sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lendo um livro, enquanto aguardava a minha vez. Num gesto intuitivo olhei para trás e vi aquela senhora com uma barriga enorme numa postura conformada esperando sua vez resignada. Eu simplesmente não aguentei, chamei a senhora e pedi para que ela fosse para o início da fila,lugar seu de direito.Observei as pessoas na imensa fila, todos indiferentes, a maioria impacientes loucos para pagar contas, sacar dinheiro, a maioria amortecidos diante da tela dos seus celulares e absortos nos seus mundos,cada um dentro de sua caixa. A senhora se aproximou de mim muito agradecida, me dizendo que o seu filho ia nascer nesta semana.Realmente fiquei pensando nesta criança que já vai nascer num mundo onde espaço e tempo são relativos e a percepção da realidade está cada dia mais refratária.Só nos resta intender o absurdo em que vivemos. O corpo continua sendo visto como pecado,para uma parcela da sociedade que ainda está vivendo na Idade Média e a arte como sempre é um espelho da sociedade. Foi visível a elevação do termômetro do conservadorismo diante da relação corpo, espaço,tempo.E o que era para provocar reflexão se transformou em discurso de ódio para muita gente que não busca o sentido profundo das coisas e vive mergulhada no discurso oficial.Minha abordagem aqui é sobre a crise de idéias e a ignorância de um pais que não dá acesso à população à arte, ainda que isso está de fato acontecendo diante dos nossos olhos e o governo realmente está abolindo o ensino de arte nas escolas, praticamente de uma maneira difusa e evasiva, como é feita hoje nos moldes da ditadura do mal gosto. É uma crise de percepção que reduz o olhar sobre o outro e a empatia. Isso está criando uma crise e deixa claro como ficamos automatizados e movidos à ressentimentos e intolerância com as escolhas do outro, porque se não trabalho minhas emoções, memória e alma, o corpo não mergulha em profundidades e nada nos afeta.Como no filme Blade Runner que nos dá a sensação de que as máquinas são mais humanas que os humanos. Vi uma matéria sobre um japonês que casou com um robô. O que eu sei é que ainda falei com todos na fila, que se alguém reclamasse chamaria o guarda para assegurar o direito dela.Indiferença total, estava falando com mortos vivos. Ninguém da fila teve nenhuma reação, o negócio era o dinheiro e cada um com o seu cada um. Mas o que isto tem a ver com o meu blog? Escrevo sobre as minhas sensações no meu corpo e a relação com o espaço e o que percebi nesta fila foi uma realidade muito comum, o fato é que quanto mais distantes de nós mesmos, mais geramos indiferença em relação à realidade que nos cerca. Como o personagem do livro o estrangeiro do escritor Albert Camus, o Sr. Meursault, uma figura absurdista, que mostra a crise do homem do seu tempo: um homem sem projeto pré-dado, sem destino e, principalmente, sem sentido algum na sua existência. A experiência no corpo é que nos faz sentir a vida em nós, o milagre da existência. É quando eu percebo no meu corpo o lugar que ocupo através do espaço que abro dentro e fora de mim. É quando a vivência no corpo te afeta e te faz afetar.É quando os olhos passam a descobrir a experiência no cotidiano, onde devolvemos nossa humanidade para a nossa casa,nosso corpo.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

DANÇA QUÂNTICA -CORPO- VIBRAÇÃO

Dançar diz respeito ao sentimento de êxtase frente ao Universo. Aquela sensação de perplexidade frente à beleza e complexidade de um Universo infinito, mas desvendável, pelo menos em parte. Temos o universo contido dentro de nós e é através do corpo que ele se manifesta. Sim, é possível viver o milagre da vida "aqui e agora", sem gurus, fumacinhas ou trombetas tocando, anunciando algo surgindo por uma abertura apoteótica no céu. Portanto, a experiência do contato com o sagrado está ao alcance de todos. Sem distinções ou privilégios. E dançamos, fazendo parte da dança cósmica da vida. O filósofo Alemão Nitzsche disse" Não acredito em um Deus que não dance", porque o universo dança dentro de nós e é através do corpo que nos ligamos ao divino que habita em nós . Estamos precisando de ter a sensação de pertencimento com tudo que há, a tecnologia cria esta falsa ilusão de conexão, mas e quando a bateria acaba e não existe tomada disponível? Vem uma sensação de não pertencimento. A conexão vem da alma e da profunda viagem consigo mesmo.E ela é feita integrando a mente, como o espirito e a alma. formando uma constelação. Dançamos o caos, as estrelas, formamos mandalas no chão com os nossos corpos unindo corações, braços e pernas e, pouco a pouco, o inefável aconteceu. Numa experiência atemporal, a verdadeira transcendência. O significado profundo de estar com outra pessoa num movimento de abertura para ver e sentir profundamente quem eu sou e compartilhar com o outro. Dançamos a nossa essência e a possibilidade de transformar esse mundo tão perverso em paraíso. Precisamos escutar a vida, abrir o coração para os detalhes, observar os" recados" da natureza, a verdadeira dança da vida. Afirmo que as melhores experiências da vida são vivenciadas no corpo quando estamos distantes do corpo, viramos poeira cósmica,perdemos uma parte da vida acontecendo dentro de nós. Quando perdemos a capacidade de sentir e sonhar e o resultado é o vazio, buraco negro para onde somos tragados em nossa sombra. A necessidade do sublime está contida no cotidiano. O sagrado pode estar na simplicidade. Numa xícara de chá que tomamos ou na leveza de deixar o corpo fluir através do movimento. Ou, ainda, ao contemplarmos uma obra de arte. Toda experiência pode – e deveria – ser sagrada. A física quântica já confirmou que o pensamento, o sentimento e a emoção precisam estar alinhados para mudar padrões e crenças. A dança pode abrir espaços dentro de nós e ampliar a nossa consciência criando unidade e modificando a sensação de fragmentação e isolamento. Somos todos um.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

CORPO NARRATIVO

"o pensamento vem do corpo". trazendo para o presente o estado efêmero da dança. A escrita e a criação de símbolos permite a perpetuação de uma coreografia que pode ser reproduzida em outro lugar, ou criada em lugares simultaneamente, além de facilitar o estudo e sistematização. Pensar o movimento e associá-lo ao cotidiano. A video-dança e outras plataformas digitais,e a pesquisa de vários teóricos e bailarinos sobre o corpo em estado de atuação, contribuem para ampliar a criação de novos signos, o diálogo transcultural, para dar acesso a novos pesquisadores e melhorar o diálogo tradição e inovação. O Natyashastra é o mais detalhado e elaborado de todos os tratados sobre a dança, teatro e musica. Considerado como um dos textos mais antigos do mundo é a fonte de minha inspiração. Há alguns anos sendo dançarina-intérprete-criadora, investigo esta relação corpo-texto. A dança que desconhece o dilema teatro e dança, porque ambas se manifestam de maneira simbiótica numa única manifestação.O corpo é um sistema de símbolos e memórias que podem ser acessadas a serviço da mitologia pessoal de cada um, ou universal. A diferença é que a arte corpórea oriental esse texto foi codificado e sistematizado há milênios,a atriz-dançarina só precisa aprender esse vocabulário e executá-lo. Nesta arte improvisar é impossível. No nosso caso a gestualidade pode ser codificada no caso do balé clássico, que tem um repertório que pode ser compreendido e encenado no mundo todo, e pode ser uma linguagem específica de cada estética que pode ser a dança contemporânea,o tango,dança Flamenca e outras danças que têm a sua complexidade e a manifestação da sua origem simbólica e cultural. Somos diferentes no aspecto narrativo quando a técnica passa a ser uma veículo que acolhe o território da inovação. Um músico quando vai tocar tem como instrumento aliado á técnica a partitura, da mesma forma uma atriz-dançarina pode criar uma partitura para servir de elemento narrativo em cena. É possível ser a narradora de si mesma e a protagonista de si mesma. Um corpo pode ser traduzido em cada parte pela palavra e através de sua expressividade pode ser um livro que quando aberto é território de revelações , emoções e memórias.Desde os primórdios,nosso ancestrais usavam o gesto para se comunicar, o desenvolvimento da fala e dos gestos foram aquisições resultado de um processo de busca, até a descoberta do polegar opositor,a fabricação de instrumentos e todas as descobertas importantes até hoje. Com toda inovação ainda necessitamos de ouvir histórias, de acalentar o nosso coração e ouvir o que o outro tem para contar. Infelizmente o corpo é o último a saber, é nítido o empobrecimento da linguagem gestual no cotidiano, é como se o corpo estivesse numa "camisa de força", ou no mínimo ele pode ser usado para fins associados a nossa cultura do corpo magro e esbelto, em detrimento do corpo que sente, afeta e é afetado. Portanto buscar narrar histórias através do corpo é uma grande possibilidade de ampliar nosso lugar no mundo, porque é através do corpo que todas as nossas memórias estão armazenadas, e a ciência já comprovou que estão gravadas até no nosso DNA.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A ARTE DE DAR

