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sexta-feira, 16 de junho de 2017

ADORÁVEIS IMPERFEITOS

A psiquiatra e médica Nise da Silveira disse que gente curada demais é muito chata. Refleti muito sobre esta afirmação. Eu queria muito numa fase da minha vida ser bem certinha. Acreditava que se fizesse tudo "certo", se é que existe um jeito certo de fazer alguma coisa, seria mais amada, mais feliz e encontraria meu lugar no mundo. Mas o tempo foi passando e fui percebendo que errada estava certa, e que meu esforço para ser perfeita em tudo para ser amada era uma troca injusta. Assisti um filme Francês chamado Marguerite sobre uma mulher muito rica nos anos 20, apaixonada por ópera que cantava muito desafinado. Ela tinha um círculo de pessoas que assistiam seus recitais desafinados e todos fingiam que gostavam, mordomos, o marido, todos encantados com a pureza daquela mulher livre e feliz, mas ouviam seu canto com muita dificuldade. Um dia ela resolve para desespero de todos, cantar num grande teatro com uma platéia isenta de bajulações. Sua vontade de de compartilhar beleza era muito grande, o objetivo dela não era ser famosa e aplaudida e sim tornar a música viva na alma das pessoas, como era para ela. Sua trajetória inspira porque o filme nos coloca naquela posição de enfrentamento e nos desperta a vontade de continuar mesmo sendo incompletos e imperfeitos. O filme é inspirado numa história real e apesar dela ter sido considerada a pior soprano do mundo nos encanta, por seguir fazendo o que acreditava. No filme até tem uma personagem que é uma cantora linda, que canta perfeitamente que tem ótimo caráter e ainda é pobre, tem tudo que seria de argumento para gostarmos dela. E no entanto o improvável acontece. Achei a perfeição dela sem graça e chata. Quanto tempo de minha vida busquei uma excelência fora do normal. Eu tenho meus medos assumidos, meus receios de errar e sempre que vou entrar em cena peço para morrer, parece que não irei sobreviver à experiência, de me lançar para o espaço vazio e quando mergulho acabo saindo viva. Ainda vai levar um tempo para me lançar no palco da vida, caminhar sem medo de errar, viver o instante com a certeza de que posso errar, sem imperfeita e mesmo assim serei amada.E que esse amor transborde dentro de mim e que chegue aquele momento onde não vai fazer diferença a opinião de ninguém, porque me assumo como eu sou, com minha sombra e minha luz. A beleza do humano consiste em seguir fazendo o que o coração pede, para continuar imperfeitamente feliz.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

AFAGOS NA ALMA

Somos feitos também de energia e vibração.A dança tem a materialidade do corpo como suporte para realizar a experiência do sentir o sutil. Isso acontece quando o corpo começa a ser visto como experiência de crescimento e liberdade. Quando sentimos nosso corpo acontece a experiência de sentir a energia pulsar dentro do corpo. É muito bonito ver o nosso corpo despertando para sensações mais sutis. A delicadeza de ver a energia percorrendo pelo corpo trazendo vida, sentido, entendimento, emoções. É outro universo que se abre, são novas conexões e a organicidade que se amplia.Mudamos o nosso diálogo com o espaço e o tempo, nosso ritmo. A riqueza maior é olhar a vida através do sutil, do inominável, do não dito. Uma pessoa quando chega num espaço ela o modifica e esta dança de energias ocorre de uma forma muito nebulosa e quem não tem uma conexão e não busca nenhuma trabalho corporal ou energético acaba prisioneiro de energias desconhecidas e recebendo uma carga de informações sem saber como ela pode afetar sua própria energia, humor e bem estar. Portanto é importante desenvolver uma escuta do corpo e dos caminhos da energia, muitas vezes não nos sentimos bem em certos ambientes, ou alguém nos faz passar mal, ou chega aquela tristeza sem motivo.Somos diariamente mergulhados neste mar de pensamentos e jogo de sombra e luz. A proteção vem de uma vida com mais consciência e o aprendizado do invisível. A física quântica já nos revela que através da ciência o que arte e a espiritualidade vem informando há milênios, que somos feitos de energia e temos um campo energético que contém informações sobre todos os que convivem no mesmo espaço e tempo. A dimensão e a importância de incluir o corpo, a mente e a alma numa mesma manifestação é o que garante perceber pessoas,lugares,cores, vibrações e o olhar além das aparências.Muitas vezes a crise de percepção e do sentir da contemporaneidade está associada a super valorização da palavra em detrimento da pausa e do silêncio. Na minha experiência um simples olhar verdadeiro pode afagar uma alma.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

