terça-feira, 10 de outubro de 2017

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas que sofrem emocionalmente e as que têm tendência ao suicídio. O grupo é formado por vítimas da desigualdade social alarmante no Brasil.Nossos governantes não atendem esta demanda no sistema de saúde público altamente falido. Esta organização é literalmente não governamental, ela funciona com o apoio de voluntários, psicólogos, e muitos profissionais que atuam fazendo palestras, atendimentos em grupos e individuais.Tudo de graça, e os atendimentos acontecem nas dependências de uma Igreja, sedida gentilmente pelo padre da paróquia. Esta semana fui atender um grupo de vítimas de assédio moral no trabalho. Um grupo pequeno, porque sofre boicote das empresas que não querem associar sua imagem a este assunto tão delicado. Infelizmente quem procura o grupo, já sofreu humilhação, está com a sua dignidade ferida e desempregado, e além da pressão econômica e a falta de espaço no mundo está emocionalmente se sentindo desqualificado e sem forças para reverter a situação. Primeiro eu levei o teatro, eu acredito no poder das respostas incríveis que o corpo dá, e representar através do jogo, têm o poder de ressignificar modelos de autoritarismos muito arraigados nesta "casa grande senzala" que é o Brasil. Quero destacar um exercício que foi muito marcante para mim e para os participantes. Eu dei uma folha para eles e pedi que cada um andasse pela sala imaginando uma situação onde se sentiu pequeno, depois fizesse com o corpo a posição e em seguida escrevesse a palavra que resumia esta situação. Depois pedi que todos andassem expondo sua ferida para que todos vissem. E assim todos caminharam mostrando suas marcas, rótulos e como se sentiam. Depois eu pedi para que eles virassem a página e agora caminhassem pelo espaço pensando num momento em que eles se sentiram grandes e depois parassem na posição e depois de escrito, que experimentassem caminhar novamente expondo suas alegrias, emoções de amor e júbilos. Foi uma vibração bela, ver aqueles corpos sofridos e machucados pela vida, caminhando com dignidade.Dava para ver o brilho nos olhos a postura e o amor exalando na sala. No final nos abraçamos. Observei um participante que fez um depoimento sobre como se sentia pequeno, a palavra gay foi a escolhida por ele e na nossa roda de partilha, ele me disse que o Brasil é muito homofóbico e que ele assume o que ele é e se sente triste quando não é sua competência que é avaliada. Isso me deu uma sensação de revolta.Como que alguém pode ser julgado por ser o que é? De que adianta tanta tecnologia aproximando as pessoas e automatizando as forças no trabalho se a condição humana continua mesquinha? Até quando vamos assistir estarrecidos grandes tragédias no mundo, porque o sistema de saúde de certos países não valorizam a saúde emocional e mental? O que aconteceu no Brasil e nos Estados Unidos é a prova cabal. Não adianta acreditar que a crise é apenas econômica e ética. Temos uma crise baseada na ignorância dos perigos de entregarmos o poder nas mãos de psicopatas.Eu voto inclusive em exames psicológicos em pessoas que pretendem abraçar a política, não é possível que essa ausência de remorso e empatia, e a total sofisticação em saquear o Estado numa ganância incomensurável de poder não seja algo deletério. Pode ser uma pista para entender a mente de um Stalin, Hitler,os militares no Brasil,os banqueiros insanos por lucro por exemplo. Não estou afirmando que todos que estão no poder precisam de tratamento, e muito menos afirmando que uma empresa que desqualifica seus funcionários com toda a sorte de humilhações que se trata de pessoas num estado mental deplorável. Mas eu só queria entender o porquê de uma pessoa assumir um posto de comando e se sentir no direito de maltratar um funcionário que o está servindo. Olhei para aquele grupo e senti tristeza por ver jovens cheios de inteligência, capazes de trabalhar e levar uma vida feliz, bloqueados nos seus destinos, porque sofreram assédio moral.No final eu que recebi, esta é a maravilha de ser voluntária, aprender e ver que apesar de tudo, eles estavam lá olhando para esta situação e abertos para aprender a lidar com este mundo doente com muita luz. A arte é um grande canal de cura. Eu sonho com o dia em que a arte,a cultura e as ideias tomaram o poder. Nesse dia o autoconhecimento será matéria obrigatória na escola, criar, sentir o corpo e desenvolver o sentimento de pertencimento será matéria prima nas escolas, o riso, o jogo e a liberdade de ser o que se é vai contar como base de qualquer formação. A vida precisa habitar a escola, a sombra precisa tirar o bolor desta educação caquética que não ensina ninguém a ter uma projeto de vida para ser feliz, parece que as escolas ensinam muitas vezes a cultura do controle social e do preconceito. Eu sei que existem professores que conseguem furar esta escola morta e transmitem vida.No entanto é preciso ter uma natureza muito sofisticada para não se deixar contaminar.Nossa sociedade precisa na minha opinião questionar,buscar, investigar novas maneira de convivência respeitando cada ser humano. Só assim teremos realmente uma cultura de paz.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

VESTIDA DE VENTO

Segundo o filósofo Gilles Deleuze(1925-1995), o corpo é potência e, ele só produz significado na presença de outro corpo. Interessante que se o corpo é significativo diante da presença, o corpo também é acontecimento. Outro filósofo Baruch Espinoza( 1632-1677) definia o corpo como uma complexa relação de movimento e repouso, velocidade e lentidão e pelo poder de afetar e ser afetado. Esta semana tive a oportunidade de vivenciar no meu corpo o que pode um corpo.Eu estava triste e fui à aula de biodança, e quando fico assim meu corpo fica sinuoso e impreciso nos movimentos. A facilitadora sugeriu um exercício em duplas,era para caminhar pela sala, juntos e em duplas sintonizando o ritmo, com uma música galopante que ressoava dentro de mim. Minha sensação era de total desamparo porque meu corpo não queria ir diante de minha nobre amiga que estava no ar quase voando, ela é assim de uma sutileza sábia desconcertante.Mas é nestas horas que um corpo pode ser afetado por outro e se ressignificar. Meu corpo triste começou a receber olhares de força cheios de significados,os nossos braços se entrelaçavam e minhas pernas bambas começaram a criar forças e de repente estava voando com ela, saltando e rindo, como duas crianças.Sua divina presença diante da minha me curou. É claro que meu corpo está treinado para entrar em sintonia muito fácil, porque já busco acessá-lo há muitos anos. Mas todo ser humano que se deixa levar pelos caminhos do corpo e confia encontra seu sentido e se revela.Importante nesta revelação é que uma vez fisgado, tudo passa a ter significado, a nossa relação com tudo se transforma. Esta presença que significa pode ser muito ampla, esta relação passa a ser com as plantas, os animais e tudo o que nos cerca. A artista Sérvia Marina Abramovic, artista super conceituada na arte do corpo,performance e instalação, em seu documentário'Espaço além- Marina Abramovic e o Brasil. Ela percorre seis estados Brasileiros em busca de processos de cura e de lugares de poder e cura através do sagrado.Marina sempre pensou sua arte como príncipio de interação e compartilhamento entre ela, sua arte e o público, estas relações são simbióticas. Em uma cena, ela firma que a natureza não precisa dos seres humanos, que a arte é um portal e nós da cidade é que precisamos aprender a sentir o silêncio, escutar e ouvir através da natureza e que não precisamos de arte na natureza, precisamos de arte nas cidades, para que além da estética, nossa percepção seja ampliada, nossa sensibilidade seja tocada em cada gesto. Hoje, estava atravessando um jardim,e percebia os raios do sol incidindo sobre elas e algumas folhas caindo, num grande balé e de repente senti um vento muito forte me envolvendo e era uma sensação de abraço do vento me enlaçando toda, me senti viva, sorri sozinha seguindo meu caminho e algumas vezes parava para abrir os braços e sentir, aí lembrava do meu destino e também fiquei pensando se estava ficando maluca por estar tendo um caso de amor com o vento, mas assim deveria ser nossos dias, apaixonados. Sustentei esse momento o quanto pude, porque ele passou e virou passado e eu sei que andarei muitas vezes por esse caminho, mas não serei a mesma, e nem o vento vai passar da mesma forma, portanto a importância de estar presente se relacionando com tudo.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NO VÔO DOS PÁSSAROS

Esta semana ministrei uma oficina com o tema a manifestação do sagrado no voo dos pássaros. Era um grupo composto por um grupo de teatro, onde os integrantes eram todos com idade acima de 40 anos, tinha um integrante de 82 anos e a filha de um aluno de 5 anos.Estávamos todos em perfeita harmonia com nossas diferenças.Levei o grupo para o meu universo que é povoado de seres encantados e mitológicos. O corpo é um grande laboratório de experiências que estão à espera de sua revelação. A diferença de um movimento extenso e intenso é algo que precisa ser falado,quando um movimento é extenso ele apenas é um corpo que se transporta no espaço de um lugar para o outro e quando esse corpo é intenso é a alma que se movimenta e é nesse movimento da alma que acontece a manifestação da alma, ou do sagrado. Expressar algo é revelar o que está oculto é a manifestação do invisível.E foi o que percebi neste grupo a leveza foi tomando espaço em cada um, o corpo foi criando uma beleza única, amor em forma de poesia corpórea.Muito interessante percebermos que ser sutil como os pássaros num mundo denso é tarefa para os corajosos, porque é preciso muita coragem para se manifestar beleza e suavidade no meio dos predadores, sem medo de ter as asas arrancadas. Foi isso que levei para mim nesta oficina, que vale a pena manter a chama da poesia acesa, abrir os braços e voar desde que as raízes sejam cultivadas. Num certo momento contei a história de uma ave mitológica Garuda, e pedi que cada um soltasse sua ave e virasse esse ser mágico meio pássaro, meio gente e vivenciassem sua mitologia pessoal. Eu vi braços abrindo, olhos brilhando, corpos sendo sutileza num grande balé da alma. Voamos.