Sou uma dançarina-atriz que tem como princípio de pesquisa o processo, valorizo o caminho, as descobertas e os encontros que a dança me proporciona. Dancei recentemente numa universidade para um grupo da chamada terceira idade, ou pessoas com mais de 50 anos. Eu senti naquelas pessoas uma manifestação muito rica, uma necessidade de beleza e uma vibração elevada. Percebi neste momento a arte de dar.É quando você olha para alguém e você tem a chance de devolver a humanidade de alguém ou resgatá-la da invisibilidade, que muitas vezes nem é percebida. Eu sei o que é sentir esse afago da vida quando me sinto invisível. O filme Barton Fink dos irmãos Coen, é uma descrição muito rica do que é a vida de um artista sensível e criador que realmente quer doar algo de belo para o mundo.Tem uma cena linda, quando ele finalmente depois de ter sofrido um bloqueio criativo, ele era roteirista de Hollywwod, com sua solidão e felicidade única, sai para comemorar sua vitória solitária por ter conseguido finalizar o roteiro do filme e ninguém dá valor. Num mundo uniformizado ele grita e aponta as mãos para a cabeça dizendo onde estava a sua farda: "Minha farda está na cabeça" e quando vai apresentar o roteiro para o magnata da indústria do cinema é execrado, porque só tinha sentimentos. Na minha opinião é esta solidão misteriosa que caracteriza um criador. Mas o que escrevo aqui é sobre outro tipo de dor, a dor da invisibilidade. Fiquei sabendo através de uma pesquisa sobre invisibilidade, sobre como machuca não ser visto, notado, muito comum nas pessoas que estão em situação de rua, ou trabalham na rua, mas pode ser encontrada em qualquer lugar, e em qualquer pessoa, é uma indiferença que machuca, um mundo onde ninguém sorri ou olha nos olhos, esta dor tão humana que é a falta do reconhecimento da presença do outro. Talvez por dançar com os meus olhos, eu ofereço esta presença, não estou no palco me exibindo. O que faço é uma troca silenciosa, uma troca justa e honesta. No final da apresentação vi aqueles olhos silenciosos e agradecidos, e eu realmente recebi muito mais. Um senhora me perguntou como eu consegui ser tão leve em cena e me disse que eu tinha salvado o seu dia, que estava muito difícil. Interessante foi uma senhora que me filmou e ficou me pedindo para postar o vídeo que fez da minha apresentação no you tube e diante de minha negativa ficou perplexa porque eu não queria, como se fosse impossível alguém se expor tanto e ao mesmo tempo ser muito reservada. Eu sou realmente estranha. Esta senhora é costureira, eu a convidei para ser minha aluna gratuitamente e ela aceitou prontamente e já se imagina nos palcos, eu vi tanta sinceridade e felicidade nela! E para mim foi tão pouco, e ela ainda me deu outro presente, ela escreve poesias lindas, tem a poesia dentro de si mesma, costura como ofício na vida e se costura pelas palavras. Por isso é importante ter um caminho interno, para não se deixar afundar, porque o medo de se expor e parecer vulnerável e da sensação de fracasso é muito maior do que exercitar a nossa presença diante de outra presença,e assim vamos escolhendo permanecer anestesiados por entretenimento fácil, televisão, redes sociais, emoções baratas que inibem nossa capacidade de sentir amor e compaixão e de realmente ficarmos com a alma nua diante da beleza de ser humano. Acho que é isso que busco com minha dança, entrar em conexão profunda com qualquer desconhecido, através da suavidade dos meus olhos e mãos, esta eterna busca pelo humano,ser mais humilde, como na raiz da palavra humanidade humus, terra.Dar e receber nos deixa próximos da terra e de nós mesmos.

domingo, 29 de outubro de 2017

PAPEL BRANCO

Histórias para acalentar a alma. Sonhei que estava terminando uma apresentação e convido o público para subir ao palco para comer doces. Convidei a criança de cada um para se deixar envolver pela magia da presença. Os espaços para o lirismo, precisam ser preservados. A sombra gigante que estamos envolvidos necessita de sonhos e de muita luz. Estamos construindo beleza, cooperativismo e um mundo holístico e ao mesmo tempo cercas, muros, repressão, retrocesso.O que me assusta não é o frenesi e sim o excesso de informações negativas da indústria do medo, em detrimento da difusão de projetos ou novas idéias.O mundo está cheio de possibilidades, só é necessário difundir. Eu tenho a alma vinculada à poesia, da potência das idéias e da utopia de mudar o mundo. Não consigo conceber a vida sem sonho,criação, poesia e liberdade. Atualmente falamos mais de pessoas e fatos do que de ideias. E reflexão sobre como melhorar o mundo é fundamental. Adoro ter projetos.Eu preciso da síndrome do papel branco, para expressar minhas idéias e materializar meu universo, criar novos mundos.Lançar minha garrafa ao mar. Vou me costurando através de vários caminhos, e muitas vezes, com antagonismo da ideia inicial.construindo parcerias,trocas, e grandes intercâmbios e encontros. A literatura, a pesquisa para dissecar minha técnica, a natureza como minha aliada, para serem transformadas em gestos, movimentos. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto. A arquitetura tem papel fundamental na criação coreográfica, a geometria sagrada e a relação do espaço com o corpo e o tempo. A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade, o silêncio, a pausa, o autoconhecimento, o diálogo que vou criando dentro de mim diante do mundo. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar do óbvio, do caminho fácil, da minha sombra, a minha essência, que é minha matéria de alquimia transformada em cena. Encontrar uma linguagem lírica, permanecer no mistério, não significa alienação, significa expressar a poética do meu ser e transformá-la em sentido para a alma de alguém, posso falar da morte, do terror, de perdas, de encontros e desencontros com o público, declarar meu amor à humanidade.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

E O SILÊNCIO SE FEZ VOZ

Na vida quando começamos a tomar consciência do nosso caminhar, vamos colecionando sutilezas e afetos. Nossa palavra, ação e pensamento começam a nos decifrar e a moldar nossa essência.Lembro de dois aprendizados que são constantes na minha vida, o primeiro é que palavra é mantra, o segundo é que somos capazes de mudar nossa vibração, sintonizar e atrair o que queremos. Eu estou escrevendo sobre o aprendizado de mais de trinta anos e só agora o que aprendi faz parte do cotidiano de muita gente e a física quântica está aí para provar cientificamente que somos energia e que as pessoas e lugares que frequentamos fazem parte do nosso campo e que é exatamente neste lugar e através do relacionamento com estas pessoas que estão todos os registros de memórias e experiências que precisamos para crescer. Portanto nossa família, e os lugares mais desfiadores para a nossa alma são colocados neste espaço e tempo cósmico para realizar transformações em nós. É como se a terra fosse o casulo e nós as lagartas sempre em mutação.Partindo sempre destes dois aprendizados que me acompanham, fui me refinando com o tempo e depois da dúvida, da certeza e da minha complexidade como pessoa que tem a pergunta como mantra. Fui ao teatro fazer uma apresentação de dança,eu fazia parte da programação. teatro cheio, a técnica do teatro toda afinada com a luz que pedi, música no ponto, maquiagem, figurino, tudo perfeito. Entro em cena com a plena certeza de que ia morrer. É sempre assim comigo, posso dançar quantas vezes forem necessárias, mas sempre tenho esta impressão de que estou me atirando no ar sem paraquedas ou rede de proteção.E o improvável aconteceu:estava em cena, concentrada, aguardando a música que começa suavemente, e de repente, a música pára de tocar, é interrompida.Em fração de segundos tinha que tomar uma decisão, o público me olhando sem saber de nada. Não ia morrer diante do público ávido de beleza e encantamento. Nunca! Comecei a dançar naquele silêncio único da platéia diante da minha presença sincera. E comecei a dançar sem música e comecei a preencher a música com a melodia da minha voz.Dançava e simultaneamente narrava com meu corpo acompanhada pela minha voz história narrada, com o instrumento de percussão que uso nos tornozelos. Eu era a melodia, era a percussão, a voz, o teatro e a dança. Fui razão, emoção e ação, ao vivo e a cores, sem edição e nenhuma muleta, era o aqui e agora sem medo. Eu que sempre escrevi sobre silêncio nas minhas postagens e quem me conhece sabe o quanto aprecio e busco o silêncio, viver o aqui e agora, equilibrar o agir, sentir e pensar, fui desafiada pela vida e não tinha como fugir de mim mesma.O fato é que me entreguei de corpo e alma a esta experiência de ser o meu erro, que me especializei tanto em errar e acertar que parece que o errado, o torto, o caos, o inusitado compõem a minha história de acertos, vivo na vertigem tentando segurar o espaço tempo na palma de minhas mãos.No final completamente preenchida de mim mesma, tive o privilégio de ouvir as palmas calorosas da platéia.Saí do teatro com o coração exposto, a alma lavada, mas ainda um pouquinho insegura. Como todo artista que se doa, palmas não significam muita coisa, tampouco tapinha nas costas dos amigos,tem algo dentro de nós que só nós sabemos, é um espaço que ninguém penetra, é nosso lado inefável, um cantinho da nossa alma que dialoga conosco o tempo todo, é metafísica e um outro eu que faz parte de nós. E saí do teatro sem falar com ninguém e fiquei pensando, se tinha cumprido com o meu papel, se minha voz tinha chegado até a platéia.Sou atriz de formação e profissão, mas tinha muito tempo que não atuava e não projetava minha voz.Para minha sorte o corpo tem memória. No dia seguinte, antes de minha apresentação, primeiro os técnicos vieram de uma forma vibrante me elogiar e que ficaram desesperados na cabine diante do inusitado caso da dançarina dançar sem música, apesar de que na dança contemporânea música é só um detalhe, a dança transcendeu a música, assim como as artes visuais transcenderam a moldura e a música os músicos, muitas vezes os sons são produzidos por máquinas. Depois recebi o elogio de amigos sinceros, e dei de presente para eles o benefício da dúvida, pois saíram do teatro perguntando se se eu tinha planejado executar minha dança daquela forma ou se era falha técnica, ou trágica. Num mundo pontuado por certezas, onde todo mundo tem opinião formada e sabe muito de coisa nenhuma, foi surpreendente deixar tudo no ar sem resposta, deixar a imaginação continuar funcionando depois de uma apresentação,como num filme de final insólito, onde você precisa criar o seu próprio final e ligar os fatos narrados.Por isso gosto muito da "jornada do herói", elemento essencial para nos identificarmos com alguma narrativa e base para noventa por cento dos roteiros de cinema e afins. Porque é um traço da nossa humanidade, errar, fugir, voltar, refletir, e encontrar uma saída para mudar o mundo, ou no mínimo mudar a si mesmo. O monomito também chamado de "jornada do herói" foi escrito por Joseph Campbell,um estudioso de mitologia e religião (1904-1987) é um conceito da jornada de um determinado personagem, presente nos mitos. O termo aparece primeiro no seu livro, o Herói de mil faces. Esse padrão monomito pode ser encontrado desde a narrativa clássica de Prometeu,até por exemplo na saga Star wars do George Lucas e Matrix, vou ficar só nestes dois exemplos. É uma abordagem que inclui as forças inconscientes do Freud,o conceito Junguiano de arquétipos e a estrutura do ritos de passagens de Arnold Van Gennep. No fim de minha jornada percebi a minha pergunta para esse momento, porque escondi minha voz? O que meu silêncio quer falar e não estou dando ouvidos? Mas ao mesmo tempo que sigo perguntando, eu sei o quanto me sinto integrada e honrada a mim mesma por ter me vencido.