UNIVERSO FEMININO

Pesquisei aspectos do universo feminino para compor o meu espetáculo de dança Baraka, busquei uma visão sem fronteiras e fui adentrando as contradições e princípios comuns que nos unem em diversas culturas. O resultado foi um aprendizado sobre como ser mulher é um desafio constante em qualquer cultura. Até para as mulheres em contextos sofisticados a dificuldade de ter sua alma respeitada é enorme. Uma civilização que até hoje usa o corpo da mulher como objeto, arma de guerra, faxina étnica, escudo humano. Lembro que nesse espetáculo, a abordagem sobre o amor costura cada cena e nos envolve numa atmosfera de lirismo e força. Começo falando de uma mulher que busca a sua presença, e o direito de estar em si mesma no seu valor.Em outra cena o assunto é o corpo e a relação com a sua fragmentação,danço partes separadas do corpo, só os pés, as mãos e cada gesto separado mostra uma alma pedindo para ser inteira na fragmentação, o corpo como um manifesto,um ritual de pertencimento. Todas as cenas são ritos baseados em mitos que declaram a força e urgência do feminino.O arquétipo que transcende qualquer definição e rótulo, sobre como deveríamos ser, ou nos comportar. Está em cena a mulher selvagem que ama com paixão, que chora suas dores, que luta para sobreviver e se costura por dentro sempre que está machucada. O projeto BARAKA é de 2008 e continua muito atual. Vejo a cultura do estupro muito forte e no caso do Brasil, está totalmente inserido em todas as camadas sociais, com a conivência da mídia e da publicidade que continua usando o corpo da mulher como mercadoria. Estamos assistindo a seres bárbaros em todo o mundo, vendendo como mercadorias para serem escravas sexuais,ou como propriedade de uso coletivo, meninas sendo sequestradas para esse fim, virgindades sendo leiloadas, infâncias roubadas dentro dos tradicionais lares. O fato é que não vamos parar de denunciar essa sangria, e a luta pelo direito de existir sempre vai prevalecer sobre a covardia. Fragilidade não é o nosso nome, que me perdoe Shakespeare. Nosso universo é cheio de mágica, de afeto, de vontade de cheirar flores do campo. E temos uma capacidade muito grande de levantar a cabeça, mesmo que o grito esteja sufocado, até ele sair inteiro acordando a floresta, a cidade e quem estiver surdo para entender. Eu termino com um grito,que nosso corpo, dança, sabedoria e a que a alma feminina seja celebrada e honrada.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

CORPO ORGÂNICO E A PROPORÇÃO ÁUREA

A natureza segue um fluxo, uma árvore por exemplo quando está em crescimento tem uma sabedoria secreta que consiste em encontrar padrões que através das bifurcações,e distorções dos galhos, localização no espaço, o crescimento das folhas ,com formas tridimensionais encontra assim a forma perfeita e as condições necessárias para ser nutrida com a luz do sol,água para garantir a vida contida naquela planta. Na antiguidade e principalmente no Renascimento a Proporção áurea é usada na arte, existe uma frequência , um padrão. O número de ouro pode ser encontrado na natureza, no corpo humano e no universo. Um planta sempre busca as condições apropriadas para crescer. O ser humano para crescer necessita também de encontrar a plena conexão com a vida que se manifesta no ambiente, que precisa estar em plena harmonia com os recursos oferecidos como nutrição,acolhimento, luz,afeto.O movimento orgânico que leva ao crescimento de um ser levando em conta que o corpo já vem programado para crescer e é fruto de condições apropriadas Não existe um caminho de crescimento, muita vezes é preciso olhar uma situação e perceber se é o momento de mudar a direção, o espaço ou esperar o momento de encontrar o melhor ângulo para voltar a crescer, quando algo não flui na vida. que cada um precisa desenvolver. Só há fluidez na vida quando se encontra a plena sintonia com ambiente para se tornar sagrado.

