sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lendo um livro, enquanto aguardava a minha vez. Num gesto intuitivo olhei para trás e vi aquela senhora com uma barriga enorme numa postura conformada esperando sua vez resignada. Eu simplesmente não aguentei, chamei a senhora e pedi para que ela fosse para o início da fila,lugar seu de direito.Observei as pessoas na imensa fila, todos indiferentes, a maioria impacientes loucos para pagar contas, sacar dinheiro, a maioria amortecidos diante da tela dos seus celulares e absortos nos seus mundos,cada um dentro de sua caixa. A senhora se aproximou de mim muito agradecida, me dizendo que o seu filho ia nascer nesta semana.Realmente fiquei pensando nesta criança que já vai nascer num mundo onde espaço e tempo são relativos e a percepção da realidade está cada dia mais refratária.Só nos resta intender o absurdo em que vivemos. O corpo continua sendo visto como pecado,para uma parcela da sociedade que ainda está vivendo na Idade Média e a arte como sempre é um espelho da sociedade. Foi visível a elevação do termômetro do conservadorismo diante da relação corpo, espaço,tempo.E o que era para provocar reflexão se transformou em discurso de ódio para muita gente que não busca o sentido profundo das coisas e vive mergulhada no discurso oficial.Minha abordagem aqui é sobre a crise de idéias e a ignorância de um pais que não dá acesso à população à arte, ainda que isso está de fato acontecendo diante dos nossos olhos e o governo realmente está abolindo o ensino de arte nas escolas, praticamente de uma maneira difusa e evasiva, como é feita hoje nos moldes da ditadura do mal gosto. É uma crise de percepção que reduz o olhar sobre o outro e a empatia. Isso está criando uma crise e deixa claro como ficamos automatizados e movidos à ressentimentos e intolerância com as escolhas do outro, porque se não trabalho minhas emoções, memória e alma, o corpo não mergulha em profundidades e nada nos afeta.Como no filme Blade Runner que nos dá a sensação de que as máquinas são mais humanas que os humanos. Vi uma matéria sobre um japonês que casou com um robô. O que eu sei é que ainda falei com todos na fila, que se alguém reclamasse chamaria o guarda para assegurar o direito dela.Indiferença total, estava falando com mortos vivos. Ninguém da fila teve nenhuma reação, o negócio era o dinheiro e cada um com o seu cada um. Mas o que isto tem a ver com o meu blog? Escrevo sobre as minhas sensações no meu corpo e a relação com o espaço e o que percebi nesta fila foi uma realidade muito comum, o fato é que quanto mais distantes de nós mesmos, mais geramos indiferença em relação à realidade que nos cerca. Como o personagem do livro o estrangeiro do escritor Albert Camus, o Sr. Meursault, uma figura absurdista, que mostra a crise do homem do seu tempo: um homem sem projeto pré-dado, sem destino e, principalmente, sem sentido algum na sua existência. A experiência no corpo é que nos faz sentir a vida em nós, o milagre da existência. É quando eu percebo no meu corpo o lugar que ocupo através do espaço que abro dentro e fora de mim. É quando a vivência no corpo te afeta e te faz afetar.É quando os olhos passam a descobrir a experiência no cotidiano, onde devolvemos nossa humanidade para a nossa casa,nosso corpo.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