INVERSÃO DESEJADA

Acordei na madrugada ouvindo as batidas do meu coração. Batia forte. Numa madrugada silenciosa num mundo barulhento, eu era o meu silêncio e o único som que ouvi tinha som de vida. Estas experiências incríveis que só quem entrou numa jornada de conhecimento de si mesmo entende, porque são detalhes tão sutis que muitas vezes, não cabe contar em lugar nenhum. Até imagino o diálogo-:Gente eu acordei na madrugada com o meu coração batendo- Incógnita total, e daí? O mundo está pegando fogo e esta aí viajando. Mas eu acredito nas minhas pequenas conquistas, nos lugares que encontro no meu corpo e nas pequenas celebrações. Fico feliz quando termino o dia sem ter tido um único pensamento negativo. Fico feliz quando ligo o som na sala de minha casa e danço para mim. A cada dia sustento esta total falta de sentido na vida, celebrando ter atravessado algumas quedas sem cair no abismo total. Nesse dia que senti a pulsação do meu coração andei nas ruas e olhei as pessoas, seus corpos e vazios. Parei para ver um homem careca, tatuado da cabeça aos pés, com orelhas alargadas fazendo rodas imensas nos lóbulos de suas orelhas, tocando violão, tocando Raul! E do lado um homem chega carregando um gramofone e ao lado dele uma escultura viva de um homem espacial. Fiquei percebendo esta força que nos faz buscar a vida das maneira mais inusitadas possíveis. Acabei tomando um sorvete, andei flanando bastante até voltar à minha existência utilitária de planejar projetos e criar condições de colocar arte no meu cotidiano.Fazer o que preciso para continuar fazendo minha dança,pensando minha existência. Afinal, precisamos fazer o que nos faz melhorar nossa versão de nós mesmos e muitas vezes existir é insistir. Li em algum lugar que a vida é feita de mil nadas.

SOU AMIGA DAS ÁRVORES

Dançar a natureza surgiu em 2008, através da minha experiência com uma árvore que ficava em frente à minha casa. Um dia aconteceu uma tempestade durante a noite e de manhã quando abri as janelas, vi a imagem surpreendente de uma árvore, metade em pé, metade no chão, um raio a cortou ao meio! Era a única árvore da paisagem,trava-se de uma árvore que reinava soberana, enorme e frondosa.Eu sempre a cumprimentava ao acordar. Incrível foi a maneira digna, como suportou aquele golpe, sua postura de rainha, altiva e digna expondo a sua divisão. Na época pensei em aprender com ela a me manter de pé, íntegra apesar de estar cortada ao meio. O fato é como tirar forças para sair inteira das situações difíceis, depois de ser cortada ao meio por um raio. Acompanhei o seu processo de recuperação e nossa relação foi aprofundando. Até que um dia virou uma dança. Me mudei para outro lugar, e nunca a esqueci. Depois dancei os quatro elementos, fiz coreografias baseadas nos movimentos das árvores, virei muita coisa. O inefável , a chuva, uma árvore,uma escada,um mistério,uma sombra, um jardim, o torto, o erro, o acerto, uma flecha, o contínuo,a que flutua, um barco, a selvagem, uma brisa, o limite, a falta de limite, o caos, eu. É claro que a vida me ensinou a perder um pouco da malícia.Eu acho que encarnei. Sobrevivi a algumas perversidades. Mas isso me deu um grande poder sobre o que estou fazendo agora e consciência da profundidade da minha dança e o que ela provoca, o efeito do meu estado em cena. E assim vou afinando a minha percepção do mundo, ás vezes o som é dissonante. Importante é deixar o caminho aberto, caminhar no vazio, esvaziar, olhar para mim mesma com profundidade e me reencontrar, descansar em mim. Esse processo contínuo de olhar a minha essência e dançá-la, me permitiu encontrar uma relação com a natureza e recriar a natureza dançando dentro de mim.

domingo, 22 de outubro de 2017

DANÇAR

Estudo atualmente as possibilidades do corpo para criar uma dança sutil para todos, independente da idade, classe social e nível de escolaridade. Dança iniciática, cujo objetivo principal é sentir "verdadeiramente" o corpo vivo e o coração pulsar. Apenas o movimento natural da vida. Muitas pesquisas foram realizadas sobre os efeitos da dança e dos movimentos livres. O paradoxo é que sabemos que faz bem, no entanto, poucos querem sair da "zona de conforto". A Idade Média já passou e ainda precisamos comprovar a importância do profundo contato interior. A todo instante, seja através de um gesto sincero, ouvindo uma música ou percebendo integralmente nossa própria presença. Dançar é para todos, não para uma minoria de privilegiados. Precisamos sentir nossos pés se deslocando para encontrar o nosso chão, nossa terra, o território do coração. Precisamos tocar outras mãos, perceber nosso corpo girando e cortando o espaço, girando sem parar até perdermos a noção do tempo. É muito simples, até necessário vez ou outra parar de racionalizar tudo. Sair do "controle" – do "comando" – para então ouvir o ritmo da vida nos levando para espaços desconhecidos e novos. É urgente sentir emoção, chorar, sorrir, rir e gargalhar quando o prazer nos deixar extasiados de amor e vontade de gritar. É fácil: é simplesmente "Ser". Sentir a própria energia. Conectar com o mais íntimo da alma. Olhar nosso próprio labirinto para iluminar nossa caminhada. Quando danço me sinto assim, integrada ao "todo". Percebo que sou um "Ser" simples, integral, que faz parte da "multidão". Minha impressão é que, atualmente, esse culto exagerado à "celebridade" e a necessidade exagerada de tornar pública a intimidade para o mundo através de redes sociais, é o vazio provocado pela ausência de si mesmo. O indivíduo que está integrado "aparece" naturalmente, porque age no mundo e é protagonista de sua própria vida. Escrevo no meu blog sobre minha relação com a dança e como ela pode melhorar a vida de qualquer pessoa, inclusive daqueles (daquelas) que também são dançarinos/dançarinas profissionais. Fazemos parte de uma teia – e assim vamos tecendo nossas vidas e sonhos. Poesia deveria compor o cardápio da mesa ao amanhecer. Todos os dias.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

