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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ODE A SUTILEZA

Hoje fui a uma palestra e descobri uma infinidade de percepções da realidade alterada como por exemplo as quatro formas de avaliação do diagnóstico para o déficit de atenção e que existem uma infinidade de limitações que são geradas por uma deficiência no processamento no cérebro. Existem além do padronizado,um caleidoscópio de formas de ver ,sentir e entender a realidade e são graus de percepção do ambiente,das cores dos sons. Descobri que existem pessoas que vêm os números coloridos e outras que vêm as letras dançando. Me parece que existe um universo muito grande a ser desvelado, onde a sensibilidade precisa puxar a cadeira e sentar.Temos uma sociedade que está começando a perceber que é impossível padronizar todo mundo e a cada dia a voz da diferença está ganhando força. A escola pode punir um aluno que tem uma dificuldade de processar um som, ou uma palavra,muitas vezes alguém pode ser muito visual aprende mais com imagens do que com o som.É o meu caso, sofri muito na escola e ainda tenho dificuldade de estar confortável no mundo, por ter uma percepção diferente. Não me importo com coisas, perco celular e objetos o tempo todo e esqueço de muita coisa mesmo, sou classificada de avoada a estranha e até maluca mesmo, porque valorizo ideias, preciso criar e faço isso o tempo todo, sou do tipo que coloca o arroz na panela e esqueço queimando já que estou imaginando uma coreografia, ou uma aula ou pensando sobre o mundo, e quem convive comigo me entende e me respeita, já que sou toda abraço e doação e inteira para o que realmente importa.Sou responsável, mas não fico mais descabelada por conseguir subir num palco e executar uma coreografia e no cotidiano não consigo ficar um dia sem esquecer, perder ou fazer alguma confusão.Mas estou lá assumindo meu lado esquisito e me colando ao padrão.Meu defeito está visível e eu agradeço por fazer parte de minha história, ainda bem que minha percepção da realidade não é linear, se não como dançaria o inusitado, as oposições ou a tridimensionalidade? Mas eu tive a sorte de sobreviver sendo esquisita e de gostar de ser como sou, mesmo sabendo que muitas vezes ser sutil e cultivar poesia num mundo que exige funcionalidade o tempo todo é um ato de bravura. O ideal mesmo é fazer omo aquela sabedoria japonesa do vaso que quando quebra é colado com um esmalte dourado, porque o defeito é uma parte inseparável da história objeto, eles precisam ser aceitos e não escondidos. Como dizia o mestre da psicanálise Jung, precisamos acolher a nossa sobra e a nossa luz. Encerrei a noite vendo a diva do Jazz,Billie Holiday( 1915-1959) cantando Strang fruit uma canção que narra o absurdo que eram os linchamentos dos negros nos Estados Unidos, eles eram mortos e pendurados em árvores com a metáfora do fruto estranho. Esta música teve um papel importante na denúncia de uma ação que era mero entretenimento e uma forma de dizer ao negro que mesmo se ele tentasse lutar ele deveria saber qual era o seu lugar. Mas a imagem que está na minha mente é dela em 1939, cantando uma música proibida, que ela deixava para cantar no final do show, com uma luz negra,iluminando o seu rosto, com a sua Gardência atrás da orelha. Relatos de quem teve o privilégio de vê-la é que no final não havia uma única alma branca ou negra que não se sentia estrangulada,era um silêncio seguido pelo som de mil pessoas suspirando. Isto é o que uma atmosfera pode fazer com a nossa percepção, mesmo não estando lá senti com eles.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

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" UM INSTANTE DE BELEZA É UMA ALEGRIA PARA SEMPRE"

