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quarta-feira, 19 de julho de 2017

CORPO- MEMÓRIA E IDENTIDADE

Minha dança não me define, mas foi e continua sendo meu espaço de expressão da minha palavra não dita. Não existe construção de destino e identidade sem liberdade, e o lugar onde me sinto livre é quando estou dançando. Reescrevo minha natureza morta, vejo minha humanidade e busco entender os sentimentos dos outros para me recriar em cena e na vida. Sou minha matéria-prima, meu relevo disforme, minha semente mal plantada, meus olhos diante de um mundo que me devora se não ficar e me definir no meu espaço interno. Porque preciso dançar nem que seja sozinha diante do espelho, dos meus bichos e das minhas plantas. São meus sonhos privados que me levam a levar minha alma para o universo. Sendo quem sou no espaço que me permito, pernas, braços, olhos e bocas que podem me escrever no livro da vida. Não sei se fica claro para todos, quando afirmo que o corpo tem memória. Muita gente ainda pensa que esta é uma tarefa do cérebro. Me vejo na revelação do que Merleau-Ponty denomina de "olhar corporificado", em que o corpo ativo na interação com o mundo produz a percepção e experiência. Ontem estava no grupo que faço parte da Biodança e foi nos ofertada a oportunidade de deixar os pensamentos em casa para trabalharmos o nosso corpo através da experiência. Um exercício muito utilizado nesta técnica corpórea, é a reprodução de um ninho. Todos os corpos ficaram deitados no chão, colados e embaralhados sem julgamento ou identificação com alguém ou algo. No espaço que estava deitada, percebo um leve acariciar na minha cabeça, principalmente no meu cabelo.Voltei imediatamente para a minha infância, quando era cuidada pela minha avó, e ela trançava meus longos cabelos antes de dormir enquanto me narrava histórias mágicas com um delicioso chá de capim santo, colhido por ela do seu quintal.O cheiro da minha infância. Eu que nesse dia estava muito assustada com o mundo e com medo de viver, queria ficar invisível e até sem respirar,era este o meu grande plano do dia, me esquecer por alguns segundos e não me acontecer mais nada. Me deixe aqui sem existir por favor. E aquela carícia amorosa me transportou no tempo para o lugar mais sagrado do mundo, o instante onde ainda era um papel branco, com poucos medos e muitos sonhos, e através da memória despertada por esse gesto de afeto, voltei a viver e fiquei com vontade de ser novamente. E para coroar a experiência tão transformadora, este carinho virou um colo e depois eu pude dar colo também, e depois fomos para a varanda nos ofertar a lua e diante de nossas presenças nossos corpos nos revelaram que não precisamos lamentar nada, porque no nosso corpo nenhuma experiência se perde, e quando a experiência não é boa temos a oportunidade de ressignificar, e quando o corpo não tem o registro temos a capacidade de gravar a cada experiência uma nova memória. Sim, somos um livro aberto para novas edições. No meu caso que tive uma mãe que não sabia lidar com a maternidade delegando esta função à minha avó,a cada experiência de receber colo que tenho,recebo o colo dela, e a sinto como minha mãe e posso honrá-la, recebo a prova viva de que através de outros braços posso vivenciar o colo amoroso de minha mãe que ficou perdido no tempo. Este é o grande mistério revelado que nos foi negado, porque a história do conhecimento também foi no ocidente também a história da negação do corpo e da vida. Portanto a urgência do reconhecimento do corpo como parte integrante do nosso processo de criação de identidade e de pertencimento no mundo. O ser humano que tem a oportunidade de integrar o pensar, agir e sentir promove revoluções. Imagine que dançar para mim é me encontrar com a matéria volátil que me define. Lembrei da amiga de Simone de Beuavoir,(9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), Violette Leduc, Escritora que encontrou sua emancipação e libertação através da literatura. Violette Luduc, misturou vida real e sonho e se fez compreender e entregou sua alma para o mundo e assim não havia mais desculpas para se esconder, não precisava mais ser segundo ela " um deserto que monologa".

terça-feira, 18 de julho de 2017

UMA NOITE INDIANA

Sonhei que pintava o cabelo de castanho e só percebia quando alguém me avisava, no sonho até pensei em retomar a cor preta, mas algo em mim aceitara a mudança. Acordei pensando nas mudanças sutis que ando percebendo em mim, mas que permanecem invisíveis para o mundo e principalmente para o meu campo de atuação e o laboratório de relações que faço parte.Me sinto de volta. Andei levando muitos nãos e fui me encolhendo. Não a ponto de desistir, mas a ponto de perder a confiança.Andei num processo de investigação muito intenso sobre minha identidade na vida e na minha dança. Fiquei na escuta e na acetação de minha vida e mudança nos detalhes que fazem muita diferença, apesar de sutis. Percebi que consigo sair de casa decepcionada ou triste, que faço minhas coisas,apesar do medo e que posso mudar de plano se assim eu desejar, estou mais pronta para propor o que sinto que minha alma precisa na dança.Andei fazendo experimentos, novas linhas de atuação e tenho percebido minha força e energia de transformação. São mudanças que percebo na apropriação de minha linguagem que anda se fortalecendo na medida que me aceito e percebo meus dons. Semana passada aceitei um convite para dançar a convite de três músicos de alto nível, o convite foi feito um dia antes da apresentação. Me apresentei ao lado de Bernardo Bettencourt (oud),Mahmoud (darbuka), André Luiz (Sitar), Seria uma performance improvisada com três músicos e instrumentos de culturas diferentes, dialogando comigo que faço uma dança autoral tendo como princípios éticos e matéria-prima o estilo bharatanatyam de dança clássica Indiana. E no começo já deixei claro que não tinha o selo de qualidade da India, não tinha guru, e que minha formação foi e é construída ao longo do tempo com artistas Indianos e brasileiros. Eu disse sim e ainda durante a apresentação usei um instrumento de percussão nos pés, dancei e toquei acompanhando os músicos. Eu quase não creditei, e na na verdade eu nem pensei em nada, só queria dançar, me colocar a serviço da arte, da união e da beleza. A arte reuniu quatro artistas que estavam fazendo seu ofício numa noite de inverno.Oferecemos nosso coração e vontade de ampliar a percepção e as fronteiras de quem sai de casa para fugir de suas rotinas e jantares na sombra de uma luz. O tempo que passa e eu sinto que estou numa mutação e a cada encontro comigo, me escuto, e sei que agora posso comemorar pequenos avanços, limites que estou aprendendo a estabelecer e principalmente viver a minha vida, arte, amores sem me preocupar com a aceitação dos outros,esta menina carente que mora dentro de mim está aprendendo a ser amada por mim mesma. Foi nesse momento também que minha arte me revelou para o meu marido, eu vi seus olhos orgulhosos no carro, quando ele me disse: você é uma artista! Então o certo é ir, mesmo com medo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

KALI

Realizei uma vivência para um grupo de mulheres tendo como tema a Deusa Kali. Sugeri que cada mulher antes da aula escrevesse o que significava a língua para elas, no sentido amplo o que estava preso,contido ou o que foi falado sem pensar, ou até o não dito. Muita coisa foi revelada nesta breve roda de conversa,onde muitas vezes somos esmagadas pelo simples fato de sermos verdadeiras e revelarmos o que sentimos. Comecei a oficina trazendo esta deusa guerreira que é representada com a língua de fora, vencendo os demônios com armas,sangue. Sua representação simbólica é vasta porque ela é negra,nua, exibe um colar de caveiras e uma saia de braços, carrega nos braços segurando com as mãos cabeças decepadas,espada, laço, enfim armas, por outro lado é a grande mãe, aquela que não permite a violência contra a mulher, que nos mostra a importância de termos garras e ao mesmo tempo flores e delicadeza nas mãos. Neste círculo de mulheres senti a beleza dos encontros das mãos em forma de garras, das flores emanando de cada gesto das mãos, das pétalas caindo sobre nosso colo e a alegria de sermos mulheres. E quando ensinei os gestos de Kali,todas nós entramos no nosso reino das sombras e cortando cabeças e infinitos nãos que ouvimos da vida, eu vi nosso coração doendo despedaçado até as nossas ancestrais, mas também vi dores convertidas em lágrimas e agradecimentos por sermos quem somos. Somamos poesia, cantos e celebração em forma de emoção e a sintonia com a alma que precisa se construir, honrar o masculino e a descoberta de que o precisamos nesta vida, além de conhecer nossa força e delicadeza é encontrar nossa terra, nossa raiz e olhar para a nossa intuição,acreditar na potência do invisível, do sutil.Foi com grande alegria que me despedi destas mulheres guerreiras do coração, levando um pedaço da alma de cada uma dentro de mim, todas elas agora dançam comigo, porque cada tecido que bordo dentro de mim, tem guardado uma perda, uma dor, uma alegria, um abuso, um parto, uma vitória, enfim uma dança de essências que se misturam e me transformam numa mulher. Como disse Simone de Beuvoir( 1908-1986) " Não se nasci mulher, torna-se"

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O SOM DA FÚRIA

Assisti um documentário sobre uma cantora norte Americana, chamada Nina Simone, fiquei impressionada com a verdade e sua integridade.Ela falava sobre ser enquadrada no "Jazz", e ela contestava veementemente, afirmando que a sua música era" música clássica Negra".Morreu amargurada, foi impossível convencer alguém do contrário. Ela dedicou anos de sua vida estudando piano para ingressar numa prestigiada instituição,e foi negado o seu ingresso por ser negra. Lutou pelos direitos civis, lutou muito, sua fúria, ficou marcada na sua arte. Quando a arte fazia parte do cotidiano, não havia o "culto ao artista", não havia a necessidade de rótulos. O mercado sempre viu a arte como um produto, e a necessidade de rotular para assegurar lucros, nada contra o dinheiro. Percebo que é difícil fazer arte sem patrocínio, a cada dia, talento não é ter um dom, afinal todo mundo tem. O que distingue um artista é a necessidade visceral de executar e concretizar uma ideia. Estamos em busca de fazer algo com profundidade e ao mesmo tempo existe a pressão da sobrevivência. Eu estou a cada dia me distanciando destas armadilhas e ao mesmo tempo preciso encontrar caminhos para financiar meus projetos, não consigo desistir deles, é como se fosse uma segunda pele.Eles ficam povoando meus pensamentos como fantasmas, imagens aparecem, sonhos com temas recorrentes, é complicado não fazer, ficamos neuróticos, incompletos. Portando pesquisar uma linguagem e realizar uma ideia é o que me faz sentir a vida." E não se trata de dançar e sim de me sentir viva. Continuo sendo complexa, e olhando para a minha sombra. Estou em constante processo de pesquisa, e não sei quando isso vai virar espetáculo, eu me recuso a ser algo que ainda não criei. Vou continuar sendo "um ponto fora da curva" até encontrar minha estética, minha maneira de conversar com o mundo.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O CORPO COMO EXPERIÊNCIA E DEVIR

Vivemos em vários mundos e direções muitas vezes opostas ao que a nossa alma pede. Muitas vezes até esquecemos do nosso maior aliado, nosso corpo. O corpo ensina e quando deixamos a experiência se manifestar através do corpo encontramos o nosso vazio, o inefável, o numinoso. O conceito de devir vem do latim, devenire, e significa chegar. É um conceito filosófico que significa a mudança pelas quais as coisas passam. O conceito de "se tornar", nasceu na Grécia antiga, pelo filósofo Heráclito de Éfeso no século VI A.C., que disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação. Somos feitos de ciclos,de qualquer experiência que leve o corpo para vivenciar estar vivo. E quando menos esperamos temos algum entendimento de nós mesmos, uma revelação do corpo para nós. O conhecimento acontece onde as palavras não alcançam, os pequenos átmos de segundos de presença, quando nossas vozes internas param de falar e apontar julgamento e definições. O ideal são trabalhos corporaes que liberem esse estado de presença de qualidade e rompam com o tempo e o espaço. Somos o devir, o tornar-se,"um poema inacabado", impermanência. Somos seres agarrados a vontade de possuir, ter, acumular e tudo o que a vida nos pede é para viver no presente e liberar tudo, experiências, memórias e desejo de posse. Desapegar talvez seja um dos nossos grandes desafios. Eu escolhi viver através da experiência proporcionada pelo meu corpo. Aprendo todo dia a corporificar e liberar as emoções guardadas, a resgatar a minha sacralidade no cotidiano, encontrar Deus nos detalhes. Ontem na minha aula de Biodança, conversamos como nossos ancestrais, eu tenho muito orgulho do meu grupo, tentamos juntos apontar um caminho para acessar esse espaço do desapego, do sentimento de que estar vivo. Vivenciar o milagre de fruir, saborear, sentir sua própria vibração,estar presente no presente. Ser humano já é uma experiência, encontrar nossa humanidade é o nosso desafio. Antes da supremacia do pensamento, o corpo, as sensações e a relação com a natureza eram simbióticas. A história e o pensamento como detentor de todas as respostas para a condição humana foi matando a vida em nós. Construímos nossa história negando a vida em nós.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

IMAGINAÇÃO NA ESCOLA

O escritor José Saramago afirmou que é preciso sair da ilha,para regressar à ilha e ressignificá-la, não foi exatamente como ele disse, mas gostaria de citá-lo como meu primeiro pensamento de consolo, depois da experiência que vou relatar hoje. Fui convidada junto com uma professora a ajudar crianças da faixa etária dos nove aos 12 anos a criar uma coreografia para uma apresentação; como a única referência e identificação que os estudantes tinham era o funk, hip hop e dança de rua, resolvemos colocar alguns elementos,apesar de não dominarmos estas técnicas. O que me chamou a atenção foi a total paixão que eles nutriam por estas danças.E muito mais surpresa também foi quando eu pedi para ouvir as letras, que prontamente foram cantadas em coro por eles. Fiquei parada cercada pelos estudantes, ouvindo as músicas que mais pareciam crônicas sobre o cotidiano deles. Não conseguia conciliar meu olhar para aqueles rostos suaves e olhares pueris, com o peso daquela narrativa que mais parecia o jornalismo que é veiculado na televisão e em tabloides baratos, com o seu desfile de morte, traição, injustiças e desventuras. Cuidei bastante para não criticar e ao mesmo tempo acolher. Me chamou a atenção uma música que dizia que a único desejo de uma certa personagem era casar e ter uma família tradicional, encontrar o seu grande amor, casa e quando fica grávida morre no parto e outros desfiles de mazelas que nem cabem neste pequeno texto. Como que em pleno ´seculo XXI ainda existem identificação das meninas com uma vida sem objetivo e sonhos de mudar o mundo? Porque não acreditam mais?Na minha opinião falta o mergulho no simbolo.Fiquei com a alma pequena, tentando perceber quando foi que mataram a imaginação na escola. Ou quando foi que o mundo subjetivo e as emoções coloridas brotadas e embaladas por sonhos perderam a necessidade de beleza tão inerente à condição humana, como um ser humano pode viver tendo perdido a capacidade de se encantar? Sem saber que seu corpo é sua casa e sua grande fonte de descobertas? A supremacia do pensamento é uma ilusão.Não estou sendo categórica e fico torcendo para que algum projeto bem mágico esteja acontecendo em alguma escola neste momento, mas são minorias. Eu me pergunto se faz sentido decorar tanto conteúdo, sem a experiência no corpo. Acredito que a escola precisa incluir o papel do corpo como matéria-prima no aprendizado,a imaginação precisa voltar a ocupar os bancos da escola, o lúdico e aquilo que nos faz construir memória e aprendizado sobre o outro e sobre nós mesmos. Precisamos escutar nosso corpo, nossas emoções e principalmente olhar a vida com lirismo. E a arte é um caminho para que possamos mergulhar nos símbolos, mitos, lendas e tudo o que possa aquecer nossa alma, e tornar o mundo um lugar quentinho e suave,mesmo que seja só na nossa imaginação.

ANTÍGONA

Denise Stoklos, atriz criadora do método Teatro essencial, reconhecida internacionalmente com sua metodologia reconhecida e ensinada nas mais prestigiadas instituições do mundo,trouxe para Brasília três espetáculos incríveis. Tive a oportunidade de assisti-los.Foi e continua sendo uma oportunidade de riqueza de transbordamento de alma, que me alimentará por muito tempo. A arte quando é verdadeira e profunda se instala dentro da gente e faz morada de oásis para os nossos desertos. Das inúmeras reflexões que fiz até agora, tem uma que está gritando dentro de mim e precisa ser dita. Como hoje está ficando muito difícil encontrar escuta de qualidade, não gostaria de falar algo tão profundo num lugar infértil.Portanto, espero que você que vai pausar sua vida por alguns instantes para me visitar,que você possa ler como a delicadeza de uma folha caindo de uma árvore pela ação do vento, o que vou te contar. Denise me disse, e para todo mundo, que na Grécia antiga quando alguém ficava doente, o médico tratava do paciente escolhendo uma peça de teatro para curar sua alma, se o paciente precisasse entender a injustiça por exemplo, ele indicava Antígona que é uma peça que tratava de injustiça.Meu coração bateu forte, minha alma dançou por dentro. Porque eu acredito no poder da arte para curar e elevar nossa essência.Interessante que vou montar Antígona. Meu próximo projeto de dança é inspirada nesta tragédia grega do Sófocles. Apresentar um espetáculo de dança é sonhar publicamente e destilar sua alma após construir silêncio e presença dentro de mim mesma a duras penas. É refletir o tempo todo sobre a importância de dizer tudo o que sinto para um mundo anestesiado de sentimento, automatizado por opiniões formadas e deformadas. No palco temos a oportunidade de celebrar o encontro do humano diante de sua humanidade.O espelho de nossa incapacidade de ver o óbvio. É através da celebração da presença que nosso ser pode se encantar pela espécie humana e criar a capacidade de sonhar de se importar com o rumo que queremos seguir.