DANÇAR A JORNADA DA ALMA

Devemos ao sábio Barata o Natya Shastra, o tratado das artes do teatro-dança clássico Indiano incluindo a dança e de onde me inspiro através da dança clássica Indiana, para criar meu estilo e estética para criar minha dança .Esta dança é uma arte completa. Poesia corpórea nos movimentos das mãos, do rosto, da percussão dos pés.Gestualidade simbólica que inclui o traje , os instrumentos, a escultura, a arquitetura templária, a música,a poesia e a metafísica, dança e teatro são linguagens simultâneas, em uma única manifestação. A dança corpórea oriental que proponho é uma maneira de relacionamento com o corpo, uma percepção ampliada da nossa corporiedade que se manifesta através da sabedoria do oriente, onde a dança é o pensamento em ação, onde criamos um espaço dentro de nós para valorizar o não dito.A linguagem separa o corpo une, porque quando sou tomada de perplexidade ganho pensamento interno e aprendo a demorar nas sensações sem palavras. A experiência do mundo é feita pelo corpo e a vivência do espaço interno amplia nossa experiência no mundo.A geometria sagrada da dança por exemplo,frente,costas,estar por cima,estar por baixo, as mãos e pés em direções opostas, a cabeça e os olhos em direções opostas, os braços, pernas, quadril em direções opostas em diferentes categorias de tempo, com o corpo em espiral, círculos, diagonais, revelando uma arquitetura simbólica do ser, muda totalmente a nossa percepção gerando novas sinapses no cérebro. Toda a atmosfera de uma aula com esse elementos têm como objetivo criar presença,mistério, ritos e o pensamento sobre si mesmo e a condição humana.Se os espaços se constroem com números e medidas, existe uma geometria subjetiva que a dança oriental revela através da vivência do complexo e do sutil que reside nos detalhes.Estes símbolos no corpo aliados a meditação criam a liberdade de integrar cada parte do corpo e vê-lo através do fragmento para depois sentir o "todo" e fazendo parte da totalidade e se transformando em unidade que determina a forma como percebemos os lugares e encontramos nosso espaço interno e externo. Qualquer gesto feito com consciência e desdobramentos abre novas perspectivas, abre espaço dentro de nós para tornar comovente o banal, despertamos para a nossa linguagem secreta, nossa dança pessoal sagrada porque desperta nossa relação com a nossa força oculta que reside na força e na delicadeza dentro de nós e o mundo passa a a ser todo sentido. Meu corpo pode ser um reservatório de prazer, delícias, dores, sombras e luz,nele é possível acessar memórias, sentimentos,sensações, o divino que reside em cada um de nós e nos ajuda a desenvolver piedade e gratidão por nós e pelo planeta. Um corpo vivo, orgânico,sensual e cósmico.Para dançar felicidade, inocência, tolice, energia. O jogo do mundo movendo no meu ser.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