DEPOIMENTO DO PROFESSOR /DOUTOR REINALDO GUEDES MACHADO, FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UnB) SOBRE MIRABAI “Não faz muito tempo. Maria (MIRABAI) foi minha aluna na disciplina de Teoria das Artes no curso de pós- graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. A turma era hetereogênea: alguns alunos arquitetos, um licenciado em educação artística, um bacharel em História e ela. Visando aproveitar os diferentes saberes ali reunidos solicitei como trabalho escolar que cada qual elaborasse uma apresentação baseada em suas vivências anteriores no campo artístico. Maria (MIRABAI) dançou, na pequena praça em frente ao centro acadêmico, lugar de trânsito dos que se dirigem para a próxima aula, onde permanecem os que descansam, namoram ou discutem a política estudantil em toscos e velhos sofás. Pouco a pouco, a faculdade agitada e ruidosa naqueles momentos de intervalo entre aulas, silenciou. Paradoxalmente, como se fora som, o silêncio, foi-se propagando pelas salas vizinhas e atraindo alunos, professores e servidores que se acomodavam como podiam para apreciar a beleza que acontecia inesperada num lugar inadequado! Que sabíamos nós, meus alunos, colegas e eu, da dança indiana para apreciar a arte que se realizava naquele momento? No entanto, ainda que incapazes de uma apreciação judiciosa, todos fomos envolvidos pela verdade profunda que emanava das mãos, dos olhos, do movimento do corpo da dançarina. A opacidade pesada da matéria dava passagem ao espírito que a conduzia e nos reunia num espaço e num tempo além da contingência concreta do cotidiano. Isso aconteceu e eu me lembro, para confimar John Keats: Um instante de beleza é uma alegria para sempre. (Endymion, em tradução livre)”.

domingo, 23 de julho de 2017

O ESTRANHO FAMILIAR

O deserto é uma metáfora da árida paisagem psicológica, onde a criatividade e a geratividade estão ausentes, onde nada floresce e a vida é sem sentido e emocionalmente monótona. Para materializar uma ideia, vou me costurando através de vários caminhos, e mutas vezes com um antagonismo atroz da ideia principal. Literatura para dissecar o universo de idéias para serem transformadas em gesto, movimento. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto.A arquitetura tem papel importante na construção coreográfica, na relação do espaço com o corpo e o tempo.A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar. O papel branco, o momento que simplesmente não sabemos onde nosso período de investigação vai dar.Mais do que qualquer resultado objetivo, de conhecimento ou comportamento, conduz ás fronteiras do desconhecido. Apenas abre.E por ela abrir a significados e sentidos na vivência, para espaços conscientes, convite ao acolhimento do inusitado, não pensado, não vivido.Chego onde não entendo.Vivo o "entre". Por mais angustiante que seja, entrar nesse universo novo,mesmo trilhando um processo temeroso, rumo ao "não sei onde vai dar a estrada", vale a pena concretizar uma ideia, projeto.Eu considero fundamental sair do reino das certezas, das fórmulas prontas, negando as dúvidas, e o não saber.Quando não arriscamos, mergulhados numa falsa segurança, somos impedidos de sentir a emergência do novo. A travessia da criação é bloqueada, e a alma fica no deserto. A dança é a irrigação dos jardins da alma,antidoto contra a desertificação.Somos trezentos, como dizia Mario de Andrade. "A minha casa vive aberta, abre todas as portas do coração".Tornar estranho o que é familiar e familiar o que é estranho, esse foi o tema de uma aula de sociologia que participei quando era estudante de arte. Foi há tanto tempo e continua tão atual. Percebi que tenho esse estranhamento constante. Eu que me dedico a pesquisar uma arte que não busca o óbvio, vejo o efeito de minha atuação no público que é uma mistura de estranhamento e encantamento. Segundo meu antigo professor esta é a fórmula para não se deixar seduzir pela manipulação do gosto. Arte quando não passa pela experiência e pelo estudo da linguagem deixa qualquer um refém da indústria e dos meios de produção que utilizam todos os meios para que a arte vire mero consumo e entretenimento. Esta fronteira entre o que é produzido pela alma impalpável e verdadeiro sem se deixar engessar pela necessidade de dinheiro, é um grande dilema.Todo artista quer reconhecimento do seu trabalho e dinheiro para financiar seus projetos e viver.Eu escolhi fazer e ser minha arte no cotidiano e na vida e lutar unida a todos que buscam o pão com poesia.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CORPO- MEMÓRIA E IDENTIDADE