DANÇA DA CHUVA

Estou pesquisando sempre o eixo que emana na transição do efeito da dança na dançarina e o trabalho da dançarina sobre si mesma. Um corpo que pode ser afetado pela registro do movimento e pode afetar o outro. Primeiro eu descobri que posso rezar com o meu corpo, principal herança da dança indiana, depois descobri que posso me conhecer e curar minhas emoções através de várias técnicas corporais terapêuticas. E meu caminho foi alargando e cada processo de aprendizado fui incorporando a mim mesma e consequentemente minha forma de dançar que foi mudando também. Descobri que meu corpo tem memória, carrega crenças e toda a bagagem dos meus ancestrais.São tantas descobertas incríveis que dançar virou um grande oceano. Agora quando danço eu sinto que faço parte de um processo de descoberta de mim mesma.Eu sei que é uma pesquisa de linguagem. A dança não aparece do nada, ela é fruto de estudo e treinamento, mas no meu caso estas influências acabam virando mistura, simbiose, sabedoria. Deve ser isso que emana da minha alma quando entro em cena. Talvez a alquimia de transformar dor em beleza, alegria em criação que pode ser o que a verdade dos meus gestos comunicam. Porque é o meu maior objetivo em cena ser verdadeira e profunda, conversar simbolicamente através do meu corpo e levar uma atmosfera amorosa e de sonhos. Rubens Alves me surpreendeu com uma imagem incrível num texto autobiográfico no seu livro o sapo que queria ser príncipe, ele escreveu que uma Aranha tem que tecer a sua teia a partir de si mesma, mesmo que esteja tecendo a teia sobre o seu próprio abismo, e que ele também estava tecendo sua teia a partir dele mesmo, mas que esta construção sairia precisamente do seu coração. Eu me li através dele. Eu acredito que nisso consiste a maior beleza da arte, principalmente a beleza de um livro, porque é no silêncio de nós mesmos que trocamos nossa alma com quem escreve,e nesta troca se revelam mistérios contidos intransponíveis é uma descoberta solitária e honesta, uma troca direta. Infelizmente poucas pessoas têm esse privilégio de encontrar sua alma e iluminar alguma coisa dentro de si. Deve ser por isso que tudo está ficando tão homogênio e intolerante. Essa coisa de se usar muito os dedos em detrimento do cérebro pode causar uma humanidade possuída por imagens de si mesma e como Narsiso poderemos cair num abismo afogados por nós mesmos. Eu não sou contra nada,mas fico preocupada com a arte que será produzida no futuro. Em pleno século XXI, onde eu pensei que tudo havia sido feito e transgredido, ainda somos surpreendidos com a censura e boicote à criação. Ando buscando uma arte que é feita à maneira das Aranhas, sou incapaz de dançar algo que não esteja num processo simbiótico comigo mesma, minha arte é um reflexo de mim mesma e da teia que vou tecendo a partir de mim mesma. Ultimamente continuo tendo a índia como referência de pesquisa, mas os temas que danço tem muito mais a ver com a minha busca espiritual e existencial.A dança é o meu instrumento de crescimento e sei que meu corpo está abrindo espaço para esta dança que é uma cerimônia, um convite para se dançar na alma de quem assiste. Este ano estou fazendo apresentações dentro da programação de uma mostra de dança, cujo intuito é levar a dança para cidades do entorno de Brasília. Ainda fico surpresa com aceitação de minha dança que é diferente de tudo, inclusive da dança clássica Indiana tradicional. Uma estética que apresenta referência à India e no entanto tem muito de minha essência e busca. Como chego à alma das pessoas em cena é um mistério para mim, principalmente as crianças ficam encantadas.O importante é que cansei de tentar me explicar e buscar respostas para o efeito que minha dança causa nas pessoas. Mas no momento estou aprofundando minhas teias que ainda estão em plena construção, ainda me sinto no abismo. Ontem no final da minha aula de Biodança, minha facilitadora me pediu para dançar a chuva. Eu me preparando para ir embora, todo mundo de pé; dancei diante de todas, era um público feminino, dancei chuva, e a sabedoria dos meu braços que eram sinuosos em contradição com o ritmo da terra que recebia batidas dos meus pés.Era uma pulsação, era força e intensidade.Eu estou pronta para viver, para dizer sim. Sem ensaio,coreografia e até concentração, eu aceitei ao convite inusitado e fora do contexto, eu nunca dancei para um platéia em pé, sem nenhum rito ou cânone da dança.Simplesmente fui eu mesma e nem senti necessidade de aplauso. A vida acontecendo dentro de mim por um instante. Eu não dancei a chuva. A chuva estava dentro de mim, virei água.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas que sofrem emocionalmente e as que têm tendência ao suicídio. O grupo é formado por vítimas da desigualdade social alarmante no Brasil.Nossos governantes não atendem esta demanda no sistema de saúde público altamente falido. Esta organização é literalmente não governamental, ela funciona com o apoio de voluntários, psicólogos, e muitos profissionais que atuam fazendo palestras, atendimentos em grupos e individuais.Tudo de graça, e os atendimentos acontecem nas dependências de uma Igreja, sedida gentilmente pelo padre da paróquia. Esta semana fui atender um grupo de vítimas de assédio moral no trabalho. Um grupo pequeno, porque sofre boicote das empresas que não querem associar sua imagem a este assunto tão delicado. Infelizmente quem procura o grupo, já sofreu humilhação, está com a sua dignidade ferida e desempregado, e além da pressão econômica e a falta de espaço no mundo está emocionalmente se sentindo desqualificado e sem forças para reverter a situação. Primeiro eu levei o teatro, eu acredito no poder das respostas incríveis que o corpo dá, e representar através do jogo, têm o poder de ressignificar modelos de autoritarismos muito arraigados nesta "casa grande senzala" que é o Brasil. Quero destacar um exercício que foi muito marcante para mim e para os participantes. Eu dei uma folha para eles e pedi que cada um andasse pela sala imaginando uma situação onde se sentiu pequeno, depois fizesse com o corpo a posição e em seguida escrevesse a palavra que resumia esta situação. Depois pedi que todos andassem expondo sua ferida para que todos vissem. E assim todos caminharam mostrando suas marcas, rótulos e como se sentiam. Depois eu pedi para que eles virassem a página e agora caminhassem pelo espaço pensando num momento em que eles se sentiram grandes e depois parassem na posição e depois de escrito, que experimentassem caminhar novamente expondo suas alegrias, emoções de amor e júbilos. Foi uma vibração bela, ver aqueles corpos sofridos e machucados pela vida, caminhando com dignidade.Dava para ver o brilho nos olhos a postura e o amor exalando na sala. No final nos abraçamos. Observei um participante que fez um depoimento sobre como se sentia pequeno, a palavra gay foi a escolhida por ele e na nossa roda de partilha, ele me disse que o Brasil é muito homofóbico e que ele assume o que ele é e se sente triste quando não é sua competência que é avaliada. Isso me deu uma sensação de revolta.Como que alguém pode ser julgado por ser o que é? De que adianta tanta tecnologia aproximando as pessoas e automatizando as forças no trabalho se a condição humana continua mesquinha? Até quando vamos assistir estarrecidos grandes tragédias no mundo, porque o sistema de saúde de certos países não valorizam a saúde emocional e mental? O que aconteceu no Brasil e nos Estados Unidos é a prova cabal. Não adianta acreditar que a crise é apenas econômica e ética. Temos uma crise baseada na ignorância dos perigos de entregarmos o poder nas mãos de psicopatas.Eu voto inclusive em exames psicológicos em pessoas que pretendem abraçar a política, não é possível que essa ausência de remorso e empatia, e a total sofisticação em saquear o Estado numa ganância incomensurável de poder não seja algo deletério. Pode ser uma pista para entender a mente de um Stalin, Hitler,os militares no Brasil,os banqueiros insanos por lucro por exemplo. Não estou afirmando que todos que estão no poder precisam de tratamento, e muito menos afirmando que uma empresa que desqualifica seus funcionários com toda a sorte de humilhações que se trata de pessoas num estado mental deplorável. Mas eu só queria entender o porquê de uma pessoa assumir um posto de comando e se sentir no direito de maltratar um funcionário que o está servindo. Olhei para aquele grupo e senti tristeza por ver jovens cheios de inteligência, capazes de trabalhar e levar uma vida feliz, bloqueados nos seus destinos, porque sofreram assédio moral.No final eu que recebi, esta é a maravilha de ser voluntária, aprender e ver que apesar de tudo, eles estavam lá olhando para esta situação e abertos para aprender a lidar com este mundo doente com muita luz. A arte é um grande canal de cura. Eu sonho com o dia em que a arte,a cultura e as ideias tomaram o poder. Nesse dia o autoconhecimento será matéria obrigatória na escola, criar, sentir o corpo e desenvolver o sentimento de pertencimento será matéria prima nas escolas, o riso, o jogo e a liberdade de ser o que se é vai contar como base de qualquer formação. A vida precisa habitar a escola, a sombra precisa tirar o bolor desta educação caquética que não ensina ninguém a ter uma projeto de vida para ser feliz, parece que as escolas ensinam muitas vezes a cultura do controle social e do preconceito. Eu sei que existem professores que conseguem furar esta escola morta e transmitem vida.No entanto é preciso ter uma natureza muito sofisticada para não se deixar contaminar.Nossa sociedade precisa na minha opinião questionar,buscar, investigar novas maneira de convivência respeitando cada ser humano. Só assim teremos realmente uma cultura de paz.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

VESTIDA DE VENTO

Segundo o filósofo Gilles Deleuze(1925-1995), o corpo é potência e, ele só produz significado na presença de outro corpo. Interessante que se o corpo é significativo diante da presença, o corpo também é acontecimento. Outro filósofo Baruch Espinoza( 1632-1677) definia o corpo como uma complexa relação de movimento e repouso, velocidade e lentidão e pelo poder de afetar e ser afetado. Esta semana tive a oportunidade de vivenciar no meu corpo o que pode um corpo.Eu estava triste e fui à aula de biodança, e quando fico assim meu corpo fica sinuoso e impreciso nos movimentos. A facilitadora sugeriu um exercício em duplas,era para caminhar pela sala, juntos e em duplas sintonizando o ritmo, com uma música galopante que ressoava dentro de mim. Minha sensação era de total desamparo porque meu corpo não queria ir diante de minha nobre amiga que estava no ar quase voando, ela é assim de uma sutileza sábia desconcertante.Mas é nestas horas que um corpo pode ser afetado por outro e se ressignificar. Meu corpo triste começou a receber olhares de força cheios de significados,os nossos braços se entrelaçavam e minhas pernas bambas começaram a criar forças e de repente estava voando com ela, saltando e rindo, como duas crianças.Sua divina presença diante da minha me curou. É claro que meu corpo está treinado para entrar em sintonia muito fácil, porque já busco acessá-lo há muitos anos. Mas todo ser humano que se deixa levar pelos caminhos do corpo e confia encontra seu sentido e se revela.Importante nesta revelação é que uma vez fisgado, tudo passa a ter significado, a nossa relação com tudo se transforma. Esta presença que significa pode ser muito ampla, esta relação passa a ser com as plantas, os animais e tudo o que nos cerca. A artista Sérvia Marina Abramovic, artista super conceituada na arte do corpo,performance e instalação, em seu documentário'Espaço além- Marina Abramovic e o Brasil. Ela percorre seis estados Brasileiros em busca de processos de cura e de lugares de poder e cura através do sagrado.Marina sempre pensou sua arte como príncipio de interação e compartilhamento entre ela, sua arte e o público, estas relações são simbióticas. Em uma cena, ela firma que a natureza não precisa dos seres humanos, que a arte é um portal e nós da cidade é que precisamos aprender a sentir o silêncio, escutar e ouvir através da natureza e que não precisamos de arte na natureza, precisamos de arte nas cidades, para que além da estética, nossa percepção seja ampliada, nossa sensibilidade seja tocada em cada gesto. Hoje, estava atravessando um jardim,e percebia os raios do sol incidindo sobre elas e algumas folhas caindo, num grande balé e de repente senti um vento muito forte me envolvendo e era uma sensação de abraço do vento me enlaçando toda, me senti viva, sorri sozinha seguindo meu caminho e algumas vezes parava para abrir os braços e sentir, aí lembrava do meu destino e também fiquei pensando se estava ficando maluca por estar tendo um caso de amor com o vento, mas assim deveria ser nossos dias, apaixonados. Sustentei esse momento o quanto pude, porque ele passou e virou passado e eu sei que andarei muitas vezes por esse caminho, mas não serei a mesma, e nem o vento vai passar da mesma forma, portanto a importância de estar presente se relacionando com tudo.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NO VÔO DOS PÁSSAROS

Esta semana ministrei uma oficina com o tema a manifestação do sagrado no voo dos pássaros. Era um grupo composto por um grupo de teatro, onde os integrantes eram todos com idade acima de 40 anos, tinha um integrante de 82 anos e a filha de um aluno de 5 anos.Estávamos todos em perfeita harmonia com nossas diferenças.Levei o grupo para o meu universo que é povoado de seres encantados e mitológicos. O corpo é um grande laboratório de experiências que estão à espera de sua revelação. A diferença de um movimento extenso e intenso é algo que precisa ser falado,quando um movimento é extenso ele apenas é um corpo que se transporta no espaço de um lugar para o outro e quando esse corpo é intenso é a alma que se movimenta e é nesse movimento da alma que acontece a manifestação da alma, ou do sagrado. Expressar algo é revelar o que está oculto é a manifestação do invisível.E foi o que percebi neste grupo a leveza foi tomando espaço em cada um, o corpo foi criando uma beleza única, amor em forma de poesia corpórea.Muito interessante percebermos que ser sutil como os pássaros num mundo denso é tarefa para os corajosos, porque é preciso muita coragem para se manifestar beleza e suavidade no meio dos predadores, sem medo de ter as asas arrancadas. Foi isso que levei para mim nesta oficina, que vale a pena manter a chama da poesia acesa, abrir os braços e voar desde que as raízes sejam cultivadas. Num certo momento contei a história de uma ave mitológica Garuda, e pedi que cada um soltasse sua ave e virasse esse ser mágico meio pássaro, meio gente e vivenciassem sua mitologia pessoal. Eu vi braços abrindo, olhos brilhando, corpos sendo sutileza num grande balé da alma. Voamos.

