segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O CONTO DE AIA - THE HANDMAID´S TALE

Sempre que escrevo é para fazer relatos da história que vivi no meu corpo e a sabedoria adquirida através da experiência, como me impactou e se transformo em elemento para dançar ou se vira sabedoria escrita para a minha alma. O que vou relatar aqui me deixou muito chocada e demorei muito para processar. Fui passar uns dias na casa de uma tia e estávamos jantando, de repente entra na sala uma mulher completamente desfigurada com sinais brutais de violência,pernas inchadas e roxas,ela mancava e gemia. Foi quando fiquei sabendo que ela sofre violência doméstica quase todos os dias com o olhar conivente de toda a vizinhança, e estou falando de uma mulher instruída e com boa situação financeira. Na hora fiquei com muita raiva daquela situação que parecia natural e corriqueira para todos. Perdi a fome e fiquei pensando, se tinha caído em alguma cena da série o conto de Aia, criada por Bruce Miller, que é baseada num romance escrito em 1985 da escritora canadense Margarete Atwood. Baseada nesta distopia, em um futuro próximo um Estado totalitário Cristão toma o poder no território dos Estados Unidos e como todo regime militarista e fanático, dividido em castas, e todos os direitos das mulheres são destruídos, e perde-se o direito à cultura, ao trabalho e principalmente em relação ao seu corpo,as mulheres são brutalmente subjugadas e, por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo ler. A infertilidade mundial resultou no recrutamento das poucas mulheres fecundas remanescentes em Gileade, chamadas de "aias" (Handmaid), de acordo com uma interpretação extremista dos contos bíblicos. Elas são designadas para as casas da elite governante, onde devem se submeter a estupros ritualizados com seus mestres masculinos para engravidar e ter filhos para aqueles homens e suas respectivas esposas. A história é narrada pela experiência de uma Aia, uma mulher Americana, casada com uma filha que é capturada digamos assim, separada da família e passa por uma treinamento até virar Aia. Fiquei tão deprimida nos primeiros episódios que quase não tive estômago para continuar, mas a cada episódio, alguma coisa dentro de mim se fortalecia de acordo com a capacidade de resistência de June Osborne, sua luta por não se deixar engolir e não perder sua identidade e força. Na primeira temporada o que mais elevou minha fé, apesar de estar falando de crueldade sufocante, foi quando ela ganha de presente uma caixinha de músicas, aquela que tem uma garota presa dentro de uma caixa, e de alguma forma ela começa a pensar que ela não era aquela garota dentro da caixa que só dança quando alguém abre a caixa, quando alguém dá corda, achei isso de uma grande alavanca para a transformação, não é possível mudar sem sair da caixa, sem romper com os modelos impostos, é preciso lutar. Voltando à falar da mulher, perguntei se ela queria ir na delegacia denunciar o marido, e a minha tia disse que ela implora para ninguém fazer isso, não fiquei satisfeita e perguntei se ela queria ajuda,e ela me disse que vai ficar com o marido, que o ama, e que ele vai mudar. Fiquei sem palavras diante de tantos clichês e simplesmente não consegui continuar lá, fiquei muito perturbada e impotente, queria denunciar e ao mesmo tempo ela estava confortável em se deixar mutilar.Realmente não estamos muito longe deste futuro distópico narrado no livro e na série, isto me deixou mais triste, e se olharmos para o planeta tem muito lugar assim. Mas existe uma coisa muito tocante que esta série me trouxe, que foi a sensação de não estar sozinha, que nossa inteligência é subversiva e sempre que estivermos lutando pela nossa identidade, e pela força de sabermos que nossas histórias e relatos será passados para outras mulheres que viram e achei lindo quando escutei a aquela mulher machucada na história falar que vai continuar escrevendo sua própria história mesmo que não tenha ninguém para ouvir. Eu nunca cheguei tão perto de ver o que uma sociedade machista pode fazer, e eu vi uma mulher com o corpo mutilado e a alma partida em pedaços, implorar para permanecer naquela situação degradante. Não sei, ainda fiz uma última coisa antes de sair da cidade, fui numa assistente social e relatei os fatos, quem sabe ela consegue com apoio de outros profissionais ajudar esta mulher-irmã a buscar outro lugar no mundo. Eu que sempre falei do corpo como matéria-prima de libertação, percebi que é também um lugar para o poder exercitar sua opressão. Eu não sou mais a garota da caixa e nem sei se fui um dia, me enquadrar sempre foi complicado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"O RESTO É SILÊNCIO"