" A CONSEQUÊNCIA DO DESTINO É AMAR"

O meu corpo comprimido,fechado e com os punhos fechados, a cabeça encostada no chão. Dancei no solo, plano baixo. Dancei a opressão e deixei o meu corpo falar. Os movimentos bruscos brigavam com o chão, com transferências de peso.Meu corpo acessou memórias desconhecidas e num certo momento meu corpo entrou numa vivência muito profunda, me trancando no porão. O corpo é um mistério. A emoção explodiu dentro do corpo, era como se toda a minha musculatura estivesse querendo sair,ampliar. Angustiada por dentro e morta por fora, o corpo se negava a voar. Tenho muitas camadas. Precisei caminhar por minhas retas, curvas, transcender o concreto armado, e me encontrar na assimetria diante do espaço vazio e da aridez do deserto que é algum espaço meu ainda inefável, inominável. Sair da "secura" do "Ser" e penetrar na poesia das árvores e do céu de minha Brasília. Coloquei meu corpo à disposição da grande experiência de dançar opressão, para merecer liberdade. Dancei num segundo momento alegria, força e sensações de brilho e trancendência. Muita coisa acendeu dentro de mim, cheguei e dancei com Deus. No final da dança eu encontrei o olhar de quem me assistia, atônitos, maravilhados com as imensas possibilidades de renascimento em vida. Amigos estudantes das lições do nosso grande mestre, o nosso corpo. Dançar nos palcos da vida e dançar a minha vida, me salvaram da morte. A vida! Seus ciclos, repletos de amigos, família, flores , dores e sabores. Felicidade é estar vivo, inteiro e integrado ao grande mar de mistério que somos nós, os outros e o universo. Para mim isso é Deus, uma grande consciência cósmica, um acontecimento.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

" EU SOU TREZENTOS"

Assisti um documentário sobre a guerra na Síria, mais precisamente sobre Komane, que foi invadida pelo Estado Islâmico e foi totalmente devastada.Os curdos perseguidos se refugiaram na Turquia, e aos poucos estão voltando para a sua cidade, suas origens e tentam reconstruir o que sobrou da cidade. Me chamou a atenção uma mulher que encontrou sua casa toda destruída e não estava lamentando nada e sim estava feliz por voltar para suas memórias, sua cultura e por estar viva. Outro ser humano incrível se dedicou a difícil missão de desativar as bombas que foram deixadas,ele arriscava sua vida para salvar as gerações futuras de morrer caso uma bomba explodisse, e foi o que aconteceu com ele, que morreu tentando livrar os habitantes de sua cidade de mais mortes.Fiquei muito impressionada com a humanidade retratada no meio de uma total falta de recursos, falta água, saneamento básico, comida, praticamente tudo e mesmo assim eles preferem voltar a viver como refugiados. Eu vi beleza naqueles olhos que já viram tudo que contém o terror, beleza no meio do sofrimento, uma vontade de resgatar em cada gota oferecida o valor da vida, a importância do humano. Pensei na nossa cultura ocidental que fala tanto de paz e amor e ao mesmo tempo está tão amortecida e anestesiada que a dor do outro não é vista. Fiquei contemplando aquelas histórias, como o médico que está cantando e resgatando as danças e cantos como resistência e sentido, a esperança. Deve ser por isso que nós precisamos da arte,para nos mostrar o caminho de transcendência da dor ou alguma resposta para o sofrimento. Estudei na faculdade o gênero teatral teatro do absurdo, as primeiras peças de teatro que trabalhei como atriz foram " A cantora careca" do Dramaturgo Eugéne Ionesco (1909-1994) e do Qorpo Santo (1829-1883- Porto Alegre), escrito desta forma mesmo, que me fizeram pensar na condição humana e o paradoxo do cotidiano. Eu nunca pensei que até chegar com todo o peso da verdade na minha cara, que tudo o que eu via de falta de sentido na condição humana através das relações humanas eu presentifiquei no meu corpo e na minha voz em cena, foi uma ligação automática que deu nome a todas as contradições da minha família a tudo o que via. E foi numa busca incessante por sentido e beleza que decidi investigar a condição humana pela via da beleza transcendendo a dor, porque eu sei o quanto me custa caro me sentir incompreendida. Quando entro em cena é por pura tentativa de ser aceita deixando minha alma nua, meu corpo pensamento cansado de me entender e fazer parte da espécie humana, é quando todo o meu estado de espírito pequeno e rotulado, transbordasse a embalagem que sou para muitos e minha humanidade saísse refletida, é como se minha vida a partir daquele momento passasse a fazer sentido e a vida deixasse de ser assimétrica, apesar de que a beleza da vida está na simetria da assimetria, no equilíbrio no desequilíbrio e na impermanência. Ultimante ando chorando e rindo ao mesmo tempo, acho que estou começando a entender que sou trezentos, igualzinho me ensinou Mário de Andrade(1893-1945). Estou escrevendo ao som de dos Beatles, Let it be, deixa estar.

O PROCESSO E O BELO

A certa altura de uma das entrevistas mais fascinantes desta coletânea, o crítico inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra detalhes sobre os desafios técnicos que enfrentou para elaborar as Torqued Ellipses, declara-se impressionado com a beleza das peças. O escultor então responde que não está interessado nesse tipo de qualificação, e sim no grau de inclinação das obras. Seu interlocutor persiste no assunto, dizendo que todo artista é como um gato concentrado na caça, alheio a tudo que o desvie de seu objetivo e, portanto, despreocupado com a aparência de seus movimentos. Segundo o crítico, são os outros que veem beleza no que ele faz. Do manifesto "Lista de verbos, 1967-1968" (1971) ao texto "Desenhos para o Courtauld" (2013), Richard Serra se apresenta como alguém interessado mais no fazer do que nos resultados. Ao longo de cinco décadas de produção, seus depoimentos enfatizam a busca por resultados imprevisíveis, capazes de apontar novos caminhos para a escultura e para o desenho. Em outra passagem notável, ao comparar os trabalhos tardios de Matisse e Picasso, Serra explica sua preferência pelo primeiro. Matisse, quando acamado, teria reinventado a maneira de delimitar a forma com seus recortes de papel, enquanto Picasso, seduzido pelo próprio talento, teria abandonado a experimentação. Richard Serra faz parte de uma geração que se formou no ambiente estimulante das universidades norte-americanas do pós-guerra, e para a qual a escrita foi uma prática constante, uma maneira de fomentar o debate crítico em torno das obras. Os textos aqui reunidos foram selecionados a partir das coletâneas Richard Serra: Writings, Interviews¹ e Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008)² e de depoimentos recentes publicados em catálogos e pequenas edições. Eles abordam momentos-chave da trajetória de um dos principais protagonistas da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influente há tanto tempo é sua capacidade de periodicamente surpreender o público e a crítica com novas pesquisas derivadas de seu próprio fazer ? "o trabalho vem do trabalho", ele costuma dizer ? e de uma relação dialética com a história da arte e a contemporaneidade. É sobretudo nas entrevistas que ele expõe os desdobramentos internos de uma obra à outra, o processo que o levou das Splashs e Castings às peças apoiadas (Props) e, destas, à criação das esculturas site-specific. Em mais de um depoimento, o artista aborda a relação independente, porém implicada, entre seus desenhos e suas esculturas ? o desenho é um meio privilegiado para a reinvenção de procedimentos e, ao mesmo tempo, uma parte integrante das esculturas, com os limites definidos pelo corte funcionando como linhas. As conversas com David Sylvester e Kynaston McShine abordam o processo de elaboração das esculturas de grande porte realizadas a partir da década de 1990. Elas não são mais site-specific; são espaços fechados que têm o poder de desorientar o sentido de ortogonalidade, lançando o espectador numa espécie de vertigem, ou, em certos casos, numa sensação de imprevisibilidade semelhante à experiência a que o próprio artista se propõe em sua prática. Os depoimentos revelam também fracassos e momentos de crise, histórias de projetos rejeitados por arquitetos e instituições e também pelos espectadores, além de brigas públicas em defesa de obras e ideias. As narrativas acabam por enfocar não apenas a trajetória de Richard Serra, mas conceitos e questões fundamentais da arte recente. Textos como "Shift" (1973) e "Saint John's Rotary Arc" (1980) trazem análises acuradas das condições para a instalação de esculturas numa paisagem natural e num espaço urbano de grande circulação, respectivamente, de modo que se compreenda, no caso de Serra, de que maneira a forma responde em certa medida ao contexto, para depois revelá-lo, incluí-lo e modificá-lo. Shift e Saint John's Rotary Arc são obras que representam o avesso da ideia de cubo branco e foram realizadas num momento em que a busca por uma interação mais concreta entre a arte e a vida era uma das principais pautas artísticas em debate. Em Yale e na cena cultural nova-iorquina dos anos 1970, Serra teve contato com alguns dos personagens mais importantes da segunda metade do século XX. Seus encontros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resultam em relatos saborosos e revelam aspectos centrais de sua formação. Mas as referências vão muito além da arte contemporânea ou dos movimentos com os quais sua obra tem uma conexão mais direta. O artista surpreende ao citar seu interesse, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gravidade nas obras de Claes Oldenburg, ou ao relatar seu aprendizado sobre a integração da pintura à arquitetura com os muralistas mexicanos. O minimalismo é apresentado como uma fonte, mas também como um movimento ao qual foi preciso se contrapor. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jardins zen de Kyoto foram absorvidos de uma maneira muito particular, filtrados pelos interesses que motivam o próprio trabalho de Serra. Parece haver uma correspondência entre a materialidade explícita das obras de Richard Serra e o estilo franco de suas palavras. Nas duas instâncias, o artista se afasta de qualquer metafísica. Suas reflexões sobre o espaço como conteúdo da obra, sobre a ação da gravidade, sobre os limites das formas e dos materiais estão associadas a experiências físicas e ao enfrentamento de problemas concretos. Seus escritos revelam-se uma parte constitutiva de seu processo de trabalho, veículos de ideias que se materializam em ações. ¹ SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994. ² Idem. Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010. Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS. desenhos, matisse, picasso, richard serra, david sylvester, esculturas Este texto de Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS, é a apresentação do livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, que será lançado em 29 de maio no IMS-RJ na abertura, para convidados, da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, com a presença do artista.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O CAMAREIRO FIEL