DANÇA QUÂNTICA -CORPO- VIBRAÇÃO

Dançar diz respeito ao sentimento de êxtase frente ao Universo. Aquela sensação de perplexidade frente à beleza e complexidade de um Universo infinito, mas desvendável, pelo menos em parte. Temos o universo contido dentro de nós e é através do corpo que ele se manifesta. Sim, é possível viver o milagre da vida "aqui e agora", sem gurus, fumacinhas ou trombetas tocando, anunciando algo surgindo por uma abertura apoteótica no céu. Portanto, a experiência do contato com o sagrado está ao alcance de todos. Sem distinções ou privilégios. E dançamos, fazendo parte da dança cósmica da vida. O filósofo Alemão Nitzsche disse" Não acredito em um Deus que não dance", porque o universo dança dentro de nós e é através do corpo que nos ligamos ao divino que habita em nós . Estamos precisando de ter a sensação de pertencimento com tudo que há, a tecnologia cria esta falsa ilusão de conexão, mas e quando a bateria acaba e não existe tomada disponível? Vem uma sensação de não pertencimento. A conexão vem da alma e da profunda viagem consigo mesmo.E ela é feita integrando a mente, como o espirito e a alma. formando uma constelação. Dançamos o caos, as estrelas, formamos mandalas no chão com os nossos corpos unindo corações, braços e pernas e, pouco a pouco, o inefável aconteceu. Numa experiência atemporal, a verdadeira transcendência. O significado profundo de estar com outra pessoa num movimento de abertura para ver e sentir profundamente quem eu sou e compartilhar com o outro. Dançamos a nossa essência e a possibilidade de transformar esse mundo tão perverso em paraíso. Precisamos escutar a vida, abrir o coração para os detalhes, observar os" recados" da natureza, a verdadeira dança da vida. Afirmo que as melhores experiências da vida são vivenciadas no corpo quando estamos distantes do corpo, viramos poeira cósmica,perdemos uma parte da vida acontecendo dentro de nós. Quando perdemos a capacidade de sentir e sonhar e o resultado é o vazio, buraco negro para onde somos tragados em nossa sombra. A necessidade do sublime está contida no cotidiano. O sagrado pode estar na simplicidade. Numa xícara de chá que tomamos ou na leveza de deixar o corpo fluir através do movimento. Ou, ainda, ao contemplarmos uma obra de arte. Toda experiência pode – e deveria – ser sagrada. A física quântica já confirmou que o pensamento, o sentimento e a emoção precisam estar alinhados para mudar padrões e crenças. A dança pode abrir espaços dentro de nós e ampliar a nossa consciência criando unidade e modificando a sensação de fragmentação e isolamento. Somos todos um.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

CORPO NARRATIVO

"o pensamento vem do corpo". trazendo para o presente o estado efêmero da dança. A escrita e a criação de símbolos permite a perpetuação de uma coreografia que pode ser reproduzida em outro lugar, ou criada em lugares simultaneamente, além de facilitar o estudo e sistematização. Pensar o movimento e associá-lo ao cotidiano. A video-dança e outras plataformas digitais,e a pesquisa de vários teóricos e bailarinos sobre o corpo em estado de atuação, contribuem para ampliar a criação de novos signos, o diálogo transcultural, para dar acesso a novos pesquisadores e melhorar o diálogo tradição e inovação. O Natyashastra é o mais detalhado e elaborado de todos os tratados sobre a dança, teatro e musica. Considerado como um dos textos mais antigos do mundo é a fonte de minha inspiração. Há alguns anos sendo dançarina-intérprete-criadora, investigo esta relação corpo-texto. A dança que desconhece o dilema teatro e dança, porque ambas se manifestam de maneira simbiótica numa única manifestação.O corpo é um sistema de símbolos e memórias que podem ser acessadas a serviço da mitologia pessoal de cada um, ou universal. A diferença é que a arte corpórea oriental esse texto foi codificado e sistematizado há milênios,a atriz-dançarina só precisa aprender esse vocabulário e executá-lo. Nesta arte improvisar é impossível. No nosso caso a gestualidade pode ser codificada no caso do balé clássico, que tem um repertório que pode ser compreendido e encenado no mundo todo, e pode ser uma linguagem específica de cada estética que pode ser a dança contemporânea,o tango,dança Flamenca e outras danças que têm a sua complexidade e a manifestação da sua origem simbólica e cultural. Somos diferentes no aspecto narrativo quando a técnica passa a ser uma veículo que acolhe o território da inovação. Um músico quando vai tocar tem como instrumento aliado á técnica a partitura, da mesma forma uma atriz-dançarina pode criar uma partitura para servir de elemento narrativo em cena. É possível ser a narradora de si mesma e a protagonista de si mesma. Um corpo pode ser traduzido em cada parte pela palavra e através de sua expressividade pode ser um livro que quando aberto é território de revelações , emoções e memórias.Desde os primórdios,nosso ancestrais usavam o gesto para se comunicar, o desenvolvimento da fala e dos gestos foram aquisições resultado de um processo de busca, até a descoberta do polegar opositor,a fabricação de instrumentos e todas as descobertas importantes até hoje. Com toda inovação ainda necessitamos de ouvir histórias, de acalentar o nosso coração e ouvir o que o outro tem para contar. Infelizmente o corpo é o último a saber, é nítido o empobrecimento da linguagem gestual no cotidiano, é como se o corpo estivesse numa "camisa de força", ou no mínimo ele pode ser usado para fins associados a nossa cultura do corpo magro e esbelto, em detrimento do corpo que sente, afeta e é afetado. Portanto buscar narrar histórias através do corpo é uma grande possibilidade de ampliar nosso lugar no mundo, porque é através do corpo que todas as nossas memórias estão armazenadas, e a ciência já comprovou que estão gravadas até no nosso DNA.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A ARTE DE DAR