" A CONSEQUÊNCIA DO DESTINO É AMAR"

O meu corpo comprimido,fechado e com os punhos fechados, a cabeça encostada no chão. Dancei no solo, plano baixo. Dancei a opressão e deixei o meu corpo falar. Os movimentos bruscos brigavam com o chão, com transferências de peso.Meu corpo acessou memórias desconhecidas e num certo momento meu corpo entrou numa vivência muito profunda, me trancando no porão. O corpo é um mistério. A emoção explodiu dentro do corpo, era como se toda a minha musculatura estivesse querendo sair,ampliar. Angustiada por dentro e morta por fora, o corpo se negava a voar. Tenho muitas camadas. Precisei caminhar por minhas retas, curvas, transcender o concreto armado, e me encontrar na assimetria diante do espaço vazio e da aridez do deserto que é algum espaço meu ainda inefável, inominável. Sair da "secura" do "Ser" e penetrar na poesia das árvores e do céu de minha Brasília. Coloquei meu corpo à disposição da grande experiência de dançar opressão, para merecer liberdade. Dancei num segundo momento alegria, força e sensações de brilho e trancendência. Muita coisa acendeu dentro de mim, cheguei e dancei com Deus. No final da dança eu encontrei o olhar de quem me assistia, atônitos, maravilhados com as imensas possibilidades de renascimento em vida. Amigos estudantes das lições do nosso grande mestre, o nosso corpo. Dançar nos palcos da vida e dançar a minha vida, me salvaram da morte. A vida! Seus ciclos, repletos de amigos, família, flores , dores e sabores. Felicidade é estar vivo, inteiro e integrado ao grande mar de mistério que somos nós, os outros e o universo. Para mim isso é Deus, uma grande consciência cósmica, um acontecimento.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

" EU SOU TREZENTOS"

Assisti um documentário sobre a guerra na Síria, mais precisamente sobre Komane, que foi invadida pelo Estado Islâmico e foi totalmente devastada.Os curdos perseguidos se refugiaram na Turquia, e aos poucos estão voltando para a sua cidade, suas origens e tentam reconstruir o que sobrou da cidade. Me chamou a atenção uma mulher que encontrou sua casa toda destruída e não estava lamentando nada e sim estava feliz por voltar para suas memórias, sua cultura e por estar viva. Outro ser humano incrível se dedicou a difícil missão de desativar as bombas que foram deixadas,ele arriscava sua vida para salvar as gerações futuras de morrer caso uma bomba explodisse, e foi o que aconteceu com ele, que morreu tentando livrar os habitantes de sua cidade de mais mortes.Fiquei muito impressionada com a humanidade retratada no meio de uma total falta de recursos, falta água, saneamento básico, comida, praticamente tudo e mesmo assim eles preferem voltar a viver como refugiados. Eu vi beleza naqueles olhos que já viram tudo que contém o terror, beleza no meio do sofrimento, uma vontade de resgatar em cada gota oferecida o valor da vida, a importância do humano. Pensei na nossa cultura ocidental que fala tanto de paz e amor e ao mesmo tempo está tão amortecida e anestesiada que a dor do outro não é vista. Fiquei contemplando aquelas histórias, como o médico que está cantando e resgatando as danças e cantos como resistência e sentido, a esperança. Deve ser por isso que nós precisamos da arte,para nos mostrar o caminho de transcendência da dor ou alguma resposta para o sofrimento. Estudei na faculdade o gênero teatral teatro do absurdo, as primeiras peças de teatro que trabalhei como atriz foram " A cantora careca" do Dramaturgo Eugéne Ionesco (1909-1994) e do Qorpo Santo (1829-1883- Porto Alegre), escrito desta forma mesmo, que me fizeram pensar na condição humana e o paradoxo do cotidiano. Eu nunca pensei que até chegar com todo o peso da verdade na minha cara, que tudo o que eu via de falta de sentido na condição humana através das relações humanas eu presentifiquei no meu corpo e na minha voz em cena, foi uma ligação automática que deu nome a todas as contradições da minha família a tudo o que via. E foi numa busca incessante por sentido e beleza que decidi investigar a condição humana pela via da beleza transcendendo a dor, porque eu sei o quanto me custa caro me sentir incompreendida. Quando entro em cena é por pura tentativa de ser aceita deixando minha alma nua, meu corpo pensamento cansado de me entender e fazer parte da espécie humana, é quando todo o meu estado de espírito pequeno e rotulado, transbordasse a embalagem que sou para muitos e minha humanidade saísse refletida, é como se minha vida a partir daquele momento passasse a fazer sentido e a vida deixasse de ser assimétrica, apesar de que a beleza da vida está na simetria da assimetria, no equilíbrio no desequilíbrio e na impermanência. Ultimante ando chorando e rindo ao mesmo tempo, acho que estou começando a entender que sou trezentos, igualzinho me ensinou Mário de Andrade(1893-1945). Estou escrevendo ao som de dos Beatles, Let it be, deixa estar.

O PROCESSO E O BELO

A certa altura de uma das entrevistas mais fascinantes desta coletânea, o crítico inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra detalhes sobre os desafios técnicos que enfrentou para elaborar as Torqued Ellipses, declara-se impressionado com a beleza das peças. O escultor então responde que não está interessado nesse tipo de qualificação, e sim no grau de inclinação das obras. Seu interlocutor persiste no assunto, dizendo que todo artista é como um gato concentrado na caça, alheio a tudo que o desvie de seu objetivo e, portanto, despreocupado com a aparência de seus movimentos. Segundo o crítico, são os outros que veem beleza no que ele faz. Do manifesto "Lista de verbos, 1967-1968" (1971) ao texto "Desenhos para o Courtauld" (2013), Richard Serra se apresenta como alguém interessado mais no fazer do que nos resultados. Ao longo de cinco décadas de produção, seus depoimentos enfatizam a busca por resultados imprevisíveis, capazes de apontar novos caminhos para a escultura e para o desenho. Em outra passagem notável, ao comparar os trabalhos tardios de Matisse e Picasso, Serra explica sua preferência pelo primeiro. Matisse, quando acamado, teria reinventado a maneira de delimitar a forma com seus recortes de papel, enquanto Picasso, seduzido pelo próprio talento, teria abandonado a experimentação. Richard Serra faz parte de uma geração que se formou no ambiente estimulante das universidades norte-americanas do pós-guerra, e para a qual a escrita foi uma prática constante, uma maneira de fomentar o debate crítico em torno das obras. Os textos aqui reunidos foram selecionados a partir das coletâneas Richard Serra: Writings, Interviews¹ e Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008)² e de depoimentos recentes publicados em catálogos e pequenas edições. Eles abordam momentos-chave da trajetória de um dos principais protagonistas da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influente há tanto tempo é sua capacidade de periodicamente surpreender o público e a crítica com novas pesquisas derivadas de seu próprio fazer ? "o trabalho vem do trabalho", ele costuma dizer ? e de uma relação dialética com a história da arte e a contemporaneidade. É sobretudo nas entrevistas que ele expõe os desdobramentos internos de uma obra à outra, o processo que o levou das Splashs e Castings às peças apoiadas (Props) e, destas, à criação das esculturas site-specific. Em mais de um depoimento, o artista aborda a relação independente, porém implicada, entre seus desenhos e suas esculturas ? o desenho é um meio privilegiado para a reinvenção de procedimentos e, ao mesmo tempo, uma parte integrante das esculturas, com os limites definidos pelo corte funcionando como linhas. As conversas com David Sylvester e Kynaston McShine abordam o processo de elaboração das esculturas de grande porte realizadas a partir da década de 1990. Elas não são mais site-specific; são espaços fechados que têm o poder de desorientar o sentido de ortogonalidade, lançando o espectador numa espécie de vertigem, ou, em certos casos, numa sensação de imprevisibilidade semelhante à experiência a que o próprio artista se propõe em sua prática. Os depoimentos revelam também fracassos e momentos de crise, histórias de projetos rejeitados por arquitetos e instituições e também pelos espectadores, além de brigas públicas em defesa de obras e ideias. As narrativas acabam por enfocar não apenas a trajetória de Richard Serra, mas conceitos e questões fundamentais da arte recente. Textos como "Shift" (1973) e "Saint John's Rotary Arc" (1980) trazem análises acuradas das condições para a instalação de esculturas numa paisagem natural e num espaço urbano de grande circulação, respectivamente, de modo que se compreenda, no caso de Serra, de que maneira a forma responde em certa medida ao contexto, para depois revelá-lo, incluí-lo e modificá-lo. Shift e Saint John's Rotary Arc são obras que representam o avesso da ideia de cubo branco e foram realizadas num momento em que a busca por uma interação mais concreta entre a arte e a vida era uma das principais pautas artísticas em debate. Em Yale e na cena cultural nova-iorquina dos anos 1970, Serra teve contato com alguns dos personagens mais importantes da segunda metade do século XX. Seus encontros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resultam em relatos saborosos e revelam aspectos centrais de sua formação. Mas as referências vão muito além da arte contemporânea ou dos movimentos com os quais sua obra tem uma conexão mais direta. O artista surpreende ao citar seu interesse, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gravidade nas obras de Claes Oldenburg, ou ao relatar seu aprendizado sobre a integração da pintura à arquitetura com os muralistas mexicanos. O minimalismo é apresentado como uma fonte, mas também como um movimento ao qual foi preciso se contrapor. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jardins zen de Kyoto foram absorvidos de uma maneira muito particular, filtrados pelos interesses que motivam o próprio trabalho de Serra. Parece haver uma correspondência entre a materialidade explícita das obras de Richard Serra e o estilo franco de suas palavras. Nas duas instâncias, o artista se afasta de qualquer metafísica. Suas reflexões sobre o espaço como conteúdo da obra, sobre a ação da gravidade, sobre os limites das formas e dos materiais estão associadas a experiências físicas e ao enfrentamento de problemas concretos. Seus escritos revelam-se uma parte constitutiva de seu processo de trabalho, veículos de ideias que se materializam em ações. ¹ SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994. ² Idem. Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010. Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS. desenhos, matisse, picasso, richard serra, david sylvester, esculturas Este texto de Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS, é a apresentação do livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, que será lançado em 29 de maio no IMS-RJ na abertura, para convidados, da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, com a presença do artista.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O CAMAREIRO FIEL