Assisti ao filme "O camareiro fiel",que narra o cotidiano de uma companhia de repertório do mais importante dramaturgo de todos os tempos e um dos mais brilhantes artistas da história, poeta, escritor e ator William Shakespeare,durante a segunda guerra mundial. O ator, líder da companhia, chamado de Sir, doente e com a alma ammargurada, luta desesperadamente com seus próprios conflitos, a dedicação do seu camareiro, diante da companhia de atores idosos, isentos do serviço militar. Fiquei pensando no papel da arte, diante do desespero da guerra, conflitos, crises econômicas e toda a sombra que envolve ser humano. Um diálogo com o camareiro me tocou profundamente,acredito que quem faz arte, em qualquer parte do mundo, sentiu um desejo de continuar fazendo teatro, dança,ou simplesmente continuar vivendo,apesar da idade, da rotina, da crise, da alienação e ausência muitas vezes de profundidade e sensibilidade para a poesia diante de um mundo caótico. O personagem nos fala que a sorte escuta nossos esforços. E deseja que cada palavra seja um escudo contra selvageria,uma proteção contra o terror.Segundo ele, a vida é feita de luta e sobrevivência. Eu acrescento o sonho. .

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MASSALA

O meu arquivo corporal, o corpo, é um reservatório de memórias registradas para facilitar o meu. processo. Penso a minha dança como centro. Estou num momento de revelação, não quero perpetuar meu movimento dentro de uma" camisa de força" , acredito profundamente na técnica e no treinamento aliado à disciplina para se ter um ponto de partida, Depois de um certo tempo, precisei olhar o meu corpo, ouví-lo e transformá-lo em minha matéria -prima. No palco quero demonstrar minha técnica, minha emoções e verdade." Desejo que a dança apareça e não a dançarina, dançar silêncio, pausa, respiração ,pés, mãos, olhos, energia que promova encantamento, e que a platéia sonhe junto comigo. Eu escolhi o treinamento corporal da dança clássica Indiana aliada a outras técnicas corporaes que possibilitam a imersão na arquitetura do movimento integrado. Esse traçado do mapeamento do energético no corpo,que é realizado sem mágica e imediatamente. Investigação das ações físicas com dramaticidade, senão cai no movimento vazio, sem carga psíquica. No palco uma dança autoral ,a dançarina como centro do processo criativo . Assim penso a minha dança Estou num momento de revelação, não quero perpetuar meu movimento dentro de uma" camisa de força" acredito profundamente na técnica e no treinamento aliado à disciplina para se ter um ponto de partida. Depois de um certo tempo, precisei olhar o meu corpo, ouvir e transformá-lo em minha matéria -prima. No palco quero demonstrar minha técnica, minha emoções e verdade, até onde sei que é.para descrever Aprendi que o corpo não mente. Massala- Garan massala- É um termo genérico originalmente utilizado na culinária indiana para descrever a mistura de duas ou mais ervas, especiarias e aromatizantes. Estou acertando meu tempero, meu aroma através da investigação de mim mesma e de todas as conexões que faço neste mundo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ODE A SUTILEZA

Hoje fui a uma palestra e descobri uma infinidade de percepções da realidade alterada como por exemplo as quatro formas de avaliação do diagnóstico para o déficit de atenção e que existem uma infinidade de limitações que são geradas por uma deficiência no processamento no cérebro. Existem além do padronizado,um caleidoscópio de formas de ver ,sentir e entender a realidade e são graus de percepção do ambiente,das cores dos sons. Descobri que existem pessoas que vêm os números coloridos e outras que vêm as letras dançando. Me parece que existe um universo muito grande a ser desvelado, onde a sensibilidade precisa puxar a cadeira e sentar.Temos uma sociedade que está começando a perceber que é impossível padronizar todo mundo e a cada dia a voz da diferença está ganhando força. A escola pode punir um aluno que tem uma dificuldade de processar um som, ou uma palavra,muitas vezes alguém pode ser muito visual aprende mais com imagens do que com o som.É o meu caso, sofri muito na escola e ainda tenho dificuldade de estar confortável no mundo, por ter uma percepção diferente. Não me importo com coisas, perco celular e objetos o tempo todo e esqueço de muita coisa mesmo, sou classificada de avoada a estranha e até maluca mesmo, porque valorizo ideias, preciso criar e faço isso o tempo todo, sou do tipo que coloca o arroz na panela e esqueço queimando já que estou imaginando uma coreografia, ou uma aula ou pensando sobre o mundo, e quem convive comigo me entende e me respeita, já que sou toda abraço e doação e inteira para o que realmente importa.Sou responsável, mas não fico mais descabelada por conseguir subir num palco e executar uma coreografia e no cotidiano não consigo ficar um dia sem esquecer, perder ou fazer alguma confusão.Mas estou lá assumindo meu lado esquisito e me colando ao padrão.Meu defeito está visível e eu agradeço por fazer parte de minha história, ainda bem que minha percepção da realidade não é linear, se não como dançaria o inusitado, as oposições ou a tridimensionalidade? Mas eu tive a sorte de sobreviver sendo esquisita e de gostar de ser como sou, mesmo sabendo que muitas vezes ser sutil e cultivar poesia num mundo que exige funcionalidade o tempo todo é um ato de bravura. O ideal mesmo é fazer omo aquela sabedoria japonesa do vaso que quando quebra é colado com um esmalte dourado, porque o defeito é uma parte inseparável da história objeto, eles precisam ser aceitos e não escondidos. Como dizia o mestre da psicanálise Jung, precisamos acolher a nossa sobra e a nossa luz. Encerrei a noite vendo a diva do Jazz,Billie Holiday( 1915-1959) cantando Strang fruit uma canção que narra o absurdo que eram os linchamentos dos negros nos Estados Unidos, eles eram mortos e pendurados em árvores com a metáfora do fruto estranho. Esta música teve um papel importante na denúncia de uma ação que era mero entretenimento e uma forma de dizer ao negro que mesmo se ele tentasse lutar ele deveria saber qual era o seu lugar. Mas a imagem que está na minha mente é dela em 1939, cantando uma música proibida, que ela deixava para cantar no final do show, com uma luz negra,iluminando o seu rosto, com a sua Gardência atrás da orelha. Relatos de quem teve o privilégio de vê-la é que no final não havia uma única alma branca ou negra que não se sentia estrangulada,era um silêncio seguido pelo som de mil pessoas suspirando. Isto é o que uma atmosfera pode fazer com a nossa percepção, mesmo não estando lá senti com eles.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

BARAKA:MIRABAI.m4v

" UM INSTANTE DE BELEZA É UMA ALEGRIA PARA SEMPRE"

DEPOIMENTO DO PROFESSOR /DOUTOR REINALDO GUEDES MACHADO, FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UnB) SOBRE MIRABAI “Não faz muito tempo. Maria (MIRABAI) foi minha aluna na disciplina de Teoria das Artes no curso de pós- graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. A turma era hetereogênea: alguns alunos arquitetos, um licenciado em educação artística, um bacharel em História e ela. Visando aproveitar os diferentes saberes ali reunidos solicitei como trabalho escolar que cada qual elaborasse uma apresentação baseada em suas vivências anteriores no campo artístico. Maria (MIRABAI) dançou, na pequena praça em frente ao centro acadêmico, lugar de trânsito dos que se dirigem para a próxima aula, onde permanecem os que descansam, namoram ou discutem a política estudantil em toscos e velhos sofás. Pouco a pouco, a faculdade agitada e ruidosa naqueles momentos de intervalo entre aulas, silenciou. Paradoxalmente, como se fora som, o silêncio, foi-se propagando pelas salas vizinhas e atraindo alunos, professores e servidores que se acomodavam como podiam para apreciar a beleza que acontecia inesperada num lugar inadequado! Que sabíamos nós, meus alunos, colegas e eu, da dança indiana para apreciar a arte que se realizava naquele momento? No entanto, ainda que incapazes de uma apreciação judiciosa, todos fomos envolvidos pela verdade profunda que emanava das mãos, dos olhos, do movimento do corpo da dançarina. A opacidade pesada da matéria dava passagem ao espírito que a conduzia e nos reunia num espaço e num tempo além da contingência concreta do cotidiano. Isso aconteceu e eu me lembro, para confimar John Keats: Um instante de beleza é uma alegria para sempre. (Endymion, em tradução livre)”.