Sou uma dançarina-atriz que tem como princípio de pesquisa o processo, valorizo o caminho, as descobertas e os encontros que a dança me proporciona. Dancei recentemente numa universidade para um grupo da chamada terceira idade, ou pessoas com mais de 50 anos. Eu senti naquelas pessoas uma manifestação muito rica, uma necessidade de beleza e uma vibração elevada. Percebi neste momento a arte de dar.É quando você olha para alguém e você tem a chance de devolver a humanidade de alguém ou resgatá-la da invisibilidade, que muitas vezes nem é percebida. Eu sei o que é sentir esse afago da vida quando me sinto invisível. O filme Barton Fink dos irmãos Coen, é uma descrição muito rica do que é a vida de um artista sensível e criador que realmente quer doar algo de belo para o mundo.Tem uma cena linda, quando ele finalmente depois de ter sofrido um bloqueio criativo, ele era roteirista de Hollywwod, com sua solidão e felicidade única, sai para comemorar sua vitória solitária por ter conseguido finalizar o roteiro do filme e ninguém dá valor. Num mundo uniformizado ele grita e aponta as mãos para a cabeça dizendo onde estava a sua farda: "Minha farda está na cabeça" e quando vai apresentar o roteiro para o magnata da indústria do cinema é execrado, porque só tinha sentimentos. Na minha opinião é esta solidão misteriosa que caracteriza um criador. Mas o que escrevo aqui é sobre outro tipo de dor, a dor da invisibilidade. Fiquei sabendo através de uma pesquisa sobre invisibilidade, sobre como machuca não ser visto, notado, muito comum nas pessoas que estão em situação de rua, ou trabalham na rua, mas pode ser encontrada em qualquer lugar, e em qualquer pessoa, é uma indiferença que machuca, um mundo onde ninguém sorri ou olha nos olhos, esta dor tão humana que é a falta do reconhecimento da presença do outro. Talvez por dançar com os meus olhos, eu ofereço esta presença, não estou no palco me exibindo. O que faço é uma troca silenciosa, uma troca justa e honesta. No final da apresentação vi aqueles olhos silenciosos e agradecidos, e eu realmente recebi muito mais. Um senhora me perguntou como eu consegui ser tão leve em cena e me disse que eu tinha salvado o seu dia, que estava muito difícil. Interessante foi uma senhora que me filmou e ficou me pedindo para postar o vídeo que fez da minha apresentação no you tube e diante de minha negativa ficou perplexa porque eu não queria, como se fosse impossível alguém se expor tanto e ao mesmo tempo ser muito reservada. Eu sou realmente estranha. Esta senhora é costureira, eu a convidei para ser minha aluna gratuitamente e ela aceitou prontamente e já se imagina nos palcos, eu vi tanta sinceridade e felicidade nela! E para mim foi tão pouco, e ela ainda me deu outro presente, ela escreve poesias lindas, tem a poesia dentro de si mesma, costura como ofício na vida e se costura pelas palavras. Por isso é importante ter um caminho interno, para não se deixar afundar, porque o medo de se expor e parecer vulnerável e da sensação de fracasso é muito maior do que exercitar a nossa presença diante de outra presença,e assim vamos escolhendo permanecer anestesiados por entretenimento fácil, televisão, redes sociais, emoções baratas que inibem nossa capacidade de sentir amor e compaixão e de realmente ficarmos com a alma nua diante da beleza de ser humano. Acho que é isso que busco com minha dança, entrar em conexão profunda com qualquer desconhecido, através da suavidade dos meus olhos e mãos, esta eterna busca pelo humano,ser mais humilde, como na raiz da palavra humanidade humus, terra.Dar e receber nos deixa próximos da terra e de nós mesmos.

