terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

FESTIVAL DIONISIUS - NORA

Recentemente participei do festival Dionisius na serra Gaúcha. Esse festival é movido pelo rito praticado por nossos ancestrais,que é viver todo o processo da semeadura da uva, do plantio à colheita. Fiquei sabendo que a uva precisa ser podada até a sua quase morte,para renascer inteira até virar vinho. Isso estou resumindo de uma forma muito leiga, porque o facilitador e produtor de vinho Nenel, seu carinhoso apelido,ou Carlos Manoel Dias, o idealizador deste festival que nos encanta os olhos quando narra estas histórias para nós, que saímos de pontos diferentes do nosso planeta para vivermos este rito dentro de nossa alma buscadora. E cada um na poesia do encontro, se encontra consigo mesmo e se deixa morrer para o que não serve mais e ao mesmo tempo se transbordando de vida, amor e alegria, renasce para si mesmo. Morrer e nascer para seguir vivendo. Minhas experiências foram inúmeras e aos poucos vou fazer relatos sobre esta extraordinária maneira de crescer e buscar sabedoria. Hoje começo falando sobre Nora, uma grande facilitadora de Biodança. No festival temos vivências de Biodança e Nora no exercício que vou descrever estava participando como aluna.Somos mestres e aprendizes o tempo todo. Na imensidão do espaço vazio da sala, o exercício era para ficarmos parados na sala de olhos fechados e outras pessoas nos pegariam pelo braço, para nos conduzir pelo espaço. Quem era conduzido estava de olhos fechados. E quem era conduzido, não sabia quem era o condutor, e a única opção era confiar. Num certo momento, estava caminhando e vejo Nora, parada singela aguardando,inteira e confiante. Eu peguei sua mão e começamos a caminhar juntas, eu estava invisível para ela que estava de olhos fechados. Durante a caminhada fiquei observando sua bela expressão de leveza e fé na caminhada. De repente passamos por uma janela aberta, e o vento nos visitou! Fiquei sem fôlego quando vi Nora sentir cada segundo daquele vento suave e delicado lhe acariciando o rosto. E naquele momento eu percebi a beleza contida no caminhar que abraça o caminhante, ou como atravessar nossos desertos na vida, desfrutando do caminho. Esta é a nobreza da potência de um encontro,ele nem precisa de palavras, tampouco dos olhos, duas presenças caminhando no vazio espaço de uma sala, com a música e a doce certeza de que, caminhar pode ser o aprendizado e o destino vira um detalhe, por que quando estamos nutridos de amor tudo pode ser aprendizado. E floresce a certeza de que nunca estamos sozinhos, a pessoa certa e a situação certa aparece, quando confiamos na existência e principalmente viver passa a ser uma aventura interessante,onde a pressa de chegar termina, o destino vira detalhe, porque estamos muito felizes em pleno divertimento com o vento, com o sol, e com cada presente ofertado pela vida, em cada momento do nosso tempo por aqui. lembrei também de Nora, a personagem da peça de teatro do Ibsen, que se chama" Casa de bonecas", foi a primeira peça de teatro que atuei como atriz. A Nora da peça, abandona os filhos e marido e vai para a vida se construir como pessoa, e a última fala dela na peça é: " Meu dever, meu sagrado dever de agora em diante é comigo mesma." Não estou afirmando que viver também se precisa abandonar quem amamos, mas no contexto daquela personagem era o caminho dela. Esta é a beleza da vida, nosso caminho precisa ser construído por nós.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