domingo, 23 de julho de 2017

O ESTRANHO FAMILIAR

O deserto é uma metáfora da árida paisagem psicológica, onde a criatividade e a geratividade estão ausentes, onde nada floresce e a vida é sem sentido e emocionalmente monótona. Para materializar uma ideia, vou me costurando através de vários caminhos, e mutas vezes com um antagonismo atroz da ideia principal. Literatura para dissecar o universo de idéias para serem transformadas em gesto, movimento. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto.A arquitetura tem papel importante na construção coreográfica, na relação do espaço com o corpo e o tempo.A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar. O papel branco, o momento que simplesmente não sabemos onde nosso período de investigação vai dar.Mais do que qualquer resultado objetivo, de conhecimento ou comportamento, conduz ás fronteiras do desconhecido. Apenas abre.E por ela abrir a significados e sentidos na vivência, para espaços conscientes, convite ao acolhimento do inusitado, não pensado, não vivido.Chego onde não entendo.Vivo o "entre". Por mais angustiante que seja, entrar nesse universo novo,mesmo trilhando um processo temeroso, rumo ao "não sei onde vai dar a estrada", vale a pena concretizar uma ideia, projeto.Eu considero fundamental sair do reino das certezas, das fórmulas prontas, negando as dúvidas, e o não saber.Quando não arriscamos, mergulhados numa falsa segurança, somos impedidos de sentir a emergência do novo. A travessia da criação é bloqueada, e a alma fica no deserto. A dança é a irrigação dos jardins da alma,antidoto contra a desertificação.Somos trezentos, como dizia Mario de Andrade. "A minha casa vive aberta, abre todas as portas do coração".Tornar estranho o que é familiar e familiar o que é estranho, esse foi o tema de uma aula de sociologia que participei quando era estudante de arte. Foi há tanto tempo e continua tão atual. Percebi que tenho esse estranhamento constante. Eu que me dedico a pesquisar uma arte que não busca o óbvio, vejo o efeito de minha atuação no público que é uma mistura de estranhamento e encantamento. Segundo meu antigo professor esta é a fórmula para não se deixar seduzir pela manipulação do gosto. Arte quando não passa pela experiência e pelo estudo da linguagem deixa qualquer um refém da indústria e dos meios de produção que utilizam todos os meios para que a arte vire mero consumo e entretenimento. Esta fronteira entre o que é produzido pela alma impalpável e verdadeiro sem se deixar engessar pela necessidade de dinheiro, é um grande dilema.Todo artista quer reconhecimento do seu trabalho e dinheiro para financiar seus projetos e viver.Eu escolhi fazer e ser minha arte no cotidiano e na vida e lutar unida a todos que buscam o pão com poesia.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CORPO- MEMÓRIA E IDENTIDADE

Minha dança não me define, mas foi e continua sendo meu espaço de expressão da minha palavra não dita. Não existe construção de destino e identidade sem liberdade, e o lugar onde me sinto livre é quando estou dançando. Reescrevo minha natureza morta, vejo minha humanidade e busco entender os sentimentos dos outros para me recriar em cena e na vida. Sou minha matéria-prima, meu relevo disforme, minha semente mal plantada, meus olhos diante de um mundo que me devora se não ficar e me definir no meu espaço interno. Porque preciso dançar nem que seja sozinha diante do espelho, dos meus bichos e das minhas plantas. São meus sonhos privados que me levam a levar minha alma para o universo. Sendo quem sou no espaço que me permito, pernas, braços, olhos e bocas que podem me escrever no livro da vida. Não sei se fica claro para todos, quando afirmo que o corpo tem memória. Muita gente ainda pensa que esta é uma tarefa do cérebro. Me vejo na revelação do que Merleau-Ponty denomina de "olhar corporificado", em que o corpo ativo na interação com o mundo produz a percepção e experiência. Ontem estava no grupo que faço parte da Biodança e foi nos ofertada a oportunidade de deixar os pensamentos em casa para trabalharmos o nosso corpo através da experiência. Um exercício muito utilizado nesta técnica corpórea, é a reprodução de um ninho. Todos os corpos ficaram deitados no chão, colados e embaralhados sem julgamento ou identificação com alguém ou algo. No espaço que estava deitada, percebo um leve acariciar na minha cabeça, principalmente no meu cabelo.Voltei imediatamente para a minha infância, quando era cuidada pela minha avó, e ela trançava meus longos cabelos antes de dormir enquanto me narrava histórias mágicas com um delicioso chá de capim santo, colhido por ela do seu quintal.O cheiro da minha infância. Eu que nesse dia estava muito assustada com o mundo e com medo de viver, queria ficar invisível e até sem respirar,era este o meu grande plano do dia, me esquecer por alguns segundos e não me acontecer mais nada. Me deixe aqui sem existir por favor. E aquela carícia amorosa me transportou no tempo para o lugar mais sagrado do mundo, o instante onde ainda era um papel branco, com poucos medos e muitos sonhos, e através da memória despertada por esse gesto de afeto, voltei a viver e fiquei com vontade de ser novamente. E para coroar a experiência tão transformadora, este carinho virou um colo e depois eu pude dar colo também, e depois fomos para a varanda nos ofertar a lua e diante de nossas presenças nossos corpos nos revelaram que não precisamos lamentar nada, porque no nosso corpo nenhuma experiência se perde, e quando a experiência não é boa temos a oportunidade de ressignificar, e quando o corpo não tem o registro temos a capacidade de gravar a cada experiência uma nova memória. Sim, somos um livro aberto para novas edições. No meu caso que tive uma mãe que não sabia lidar com a maternidade delegando esta função à minha avó,a cada experiência de receber colo que tenho,recebo o colo dela, e a sinto como minha mãe e posso honrá-la, recebo a prova viva de que através de outros braços posso vivenciar o colo amoroso de minha mãe que ficou perdido no tempo. Este é o grande mistério revelado que nos foi negado, porque a história do conhecimento também foi no ocidente também a história da negação do corpo e da vida. Portanto a urgência do reconhecimento do corpo como parte integrante do nosso processo de criação de identidade e de pertencimento no mundo. O ser humano que tem a oportunidade de integrar o pensar, agir e sentir promove revoluções. Imagine que dançar para mim é me encontrar com a matéria volátil que me define. Lembrei da amiga de Simone de Beuavoir,(9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), Violette Leduc, Escritora que encontrou sua emancipação e libertação através da literatura. Violette Luduc, misturou vida real e sonho e se fez compreender e entregou sua alma para o mundo e assim não havia mais desculpas para se esconder, não precisava mais ser segundo ela " um deserto que monologa".

terça-feira, 18 de julho de 2017

UMA NOITE INDIANA

Sonhei que pintava o cabelo de castanho e só percebia quando alguém me avisava, no sonho até pensei em retomar a cor preta, mas algo em mim aceitara a mudança. Acordei pensando nas mudanças sutis que ando percebendo em mim, mas que permanecem invisíveis para o mundo e principalmente para o meu campo de atuação e o laboratório de relações que faço parte.Me sinto de volta. Andei levando muitos nãos e fui me encolhendo. Não a ponto de desistir, mas a ponto de perder a confiança.Andei num processo de investigação muito intenso sobre minha identidade na vida e na minha dança. Fiquei na escuta e na acetação de minha vida e mudança nos detalhes que fazem muita diferença, apesar de sutis. Percebi que consigo sair de casa decepcionada ou triste, que faço minhas coisas,apesar do medo e que posso mudar de plano se assim eu desejar, estou mais pronta para propor o que sinto que minha alma precisa na dança.Andei fazendo experimentos, novas linhas de atuação e tenho percebido minha força e energia de transformação. São mudanças que percebo na apropriação de minha linguagem que anda se fortalecendo na medida que me aceito e percebo meus dons. Semana passada aceitei um convite para dançar a convite de três músicos de alto nível, o convite foi feito um dia antes da apresentação. Me apresentei ao lado de Bernardo Bettencourt (oud),Mahmoud (darbuka), André Luiz (Sitar), Seria uma performance improvisada com três músicos e instrumentos de culturas diferentes, dialogando comigo que faço uma dança autoral tendo como princípios éticos e matéria-prima o estilo bharatanatyam de dança clássica Indiana. E no começo já deixei claro que não tinha o selo de qualidade da India, não tinha guru, e que minha formação foi e é construída ao longo do tempo com artistas Indianos e brasileiros. Eu disse sim e ainda durante a apresentação usei um instrumento de percussão nos pés, dancei e toquei acompanhando os músicos. Eu quase não creditei, e na na verdade eu nem pensei em nada, só queria dançar, me colocar a serviço da arte, da união e da beleza. A arte reuniu quatro artistas que estavam fazendo seu ofício numa noite de inverno.Oferecemos nosso coração e vontade de ampliar a percepção e as fronteiras de quem sai de casa para fugir de suas rotinas e jantares na sombra de uma luz. O tempo que passa e eu sinto que estou numa mutação e a cada encontro comigo, me escuto, e sei que agora posso comemorar pequenos avanços, limites que estou aprendendo a estabelecer e principalmente viver a minha vida, arte, amores sem me preocupar com a aceitação dos outros,esta menina carente que mora dentro de mim está aprendendo a ser amada por mim mesma. Foi nesse momento também que minha arte me revelou para o meu marido, eu vi seus olhos orgulhosos no carro, quando ele me disse: você é uma artista! Então o certo é ir, mesmo com medo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