O artista na minha opinião vem ao mundo para encontrar a sua essência. Toda obra criativa revela a identidade de quem a fez.A assinatura do artista acontece quando a sua forma é única. No entanto, além do cruzamento do talento, sorte e originalidade não somos livres. Hoje somos patrulhados pela "policia das ideias. O pensamento livre vitimou muitos artistas e pensadores em toda a história. Expressar o Pensamento,pode ser uma sentença de morte. Atualmente só me sinto livre dançando. Danço o sagrado e busco inspiração no que vejo de belo no oriente e ocidente. Não intendo porque estamos tão divididos. Porque a humanidade não encontrou ainda outra maneira de discordar sem ofender e matar. Eu acredito na luz e sombra da condição humana e no papel da arte. Eu sei que vivemos o 1984( Livro do George Orwell)ele conta a trajetória de Winston Smith, refém de um mundo feito de opressão absoluta, onde pensar era considerado crime gravíssimo, distopia que está ficando muito presente . Percebo que está muito difícil encontrar a verdade, amortecida por tantas opiniões, uma verdadeira babel. Eu gosto do segredo, mesmo num mundo que rompeu a fronteira entre o privado e o público. Uma planta cresce através da semente no fundo da terra, crescemos dentro do útero da nossa mãe. Preciso do silêncio, da inocência perdida, de não saber alguma coisa e da descoberta atônita da total loucura que vivemos. Não penso em me isolar, adoro mostrar o meu trabalho e escrever nesse blog. Todo o mundo tem o direito de estar conectado ao mundo. Preciso crescer secretamente,clarear os meus mistérios. O que me assusta é perder a minha sacralidade de me perder sem ser encontrada, rotulada e analisada. Será que como dizia Raul Seixas, temos que ser" carimbados, rotulados,registrados, avaliados, se quisermos voar?" O que fazer para ser artista e tomar cuidado para não ficar amestrado com as leis de incentivo do governo, para não esvaziar o conteúdo e a profundidade de nossa mensagem? Para mim é sendo verdadeira, honesta comigo mesma. Também sou do processo, aprendo muito vendo o caminho criativo dos artistas que me inspiraram e me ajudaram a ser como sou. O dilema é ser livre e ao mesmo tempo está sintonizada com "o porquê, do para quê e para quem fazemos o que fazemos" Mas não condeno nada, eu defendo o direito de cada um expressar o que sente. Eu que sou assim, com esse vício de pensar e pesquisar o que faço e no efeito que vou provocar. Se não tenho nada a dizer, a dançar, que contribua de alguma forma para melhorar a vida, a alma de alguém, prefiro o silêncio. Meu avô sempre me dizia " De pensar morreu o burro". Será? será? " O RESTO É SILÊNCIO"

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

GRAVIDADE

Li um texto recentemente do escultor Americano Richard Serra ( 1967-2015), sobre uma interessante experiência que viveu aos 4 anos de idade. No seu relato, a iniciativa do seu pai de levá-lo para ver a trajetória de um navio zarpar, mudou, transformou, moldou a sua maneira de ver o mundo e influenciou a arte que produzia. A descrição do navio que primeiro afunda, para depois submergir.O que era pesado ficara leve diante dos seu olhos. Pensei na trajetória do corpo quando dança. O diálogo com o peso, a leveza e outros estados é enorme. Dançar com a gravidade. Dançar é ter a consciência de que estamos a cada momento transformando o peso em leveza, leveza em rigidez em doçura, somos todos os estados da matéria. É possível ser sólida, gasosa e líquida. Um movimento pode ser iniciado sem vitalidade e em seguida ser transformado em vitalidade e força. Pode ser o contrário também, dançado ao avesso, o complexo inominável e assimétrico. Dentro e fora impulsos são exigidos e através de muita disciplina e treinamento, uma dança livre, orgânica e verdadeira emerge. A dança nos permite vivenciar esta transição no corpo e na alma. Pode ser que a vida seja também um exercício de Alquimia constante, com pequenas mortes e milagres, acontecendo durante o nosso cotidiano. Transformar o que é ruim em aprendizado e o que é bom em celebração. Ter ritmo, ter visão espacial e sintonia com a linguagem do corpo e os seus sinais. Aprender as lições para nos fortalecer como um navio que afunda para submergir.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