Assisti ao filme "O camareiro fiel",que narra o cotidiano de uma companhia de repertório do mais importante dramaturgo de todos os tempos e um dos mais brilhantes artistas da história, poeta, escritor e ator William Shakespeare,durante a segunda guerra mundial. O ator, líder da companhia, chamado de Sir, doente e com a alma ammargurada, luta desesperadamente com seus próprios conflitos, a dedicação do seu camareiro, diante da companhia de atores idosos, isentos do serviço militar. Fiquei pensando no papel da arte, diante do desespero da guerra, conflitos, crises econômicas e toda a sombra que envolve ser humano. Um diálogo com o camareiro me tocou profundamente,acredito que quem faz arte, em qualquer parte do mundo, sentiu um desejo de continuar fazendo teatro, dança,ou simplesmente continuar vivendo,apesar da idade, da rotina, da crise, da alienação e ausência muitas vezes de profundidade e sensibilidade para a poesia diante de um mundo caótico. O personagem nos fala que a sorte escuta nossos esforços. E deseja que cada palavra seja um escudo contra selvageria,uma proteção contra o terror.Segundo ele, a vida é feita de luta e sobrevivência. Eu acrescento o sonho. .

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MASSALA

O meu arquivo corporal, o corpo, é um reservatório de memórias registradas para facilitar o meu. processo. Penso a minha dança como centro. Estou num momento de revelação, não quero perpetuar meu movimento dentro de uma" camisa de força" , acredito profundamente na técnica e no treinamento aliado à disciplina para se ter um ponto de partida, Depois de um certo tempo, precisei olhar o meu corpo, ouví-lo e transformá-lo em minha matéria -prima. No palco quero demonstrar minha técnica, minha emoções e verdade." Desejo que a dança apareça e não a dançarina, dançar silêncio, pausa, respiração ,pés, mãos, olhos, energia que promova encantamento, e que a platéia sonhe junto comigo. Eu escolhi o treinamento corporal da dança clássica Indiana aliada a outras técnicas corporaes que possibilitam a imersão na arquitetura do movimento integrado. Esse traçado do mapeamento do energético no corpo,que é realizado sem mágica e imediatamente. Investigação das ações físicas com dramaticidade, senão cai no movimento vazio, sem carga psíquica. No palco uma dança autoral ,a dançarina como centro do processo criativo . Assim penso a minha dança Estou num momento de revelação, não quero perpetuar meu movimento dentro de uma" camisa de força" acredito profundamente na técnica e no treinamento aliado à disciplina para se ter um ponto de partida. Depois de um certo tempo, precisei olhar o meu corpo, ouvir e transformá-lo em minha matéria -prima. No palco quero demonstrar minha técnica, minha emoções e verdade, até onde sei que é.para descrever Aprendi que o corpo não mente. Massala- Garan massala- É um termo genérico originalmente utilizado na culinária indiana para descrever a mistura de duas ou mais ervas, especiarias e aromatizantes. Estou acertando meu tempero, meu aroma através da investigação de mim mesma e de todas as conexões que faço neste mundo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ODE A SUTILEZA

Hoje fui a uma palestra e descobri uma infinidade de percepções da realidade alterada como por exemplo as quatro formas de avaliação do diagnóstico para o déficit de atenção e que existem uma infinidade de limitações que são geradas por uma deficiência no processamento no cérebro. Existem além do padronizado,um caleidoscópio de formas de ver ,sentir e entender a realidade e são graus de percepção do ambiente,das cores dos sons. Descobri que existem pessoas que vêm os números coloridos e outras que vêm as letras dançando. Me parece que existe um universo muito grande a ser desvelado, onde a sensibilidade precisa puxar a cadeira e sentar.Temos uma sociedade que está começando a perceber que é impossível padronizar todo mundo e a cada dia a voz da diferença está ganhando força. A escola pode punir um aluno que tem uma dificuldade de processar um som, ou uma palavra,muitas vezes alguém pode ser muito visual aprende mais com imagens do que com o som.É o meu caso, sofri muito na escola e ainda tenho dificuldade de estar confortável no mundo, por ter uma percepção diferente. Não me importo com coisas, perco celular e objetos o tempo todo e esqueço de muita coisa mesmo, sou classificada de avoada a estranha e até maluca mesmo, porque valorizo ideias, preciso criar e faço isso o tempo todo, sou do tipo que coloca o arroz na panela e esqueço queimando já que estou imaginando uma coreografia, ou uma aula ou pensando sobre o mundo, e quem convive comigo me entende e me respeita, já que sou toda abraço e doação e inteira para o que realmente importa.Sou responsável, mas não fico mais descabelada por conseguir subir num palco e executar uma coreografia e no cotidiano não consigo ficar um dia sem esquecer, perder ou fazer alguma confusão.Mas estou lá assumindo meu lado esquisito e me colando ao padrão.Meu defeito está visível e eu agradeço por fazer parte de minha história, ainda bem que minha percepção da realidade não é linear, se não como dançaria o inusitado, as oposições ou a tridimensionalidade? Mas eu tive a sorte de sobreviver sendo esquisita e de gostar de ser como sou, mesmo sabendo que muitas vezes ser sutil e cultivar poesia num mundo que exige funcionalidade o tempo todo é um ato de bravura. O ideal mesmo é fazer omo aquela sabedoria japonesa do vaso que quando quebra é colado com um esmalte dourado, porque o defeito é uma parte inseparável da história objeto, eles precisam ser aceitos e não escondidos. Como dizia o mestre da psicanálise Jung, precisamos acolher a nossa sobra e a nossa luz. Encerrei a noite vendo a diva do Jazz,Billie Holiday( 1915-1959) cantando Strang fruit uma canção que narra o absurdo que eram os linchamentos dos negros nos Estados Unidos, eles eram mortos e pendurados em árvores com a metáfora do fruto estranho. Esta música teve um papel importante na denúncia de uma ação que era mero entretenimento e uma forma de dizer ao negro que mesmo se ele tentasse lutar ele deveria saber qual era o seu lugar. Mas a imagem que está na minha mente é dela em 1939, cantando uma música proibida, que ela deixava para cantar no final do show, com uma luz negra,iluminando o seu rosto, com a sua Gardência atrás da orelha. Relatos de quem teve o privilégio de vê-la é que no final não havia uma única alma branca ou negra que não se sentia estrangulada,era um silêncio seguido pelo som de mil pessoas suspirando. Isto é o que uma atmosfera pode fazer com a nossa percepção, mesmo não estando lá senti com eles.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

BARAKA:MIRABAI.m4v

" UM INSTANTE DE BELEZA É UMA ALEGRIA PARA SEMPRE"

DEPOIMENTO DO PROFESSOR /DOUTOR REINALDO GUEDES MACHADO, FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UnB) SOBRE MIRABAI “Não faz muito tempo. Maria (MIRABAI) foi minha aluna na disciplina de Teoria das Artes no curso de pós- graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. A turma era hetereogênea: alguns alunos arquitetos, um licenciado em educação artística, um bacharel em História e ela. Visando aproveitar os diferentes saberes ali reunidos solicitei como trabalho escolar que cada qual elaborasse uma apresentação baseada em suas vivências anteriores no campo artístico. Maria (MIRABAI) dançou, na pequena praça em frente ao centro acadêmico, lugar de trânsito dos que se dirigem para a próxima aula, onde permanecem os que descansam, namoram ou discutem a política estudantil em toscos e velhos sofás. Pouco a pouco, a faculdade agitada e ruidosa naqueles momentos de intervalo entre aulas, silenciou. Paradoxalmente, como se fora som, o silêncio, foi-se propagando pelas salas vizinhas e atraindo alunos, professores e servidores que se acomodavam como podiam para apreciar a beleza que acontecia inesperada num lugar inadequado! Que sabíamos nós, meus alunos, colegas e eu, da dança indiana para apreciar a arte que se realizava naquele momento? No entanto, ainda que incapazes de uma apreciação judiciosa, todos fomos envolvidos pela verdade profunda que emanava das mãos, dos olhos, do movimento do corpo da dançarina. A opacidade pesada da matéria dava passagem ao espírito que a conduzia e nos reunia num espaço e num tempo além da contingência concreta do cotidiano. Isso aconteceu e eu me lembro, para confimar John Keats: Um instante de beleza é uma alegria para sempre. (Endymion, em tradução livre)”.