KALI

Realizei uma vivência para um grupo de mulheres tendo como tema a Deusa Kali. Sugeri que cada mulher antes da aula escrevesse o que significava a língua para elas, no sentido amplo o que estava preso,contido ou o que foi falado sem pensar, ou até o não dito. Muita coisa foi revelada nesta breve roda de conversa,onde muitas vezes somos esmagadas pelo simples fato de sermos verdadeiras e revelarmos o que sentimos. Comecei a oficina trazendo esta deusa guerreira que é representada com a língua de fora, vencendo os demônios com armas,sangue. Sua representação simbólica é vasta porque ela é negra,nua, exibe um colar de caveiras e uma saia de braços, carrega nos braços segurando com as mãos cabeças decepadas,espada, laço, enfim armas, por outro lado é a grande mãe, aquela que não permite a violência contra a mulher, que nos mostra a importância de termos garras e ao mesmo tempo flores e delicadeza nas mãos. Neste círculo de mulheres senti a beleza dos encontros das mãos em forma de garras, das flores emanando de cada gesto das mãos, das pétalas caindo sobre nosso colo e a alegria de sermos mulheres. E quando ensinei os gestos de Kali,todas nós entramos no nosso reino das sombras e cortando cabeças e infinitos nãos que ouvimos da vida, eu vi nosso coração doendo despedaçado até as nossas ancestrais, mas também vi dores convertidas em lágrimas e agradecimentos por sermos quem somos. Somamos poesia, cantos e celebração em forma de emoção e a sintonia com a alma que precisa se construir, honrar o masculino e a descoberta de que o precisamos nesta vida, além de conhecer nossa força e delicadeza é encontrar nossa terra, nossa raiz e olhar para a nossa intuição,acreditar na potência do invisível, do sutil.Foi com grande alegria que me despedi destas mulheres guerreiras do coração, levando um pedaço da alma de cada uma dentro de mim, todas elas agora dançam comigo, porque cada tecido que bordo dentro de mim, tem guardado uma perda, uma dor, uma alegria, um abuso, um parto, uma vitória, enfim uma dança de essências que se misturam e me transformam numa mulher. Como disse Simone de Beuvoir( 1908-1986) " Não se nasci mulher, torna-se"

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O SOM DA FÚRIA

Assisti um documentário sobre uma cantora norte Americana, chamada Nina Simone, fiquei impressionada com a verdade e sua integridade.Ela falava sobre ser enquadrada no "Jazz", e ela contestava veementemente, afirmando que a sua música era" música clássica Negra".Morreu amargurada, foi impossível convencer alguém do contrário. Ela dedicou anos de sua vida estudando piano para ingressar numa prestigiada instituição,e foi negado o seu ingresso por ser negra. Lutou pelos direitos civis, lutou muito, sua fúria, ficou marcada na sua arte. Quando a arte fazia parte do cotidiano, não havia o "culto ao artista", não havia a necessidade de rótulos. O mercado sempre viu a arte como um produto, e a necessidade de rotular para assegurar lucros, nada contra o dinheiro. Percebo que é difícil fazer arte sem patrocínio, a cada dia, talento não é ter um dom, afinal todo mundo tem. O que distingue um artista é a necessidade visceral de executar e concretizar uma ideia. Estamos em busca de fazer algo com profundidade e ao mesmo tempo existe a pressão da sobrevivência. Eu estou a cada dia me distanciando destas armadilhas e ao mesmo tempo preciso encontrar caminhos para financiar meus projetos, não consigo desistir deles, é como se fosse uma segunda pele.Eles ficam povoando meus pensamentos como fantasmas, imagens aparecem, sonhos com temas recorrentes, é complicado não fazer, ficamos neuróticos, incompletos. Portando pesquisar uma linguagem e realizar uma ideia é o que me faz sentir a vida." E não se trata de dançar e sim de me sentir viva. Continuo sendo complexa, e olhando para a minha sombra. Estou em constante processo de pesquisa, e não sei quando isso vai virar espetáculo, eu me recuso a ser algo que ainda não criei. Vou continuar sendo "um ponto fora da curva" até encontrar minha estética, minha maneira de conversar com o mundo.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O CORPO COMO EXPERIÊNCIA E DEVIR

Vivemos em vários mundos e direções muitas vezes opostas ao que a nossa alma pede. Muitas vezes até esquecemos do nosso maior aliado, nosso corpo. O corpo ensina e quando deixamos a experiência se manifestar através do corpo encontramos o nosso vazio, o inefável, o numinoso. O conceito de devir vem do latim, devenire, e significa chegar. É um conceito filosófico que significa a mudança pelas quais as coisas passam. O conceito de "se tornar", nasceu na Grécia antiga, pelo filósofo Heráclito de Éfeso no século VI A.C., que disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação. Somos feitos de ciclos,de qualquer experiência que leve o corpo para vivenciar estar vivo. E quando menos esperamos temos algum entendimento de nós mesmos, uma revelação do corpo para nós. O conhecimento acontece onde as palavras não alcançam, os pequenos átmos de segundos de presença, quando nossas vozes internas param de falar e apontar julgamento e definições. O ideal são trabalhos corporaes que liberem esse estado de presença de qualidade e rompam com o tempo e o espaço. Somos o devir, o tornar-se,"um poema inacabado", impermanência. Somos seres agarrados a vontade de possuir, ter, acumular e tudo o que a vida nos pede é para viver no presente e liberar tudo, experiências, memórias e desejo de posse. Desapegar talvez seja um dos nossos grandes desafios. Eu escolhi viver através da experiência proporcionada pelo meu corpo. Aprendo todo dia a corporificar e liberar as emoções guardadas, a resgatar a minha sacralidade no cotidiano, encontrar Deus nos detalhes. Ontem na minha aula de Biodança, conversamos como nossos ancestrais, eu tenho muito orgulho do meu grupo, tentamos juntos apontar um caminho para acessar esse espaço do desapego, do sentimento de que estar vivo. Vivenciar o milagre de fruir, saborear, sentir sua própria vibração,estar presente no presente. Ser humano já é uma experiência, encontrar nossa humanidade é o nosso desafio. Antes da supremacia do pensamento, o corpo, as sensações e a relação com a natureza eram simbióticas. A história e o pensamento como detentor de todas as respostas para a condição humana foi matando a vida em nós. Construímos nossa história negando a vida em nós.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

IMAGINAÇÃO NA ESCOLA

O escritor José Saramago afirmou que é preciso sair da ilha,para regressar à ilha e ressignificá-la, não foi exatamente como ele disse, mas gostaria de citá-lo como meu primeiro pensamento de consolo, depois da experiência que vou relatar hoje. Fui convidada junto com uma professora a ajudar crianças da faixa etária dos nove aos 12 anos a criar uma coreografia para uma apresentação; como a única referência e identificação que os estudantes tinham era o funk, hip hop e dança de rua, resolvemos colocar alguns elementos,apesar de não dominarmos estas técnicas. O que me chamou a atenção foi a total paixão que eles nutriam por estas danças.E muito mais surpresa também foi quando eu pedi para ouvir as letras, que prontamente foram cantadas em coro por eles. Fiquei parada cercada pelos estudantes, ouvindo as músicas que mais pareciam crônicas sobre o cotidiano deles. Não conseguia conciliar meu olhar para aqueles rostos suaves e olhares pueris, com o peso daquela narrativa que mais parecia o jornalismo que é veiculado na televisão e em tabloides baratos, com o seu desfile de morte, traição, injustiças e desventuras. Cuidei bastante para não criticar e ao mesmo tempo acolher. Me chamou a atenção uma música que dizia que a único desejo de uma certa personagem era casar e ter uma família tradicional, encontrar o seu grande amor, casa e quando fica grávida morre no parto e outros desfiles de mazelas que nem cabem neste pequeno texto. Como que em pleno ´seculo XXI ainda existem identificação das meninas com uma vida sem objetivo e sonhos de mudar o mundo? Porque não acreditam mais?Na minha opinião falta o mergulho no simbolo.Fiquei com a alma pequena, tentando perceber quando foi que mataram a imaginação na escola. Ou quando foi que o mundo subjetivo e as emoções coloridas brotadas e embaladas por sonhos perderam a necessidade de beleza tão inerente à condição humana, como um ser humano pode viver tendo perdido a capacidade de se encantar? Sem saber que seu corpo é sua casa e sua grande fonte de descobertas? A supremacia do pensamento é uma ilusão.Não estou sendo categórica e fico torcendo para que algum projeto bem mágico esteja acontecendo em alguma escola neste momento, mas são minorias. Eu me pergunto se faz sentido decorar tanto conteúdo, sem a experiência no corpo. Acredito que a escola precisa incluir o papel do corpo como matéria-prima no aprendizado,a imaginação precisa voltar a ocupar os bancos da escola, o lúdico e aquilo que nos faz construir memória e aprendizado sobre o outro e sobre nós mesmos. Precisamos escutar nosso corpo, nossas emoções e principalmente olhar a vida com lirismo. E a arte é um caminho para que possamos mergulhar nos símbolos, mitos, lendas e tudo o que possa aquecer nossa alma, e tornar o mundo um lugar quentinho e suave,mesmo que seja só na nossa imaginação.