Minha dança não me define, mas foi e continua sendo meu espaço de expressão da minha palavra não dita. Não existe construção de destino e identidade sem liberdade, e o lugar onde me sinto livre é quando estou dançando. Reescrevo minha natureza morta, vejo minha humanidade e busco entender os sentimentos dos outros para me recriar em cena e na vida. Sou minha matéria-prima, meu relevo disforme, minha semente mal plantada, meus olhos diante de um mundo que me devora se não ficar e me definir no meu espaço interno. Porque preciso dançar nem que seja sozinha diante do espelho, dos meus bichos e das minhas plantas. São meus sonhos privados que me levam a levar minha alma para o universo. Sendo quem sou no espaço que me permito, pernas, braços, olhos e bocas que podem me escrever no livro da vida. Não sei se fica claro para todos, quando afirmo que o corpo tem memória. Muita gente ainda pensa que esta é uma tarefa do cérebro. Me vejo na revelação do que Merleau-Ponty denomina de "olhar corporificado", em que o corpo ativo na interação com o mundo produz a percepção e experiência. Ontem estava no grupo que faço parte da Biodança e foi nos ofertada a oportunidade de deixar os pensamentos em casa para trabalharmos o nosso corpo através da experiência. Um exercício muito utilizado nesta técnica corpórea, é a reprodução de um ninho. Todos os corpos ficaram deitados no chão, colados e embaralhados sem julgamento ou identificação com alguém ou algo. No espaço que estava deitada, percebo um leve acariciar na minha cabeça, principalmente no meu cabelo.Voltei imediatamente para a minha infância, quando era cuidada pela minha avó, e ela trançava meus longos cabelos antes de dormir enquanto me narrava histórias mágicas com um delicioso chá de capim santo, colhido por ela do seu quintal.O cheiro da minha infância. Eu que nesse dia estava muito assustada com o mundo e com medo de viver, queria ficar invisível e até sem respirar,era este o meu grande plano do dia, me esquecer por alguns segundos e não me acontecer mais nada. Me deixe aqui sem existir por favor. E aquela carícia amorosa me transportou no tempo para o lugar mais sagrado do mundo, o instante onde ainda era um papel branco, com poucos medos e muitos sonhos, e através da memória despertada por esse gesto de afeto, voltei a viver e fiquei com vontade de ser novamente. E para coroar a experiência tão transformadora, este carinho virou um colo e depois eu pude dar colo também, e depois fomos para a varanda nos ofertar a lua e diante de nossas presenças nossos corpos nos revelaram que não precisamos lamentar nada, porque no nosso corpo nenhuma experiência se perde, e quando a experiência não é boa temos a oportunidade de ressignificar, e quando o corpo não tem o registro temos a capacidade de gravar a cada experiência uma nova memória. Sim, somos um livro aberto para novas edições. No meu caso que tive uma mãe que não sabia lidar com a maternidade delegando esta função à minha avó,a cada experiência de receber colo que tenho,recebo o colo dela, e a sinto como minha mãe e posso honrá-la, recebo a prova viva de que através de outros braços posso vivenciar o colo amoroso de minha mãe que ficou perdido no tempo. Este é o grande mistério revelado que nos foi negado, porque a história do conhecimento também foi no ocidente também a história da negação do corpo e da vida. Portanto a urgência do reconhecimento do corpo como parte integrante do nosso processo de criação de identidade e de pertencimento no mundo. O ser humano que tem a oportunidade de integrar o pensar, agir e sentir promove revoluções. Imagine que dançar para mim é me encontrar com a matéria volátil que me define. Lembrei da amiga de Simone de Beuavoir,(9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), Violette Leduc, Escritora que encontrou sua emancipação e libertação através da literatura. Violette Luduc, misturou vida real e sonho e se fez compreender e entregou sua alma para o mundo e assim não havia mais desculpas para se esconder, não precisava mais ser segundo ela " um deserto que monologa".