DANÇA E XAMANISMO

Estávamos voltando para casa de carro, eu e meu marido, quando avistamos um motociclista batendo o braço esquerdo na coxa e com o outro braço guiando a moto, realmente não julguei sua maneira original de dirigir e sim, a alegria que exalava do seu corpo, tinha uma leveza, um ritmo, ele dançava com a moto. Nós sentimos a mesma coisa em relação à ele, e sentimos alegria também. Foi uma troca sincera de um momento mágico, onde no meio de um mar de carros no asfalto, percebemos a beleza daquele momento. Um motoqueiro feliz e dando a cara para o mundo ver. Segundo os ensinamentos do xamanismo, quando nós estamos no nosso momento de poder no dia, a alegria chega e o universo escuta qualquer desejo. E foi muito rico ter a propriedade para sentir aquele momento, justamente depois de ter participado de uma aula de biodança e xamanismo. Realmente dançar a natureza no asfalto, dentro de uma sala fechada num centro comercial, me deu esta dimensão para sentir que está dentro de nós todos os mistérios. Achei rico o meu processo de caminhar pelo espaço fazendo o caminho dos meus ancestrais e o preço que eles pagaram para eu estar aqui na terra, viva. Sabendo que eles também desfrutaram do sol, sentiram a força dos pássaros, e da divina majestade de uma árvore e da terra molhada depois da chuva, ou da grama verde, tanta coisa coisa que me comove e me faz pensar que vale a pena tudo pela continuidade da vida deles que reinam dentro de mim. isso é um oceano da beleza. Foi bonito sentir a terra e as batidas dos pés no chão. Num certo momento senti o meu corpo num movimento totalmente oriental,e eu sentia o vento conversando comigo, via borboletas colorindo o céu, e meu corpo começou a fazer giros sufis e meus movimentos eram todos orientais, era como se o meu corpo confirmasse minha ligação com o oriente e a força que me pediram para não serem esquecidos por mim. Foi um pedido para honrá-los através da dança, que é a linguagem que na minha opinião eu mais acesso Deus, é o meu canal de comunicação, é onde a minha espiritualidade se ancora e me expressa no mundo. É o lugar onde a alegria faz morada e me sinto como esse motoqueiro, que dançou no cotidiano, e fez da vida uma prece. Nem sempre é possível estar na natureza propriamente dita, mas isso não significa que você não é natureza e que momentos mágicos não podem acontecer. O importante é estar integrado, é buscar o sentimento de pertencimento, é sentir se fazendo parte do todo. Muitas vezes esse sentimento acontece onde menos esperamos basta estar numa frequência que te permita sentir os sinais da vida, e o mais importante: começa no corpo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

GEOMETRIA SAGRADA NA DANÇA

O corpo pode ser o veículo para passagens subterrâneas em nós. Através dele é possível acessar espaços onde a palavra não chega. O corpo nos oferece a dádiva de nos proporcionar a ligação secreta para nos ligar à alma. Sem esta conexão ficamos perdidos e sem o sentimento de unidade. A ilusão de separação acontece quando perdemos este sentimento de pertencer ao todo, e quando nos sentimos desintegrados a mente assume o comando de nossas ações e tudo passa a ser julgamento, análises e cálculos e teorias sobre como se dever ser ou fazer, nos tornamos alvos de nós mesmos. Quando buscamos sentir no corpo e com o corpo nossas experiências, encontramos uma maneira nossa de sermos sublimes levando uma vida comum.Nós somos caleidoscópios, somos multicoloridos e multiformes. Nosso corpo pode transmutar nossas experiências e transformá-las em sabedoria e missão, nesse momento chega a nossa mente, para decifrar o que vivenciamos. Mas no primeiro instante é o corpo que assimila e registra nossas memórias e não é à toa que ele é o ultimo a fechar o ciclo para liberar para o espaço. Somos esta geometria sagrada que está contida na natureza, que por sua vez está presente na arte, na ciência e em tudo que há.Não é à toa que as tribos, por mais remotas que sejam usam a geometria como portal para um mundo onírico e mágico, nossos ancestrais já percebiam a magia contida nas formas e sabiam usar como fonte de cura e portal de acesso para Deus. Na cultura védica toda a iconografia simbólica dos deuses e até da arte, principalmente da dança tem uma relação profunda com a geometria. Inclusive na dança o corpo se veste de geometria e cada posição e movimento é revestido de uma rica arquitetura corporal que transforma o corpo em linhas geométricas perfeitas e complexas, e mais impressionante é como resulta e inúmeras posturas e movimentos jamais imaginados que sejam possíveis realizar com o corpo, a possibilidades de variações rítmicas são infinitas.Em um certo momento da prática destas danças o corpo vira música e cria vibração, e ao mesmo tempo encontra o seu sagrado. Geometria geo+metria = medição da terra Geometria Sagrada = o estudo das ligações entre as proporções e formas contidos no microcosmo e no macrocosmo com o propósito de compreender a Unidade que permeia toda a Vida. Desde a Antiguidade, os egípcios, os gregos, os maias… os arquitetos das catedrais góticas, artistas como Leonardo da Vinci ou o pintor Georges Seurat…. todos reconheciam na natureza formas e proporções especiais, que traduziam uma harmonia e unidade em si… Essas relações de forma e proporções consideradas sagradas na geometria, na arquitetura, ….. também ocorrem de forma idêntica em outras áreas da expressão humana, como na Música. O estudo dos harmônicos, dos modos musicais vem fascinando os compositores e amantes da música há milênios. A mesma harmonia nos sons, nas formas, nas cores… também se encontra na natureza, do microcosmo ao macrocosmo…. Geometria Sagrada…. A linguagem mais próxima da Criação.