ANTÍGONA

Denise Stoklos, atriz criadora do método Teatro essencial, reconhecida internacionalmente com sua metodologia reconhecida e ensinada nas mais prestigiadas instituições do mundo,trouxe para Brasília três espetáculos incríveis. Tive a oportunidade de assisti-los.Foi e continua sendo uma oportunidade de riqueza de transbordamento de alma, que me alimentará por muito tempo. A arte quando é verdadeira e profunda se instala dentro da gente e faz morada de oásis para os nossos desertos. Das inúmeras reflexões que fiz até agora, tem uma que está gritando dentro de mim e precisa ser dita. Como hoje está ficando muito difícil encontrar escuta de qualidade, não gostaria de falar algo tão profundo num lugar infértil.Portanto, espero que você que vai pausar sua vida por alguns instantes para me visitar,que você possa ler como a delicadeza de uma folha caindo de uma árvore pela ação do vento, o que vou te contar. Denise me disse, e para todo mundo, que na Grécia antiga quando alguém ficava doente, o médico tratava do paciente escolhendo uma peça de teatro para curar sua alma, se o paciente precisasse entender a injustiça por exemplo, ele indicava Antígona que é uma peça que tratava de injustiça.Meu coração bateu forte, minha alma dançou por dentro. Porque eu acredito no poder da arte para curar e elevar nossa essência.Interessante que vou montar Antígona. Meu próximo projeto de dança é inspirada nesta tragédia grega do Sófocles. Apresentar um espetáculo de dança é sonhar publicamente e destilar sua alma após construir silêncio e presença dentro de mim mesma a duras penas. É refletir o tempo todo sobre a importância de dizer tudo o que sinto para um mundo anestesiado de sentimento, automatizado por opiniões formadas e deformadas. No palco temos a oportunidade de celebrar o encontro do humano diante de sua humanidade.O espelho de nossa incapacidade de ver o óbvio. É através da celebração da presença que nosso ser pode se encantar pela espécie humana e criar a capacidade de sonhar de se importar com o rumo que queremos seguir.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ADORÁVEIS IMPERFEITOS

A psiquiatra e médica Nise da Silveira disse que gente curada demais é muito chata. Refleti muito sobre esta afirmação. Eu queria muito numa fase da minha vida ser bem certinha. Acreditava que se fizesse tudo "certo", se é que existe um jeito certo de fazer alguma coisa, seria mais amada, mais feliz e encontraria meu lugar no mundo. Mas o tempo foi passando e fui percebendo que errada estava certa, e que meu esforço para ser perfeita em tudo para ser amada era uma troca injusta. Assisti um filme Francês chamado Marguerite sobre uma mulher muito rica nos anos 20, apaixonada por ópera que cantava muito desafinado. Ela tinha um círculo de pessoas que assistiam seus recitais desafinados e todos fingiam que gostavam, mordomos, o marido, todos encantados com a pureza daquela mulher livre e feliz, mas ouviam seu canto com muita dificuldade. Um dia ela resolve para desespero de todos, cantar num grande teatro com uma platéia isenta de bajulações. Sua vontade de de compartilhar beleza era muito grande, o objetivo dela não era ser famosa e aplaudida e sim tornar a música viva na alma das pessoas, como era para ela. Sua trajetória inspira porque o filme nos coloca naquela posição de enfrentamento e nos desperta a vontade de continuar mesmo sendo incompletos e imperfeitos. O filme é inspirado numa história real e apesar dela ter sido considerada a pior soprano do mundo nos encanta, por seguir fazendo o que acreditava. No filme até tem uma personagem que é uma cantora linda, que canta perfeitamente que tem ótimo caráter e ainda é pobre, tem tudo que seria de argumento para gostarmos dela. E no entanto o improvável acontece. Achei a perfeição dela sem graça e chata. Quanto tempo de minha vida busquei uma excelência fora do normal. Eu tenho meus medos assumidos, meus receios de errar e sempre que vou entrar em cena peço para morrer, parece que não irei sobreviver à experiência, de me lançar para o espaço vazio e quando mergulho acabo saindo viva. Ainda vai levar um tempo para me lançar no palco da vida, caminhar sem medo de errar, viver o instante com a certeza de que posso errar, sem imperfeita e mesmo assim serei amada.E que esse amor transborde dentro de mim e que chegue aquele momento onde não vai fazer diferença a opinião de ninguém, porque me assumo como eu sou, com minha sombra e minha luz. A beleza do humano consiste em seguir fazendo o que o coração pede, para continuar imperfeitamente feliz.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

AFAGOS NA ALMA

Somos feitos também de energia e vibração.A dança tem a materialidade do corpo como suporte para realizar a experiência do sentir o sutil. Isso acontece quando o corpo começa a ser visto como experiência de crescimento e liberdade. Quando sentimos nosso corpo acontece a experiência de sentir a energia pulsar dentro do corpo. É muito bonito ver o nosso corpo despertando para sensações mais sutis. A delicadeza de ver a energia percorrendo pelo corpo trazendo vida, sentido, entendimento, emoções. É outro universo que se abre, são novas conexões e a organicidade que se amplia.Mudamos o nosso diálogo com o espaço e o tempo, nosso ritmo. A riqueza maior é olhar a vida através do sutil, do inominável, do não dito. Uma pessoa quando chega num espaço ela o modifica e esta dança de energias ocorre de uma forma muito nebulosa e quem não tem uma conexão e não busca nenhuma trabalho corporal ou energético acaba prisioneiro de energias desconhecidas e recebendo uma carga de informações sem saber como ela pode afetar sua própria energia, humor e bem estar. Portanto é importante desenvolver uma escuta do corpo e dos caminhos da energia, muitas vezes não nos sentimos bem em certos ambientes, ou alguém nos faz passar mal, ou chega aquela tristeza sem motivo.Somos diariamente mergulhados neste mar de pensamentos e jogo de sombra e luz. A proteção vem de uma vida com mais consciência e o aprendizado do invisível. A física quântica já nos revela que através da ciência o que arte e a espiritualidade vem informando há milênios, que somos feitos de energia e temos um campo energético que contém informações sobre todos os que convivem no mesmo espaço e tempo. A dimensão e a importância de incluir o corpo, a mente e a alma numa mesma manifestação é o que garante perceber pessoas,lugares,cores, vibrações e o olhar além das aparências.Muitas vezes a crise de percepção e do sentir da contemporaneidade está associada a super valorização da palavra em detrimento da pausa e do silêncio. Na minha experiência um simples olhar verdadeiro pode afagar uma alma.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

UNIVERSO FEMININO

Pesquisei aspectos do universo feminino para compor o meu espetáculo de dança Baraka, busquei uma visão sem fronteiras e fui adentrando as contradições e princípios comuns que nos unem em diversas culturas. O resultado foi um aprendizado sobre como ser mulher é um desafio constante em qualquer cultura. Até para as mulheres em contextos sofisticados a dificuldade de ter sua alma respeitada é enorme. Uma civilização que até hoje usa o corpo da mulher como objeto, arma de guerra, faxina étnica, escudo humano. Lembro que nesse espetáculo, a abordagem sobre o amor costura cada cena e nos envolve numa atmosfera de lirismo e força. Começo falando de uma mulher que busca a sua presença, e o direito de estar em si mesma no seu valor.Em outra cena o assunto é o corpo e a relação com a sua fragmentação,danço partes separadas do corpo, só os pés, as mãos e cada gesto separado mostra uma alma pedindo para ser inteira na fragmentação, o corpo como um manifesto,um ritual de pertencimento. Todas as cenas são ritos baseados em mitos que declaram a força e urgência do feminino.O arquétipo que transcende qualquer definição e rótulo, sobre como deveríamos ser, ou nos comportar. Está em cena a mulher selvagem que ama com paixão, que chora suas dores, que luta para sobreviver e se costura por dentro sempre que está machucada. O projeto BARAKA é de 2008 e continua muito atual. Vejo a cultura do estupro muito forte e no caso do Brasil, está totalmente inserido em todas as camadas sociais, com a conivência da mídia e da publicidade que continua usando o corpo da mulher como mercadoria. Estamos assistindo a seres bárbaros em todo o mundo, vendendo como mercadorias para serem escravas sexuais,ou como propriedade de uso coletivo, meninas sendo sequestradas para esse fim, virgindades sendo leiloadas, infâncias roubadas dentro dos tradicionais lares. O fato é que não vamos parar de denunciar essa sangria, e a luta pelo direito de existir sempre vai prevalecer sobre a covardia. Fragilidade não é o nosso nome, que me perdoe Shakespeare. Nosso universo é cheio de mágica, de afeto, de vontade de cheirar flores do campo. E temos uma capacidade muito grande de levantar a cabeça, mesmo que o grito esteja sufocado, até ele sair inteiro acordando a floresta, a cidade e quem estiver surdo para entender. Eu termino com um grito,que nosso corpo, dança, sabedoria e a que a alma feminina seja celebrada e honrada.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

CORPO ORGÂNICO E A PROPORÇÃO ÁUREA

A natureza segue um fluxo, uma árvore por exemplo quando está em crescimento tem uma sabedoria secreta que consiste em encontrar padrões que através das bifurcações,e distorções dos galhos, localização no espaço, o crescimento das folhas ,com formas tridimensionais encontra assim a forma perfeita e as condições necessárias para ser nutrida com a luz do sol,água para garantir a vida contida naquela planta. Na antiguidade e principalmente no Renascimento a Proporção áurea é usada na arte, existe uma frequência , um padrão. O número de ouro pode ser encontrado na natureza, no corpo humano e no universo. Um planta sempre busca as condições apropriadas para crescer. O ser humano para crescer necessita também de encontrar a plena conexão com a vida que se manifesta no ambiente, que precisa estar em plena harmonia com os recursos oferecidos como nutrição,acolhimento, luz,afeto.O movimento orgânico que leva ao crescimento de um ser levando em conta que o corpo já vem programado para crescer e é fruto de condições apropriadas Não existe um caminho de crescimento, muita vezes é preciso olhar uma situação e perceber se é o momento de mudar a direção, o espaço ou esperar o momento de encontrar o melhor ângulo para voltar a crescer, quando algo não flui na vida. que cada um precisa desenvolver. Só há fluidez na vida quando se encontra a plena sintonia com ambiente para se tornar sagrado.