terça-feira, 18 de julho de 2017

UMA NOITE INDIANA

Sonhei que pintava o cabelo de castanho e só percebia quando alguém me avisava, no sonho até pensei em retomar a cor preta, mas algo em mim aceitara a mudança. Acordei pensando nas mudanças sutis que ando percebendo em mim, mas que permanecem invisíveis para o mundo e principalmente para o meu campo de atuação e o laboratório de relações que faço parte.Me sinto de volta. Andei levando muitos nãos e fui me encolhendo. Não a ponto de desistir, mas a ponto de perder a confiança.Andei num processo de investigação muito intenso sobre minha identidade na vida e na minha dança. Fiquei na escuta e na acetação de minha vida e mudança nos detalhes que fazem muita diferença, apesar de sutis. Percebi que consigo sair de casa decepcionada ou triste, que faço minhas coisas,apesar do medo e que posso mudar de plano se assim eu desejar, estou mais pronta para propor o que sinto que minha alma precisa na dança.Andei fazendo experimentos, novas linhas de atuação e tenho percebido minha força e energia de transformação. São mudanças que percebo na apropriação de minha linguagem que anda se fortalecendo na medida que me aceito e percebo meus dons. Semana passada aceitei um convite para dançar a convite de três músicos de alto nível, o convite foi feito um dia antes da apresentação. Me apresentei ao lado de Bernardo Bettencourt (oud),Mahmoud (darbuka), André Luiz (Sitar), Seria uma performance improvisada com três músicos e instrumentos de culturas diferentes, dialogando comigo que faço uma dança autoral tendo como princípios éticos e matéria-prima o estilo bharatanatyam de dança clássica Indiana. E no começo já deixei claro que não tinha o selo de qualidade da India, não tinha guru, e que minha formação foi e é construída ao longo do tempo com artistas Indianos e brasileiros. Eu disse sim e ainda durante a apresentação usei um instrumento de percussão nos pés, dancei e toquei acompanhando os músicos. Eu quase não creditei, e na na verdade eu nem pensei em nada, só queria dançar, me colocar a serviço da arte, da união e da beleza. A arte reuniu quatro artistas que estavam fazendo seu ofício numa noite de inverno.Oferecemos nosso coração e vontade de ampliar a percepção e as fronteiras de quem sai de casa para fugir de suas rotinas e jantares na sombra de uma luz. O tempo que passa e eu sinto que estou numa mutação e a cada encontro comigo, me escuto, e sei que agora posso comemorar pequenos avanços, limites que estou aprendendo a estabelecer e principalmente viver a minha vida, arte, amores sem me preocupar com a aceitação dos outros,esta menina carente que mora dentro de mim está aprendendo a ser amada por mim mesma. Foi nesse momento também que minha arte me revelou para o meu marido, eu vi seus olhos orgulhosos no carro, quando ele me disse: você é uma artista! Então o certo é ir, mesmo com medo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

KALI

Realizei uma vivência para um grupo de mulheres tendo como tema a Deusa Kali. Sugeri que cada mulher antes da aula escrevesse o que significava a língua para elas, no sentido amplo o que estava preso,contido ou o que foi falado sem pensar, ou até o não dito. Muita coisa foi revelada nesta breve roda de conversa,onde muitas vezes somos esmagadas pelo simples fato de sermos verdadeiras e revelarmos o que sentimos. Comecei a oficina trazendo esta deusa guerreira que é representada com a língua de fora, vencendo os demônios com armas,sangue. Sua representação simbólica é vasta porque ela é negra,nua, exibe um colar de caveiras e uma saia de braços, carrega nos braços segurando com as mãos cabeças decepadas,espada, laço, enfim armas, por outro lado é a grande mãe, aquela que não permite a violência contra a mulher, que nos mostra a importância de termos garras e ao mesmo tempo flores e delicadeza nas mãos. Neste círculo de mulheres senti a beleza dos encontros das mãos em forma de garras, das flores emanando de cada gesto das mãos, das pétalas caindo sobre nosso colo e a alegria de sermos mulheres. E quando ensinei os gestos de Kali,todas nós entramos no nosso reino das sombras e cortando cabeças e infinitos nãos que ouvimos da vida, eu vi nosso coração doendo despedaçado até as nossas ancestrais, mas também vi dores convertidas em lágrimas e agradecimentos por sermos quem somos. Somamos poesia, cantos e celebração em forma de emoção e a sintonia com a alma que precisa se construir, honrar o masculino e a descoberta de que o precisamos nesta vida, além de conhecer nossa força e delicadeza é encontrar nossa terra, nossa raiz e olhar para a nossa intuição,acreditar na potência do invisível, do sutil.Foi com grande alegria que me despedi destas mulheres guerreiras do coração, levando um pedaço da alma de cada uma dentro de mim, todas elas agora dançam comigo, porque cada tecido que bordo dentro de mim, tem guardado uma perda, uma dor, uma alegria, um abuso, um parto, uma vitória, enfim uma dança de essências que se misturam e me transformam numa mulher. Como disse Simone de Beuvoir( 1908-1986) " Não se nasci mulher, torna-se"