DANÇA PESSOAL

Dançar é sentir um certo tipo de liberdade que não é concedida pela regularidade de uma vida utilitária. Dançar significa acreditar que ás vezes é necessário fazer nada. Dançar significa sentir beleza nos ossos. Dance todos os dias nem que seja em pensamento. Dançar é uma forma de agradecer a Deus. Dançar é uma forma de se sentir vivo. Dance sua fragilidade e sua força Dançe o exercício da presença Dançe a mudança Dance a superação de si mesmo Dance para a vida.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

EPIFANIA DANÇANTE

Primeiro respirar, sentir a própria respiração e sentir-se de volta para o presente. Depois prestar atenção nas nossas raízes, nossos pés, nossas pernas. O importante é ficar consciente ao primeiro sinal de ausência de si mesmo. Num mundo conectado onde bloquear um aplicativo, ou ficar sem Internet é motivo de pânico, não entendo porque a alienação de si mesmo não nos causa desespero. Busco sempre notícias de mim, através do outro, isso quem me ensinou foi o meu mestre Rolando Toro, criador da Biodança,"a poética do encontro". Estar de corpo e alma na vida. Existem muitos caminhos para encontrar esta conexão com a vida, ser orgânico. Encontrei sentido na vida através do meu corpo, principalmente quando danço. Quando sinto meu corpo, esse espaço misterioso que me conduz aos meus mistérios. Senti meus passos hoje, passeando no parque com o meu cachorro e observei o diálogo comigo mesma e a dança do vento balançando as folhas das árvores. Senti desejo, senti beleza. Senti vontade de entrar na mata e dançar também. A cada dia me encontro com o meu lado selvagem e começo a acordar do sono da realidade. A realidade pode ser construída por nós, agora eu sei que é possível construir novos olhares, novos mistérios acerca do mundo, Essa é a grande epifania da arte. Hoje usando o método peripatético do Filósofo Grego Aristóteles, literalmente andar pensando, me permito pausar o mundo, para entrar no meu espaço de tempo, ser eu mesma.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A ÚLTIMA DANÇA