DANÇAR A JORNADA DA ALMA

Devemos ao sábio Barata o Natya Shastra, o tratado das artes do teatro-dança clássico Indiano incluindo a dança e de onde me inspiro através da dança clássica Indiana, para criar meu estilo e estética para criar minha dança .Esta dança é uma arte completa. Poesia corpórea nos movimentos das mãos, do rosto, da percussão dos pés.Gestualidade simbólica que inclui o traje , os instrumentos, a escultura, a arquitetura templária, a música,a poesia e a metafísica, dança e teatro são linguagens simultâneas, em uma única manifestação. A dança corpórea oriental que proponho é uma maneira de relacionamento com o corpo, uma percepção ampliada da nossa corporiedade que se manifesta através da sabedoria do oriente, onde a dança é o pensamento em ação, onde criamos um espaço dentro de nós para valorizar o não dito.A linguagem separa o corpo une, porque quando sou tomada de perplexidade ganho pensamento interno e aprendo a demorar nas sensações sem palavras. A experiência do mundo é feita pelo corpo e a vivência do espaço interno amplia nossa experiência no mundo.A geometria sagrada da dança por exemplo,frente,costas,estar por cima,estar por baixo, as mãos e pés em direções opostas, a cabeça e os olhos em direções opostas, os braços, pernas, quadril em direções opostas em diferentes categorias de tempo, com o corpo em espiral, círculos, diagonais, revelando uma arquitetura simbólica do ser, muda totalmente a nossa percepção gerando novas sinapses no cérebro. Toda a atmosfera de uma aula com esse elementos têm como objetivo criar presença,mistério, ritos e o pensamento sobre si mesmo e a condição humana.Se os espaços se constroem com números e medidas, existe uma geometria subjetiva que a dança oriental revela através da vivência do complexo e do sutil que reside nos detalhes.Estes símbolos no corpo aliados a meditação criam a liberdade de integrar cada parte do corpo e vê-lo através do fragmento para depois sentir o "todo" e fazendo parte da totalidade e se transformando em unidade que determina a forma como percebemos os lugares e encontramos nosso espaço interno e externo. Qualquer gesto feito com consciência e desdobramentos abre novas perspectivas, abre espaço dentro de nós para tornar comovente o banal, despertamos para a nossa linguagem secreta, nossa dança pessoal sagrada porque desperta nossa relação com a nossa força oculta que reside na força e na delicadeza dentro de nós e o mundo passa a a ser todo sentido. Meu corpo pode ser um reservatório de prazer, delícias, dores, sombras e luz,nele é possível acessar memórias, sentimentos,sensações, o divino que reside em cada um de nós e nos ajuda a desenvolver piedade e gratidão por nós e pelo planeta. Um corpo vivo, orgânico,sensual e cósmico.Para dançar felicidade, inocência, tolice, energia. O jogo do mundo movendo no meu ser.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

DANÇA IMPERFEITA

Recebi numa aula de Biodança um desafio de surpresa: dançar o meu caos.Eu vivo num constante movimento de equilíbrio entre a derrapagem e a ordem. Aceitei plenamente na hora.Já visitei meu caos inúmeras vezes nestas aulas, mas desta vez não fiquei com medo, eu tinha uma fantasia que ia gostar tanto da loucura que poderia acabar permanecendo por lá.Mas felizmente sempre voltava para me pensar no espaço e sentir o meu chão de volta. Naquele momento aceitei simplesmente e deixei o meu corpo seguir sua trajetória.Fiquei suavemente penetrando meus espaços vazios e silenciosos, era uma dança sinuosa sem gritos, gestos de socar bruscos sem agressividade, sim eu vivi a delícia de ser louca sem julgamento e sem medo de me perder. Vivi aquela frase ou ditado não sei bem "Se você está no inferno abrace o diabo", foi assim que me senti, abraçando meus caos e fazendo as pazes com ele. No final do exercício acabei deitada no chão me pertencendo,sentido minha presença, com os vazios preenchidos e o corpo preenchido de mim mesma.Levantei refeita daquela viajem dentro de mim. Eu que nasci do caos, que sempre tive a derrapagem como caminho pude abraçar o vazio. Isso me explica. Até explica o porquê de ter escolhido uma arte complexa como matéria-prima de trabalho. Uma dança que desconhece a linha reta e linear, que se cria através do fragmento, do torto, da curva do corpo, onde todas as ações são belas e ao mesmo tempo exige presença sempre,movimentos tridimensionais que desafiam nossa necessidade de entender e apreender conhecimento rápido, uma dança que não te promete bem estar rapidamente, é necessário se dar para ela, se lançar no escuro, não entender nada por um bom tempo, ser criança de novo vendo algo pela primeira vez num mundo tão igual e uniformizado.É buscar no desafio e na indecisão a força, é encontrar no desequilíbrio o equilíbrio, é sair do estado de certeza para se fazer sentido. Não existe a fuga da realidade e sim o mergulho no desconhecido, para se chegar no maravilhamento de ver o próprio corpo fazendo novos gestos, as mãos sendo encontradas no olhar e o toque suave ou forte dos pés no chão convidando o corpo a ser ao mesmo tempo forte e suave.Feminino e masculino sendo presentes numa dança de guerreiros e guerreiras do coração. Para se dançar é necessário ser um " atleta afetivo". Não consegui me acostumar ao correto e linear. Preciso dançar com os meus medos, dores e loucuras para ser quem eu sou, integrando cada parte minha que desconheço e que me fazem no fragmento a morada do sentir, do pensar e do agir. E muito devagar e delicadamente viro força na delicadeza de estar cruzando um espaço sonoro em direções opostas e tridimensionais para encontrar equilíbrio no desequilíbrio. Mas é assim que encontro comigo.

domingo, 21 de maio de 2017

DANÇAR O EFÊMERO

A dança que transmite a intensificação da vida, e a presença das sensações. A dança orgânica necessita da escrita do corpo, de ouvir o corpo, como se todos os poros fossem ouvidos, trazendo intensidade e vivência. A pausa no repouso. A energia não corresponde necessariamente a movimentos no espaço. Quanto mais a dançarina busca intensidade e consciência, maior é a sua capacidade de ser a mensagem. Seus movimentos atingem diretamente o coração do público sem hermetismos. A linguagem da dança é universal quando a técnica é um veículo e não um fim. A dança quer existir no presente. A poética do efêmero, o que importa é a experiência coletiva de sonhar publicamente. Bertolt Brecht ( 1898-1956) um dos maiores homens de teatro do século XX, dramaturgo, encenador e teórico, afirmou que o teatro que quer representar movimentos inconscientes da alma, ultrapassa o diálogo interpessoal.O diálogo se desautoriza, se desqualifica, por ser racional; é um tanto marginal para exprimir o inconsciente.Faço uma relação com a dança, porque vejo estas linguagens como manifestações simbióticasque se expressam numa única manifestação.Existe uma linguagem secreta transmitida, que vai além das palavras e dos rótulos, que não pertence a catálogos, impossível de caber na prateleira do supermercado, intraduzível, que pertence ao reino das pessoas que ainda não estão presas ao que é dito de "fora pra dentro". Gente que ainda investiga o mundo buscando suas próprias respostas.

domingo, 7 de maio de 2017

SUTILEZA ESCULPIDA NO CORPO

Estou promovendo aqui em Brasília um curso sobre gestualidade, mito, arquétipos tendo como matéria-prima os princípios contidos na dança clássica Indiana. O que quero enfatizar aqui é que durante esse processo de desconstrução de um corpo linear estou fazendo novas descobertas.Nas aulas o meu foco é retomar o equilíbrio no desequilíbrio, e abrir os portais que acessam espaços no corpo que permitem deixar todos estes símbolos e imagens nos visitar. Dançar deixando o corpo fluir através das ações. Se a contemporaneidade nos apavora porque estamos sempre nesta eterna dissociação entre o pensar, agir e sentir, sigamos na plenitude do movimento convidando nosso corpo a integrar estes três centros, se nossas raízes não estão firmes, batemos nossos pés no chão, e nosso gesto está contido, vamos liberar novas conexões no cérebro usando cada parte que não usamos no nosso cotidiano impedidos pela nossa cultura que anulou o corpo em detrimento do pensamento e dos bons costumes.O contato com diferentes técnicas corporais na minha opinião tem esta função ampliar o gesto, deixá-lo mais orgânico. A imaginação é um músculo e precisamos nos aprofundar nas diferentes nuances escondidas no nosso corpo. Prestar atenção nos nossos olhos, nossas mãos, pés e este diálogo nos transforma trazendo nossa presença.
Me sinto privilegiada por sentir. Sentir e perceber as mensagens do meu corpo. Ouvir quando é possível o incessante diálogo do corpo com a alma. Não importa quando não compreendo a linguagem subterrânea das diferentes camadas e nuances que formam a síntese de mim mesma. Gostaria de ter olhos no meu interior, para dançar partes de mim que ainda não visitei. Quando escrevo sobre dançar a minha alma, criar um vocabulário próprio em cena, escrevo sobre esta necessidade de estar com a minha lanterna acesa, para quando entrar na caverna dos meus labirintos secretos, encontrar a luz e entendimento. " A dança afasta a prisão do Eu" Dançar é necessidade da alma, para revelar a experiência do prazer de perceber coisas sobre o meu mundo, olhar o olhar de mim mesma e me permitir olhar outras coisas. " A maior alegria é nos perdermos de nós mesmos por alguns instantes.O si mesmo não pode ser dito , porque ele é tão singular para cada si mesmo, que deveria existir uma palavra.Se você quer falar do si mesmo, você tem que inventar uma palavra e é incomunicável. Dançar é um exercício de superação. "

