansado de me entender e fazer parte da espécie humana, é quando todo o meu estado de espírito pequeno e rotulado, transbordasse a embalagem que sou para muitos e minha humanidade saísse refletida, é como se minha vida a partir daquele momento passasse a fazer sentido e a vida deixasse de ser assimétrica, apesar de que a beleza da vida está na simetria da assimetria, no equilíbrio no desequilíbrio e na impermanência. Ultimante ando chorando e rindo ao mesmo tempo, acho que estou começando a entender que sou trezentos, igualzinho me ensinou Mário de Andrade(1893-1945). Estou escrevendo ao som de dos Beatles, Let it be, deixa estar.

O PROCESSO E O BELO

A certa altura de uma das entrevistas mais fascinantes desta coletânea, o crítico inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra detalhes sobre os desafios técnicos que enfrentou para elaborar as Torqued Ellipses, declara-se impressionado com a beleza das peças. O escultor então responde que não está interessado nesse tipo de qualificação, e sim no grau de inclinação das obras. Seu interlocutor persiste no assunto, dizendo que todo artista é como um gato concentrado na caça, alheio a tudo que o desvie de seu objetivo e, portanto, despreocupado com a aparência de seus movimentos. Segundo o crítico, são os outros que veem beleza no que ele faz. Do manifesto "Lista de verbos, 1967-1968" (1971) ao texto "Desenhos para o Courtauld" (2013), Richard Serra se apresenta como alguém interessado mais no fazer do que nos resultados. Ao longo de cinco décadas de produção, seus depoimentos enfatizam a busca por resultados imprevisíveis, capazes de apontar novos caminhos para a escultura e para o desenho. Em outra passagem notável, ao comparar os trabalhos tardios de Matisse e Picasso, Serra explica sua preferência pelo primeiro. Matisse, quando acamado, teria reinventado a maneira de delimitar a forma com seus recortes de papel, enquanto Picasso, seduzido pelo próprio talento, teria abandonado a experimentação. Richard Serra faz parte de uma geração que se formou no ambiente estimulante das universidades norte-americanas do pós-guerra, e para a qual a escrita foi uma prática constante, uma maneira de fomentar o debate crítico em torno das obras. Os textos aqui reunidos foram selecionados a partir das coletâneas Richard Serra: Writings, Interviews¹ e Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008)² e de depoimentos recentes publicados em catálogos e pequenas edições. Eles abordam momentos-chave da trajetória de um dos principais protagonistas da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influente há tanto tempo é sua capacidade de periodicamente surpreender o público e a crítica com novas pesquisas derivadas de seu próprio fazer ? "o trabalho vem do trabalho", ele costuma dizer ? e de uma relação dialética com a história da arte e a contemporaneidade. É sobretudo nas entrevistas que ele expõe os desdobramentos internos de uma obra à outra, o processo que o levou das Splashs e Castings às peças apoiadas (Props) e, destas, à criação das esculturas site-specific. Em mais de um depoimento, o artista aborda a relação independente, porém implicada, entre seus desenhos e suas esculturas ? o desenho é um meio privilegiado para a reinvenção de procedimentos e, ao mesmo tempo, uma parte integrante das esculturas, com os limites definidos pelo corte funcionando como linhas. As conversas com David Sylvester e Kynaston McShine abordam o processo de elaboração das esculturas de grande porte realizadas a partir da década de 1990. Elas não são mais site-specific; são espaços fechados que têm o poder de desorientar o sentido de ortogonalidade, lançando o espectador numa espécie de vertigem, ou, em certos casos, numa sensação de imprevisibilidade semelhante à experiência a que o próprio artista se propõe em sua prática. Os depoimentos revelam também fracassos e momentos de crise, histórias de projetos rejeitados por arquitetos e instituições e também pelos espectadores, além de brigas públicas em defesa de obras e ideias. As narrativas acabam por enfocar não apenas a trajetória de Richard Serra, mas conceitos e questões fundamentais da arte recente. Textos como "Shift" (1973) e "Saint John's Rotary Arc" (1980) trazem análises acuradas das condições para a instalação de esculturas numa paisagem natural e num espaço urbano de grande circulação, respectivamente, de modo que se compreenda, no caso de Serra, de que maneira a forma responde em certa medida ao contexto, para depois revelá-lo, incluí-lo e modificá-lo. Shift e Saint John's Rotary Arc são obras que representam o avesso da ideia de cubo branco e foram realizadas num momento em que a busca por uma interação mais concreta entre a arte e a vida era uma das principais pautas artísticas em debate. Em Yale e na cena cultural nova-iorquina dos anos 1970, Serra teve contato com alguns dos personagens mais importantes da segunda metade do século XX. Seus encontros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resultam em relatos saborosos e revelam aspectos centrais de sua formação. Mas as referências vão muito além da arte contemporânea ou dos movimentos com os quais sua obra tem uma conexão mais direta. O artista surpreende ao citar seu interesse, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gravidade nas obras de Claes Oldenburg, ou ao relatar seu aprendizado sobre a integração da pintura à arquitetura com os muralistas mexicanos. O minimalismo é apresentado como uma fonte, mas também como um movimento ao qual foi preciso se contrapor. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jardins zen de Kyoto foram absorvidos de uma maneira muito particular, filtrados pelos interesses que motivam o próprio trabalho de Serra. Parece haver uma correspondência entre a materialidade explícita das obras de Richard Serra e o estilo franco de suas palavras. Nas duas instâncias, o artista se afasta de qualquer metafísica. Suas reflexões sobre o espaço como conteúdo da obra, sobre a ação da gravidade, sobre os limites das formas e dos materiais estão associadas a experiências físicas e ao enfrentamento de problemas concretos. Seus escritos revelam-se uma parte constitutiva de seu processo de trabalho, veículos de ideias que se materializam em ações. ¹ SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994. ² Idem. Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010. Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS. desenhos, matisse, picasso, richard serra, david sylvester, esculturas Este texto de Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS, é a apresentação do livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, que será lançado em 29 de maio no IMS-RJ na abertura, para convidados, da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, com a presença do artista.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O CAMAREIRO FIEL

Assisti ao filme "O camareiro fiel",que narra o cotidiano de uma companhia de repertório do mais importante dramaturgo de todos os tempos e um dos mais brilhantes artistas da história, poeta, escritor e ator William Shakespeare,durante a segunda guerra mundial. O ator, líder da companhia, chamado de Sir, doente e com a alma ammargurada, luta desesperadamente com seus próprios conflitos, a dedicação do seu camareiro, diante da companhia de atores idosos, isentos do serviço militar. Fiquei pensando no papel da arte, diante do desespero da guerra, conflitos, crises econômicas e toda a sombra que envolve ser humano. Um diálogo com o camareiro me tocou profundamente,acredito que quem faz arte, em qualquer parte do mundo, sentiu um desejo de continuar fazendo teatro, dança,ou simplesmente continuar vivendo,apesar da idade, da rotina, da crise, da alienação e ausência muitas vezes de profundidade e sensibilidade para a poesia diante de um mundo caótico. O personagem nos fala que a sorte escuta nossos esforços. E deseja que cada palavra seja um escudo contra selvageria,uma proteção contra o terror.Segundo ele, a vida é feita de luta e sobrevivência. Eu acrescento o sonho. .

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas...