quinta-feira, 31 de agosto de 2017

" EU SOU TREZENTOS"

Assisti um documentário sobre a guerra na Síria, mais precisamente sobre Komane, que foi invadida pelo Estado Islâmico e foi totalmente devastada.Os curdos perseguidos se refugiaram na Turquia, e aos poucos estão voltando para a sua cidade, suas origens e tentam reconstruir o que sobrou da cidade. Me chamou a atenção uma mulher que encontrou sua casa toda destruída e não estava lamentando nada e sim estava feliz por voltar para suas memórias, sua cultura e por estar viva. Outro ser humano incrível se dedicou a difícil missão de desativar as bombas que foram deixadas,ele arriscava sua vida para salvar as gerações futuras de morrer caso uma bomba explodisse, e foi o que aconteceu com ele, que morreu tentando livrar os habitantes de sua cidade de mais mortes.Fiquei muito impressionada com a humanidade retratada no meio de uma total falta de recursos, falta água, saneamento básico, comida, praticamente tudo e mesmo assim eles preferem voltar a viver como refugiados. Eu vi beleza naqueles olhos que já viram tudo que contém o terror, beleza no meio do sofrimento, uma vontade de resgatar em cada gota oferecida o valor da vida, a importância do humano. Pensei na nossa cultura ocidental que fala tanto de paz e amor e ao mesmo tempo está tão amortecida e anestesiada que a dor do outro não é vista. Fiquei contemplando aquelas histórias, como o médico que está cantando e resgatando as danças e cantos como resistência e sentido, a esperança. Deve ser por isso que nós precisamos da arte,para nos mostrar o caminho de transcendência da dor ou alguma resposta para o sofrimento. Estudei na faculdade o gênero teatral teatro do absurdo, as primeiras peças de teatro que trabalhei como atriz foram " A cantora careca" do Dramaturgo Eugéne Ionesco (1909-1994) e do Qorpo Santo (1829-1883- Porto Alegre), escrito desta forma mesmo, que me fizeram pensar na condição humana e o paradoxo do cotidiano. Eu nunca pensei que até chegar com todo o peso da verdade na minha cara, que tudo o que eu via de falta de sentido na condição humana através das relações humanas eu presentifiquei no meu corpo e na minha voz em cena, foi uma ligação automática que deu nome a todas as contradições da minha família a tudo o que via. E foi numa busca incessante por sentido e beleza que decidi investigar a condição humana pela via da beleza transcendendo a dor, porque eu sei o quanto me custa caro me sentir incompreendida. Quando entro em cena é por pura tentativa de ser aceita deixando minha alma nua, meu corpo pensamento cansado de me entender e fazer parte da espécie humana, é quando todo o meu estado de espírito pequeno e rotulado, transbordasse a embalagem que sou para muitos e minha humanidade saísse refletida, é como se minha vida a partir daquele momento passasse a fazer sentido e a vida deixasse de ser assimétrica, apesar de que a beleza da vida está na simetria da assimetria, no equilíbrio no desequilíbrio e na impermanência. Ultimante ando chorando e rindo ao mesmo tempo, acho que estou começando a entender que sou trezentos, igualzinho me ensinou Mário de Andrade(1893-1945). Estou escrevendo ao som de dos Beatles, Let it be, deixa estar.

O PROCESSO E O BELO

A certa altura de uma das entrevistas mais fascinantes desta coletânea, o crítico inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra detalhes sobre os desafios técnicos que enfrentou para elaborar as Torqued Ellipses, declara-se impressionado com a beleza das peças. O escultor então responde que não está interessado nesse tipo de qualificação, e sim no grau de inclinação das obras. Seu interlocutor persiste no assunto, dizendo que todo artista é como um gato concentrado na caça, alheio a tudo que o desvie de seu objetivo e, portanto, despreocupado com a aparência de seus movimentos. Segundo o crítico, são os outros que veem beleza no que ele faz. Do manifesto "Lista de verbos, 1967-1968" (1971) ao texto "Desenhos para o Courtauld" (2013), Richard Serra se apresenta como alguém interessado mais no fazer do que nos resultados. Ao longo de cinco décadas de produção, seus depoimentos enfatizam a busca por resultados imprevisíveis, capazes de apontar novos caminhos para a escultura e para o desenho. Em outra passagem notável, ao comparar os trabalhos tardios de Matisse e Picasso, Serra explica sua preferência pelo primeiro. Matisse, quando acamado, teria reinventado a maneira de delimitar a forma com seus recortes de papel, enquanto Picasso, seduzido pelo próprio talento, teria abandonado a experimentação. Richard Serra faz parte de uma geração que se formou no ambiente estimulante das universidades norte-americanas do pós-guerra, e para a qual a escrita foi uma prática constante, uma maneira de fomentar o debate crítico em torno das obras. Os textos aqui reunidos foram selecionados a partir das coletâneas Richard Serra: Writings, Interviews¹ e Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008)² e de depoimentos recentes publicados em catálogos e pequenas edições. Eles abordam momentos-chave da trajetória de um dos principais protagonistas da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influente há tanto tempo é sua capacidade de periodicamente surpreender o público e a crítica com novas pesquisas derivadas de seu próprio fazer ? "o trabalho vem do trabalho", ele costuma dizer ? e de uma relação dialética com a história da arte e a contemporaneidade. É sobretudo nas entrevistas que ele expõe os desdobramentos internos de uma obra à outra, o processo que o levou das Splashs e Castings às peças apoiadas (Props) e, destas, à criação das esculturas site-specific. Em mais de um depoimento, o artista aborda a relação independente, porém implicada, entre seus desenhos e suas esculturas ? o desenho é um meio privilegiado para a reinvenção de procedimentos e, ao mesmo tempo, uma parte integrante das esculturas, com os limites definidos pelo corte funcionando como linhas. As conversas com David Sylvester e Kynaston McShine abordam o processo de elaboração das esculturas de grande porte realizadas a partir da década de 1990. Elas não são mais site-specific; são espaços fechados que têm o poder de desorientar o sentido de ortogonalidade, lançando o espectador numa espécie de vertigem, ou, em certos casos, numa sensação de imprevisibilidade semelhante à experiência a que o próprio artista se propõe em sua prática. Os depoimentos revelam também fracassos e momentos de crise, histórias de projetos rejeitados por arquitetos e instituições e também pelos espectadores, além de brigas públicas em defesa de obras e ideias. As narrativas acabam por enfocar não apenas a trajetória de Richard Serra, mas conceitos e questões fundamentais da arte recente. Textos como "Shift" (1973) e "Saint John's Rotary Arc" (1980) trazem análises acuradas das condições para a instalação de esculturas numa paisagem natural e num espaço urbano de grande circulação, respectivamente, de modo que se compreenda, no caso de Serra, de que maneira a forma responde em certa medida ao contexto, para depois revelá-lo, incluí-lo e modificá-lo. Shift e Saint John's Rotary Arc são obras que representam o avesso da ideia de cubo branco e foram realizadas num momento em que a busca por uma interação mais concreta entre a arte e a vida era uma das principais pautas artísticas em debate. Em Yale e na cena cultural nova-iorquina dos anos 1970, Serra teve contato com alguns dos personagens mais importantes da segunda metade do século XX. Seus encontros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resultam em relatos saborosos e revelam aspectos centrais de sua formação. Mas as referências vão muito além da arte contemporânea ou dos movimentos com os quais sua obra tem uma conexão mais direta. O artista surpreende ao citar seu interesse, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gravidade nas obras de Claes Oldenburg, ou ao relatar seu aprendizado sobre a integração da pintura à arquitetura com os muralistas mexicanos. O minimalismo é apresentado como uma fonte, mas também como um movimento ao qual foi preciso se contrapor. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jardins zen de Kyoto foram absorvidos de uma maneira muito particular, filtrados pelos interesses que motivam o próprio trabalho de Serra. Parece haver uma correspondência entre a materialidade explícita das obras de Richard Serra e o estilo franco de suas palavras. Nas duas instâncias, o artista se afasta de qualquer metafísica. Suas reflexões sobre o espaço como conteúdo da obra, sobre a ação da gravidade, sobre os limites das formas e dos materiais estão associadas a experiências físicas e ao enfrentamento de problemas concretos. Seus escritos revelam-se uma parte constitutiva de seu processo de trabalho, veículos de ideias que se materializam em ações. ¹ SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994. ² Idem. Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010. Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS. desenhos, matisse, picasso, richard serra, david sylvester, esculturas Este texto de Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS, é a apresentação do livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, que será lançado em 29 de maio no IMS-RJ na abertura, para convidados, da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, com a presença do artista.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O CAMAREIRO FIEL