domingo, 29 de outubro de 2017

PAPEL BRANCO

Histórias para acalentar a alma. Sonhei que estava terminando uma apresentação e convido o público para subir ao palco para comer doces. Convidei a criança de cada um para se deixar envolver pela magia da presença. Os espaços para o lirismo, precisam ser preservados. A sombra gigante que estamos envolvidos necessita de sonhos e de muita luz. Estamos construindo beleza, cooperativismo e um mundo holístico e ao mesmo tempo cercas, muros, repressão, retrocesso.O que me assusta não é o frenesi e sim o excesso de informações negativas da indústria do medo, em detrimento da difusão de projetos ou novas idéias.O mundo está cheio de possibilidades, só é necessário difundir. Eu tenho a alma vinculada à poesia, da potência das idéias e da utopia de mudar o mundo. Não consigo conceber a vida sem sonho,criação, poesia e liberdade. Atualmente falamos mais de pessoas e fatos do que de ideias. E reflexão sobre como melhorar o mundo é fundamental. Adoro ter projetos.Eu preciso da síndrome do papel branco, para expressar minhas idéias e materializar meu universo, criar novos mundos.Lançar minha garrafa ao mar. Vou me costurando através de vários caminhos, e muitas vezes, com antagonismo da ideia inicial.construindo parcerias,trocas, e grandes intercâmbios e encontros. A literatura, a pesquisa para dissecar minha técnica, a natureza como minha aliada, para serem transformadas em gestos, movimentos. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto. A arquitetura tem papel fundamental na criação coreográfica, a geometria sagrada e a relação do espaço com o corpo e o tempo. A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade, o silêncio, a pausa, o autoconhecimento, o diálogo que vou criando dentro de mim diante do mundo. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar do óbvio, do caminho fácil, da minha sombra, a minha essência, que é minha matéria de alquimia transformada em cena. Encontrar uma linguagem lírica, permanecer no mistério, não significa alienação, significa expressar a poética do meu ser e transformá-la em sentido para a alma de alguém, posso falar da morte, do terror, de perdas, de encontros e desencontros com o público, declarar meu amor à humanidade.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

E O SILÊNCIO SE FEZ VOZ

Na vida quando começamos a tomar consciência do nosso caminhar, vamos colecionando sutilezas e afetos. Nossa palavra, ação e pensamento começam a nos decifrar e a moldar nossa essência.Lembro de dois aprendizados que são constantes na minha vida, o primeiro é que palavra é mantra, o segundo é que somos capazes de mudar nossa vibração, sintonizar e atrair o que queremos. Eu estou escrevendo sobre o aprendizado de mais de trinta anos e só agora o que aprendi faz parte do cotidiano de muita gente e a física quântica está aí para provar cientificamente que somos energia e que as pessoas e lugares que frequentamos fazem parte do nosso campo e que é exatamente neste lugar e através do relacionamento com estas pessoas que estão todos os registros de memórias e experiências que precisamos para crescer. Portanto nossa família, e os lugares mais desfiadores para a nossa alma são colocados neste espaço e tempo cósmico para realizar transformações em nós. É como se a terra fosse o casulo e nós as lagartas sempre em mutação.Partindo sempre destes dois aprendizados que me acompanham, fui me refinando com o tempo e depois da dúvida, da certeza e da minha complexidade como pessoa que tem a pergunta como mantra. Fui ao teatro fazer uma apresentação de dança,eu fazia parte da programação. teatro cheio, a técnica do teatro toda afinada com a luz que pedi, música no ponto, maquiagem, figurino, tudo perfeito. Entro em cena com a plena certeza de que ia morrer. É sempre assim comigo, posso dançar quantas vezes forem necessárias, mas sempre tenho esta impressão de que estou me atirando no ar sem paraquedas ou rede de proteção.E o improvável aconteceu:estava em cena, concentrada, aguardando a música que começa suavemente, e de repente, a música pára de tocar, é interrompida.Em fração de segundos tinha que tomar uma decisão, o público me olhando sem saber de nada. Não ia morrer diante do público ávido de beleza e encantamento. Nunca! Comecei a dançar naquele silêncio único da platéia diante da minha presença sincera. E comecei a dançar sem música e comecei a preencher a música com a melodia da minha voz.Dançava e simultaneamente narrava com meu corpo acompanhada pela minha voz história narrada, com o instrumento de percussão que uso nos tornozelos. Eu era a melodia, era a percussão, a voz, o teatro e a dança. Fui razão, emoção e ação, ao vivo e a cores, sem edição e nenhuma muleta, era o aqui e agora sem medo. Eu que sempre escrevi sobre silêncio nas minhas postagens e quem me conhece sabe o quanto aprecio e busco o silêncio, viver o aqui e agora, equilibrar o agir, sentir e pensar, fui desafiada pela vida e não tinha como fugir de mim mesma.O fato é que me entreguei de corpo e alma a esta experiência de ser o meu erro, que me especializei tanto em errar e acertar que parece que o errado, o torto, o caos, o inusitado compõem a minha história de acertos, vivo na vertigem tentando segurar o espaço tempo na palma de minhas mãos.No final completamente preenchida de mim mesma, tive o privilégio de ouvir as palmas calorosas da platéia.Saí do teatro com o coração exposto, a alma lavada, mas ainda um pouquinho insegura. Como todo artista que se doa, palmas não significam muita coisa, tampouco tapinha nas costas dos amigos,tem algo dentro de nós que só nós sabemos, é um espaço que ninguém penetra, é nosso lado inefável, um cantinho da nossa alma que dialoga conosco o tempo todo, é metafísica e um outro eu que faz parte de nós. E saí do teatro sem falar com ninguém e fiquei pensando, se tinha cumprido com o meu papel, se minha voz tinha chegado até a platéia.Sou atriz de formação e profissão, mas tinha muito tempo que não atuava e não projetava minha voz.Para minha sorte o corpo tem memória. No dia seguinte, antes de minha apresentação, primeiro os técnicos vieram de uma forma vibrante me elogiar e que ficaram desesperados na cabine diante do inusitado caso da dançarina dançar sem música, apesar de que na dança contemporânea música é só um detalhe, a dança transcendeu a música, assim como as artes visuais transcenderam a moldura e a música os músicos, muitas vezes os sons são produzidos por máquinas. Depois recebi o elogio de amigos sinceros, e dei de presente para eles o benefício da dúvida, pois saíram do teatro perguntando se se eu tinha planejado executar minha dança daquela forma ou se era falha técnica, ou trágica. Num mundo pontuado por certezas, onde todo mundo tem opinião formada e sabe muito de coisa nenhuma, foi surpreendente deixar tudo no ar sem resposta, deixar a imaginação continuar funcionando depois de uma apresentação,como num filme de final insólito, onde você precisa criar o seu próprio final e ligar os fatos narrados.Por isso gosto muito da "jornada do herói", elemento essencial para nos identificarmos com alguma narrativa e base para noventa por cento dos roteiros de cinema e afins. Porque é um traço da nossa humanidade, errar, fugir, voltar, refletir, e encontrar uma saída para mudar o mundo, ou no mínimo mudar a si mesmo. O monomito também chamado de "jornada do herói" foi escrito por Joseph Campbell,um estudioso de mitologia e religião (1904-1987) é um conceito da jornada de um determinado personagem, presente nos mitos. O termo aparece primeiro no seu livro, o Herói de mil faces. Esse padrão monomito pode ser encontrado desde a narrativa clássica de Prometeu,até por exemplo na saga Star wars do George Lucas e Matrix, vou ficar só nestes dois exemplos. É uma abordagem que inclui as forças inconscientes do Freud,o conceito Junguiano de arquétipos e a estrutura do ritos de passagens de Arnold Van Gennep. No fim de minha jornada percebi a minha pergunta para esse momento, porque escondi minha voz? O que meu silêncio quer falar e não estou dando ouvidos? Mas ao mesmo tempo que sigo perguntando, eu sei o quanto me sinto integrada e honrada a mim mesma por ter me vencido.