domingo, 23 de julho de 2017

O ESTRANHO FAMILIAR

O deserto é uma metáfora da árida paisagem psicológica, onde a criatividade e a geratividade estão ausentes, onde nada floresce e a vida é sem sentido e emocionalmente monótona. Para materializar uma ideia, vou me costurando através de vários caminhos, e mutas vezes com um antagonismo atroz da ideia principal. Literatura para dissecar o universo de idéias para serem transformadas em gesto, movimento. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto.A arquitetura tem papel importante na construção coreográfica, na relação do espaço com o corpo e o tempo.A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar. O papel branco, o momento que simplesmente não sabemos onde nosso período de investigação vai dar.Mais do que qualquer resultado objetivo, de conhecimento ou comportamento, conduz ás fronteiras do desconhecido. Apenas abre.E por ela abrir a significados e sentidos na vivência, para espaços conscientes, convite ao acolhimento do inusitado, não pensado, não vivido.Chego onde não entendo.Vivo o "entre". Por mais angustiante que seja, entrar nesse universo novo,mesmo trilhando um processo temeroso, rumo ao "não sei onde vai dar a estrada", vale a pena concretizar uma ideia, projeto.Eu considero fundamental sair do reino das certezas, das fórmulas prontas, negando as dúvidas, e o não saber.Quando não arriscamos, mergulhados numa falsa segurança, somos impedidos de sentir a emergência do novo. A travessia da criação é bloqueada, e a alma fica no deserto. A dança é a irrigação dos jardins da alma,antidoto contra a desertificação.Somos trezentos, como dizia Mario de Andrade. "A minha casa vive aberta, abre todas as portas do coração".Tornar estranho o que é familiar e familiar o que é estranho, esse foi o tema de uma aula de sociologia que participei quando era estudante de arte. Foi há tanto tempo e continua tão atual. Percebi que tenho esse estranhamento constante. Eu que me dedico a pesquisar uma arte que não busca o óbvio, vejo o efeito de minha atuação no público que é uma mistura de estranhamento e encantamento. Segundo meu antigo professor esta é a fórmula para não se deixar seduzir pela manipulação do gosto. Arte quando não passa pela experiência e pelo estudo da linguagem deixa qualquer um refém da indústria e dos meios de produção que utilizam todos os meios para que a arte vire mero consumo e entretenimento. Esta fronteira entre o que é produzido pela alma impalpável e verdadeiro sem se deixar engessar pela necessidade de dinheiro, é um grande dilema.Todo artista quer reconhecimento do seu trabalho e dinheiro para financiar seus projetos e viver.Eu escolhi fazer e ser minha arte no cotidiano e na vida e lutar unida a todos que buscam o pão com poesia.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CORPO- MEMÓRIA E IDENTIDADE

Minha dança não me define, mas foi e continua sendo meu espaço de expressão da minha palavra não dita. Não existe construção de destino e identidade sem liberdade, e o lugar onde me sinto livre é quando estou dançando. Reescrevo minha natureza morta, vejo minha humanidade e busco entender os sentimentos dos outros para me recriar em cena e na vida. Sou minha matéria-prima, meu relevo disforme, minha semente mal plantada, meus olhos diante de um mundo que me devora se não ficar e me definir no meu espaço interno. Porque preciso dançar nem que seja sozinha diante do espelho, dos meus bichos e das minhas plantas. São meus sonhos privados que me levam a levar minha alma para o universo. Sendo quem sou no espaço que me permito, pernas, braços, olhos e bocas que podem me escrever no livro da vida. Não sei se fica claro para todos, quando afirmo que o corpo tem memória. Muita gente ainda pensa que esta é uma tarefa do cérebro. Me vejo na revelação do que Merleau-Ponty denomina de "olhar corporificado", em que o corpo ativo na interação com o mundo produz a percepção e experiência. Ontem estava no grupo que faço parte da Biodança e foi nos ofertada a oportunidade de deixar os pensamentos em casa para trabalharmos o nosso corpo através da experiência. Um exercício muito utilizado nesta técnica corpórea, é a reprodução de um ninho. Todos os corpos ficaram deitados no chão, colados e embaralhados sem julgamento ou identificação com alguém ou algo. No espaço que estava deitada, percebo um leve acariciar na minha cabeça, principalmente no meu cabelo.Voltei imediatamente para a minha infância, quando era cuidada pela minha avó, e ela trançava meus longos cabelos antes de dormir enquanto me narrava histórias mágicas com um delicioso chá de capim santo, colhido por ela do seu quintal.O cheiro da minha infância. Eu que nesse dia estava muito assustada com o mundo e com medo de viver, queria ficar invisível e até sem respirar,era este o meu grande plano do dia, me esquecer por alguns segundos e não me acontecer mais nada. Me deixe aqui sem existir por favor. E aquela carícia amorosa me transportou no tempo para o lugar mais sagrado do mundo, o instante onde ainda era um papel branco, com poucos medos e muitos sonhos, e através da memória despertada por esse gesto de afeto, voltei a viver e fiquei com vontade de ser novamente. E para coroar a experiência tão transformadora, este carinho virou um colo e depois eu pude dar colo também, e depois fomos para a varanda nos ofertar a lua e diante de nossas presenças nossos corpos nos revelaram que não precisamos lamentar nada, porque no nosso corpo nenhuma experiência se perde, e quando a experiência não é boa temos a oportunidade de ressignificar, e quando o corpo não tem o registro temos a capacidade de gravar a cada experiência uma nova memória. Sim, somos um livro aberto para novas edições. No meu caso que tive uma mãe que não sabia lidar com a maternidade delegando esta função à minha avó,a cada experiência de receber colo que tenho,recebo o colo dela, e a sinto como minha mãe e posso honrá-la, recebo a prova viva de que através de outros braços posso vivenciar o colo amoroso de minha mãe que ficou perdido no tempo. Este é o grande mistério revelado que nos foi negado, porque a história do conhecimento também foi no ocidente também a história da negação do corpo e da vida. Portanto a urgência do reconhecimento do corpo como parte integrante do nosso processo de criação de identidade e de pertencimento no mundo. O ser humano que tem a oportunidade de integrar o pensar, agir e sentir promove revoluções. Imagine que dançar para mim é me encontrar com a matéria volátil que me define. Lembrei da amiga de Simone de Beuavoir,(9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), Violette Leduc, Escritora que encontrou sua emancipação e libertação através da literatura. Violette Luduc, misturou vida real e sonho e se fez compreender e entregou sua alma para o mundo e assim não havia mais desculpas para se esconder, não precisava mais ser segundo ela " um deserto que monologa".

terça-feira, 18 de julho de 2017

UMA NOITE INDIANA

Sonhei que pintava o cabelo de castanho e só percebia quando alguém me avisava, no sonho até pensei em retomar a cor preta, mas algo em mim aceitara a mudança. Acordei pensando nas mudanças sutis que ando percebendo em mim, mas que permanecem invisíveis para o mundo e principalmente para o meu campo de atuação e o laboratório de relações que faço parte.Me sinto de volta. Andei levando muitos nãos e fui me encolhendo. Não a ponto de desistir, mas a ponto de perder a confiança.Andei num processo de investigação muito intenso sobre minha identidade na vida e na minha dança. Fiquei na escuta e na acetação de minha vida e mudança nos detalhes que fazem muita diferença, apesar de sutis. Percebi que consigo sair de casa decepcionada ou triste, que faço minhas coisas,apesar do medo e que posso mudar de plano se assim eu desejar, estou mais pronta para propor o que sinto que minha alma precisa na dança.Andei fazendo experimentos, novas linhas de atuação e tenho percebido minha força e energia de transformação. São mudanças que percebo na apropriação de minha linguagem que anda se fortalecendo na medida que me aceito e percebo meus dons. Semana passada aceitei um convite para dançar a convite de três músicos de alto nível, o convite foi feito um dia antes da apresentação. Me apresentei ao lado de Bernardo Bettencourt (oud),Mahmoud (darbuka), André Luiz (Sitar), Seria uma performance improvisada com três músicos e instrumentos de culturas diferentes, dialogando comigo que faço uma dança autoral tendo como princípios éticos e matéria-prima o estilo bharatanatyam de dança clássica Indiana. E no começo já deixei claro que não tinha o selo de qualidade da India, não tinha guru, e que minha formação foi e é construída ao longo do tempo com artistas Indianos e brasileiros. Eu disse sim e ainda durante a apresentação usei um instrumento de percussão nos pés, dancei e toquei acompanhando os músicos. Eu quase não creditei, e na na verdade eu nem pensei em nada, só queria dançar, me colocar a serviço da arte, da união e da beleza. A arte reuniu quatro artistas que estavam fazendo seu ofício numa noite de inverno.Oferecemos nosso coração e vontade de ampliar a percepção e as fronteiras de quem sai de casa para fugir de suas rotinas e jantares na sombra de uma luz. O tempo que passa e eu sinto que estou numa mutação e a cada encontro comigo, me escuto, e sei que agora posso comemorar pequenos avanços, limites que estou aprendendo a estabelecer e principalmente viver a minha vida, arte, amores sem me preocupar com a aceitação dos outros,esta menina carente que mora dentro de mim está aprendendo a ser amada por mim mesma. Foi nesse momento também que minha arte me revelou para o meu marido, eu vi seus olhos orgulhosos no carro, quando ele me disse: você é uma artista! Então o certo é ir, mesmo com medo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

KALI

Realizei uma vivência para um grupo de mulheres tendo como tema a Deusa Kali. Sugeri que cada mulher antes da aula escrevesse o que significava a língua para elas, no sentido amplo o que estava preso,contido ou o que foi falado sem pensar, ou até o não dito. Muita coisa foi revelada nesta breve roda de conversa,onde muitas vezes somos esmagadas pelo simples fato de sermos verdadeiras e revelarmos o que sentimos. Comecei a oficina trazendo esta deusa guerreira que é representada com a língua de fora, vencendo os demônios com armas,sangue. Sua representação simbólica é vasta porque ela é negra,nua, exibe um colar de caveiras e uma saia de braços, carrega nos braços segurando com as mãos cabeças decepadas,espada, laço, enfim armas, por outro lado é a grande mãe, aquela que não permite a violência contra a mulher, que nos mostra a importância de termos garras e ao mesmo tempo flores e delicadeza nas mãos. Neste círculo de mulheres senti a beleza dos encontros das mãos em forma de garras, das flores emanando de cada gesto das mãos, das pétalas caindo sobre nosso colo e a alegria de sermos mulheres. E quando ensinei os gestos de Kali,todas nós entramos no nosso reino das sombras e cortando cabeças e infinitos nãos que ouvimos da vida, eu vi nosso coração doendo despedaçado até as nossas ancestrais, mas também vi dores convertidas em lágrimas e agradecimentos por sermos quem somos. Somamos poesia, cantos e celebração em forma de emoção e a sintonia com a alma que precisa se construir, honrar o masculino e a descoberta de que o precisamos nesta vida, além de conhecer nossa força e delicadeza é encontrar nossa terra, nossa raiz e olhar para a nossa intuição,acreditar na potência do invisível, do sutil.Foi com grande alegria que me despedi destas mulheres guerreiras do coração, levando um pedaço da alma de cada uma dentro de mim, todas elas agora dançam comigo, porque cada tecido que bordo dentro de mim, tem guardado uma perda, uma dor, uma alegria, um abuso, um parto, uma vitória, enfim uma dança de essências que se misturam e me transformam numa mulher. Como disse Simone de Beuvoir( 1908-1986) " Não se nasci mulher, torna-se"