Assisti ao filme "O camareiro fiel",que narra o cotidiano de uma companhia de repertório do mais importante dramaturgo de todos os tempos e um dos mais brilhantes artistas da história, poeta, escritor e ator William Shakespeare,durante a segunda guerra mundial. O ator, líder da companhia, chamado de Sir, doente e com a alma ammargurada, luta desesperadamente com seus próprios conflitos, a dedicação do seu camareiro, diante da companhia de atores idosos, isentos do serviço militar. Fiquei pensando no papel da arte, diante do desespero da guerra, conflitos, crises econômicas e toda a sombra que envolve ser humano. Um diálogo com o camareiro me tocou profundamente,acredito que quem faz arte, em qualquer parte do mundo, sentiu um desejo de continuar fazendo teatro, dança,ou simplesmente continuar vivendo,apesar da idade, da rotina, da crise, da alienação e ausência muitas vezes de profundidade e sensibilidade para a poesia diante de um mundo caótico. O personagem nos fala que a sorte escuta nossos esforços. E deseja que cada palavra seja um escudo contra selvageria,uma proteção contra o terror.Segundo ele, a vida é feita de luta e sobrevivência. Eu acrescento o sonho. .

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MASSALA

O meu arquivo corporal, o corpo, é um reservatório de memórias registradas para facilitar o meu. processo. Penso a minha dança como centro. Estou num momento de revelação, não quero perpetuar meu movimento dentro de uma" camisa de força" , acredito profundamente na técnica e no treinamento aliado à disciplina para se ter um ponto de partida, Depois de um certo tempo, precisei olhar o meu corpo, ouví-lo e transformá-lo em minha matéria -prima. No palco quero demonstrar minha técnica, minha emoções e verdade." Desejo que a dança apareça e não a dançarina, dançar silêncio, pausa, respiração ,pés, mãos, olhos, energia que promova encantamento, e que a platéia sonhe junto comigo. Eu escolhi o treinamento corporal da dança clássica Indiana aliada a outras técnicas corporaes que possibilitam a imersão na arquitetura do movimento integrado. Esse traçado do mapeamento do energético no corpo,que é realizado sem mágica e imediatamente. Investigação das ações físicas com dramaticidade, senão cai no movimento vazio, sem carga psíquica. No palco uma dança autoral ,a dançarina como centro do processo criativo . Assim penso a minha dança Estou num momento de revelação, não quero perpetuar meu movimento dentro de uma" camisa de força" acredito profundamente na técnica e no treinamento aliado à disciplina para se ter um ponto de partida. Depois de um certo tempo, precisei olhar o meu corpo, ouvir e transformá-lo em minha matéria -prima. No palco quero demonstrar minha técnica, minha emoções e verdade, até onde sei que é.para descrever Aprendi que o corpo não mente. Massala- Garan massala- É um termo genérico originalmente utilizado na culinária indiana para descrever a mistura de duas ou mais ervas, especiarias e aromatizantes. Estou acertando meu tempero, meu aroma através da investigação de mim mesma e de todas as conexões que faço neste mundo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ODE A SUTILEZA