INVERSÃO DESEJADA

Acordei na madrugada ouvindo as batidas do meu coração. Batia forte. Numa madrugada silenciosa num mundo barulhento, eu era o meu silêncio e o único som que ouvi tinha som de vida. Estas experiências incríveis que só quem entrou numa jornada de conhecimento de si mesmo entende, porque são detalhes tão sutis que muitas vezes, não cabe contar em lugar nenhum. Até imagino o diálogo-:Gente eu acordei na madrugada com o meu coração batendo- Incógnita total, e daí? O mundo está pegando fogo e esta aí viajando. Mas eu acredito nas minhas pequenas conquistas, nos lugares que encontro no meu corpo e nas pequenas celebrações. Fico feliz quando termino o dia sem ter tido um único pensamento negativo. Fico feliz quando ligo o som na sala de minha casa e danço para mim. A cada dia sustento esta total falta de sentido na vida, celebrando ter atravessado algumas quedas sem cair no abismo total. Nesse dia que senti a pulsação do meu coração andei nas ruas e olhei as pessoas, seus corpos e vazios. Parei para ver um homem careca, tatuado da cabeça aos pés, com orelhas alargadas fazendo rodas imensas nos lóbulos de suas orelhas, tocando violão, tocando Raul! E do lado um homem chega carregando um gramofone e ao lado dele uma escultura viva de um homem espacial. Fiquei percebendo esta força que nos faz buscar a vida das maneira mais inusitadas possíveis. Acabei tomando um sorvete, andei flanando bastante até voltar à minha existência utilitária de planejar projetos e criar condições de colocar arte no meu cotidiano.Fazer o que preciso para continuar fazendo minha dança,pensando minha existência. Afinal, precisamos fazer o que nos faz melhorar nossa versão de nós mesmos e muitas vezes existir é insistir. Li em algum lugar que a vida é feita de mil nadas.

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...