DEUS É UM DANÇARINO

"O mundo é uma dança de seres viajando, processo contínuo sem conclusão. Deus não é conclusivo, um cálculo, um esquema. Deus é movimento, a viagem. Os sufis entendem que somos todos viajantes. Estamos todos de passagem, não podemos nos fixar em nada no caminho. Quem sabe temos tempo apenas para uma noite? Não devemos nos fixar. O mundo é uma dança. O mundo é uma taberna onde cruzam os caravansarais. Deus é um dançarino. Deus dança. Deus sopra seu hálito divino e tudo se movimenta. A dança de Deus é um ato de renovação contínua. Aquilo que não muda está em oposição a Deus, não pertencendo ao Seu mundo. A origem de tudo é o movimento. A personificação do movimento é o ato da dança, da mudança". A consciência do processo de criação pela experiência, ao penetrar no movimento interno, envolvendo-se total e organicamente com o corpo em todos os níveis – intelectual, físico ou intuitivo – promove a construção de uma arte que se comunica com seu tempo. A intuição é vital para a situação de aprendizagem e, infelizmente, é muito negligenciada. Não quero afirmar que o mágico e o onírico formam um artista. Na verdade, técnica e imaginação precisam caminhar juntas, como afirmamos em dança: “não baixa o espírito santo”. Antoine Artaud (1896/1948) – poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro francês – uma das minhas principais fontes de pesquisa sobre a metafísica, para meu desespero, não nos explicitou o processo para se chegar a uma arte que nos convide a aguçar os sentidos e a experiência coletiva, onde não há separação entre público e platéia. A propósito: minha intenção é fazer o público sonhar. Que a relação espaço/tempo seja elevada a um patamar diferenciado. Prefiro a idéia de colocar a platéia para flutuar, dançar comigo, participar da experiência da dança, do movimento profundamente conectado, sem a dimensão da análise literal ou apelo da razão cartesiana. Não estou falando de uma dança burra, mas de uma dança que seja tão impregnada de verdade e beleza que “ultrapasse o entendimento”. O processo para se chegar a esse estado de presença em cena necessita de total disciplina e contato consigo mesmo. Na minha opinião, um trabalho que pretenda a espiritualidade exi-ge renúncia e princípios éticos que, no meu caso, tem referenciais do oriente. Temos muita arrogância na arte. Não quero somar nesse sentido: meu principal elemento motivador é criar uma dança sublime e onírica. Uma dança que exija disciplina, treinamento corporal e espiritual para, em cena, provocar reflexão e encantamento. E porque não, dúvida e questionamentos sobre a condição humana? E mais: uma dança que questione o próprio ato de dançar. Que questione a própria dança. Ninguém – eu inclusive – detém o monopólio do belo. Um dos meus compromissos de pesquisa, é descobrir meus próprios símbolos, minha própria assinatura. Reverencio cada detalhe que aprendo com o estudo universal da dança. Reverencio todos os profissionais que me ensinaram um pouco deste conhecimento. O que busco tem essa marca e iniciação. Para mim, o palco é sagrado e a minha platéia primeira são os deuses da arte. Tenho essa questão tão clara dentro de mim, porque faço da dança a minha prece e a minha expressão de alma, meu Dharma. Me reinvento, me redescubro. Também retorno ao ponto zero. Novo Ciclo. Nova busca. Outra estética. Sem abrir mão do passado, da semente plantada.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O TEMPO ESCULPIDO NO CORPO

O que descrevo como corpo orgânico, é a relação construída na arte de viver e está associada a sentir o corpo. Uma mente integrada com o corpo, consegue sair dos automáticos movimentos de mecanização e congelamento das emoções. Ter um corpo vivo e integrado ao todo exige trabalho interno e externo. Me refiro a toda uma postura de buscar a leitura do mundo interior. Está comprovado que nosso corpo adoece quando não processa emoções, ele tem memória. . O que é um corpo orgânico? É quando o corpo está integrado ao mundo e as sensações, criam experiência ou vivência, entramos em outro espaço do tempo e espaço, a transcendência. Chegamos a desfrutar o Numinoso, aquilo que invade a nossa racionalização, o inefável, aquilo que pertence ao reino do sagrado, sentir sua própria presença no mundo. O corpo orgânico é o todo integrado, formando uma unidade. Esta organização interna só acontece quando começamos a vivenciar no corpo, quando a atividade corporal é traduzida em autoconhecimento e sabedoria sobre nós. Para Espinosa, o mundo, ou a natureza, é constituído de um todo infinitamente complexo onde, em cada criatura, ou coisa, se expressa um certo grau de força, uma força que está em constante interação com todas as outras forças circundantes. É um todo onde tudo é um, mas ao mesmo tempo infinitamente diferenciado, em perpétuo movimento, nas relações constantes de composição e decomposição. É também um mundo onde não há modelos morais ou tons acima, mas a questão é um pouco sobre como e de que forma, as diferentes forças interagem umas com as outras, como se fortalecem ou enfraquecem uma a outra, como elas parecem criativas ou destrutivas. A interação entre as forças é o que está no centro: em outras palavras, tudo se resume à questão de como as forças, nós todos, os seres humanos e tudo o mais combinado, como nós afetamos uns aos outros, constantemente, de forma consciente, inconsciente, intencionalmente ou sem querer e, nesse afeto, conjuntamente e constantemente a existência assume ou vem a tomar novas formas, cria identidades, eleva-se a novas constelações. Não se preocupe em copiar uma técnica no corpo para poder dançar, você só faz a diferença quando encontra a sua linguagem secreta. E assim, você começa a se comunicar, a se conectar. Tudo pode ser dança.