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O SOM DA FÚRIA

Assisti um documentário sobre uma cantora norte Americana, chamada Nina Simone, fiquei impressionada com a verdade e sua integridade.Ela falava sobre ser enquadrada no "Jazz", e ela contestava veementemente, afirmando que a sua música era" música clássica Negra".Morreu amargurada, foi impossível convencer alguém do contrário. Ela dedicou anos de sua vida estudando piano para ingressar numa prestigiada instituição,e foi negado o seu ingresso por ser negra. Lutou pelos direitos civis, lutou muito, sua fúria, ficou marcada na sua arte. Quando a arte fazia parte do cotidiano, não havia o "culto ao artista", não havia a necessidade de rótulos. O mercado sempre viu a arte como um produto, e a necessidade de rotular para assegurar lucros, nada contra o dinheiro. Percebo que é difícil fazer arte sem patrocínio, a cada dia, talento não é ter um dom, afinal todo mundo tem. O que distingue um artista é a necessidade visceral de executar e concretizar uma ideia. Estamos em busca de fazer algo com profundidade e ao mesmo tempo existe a pressão da sobrevivência. Eu estou a cada dia me distanciando destas armadilhas e ao mesmo tempo preciso encontrar caminhos para financiar meus projetos, não consigo desistir deles, é como se fosse uma segunda pele.Eles ficam povoando meus pensamentos como fantasmas, imagens aparecem, sonhos com temas recorrentes, é complicado não fazer, ficamos neuróticos, incompletos. Portando pesquisar uma linguagem e realizar uma ideia é o que me faz sentir a vida." E não se trata de dançar e sim de me sentir viva. Continuo sendo complexa, e olhando para a minha sombra. Estou em constante processo de pesquisa, e não sei quando isso vai virar espetáculo, eu me recuso a ser algo que ainda não criei. Vou continuar sendo "um ponto fora da curva" até encontrar minha estética, minha maneira de conversar com o mundo.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O CORPO COMO EXPERIÊNCIA E DEVIR

Vivemos em vários mundos e direções muitas vezes opostas ao que a nossa alma pede. Muitas vezes até esquecemos do nosso maior aliado, nosso corpo. O corpo ensina e quando deixamos a experiência se manifestar através do corpo encontramos o nosso vazio, o inefável, o numinoso. O conceito de devir vem do latim, devenire, e significa chegar. É um conceito filosófico que significa a mudança pelas quais as coisas passam. O conceito de "se tornar", nasceu na Grécia antiga, pelo filósofo Heráclito de Éfeso no século VI A.C., que disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação. Somos feitos de ciclos,de qualquer experiência que leve o corpo para vivenciar estar vivo. E quando menos esperamos temos algum entendimento de nós mesmos, uma revelação do corpo para nós. O conhecimento acontece onde as palavras não alcançam, os pequenos átmos de segundos de presença, quando nossas vozes internas param de falar e apontar julgamento e definições. O ideal são trabalhos corporaes que liberem esse estado de presença de qualidade e rompam com o tempo e o espaço. Somos o devir, o tornar-se,"um poema inacabado", impermanência. Somos seres agarrados a vontade de possuir, ter, acumular e tudo o que a vida nos pede é para viver no presente e liberar tudo, experiências, memórias e desejo de posse. Desapegar talvez seja um dos nossos grandes desafios. Eu escolhi viver através da experiência proporcionada pelo meu corpo. Aprendo todo dia a corporificar e liberar as emoções guardadas, a resgatar a minha sacralidade no cotidiano, encontrar Deus nos detalhes. Ontem na minha aula de Biodança, conversamos como nossos ancestrais, eu tenho muito orgulho do meu grupo, tentamos juntos apontar um caminho para acessar esse espaço do desapego, do sentimento de que estar vivo. Vivenciar o milagre de fruir, saborear, sentir sua própria vibração,estar presente no presente. Ser humano já é uma experiência, encontrar nossa humanidade é o nosso desafio. Antes da supremacia do pensamento, o corpo, as sensações e a relação com a natureza eram simbióticas. A história e o pensamento como detentor de todas as respostas para a condição humana foi matando a vida em nós. Construímos nossa história negando a vida em nós.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

IMAGINAÇÃO NA ESCOLA

O escritor José Saramago afirmou que é preciso sair da ilha,para regressar à ilha e ressignificá-la, não foi exatamente como ele disse, mas gostaria de citá-lo como meu primeiro pensamento de consolo, depois da experiência que vou relatar hoje. Fui convidada junto com uma professora a ajudar crianças da faixa etária dos nove aos 12 anos a criar uma coreografia para uma apresentação; como a única referência e identificação que os estudantes tinham era o funk, hip hop e dança de rua, resolvemos colocar alguns elementos,apesar de não dominarmos estas técnicas. O que me chamou a atenção foi a total paixão que eles nutriam por estas danças.E muito mais surpresa também foi quando eu pedi para ouvir as letras, que prontamente foram cantadas em coro por eles. Fiquei parada cercada pelos estudantes, ouvindo as músicas que mais pareciam crônicas sobre o cotidiano deles. Não conseguia conciliar meu olhar para aqueles rostos suaves e olhares pueris, com o peso daquela narrativa que mais parecia o jornalismo que é veiculado na televisão e em tabloides baratos, com o seu desfile de morte, traição, injustiças e desventuras. Cuidei bastante para não criticar e ao mesmo tempo acolher. Me chamou a atenção uma música que dizia que a único desejo de uma certa personagem era casar e ter uma família tradicional, encontrar o seu grande amor, casa e quando fica grávida morre no parto e outros desfiles de mazelas que nem cabem neste pequeno texto. Como que em pleno ´seculo XXI ainda existem identificação das meninas com uma vida sem objetivo e sonhos de mudar o mundo? Porque não acreditam mais?Na minha opinião falta o mergulho no simbolo.Fiquei com a alma pequena, tentando perceber quando foi que mataram a imaginação na escola. Ou quando foi que o mundo subjetivo e as emoções coloridas brotadas e embaladas por sonhos perderam a necessidade de beleza tão inerente à condição humana, como um ser humano pode viver tendo perdido a capacidade de se encantar? Sem saber que seu corpo é sua casa e sua grande fonte de descobertas? A supremacia do pensamento é uma ilusão.Não estou sendo categórica e fico torcendo para que algum projeto bem mágico esteja acontecendo em alguma escola neste momento, mas são minorias. Eu me pergunto se faz sentido decorar tanto conteúdo, sem a experiência no corpo. Acredito que a escola precisa incluir o papel do corpo como matéria-prima no aprendizado,a imaginação precisa voltar a ocupar os bancos da escola, o lúdico e aquilo que nos faz construir memória e aprendizado sobre o outro e sobre nós mesmos. Precisamos escutar nosso corpo, nossas emoções e principalmente olhar a vida com lirismo. E a arte é um caminho para que possamos mergulhar nos símbolos, mitos, lendas e tudo o que possa aquecer nossa alma, e tornar o mundo um lugar quentinho e suave,mesmo que seja só na nossa imaginação.

ANTÍGONA

Denise Stoklos, atriz criadora do método Teatro essencial, reconhecida internacionalmente com sua metodologia reconhecida e ensinada nas mais prestigiadas instituições do mundo,trouxe para Brasília três espetáculos incríveis. Tive a oportunidade de assisti-los.Foi e continua sendo uma oportunidade de riqueza de transbordamento de alma, que me alimentará por muito tempo. A arte quando é verdadeira e profunda se instala dentro da gente e faz morada de oásis para os nossos desertos. Das inúmeras reflexões que fiz até agora, tem uma que está gritando dentro de mim e precisa ser dita. Como hoje está ficando muito difícil encontrar escuta de qualidade, não gostaria de falar algo tão profundo num lugar infértil.Portanto, espero que você que vai pausar sua vida por alguns instantes para me visitar,que você possa ler como a delicadeza de uma folha caindo de uma árvore pela ação do vento, o que vou te contar. Denise me disse, e para todo mundo, que na Grécia antiga quando alguém ficava doente, o médico tratava do paciente escolhendo uma peça de teatro para curar sua alma, se o paciente precisasse entender a injustiça por exemplo, ele indicava Antígona que é uma peça que tratava de injustiça.Meu coração bateu forte, minha alma dançou por dentro. Porque eu acredito no poder da arte para curar e elevar nossa essência.Interessante que vou montar Antígona. Meu próximo projeto de dança é inspirada nesta tragédia grega do Sófocles. Apresentar um espetáculo de dança é sonhar publicamente e destilar sua alma após construir silêncio e presença dentro de mim mesma a duras penas. É refletir o tempo todo sobre a importância de dizer tudo o que sinto para um mundo anestesiado de sentimento, automatizado por opiniões formadas e deformadas. No palco temos a oportunidade de celebrar o encontro do humano diante de sua humanidade.O espelho de nossa incapacidade de ver o óbvio. É através da celebração da presença que nosso ser pode se encantar pela espécie humana e criar a capacidade de sonhar de se importar com o rumo que queremos seguir.

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...