Li um frase do grande mestre do Butoh Kazuo Ono (1906-2010),ele foi um dos criadores do Butoh uma dança que surgiu no Japão pós guerra, nos anos 50. Kazuo Ono nos disse que era para se "dançar sem pedir licença como uma flor nascendo". Segundo a estética desta arte que tinha como proposta a subversão das convenções, caracteristicas assumidas pelas vanguardas,era uma fusão da tradição milenar do Japão com a vanguarda européia, como o surrealismo, o expressionismo e as danças Japonesas como o Nô e o Baguru. O Butoh busca uma forma de expressão que não seja necessariamente coreografada, com movimentos lentos, sem movimentos estereotipados que remetam a uma técnica específica. O Butoh preocupa-se em expressar a individualidade do dançarino-ator, sem máscaras e véus de alegoria; expressar o que o ser humano tem de verdade em sua alma, em seu espírito, mesmo que para isso se desvende o que pode haver de mais sórdido, solitário e de trevas no interior do dançarino. E para que isso seja expresso, não é possível que o meio pelo qual se dá a expressão seja preso à convenções que mascaram a verdade da alma humana. O que deve ser feito, segundo a filosofia Butoh, é libertar-se das formas do corpo e do pensamento. E foi justamente o que aconteceu comigo. Estava numa roda, com amigos dançantes e não fui convidada a dançar e nem me convidei, a dança me chamou e não consegui pedir licença como sempre faço, não havia pensamento,mas não conseguia parar de dançar,era o meu corpo numa qualidade de presença e transcendência sem nenhum limite,julgamento ou técnica, sequer havia um tema a ser dançado, era eu mesma na minha dignidade e coragem. Me oferecendo a mim mesma,sem nenhuma explicação, o que realmente importava era a verdade que exalava dos meus movimentos.E todos ficaram parados e em movimento, com os olhos e os corações conectados aos meus olhos e coração. Foi um momento de viver o sublime, viver o aqui e agora sem amanhã. Eu era uma dança, uma meditação, um convite. Estas coisas demoram a acontecer, mas quando um grupo está totalmente embalado pela alma, sem egos, ou pensamentos em detrimento das ações, a magia da nossa humanidade consegue sair da prisão dos nossos medos no corpo e nosso ser começa a flutuar e tudo pode acontecer, até viver o sublime que habita em cada um de nós. Para mim foi uma morte, uma ultima dança que fechava um ciclo dentro de mim. Era uma dança de morte e ressurreição porque a dança me disse que posso entrar e dançar,que alguns medos e crenças foram rompidos.E principalmente a crença de que não mereço ter prazer. Conquistar o meu prazer de viver, está sendo uma das minhas maiores celebrações e que venham mais mortes.Viva a vida. No final uma amiga me abraçou e me disse que se sentiu exclusiva e eu me senti única!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

LINGUAGEM SECRETA

Na véspera do Natal, estávamos varando a noite conversando,eu e minha irmã sobre a ausência de nossa mãe na nossa vida,apesar da sua presença.Minha irmã fala a metalinguagem comigo, porque também tem a linguagem de si mesma como foco de investigação,e eu também,apesar dos percursos diferentes. Nós nos costuramos através da arte e nos fazemos sentido assim, através da poética corpórea no nosso cotidiano, ela na palhaçaria e eu na dança.Conversamos sobre como preenchemos os nossos vazios, tentando agarrar o vazio diante da vertigem e da derrapagem.Num certo momento lembrei de um curso que fiz cujo a premissa era uma frase do filósofo Nistsche sobre como andar na corda bamba e se manter equilibrado diante do abismo.Olhamos nossa mãe,sua presença vulnerável que a velhice inside. Tudo certo sabedoria sempre, mas ele o vazio estava lá sussurrando baixinho submerso no meio dos festejos natalinos e a maternidade que se processou de modo torto, como em tudo na nossa Vida.Mas o que parece torto se revela como o supra sumo da nossa humanidade e se desvela na arte que é nosso parto, o nosso parimento diário de nós mesmas.Pode ser que o vazio que ainda não alcançamos,seja o caminho e o método,mas para os nossos filhos a maternidade se fez presente,com o sagrado da vida dizendo sim. O princípio do não dito, que se faz voz e memória do corpo que se transforma na nossa matéria prima e principalmente em cura e colo para o mundo.Até aquilo que parece esquecido não morre para o corpo e se manifesta através dele.

FESTIVAL DIONISIUS - NORA

Recentemente participei do festival Dionisius na serra Gaúcha. Esse festival é movido pelo rito praticado por nossos ancestrais,que é v...