domingo, 23 de dezembro de 2018

ARTE E PROCESSO

Me dedico à escola Kalaskhetra, um dos quatro Banis do estilo Bharatanatyam de dança Clássica Indiana que significa o lugar da arte. Impressionante é que realmente todo gesto é milimetricamente pensado para ser executado tendo no corpo o seu lugar,função e significado. Esta linguagem é considerada além de uma arte sofisticada,uma ciência. E neste universo imenso e intenso estou imersa. Um novo corpo se redefine com novos significados. É um privilégio dar um novo sentido ao meu corpo, despertar novas memórias e tirar da gaveta um caminho que não está definido.Tudo que fazemos, pelo senso comum, precisa ter uma finalidade específica e resultar num produto final e no entanto o que mais me anima neste processo é justamente desfrutar cada detalhe dele em si mesmo e cada lugar que o meu corpo ocupa e como ele se recupera na apropriação de uma técnica que te faz executar um gesto que é contemporâneo e ao mesmo tempo realizado por artistas há milênios. A simples execução de um gesto que pode ter aproximadamente três mil anos.Neste dia, eu disse que era interessante e que sou única que estudo e treino esta linguagem em Brasília, uma arte que quase ninguém conhece, não tenho alunos e sim muita gente que se interessa pelo aspecto diferente, belo e instigante desta dança, mas que realmente ao dar oportunidade para estas pessoas até agora, ninguém aguentou a alta exigência corporal e disciplina que esta arte exige para dominá-la. No nosso diálogo na aula, falei a ela sobre estas coisas, e ela me disse que só dá aulas para alunas selecionadas a dedo, que realmente honram esta prática, e que as poucas professoras Brasileiras que ela conhece, não têm comprometimento com a linguagem por que não querem perder as alunas, isso de sobrevivência intendo, e ao mesmo tempo esta ética atravessada reproduz dançarinas "aleijadas" na técnica. E por outro lado, existem alunas ou alunos que não querem passar pelo processo e sim usufruir do que acreditam seja a "cereja do bolo" da vaidade, querem ser adornadas com um rico figurino, uma maquiagem deslumbrante e querem aprender uma coreografia e com uma bela luz no teatro dançar e imediatamente dar aula, ter uma academia, ter alunas e o ciclo não pára. Que que bom que a dificuldade de aprendizado mesmo torto desta dança é tão complicada que naturalmente tem uma peneira, mas não estou criticando ninguém e nada, cada um deve conduzir seu processo.Eu também quero desfrutar da " cereja do bolo", mas quero viver o processo, compreender e ter o que dizer através do meu corpo, para o outro com verdade e sensibilidade, a técnica sem a entrega da alma também é vazia. Esta fala da minha mestra me deu muito orgulho de mim mesma por ela ter me aceitado e por ter encontrado nela uma pessoa que tem muito amor a esta dança como eu, e me tirou do lugar de ser diferente sempre. Esta parceria me deu a certeza de que só através do processo temos a possibilidade da descoberta e da chegada ao inusitado, é uma devoção que não te promete salvação, ponto de partida ou salvação, é só um caminhar com disciplina todos os dias, e a cada etapa percorrida sem nenhuma certeza ou garantia, o destino se encarrega de fazer sua morada, até que esse conhecimento de dentro se transforme numa linguagem apta a ser dividida com a alma do mundo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

UMA NOITE DE 12 ANOS

Tem um tempinho que não choro no cinema. Assisti este filme, Um noite de 12 anos, para mim uma obra prima. É claro que está lá no filme a incrível capacidade do ser humano de ser cruel, mas tem também e principalmente a imensa capacidade de superação com poesia do ser humano. São momentos resistência com sutilezas sublimes. O cinema nos ensinando que é possível plantar até uma flor diante da covardia e que é possível seguir em frente apesar de tudo, quando se tem um coração e uma alma que não se rendeu a nenhuma mediocridade. Olhei para o público e percebi que não chorava sozinha...a arte tem este poder de unir estranhos chorando e com uma emoção profunda naquele instante. Voltei para casa com vontade de continuar seguindo em frente com poesia, vale a pena.

O CONTO DE AIA - THE HANDMAID´S TALE

Sempre que escrevo é para fazer relatos da história que vivi no meu corpo e a sabedoria adquirida através da experiência, como me imp...