DANÇA IMPERFEITA

Recebi numa aula de Biodança um desafio de surpresa: dançar o meu caos.Eu vivo num constante movimento de equilíbrio entre a derrapagem e a ordem. Aceitei plenamente na hora.Já visitei meu caos inúmeras vezes nestas aulas, mas desta vez não fiquei com medo, eu tinha uma fantasia que ia gostar tanto da loucura que poderia acabar permanecendo por lá.Mas felizmente sempre voltava para me pensar no espaço e sentir o meu chão de volta. Naquele momento aceitei simplesmente e deixei o meu corpo seguir sua trajetória.Fiquei suavemente penetrando meus espaços vazios e silenciosos, era uma dança sinuosa sem gritos, gestos de socar bruscos sem agressividade, sim eu vivi a delícia de ser louca sem julgamento e sem medo de me perder. Vivi aquela frase ou ditado não sei bem "Se você está no inferno abrace o diabo", foi assim que me senti, abraçando meus caos e fazendo as pazes com ele. No final do exercício acabei deitada no chão me pertencendo,sentido minha presença, com os vazios preenchidos e o corpo preenchido de mim mesma.Levantei refeita daquela viajem dentro de mim. Eu que nasci do caos, que sempre tive a derrapagem como caminho pude abraçar o vazio. Isso me explica. Até explica o porquê de ter escolhido uma arte complexa como matéria-prima de trabalho. Uma dança que desconhece a linha reta e linear, que se cria através do fragmento, do torto, da curva do corpo, onde todas as ações são belas e ao mesmo tempo exige presença sempre,movimentos tridimensionais que desafiam nossa necessidade de entender e apreender conhecimento rápido, uma dança que não te promete bem estar rapidamente, é necessário se dar para ela, se lançar no escuro, não entender nada por um bom tempo, ser criança de novo vendo algo pela primeira vez num mundo tão igual e uniformizado.É buscar no desafio e na indecisão a força, é encontrar no desequilíbrio o equilíbrio, é sair do estado de certeza para se fazer sentido. Não existe a fuga da realidade e sim o mergulho no desconhecido, para se chegar no maravilhamento de ver o próprio corpo fazendo novos gestos, as mãos sendo encontradas no olhar e o toque suave ou forte dos pés no chão convidando o corpo a ser ao mesmo tempo forte e suave.Feminino e masculino sendo presentes numa dança de guerreiros e guerreiras do coração. Para se dançar é necessário ser um " atleta afetivo". Não consegui me acostumar ao correto e linear. Preciso dançar com os meus medos, dores e loucuras para ser quem eu sou, integrando cada parte minha que desconheço e que me fazem no fragmento a morada do sentir, do pensar e do agir. E muito devagar e delicadamente viro força na delicadeza de estar cruzando um espaço sonoro em direções opostas e tridimensionais para encontrar equilíbrio no desequilíbrio. Mas é assim que encontro comigo.

domingo, 21 de maio de 2017

DANÇAR O EFÊMERO

A dança que transmite a intensificação da vida, e a presença das sensações. A dança orgânica necessita da escrita do corpo, de ouvir o corpo, como se todos os poros fossem ouvidos, trazendo intensidade e vivência. A pausa no repouso. A energia não corresponde necessariamente a movimentos no espaço. Quanto mais a dançarina busca intensidade e consciência, maior é a sua capacidade de ser a mensagem. Seus movimentos atingem diretamente o coração do público sem hermetismos. A linguagem da dança é universal quando a técnica é um veículo e não um fim. A dança quer existir no presente. A poética do efêmero, o que importa é a experiência coletiva de sonhar publicamente. Bertolt Brecht ( 1898-1956) um dos maiores homens de teatro do século XX, dramaturgo, encenador e teórico, afirmou que o teatro que quer representar movimentos inconscientes da alma, ultrapassa o diálogo interpessoal.O diálogo se desautoriza, se desqualifica, por ser racional; é um tanto marginal para exprimir o inconsciente.Faço uma relação com a dança, porque vejo estas linguagens como manifestações simbióticasque se expressam numa única manifestação.Existe uma linguagem secreta transmitida, que vai além das palavras e dos rótulos, que não pertence a catálogos, impossível de caber na prateleira do supermercado, intraduzível, que pertence ao reino das pessoas que ainda não estão presas ao que é dito de "fora pra dentro". Gente que ainda investiga o mundo buscando suas próprias respostas.