Hoje fui a uma palestra e descobri uma infinidade de percepções da realidade alterada como por exemplo as quatro formas de avaliação do diagnóstico para o déficit de atenção e que existem uma infinidade de limitações que são geradas por uma deficiência no processamento no cérebro. Existem além do padronizado,um caleidoscópio de formas de ver ,sentir e entender a realidade e são graus de percepção do ambiente,das cores dos sons. Descobri que existem pessoas que vêm os números coloridos e outras que vêm as letras dançando. Me parece que existe um universo muito grande a ser desvelado, onde a sensibilidade precisa puxar a cadeira e sentar.Temos uma sociedade que está começando a perceber que é impossível padronizar todo mundo e a cada dia a voz da diferença está ganhando força. A escola pode punir um aluno que tem uma dificuldade de processar um som, ou uma palavra,muitas vezes alguém pode ser muito visual aprende mais com imagens do que com o som.É o meu caso, sofri muito na escola e ainda tenho dificuldade de estar confortável no mundo, por ter uma percepção diferente. Não me importo com coisas, perco celular e objetos o tempo todo e esqueço de muita coisa mesmo, sou classificada de avoada a estranha e até maluca mesmo, porque valorizo ideias, preciso criar e faço isso o tempo todo, sou do tipo que coloca o arroz na panela e esqueço queimando já que estou imaginando uma coreografia, ou uma aula ou pensando sobre o mundo, e quem convive comigo me entende e me respeita, já que sou toda abraço e doação e inteira para o que realmente importa.Sou responsável, mas não fico mais descabelada por conseguir subir num palco e executar uma coreografia e no cotidiano não consigo ficar um dia sem esquecer, perder ou fazer alguma confusão.Mas estou lá assumindo meu lado esquisito e me colando ao padrão.Meu defeito está visível e eu agradeço por fazer parte de minha história, ainda bem que minha percepção da realidade não é linear, se não como dançaria o inusitado, as oposições ou a tridimensionalidade? Mas eu tive a sorte de sobreviver sendo esquisita e de gostar de ser como sou, mesmo sabendo que muitas vezes ser sutil e cultivar poesia num mundo que exige funcionalidade o tempo todo é um ato de bravura. O ideal mesmo é fazer omo aquela sabedoria japonesa do vaso que quando quebra é colado com um esmalte dourado, porque o defeito é uma parte inseparável da história objeto, eles precisam ser aceitos e não escondidos. Como dizia o mestre da psicanálise Jung, precisamos acolher a nossa sobra e a nossa luz. Encerrei a noite vendo a diva do Jazz,Billie Holiday( 1915-1959) cantando Strang fruit uma canção que narra o absurdo que eram os linchamentos dos negros nos Estados Unidos, eles eram mortos e pendurados em árvores com a metáfora do fruto estranho. Esta música teve um papel importante na denúncia de uma ação que era mero entretenimento e uma forma de dizer ao negro que mesmo se ele tentasse lutar ele deveria saber qual era o seu lugar. Mas a imagem que está na minha mente é dela em 1939, cantando uma música proibida, que ela deixava para cantar no final do show, com uma luz negra,iluminando o seu rosto, com a sua Gardência atrás da orelha. Relatos de quem teve o privilégio de vê-la é que no final não havia uma única alma branca ou negra que não se sentia estrangulada,era um silêncio seguido pelo som de mil pessoas suspirando. Isto é o que uma atmosfera pode fazer com a nossa percepção, mesmo não estando lá senti com eles.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

BARAKA:MIRABAI.m4v

" UM INSTANTE DE BELEZA É UMA ALEGRIA PARA SEMPRE"

DEPOIMENTO DO PROFESSOR /DOUTOR REINALDO GUEDES MACHADO, FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UnB) SOBRE MIRABAI “Não faz muito tempo. Maria (MIRABAI) foi minha aluna na disciplina de Teoria das Artes no curso de pós- graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. A turma era hetereogênea: alguns alunos arquitetos, um licenciado em educação artística, um bacharel em História e ela. Visando aproveitar os diferentes saberes ali reunidos solicitei como trabalho escolar que cada qual elaborasse uma apresentação baseada em suas vivências anteriores no campo artístico. Maria (MIRABAI) dançou, na pequena praça em frente ao centro acadêmico, lugar de trânsito dos que se dirigem para a próxima aula, onde permanecem os que descansam, namoram ou discutem a política estudantil em toscos e velhos sofás. Pouco a pouco, a faculdade agitada e ruidosa naqueles momentos de intervalo entre aulas, silenciou. Paradoxalmente, como se fora som, o silêncio, foi-se propagando pelas salas vizinhas e atraindo alunos, professores e servidores que se acomodavam como podiam para apreciar a beleza que acontecia inesperada num lugar inadequado! Que sabíamos nós, meus alunos, colegas e eu, da dança indiana para apreciar a arte que se realizava naquele momento? No entanto, ainda que incapazes de uma apreciação judiciosa, todos fomos envolvidos pela verdade profunda que emanava das mãos, dos olhos, do movimento do corpo da dançarina. A opacidade pesada da matéria dava passagem ao espírito que a conduzia e nos reunia num espaço e num tempo além da contingência concreta do cotidiano. Isso aconteceu e eu me lembro, para confimar John Keats: Um instante de beleza é uma alegria para sempre. (Endymion, em tradução livre)”.

DANÇA DA CHUVA

Estou pesquisando sempre o eixo que emana na transição do efeito da dança na dançarina e o trabalho da dançarina sobre si mesma. Um c...