sexta-feira, 5 de maio de 2017

ESTUDO SOBRE UMA ÁRVORE

Eu morava num apartamento que da minha janela dava para ver uma única árvore majestosa com um caule gigantesco. Ela reinava soberana e sozinha. Um dia caiu um raio e ela amanheceu cortada ao meio. Quando acordei e fui para a janela vê-la me deparei com aquela imagem dantesca: Ela estava partida ao meio, metade no chão e metade altiva em pé.Cortaram a metade que estava no chão.E no dia seguinte quando vi o resultado me surpreendi com a força daquela árvore que resistiu a tudo e permaneceu linda e de pé. Nesta fase estava atravessando uma crise aguda de depressão e permaneci ao lado dela com uma pergunta que permaneceu comigo durante muito tempo. Como seguir em frente quando algo nos atinge no meio do peito? Como caminhar partido? Esta resposta só chegou agora. Estava dando uma aula de dança e ao colocar para as alunas as minhas dificuldades para entender certos movimentos na dança, quando estava no início do aprendizado e me questionava como um corpo pode levar os braços para frente, quando o quadril vai para trás, e como meu corpo pode responder a tantos deslocamentos, sendo usado separadamente cada parte do corpo em direções opostas e seguidas posições esculpidas para gerar desequilíbrio no equilíbrio e seguir inteira comigo me fazendo sentido. E eu percebi assim do nada que já me quebrei muito desde que entrei em contato com aquela árvore partida e que estou me especializando em caminhar apesar de todos os golpes da vida, porque eu sei que posso encontrar o caminho de volta para casa, meu ser. Eu aprendi a caminhar partida, fragmentada e desequilibrada e ao mesmo tempo me pertencendo. Me sinto inteira para entender porque o dramaturgo Willliam Shakeaspere (1564-1616)já dizia no século XVI que o mundo não pára para que a gente se consertar. Mas é possível sim permanecer inteiro apesar de tudo.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

" A IMAGINAÇÃO É UM MÚSCULO"

Dançar é um ato político. Amar o próprio corpo é um ato político.Entendê-lo e descobrir a sua ação no mundo é revolucionário. Penetrar nos mistérios do corpo e os seus símbolos é divino. Isso acontece quando uma mulher decide descobrir de que substância é feita, saindo da ditadura da estética e dos modelos de comportamentos fabricados. É o momento de ser visceral, para celebrarmos nossa "natureza pulsante", nosso espírito selvagem adormecido. Existem inúmeras maneiras de se entrar em contato com esse universo mágico e onírico que é o corpo. Maneiras de explorar sentir, agir e pensar integrados. Formas de acordar com o corpo vivo. Não é esquisito, muita gente acorda morta, presa no corpo, aprisionada. Vivendo a dissociação onde o pensar, o sentir e o agir não têm conexão, falamos línguas diferentes dentro de nós e se leva um tempo para descobrir o que nos foi dado como busca e estudo profundo do nosso corpo. Muitas vezes fazer uma simples caminhada já muda o roteiro do filme daquele dia, o coração começa a bater diferente, as pernas começam a ter força, os pés criam asas,as nuvens começam a passar, as árvores começam a mostrar força, a respiração passa a soprar vida para dentro de nós. E esta é a mágica que o corpo proporciona em qualquer pessoa que começa a prestar atenção nele(o corpo). Fica muito clara a filosofia dos orientais, a meditação, a alteração dos estados de consciência para se adquirir consciência do aqui e agora. A importância dos pequenos gestos no cotidiano. O texto é sobre política do ser. Não adianta ter forma e não ter conteúdo. Na busca por autenticidade, força para receber o que está sendo traçado pelo destino. Desta forma o corpo nos ensina a afirmar a própria existência, restaura a potência da força singular de cada um para que os sentidos sejam acessados. Que a alma seja nosso reservatório de prazeres e delícias. Estar no processo constante de expansão. Muito importante esta educação do corpo como referência para se pensar o mundo e agir na estrutura social que se faz parte. Menos doenças e neuroses, menos farmácia e mais movimento. Menos novela e mais canto e danças populares nas ruas, nos parques, nas ruas. Menos demagogia dos políticos e muita cultura e celebração aos nossos ancestrais e mestres.Acredito na força que reside no despertar do potencial de cada pessoa. Infelizmente, a maneira escolhida para se fazer política aqui no Brasil, transcendeu o "pão e circo", hoje o que vemos é uma população controlada pelas forças que lutaram para libertá-los da miséria econômica. Quando algum grupo desperta em qualquer comunidade,o desejo de mudança,é muito claro o papel de setores que levam teatro, terapias comunitárias, e muito trabalho corporal para todas as pessoas que são privadas, ou negadas do direito de desfrutar, ter o privilégio de ser o melhor para si mesmas. Estas ações têm o poder de nos mostrar que, estamos voltando a encontrar verdade nos olhos das pessoas, amor nos encontros, abraços sinceros, união. Mulheres mais independentes e livres, seres que sabem que a força reside na luta e no prazer de ser inteira diante de cada batalha, cada superação. Um dia, todas as mulheres do mundo, que são obrigadas a sufocar a sua voz e que continuam gritando em silêncio com a alma escondida, poderão ser donas dos seus corpos e de suas vidas.

domingo, 16 de abril de 2017

LEELA A BRINCADEIRA DIVINA

Hoje estou celebrando minhas raízes.Aproveitei este domingo de páscoa para me visitar. Coloquei uma música na sala, olhei o horizonte e soltei o meu corpo deixando a melodia da música me guiar. Meu corpo foi criando formas harmonizadas e meus pés começaram a deslizar pelo chão.Eu senti uma profunda emoção e desejo de morar nesse corpo, que foi tão negado e castigado por mim. Foi um trabalho muito árduo de investigação de mim mesma e que está em plena construção. Num certo momento senti vontade de ir até o meu quarto e observar o meu corpo, me olhar nos olhos. Sim eu já tenho dignidade para me encarar no espelho e me admirar. Mesmo dançando e tendo o corpo como princípio de aprendizado, tudo o que percebi hoje diante do espelho foi construído e ao mesmo tempo não tenho garantia nenhuma que este estado é permanente, afinal somos impermanência. Só que decidi desfrutar de minha companhia tendo a dança como parceira. Olhar meu corpo sendo minha única platéia, sendo absolutamente de mim mesma,com todas as minhas cicatrizes e dores a serem curadas. Minha honestidade latente e visceral de desejo ardente de fome de mim. Uma inconsequência e uma vontade de ampliar cada parte do meu corpo e sair por aí passeando como o vento. Eu descobri que ando voando com o corpo, antes só voava na mente. A mente era avoada e o corpo ainda era pesado. Na dança a leveza é natural em mim, mas no cotidiano não era leve, sempre absorta em pensamentos e mergulhada no labirinto de minhas sombras. Mas chega um dia que a sabedoria nos visita e que o corpo começa a conversar com você, ou melhor comigo. Esta caminhada de sentir o meu corpo com intensidade eu devo à dança, porque sou incapaz de fazer alguma coisa sem alma. A primeira coisa que faço ao dançar é convidar a minha alma para dançar comigo, antes da técnica ou de qualquer protocolo. E ao poucos este espírito dançante transbordou na minha vida e sinto que estou no cotidiano mais presente. A presença é a verdadeira meditação, quando sou toda e inteira sinto que amplio a conexão com esferas cósmicas e sinto Deus dentro de mim. É nesse estado de bem aventurança que estou dançando, refletindo e ensinando dança. Provocar no outro o desejo de deixar a dança fazer morada, a vida ficando divertida e fazendo sentido e você se sentindo, fazendo parte do todo.É por isso que em cada aula minha eu sempre faço esta ponte com o oriente mágico, onírico das histórias mágicas e do simbolismo imerso.Nossa criança precisa ser alimentada,nutrida e aceita e a dança nos convida a jogar esta brincadeira transcendental. Sentar em roda igual criança e movimentar os olhos, experimentar fazer um giro no espaço e ficar tonta, cruzar os braços e pernas numa posição tridimensional e perder o juízo, não entender nada e visitar o caos da brincadeira de não saber as regras da brincadeira. Isso é leveza é fluidez. Ninguém vai me julgar se eu não dei uma pirueta para cair em quinta. Eu só deixei o meu corpo sentir nuances, cores diferentes, tons diferentes.Como na vida que é feita de instantes, pausas, intensidade, caos, ordem, emoção em profundidade. Eu estou comigo, dançando comigo e sentindo o olhar do horizonte. Que o nosso corpo, mente e espírito estejam juntos em nosso processo de crescimento e evolução, afinal somos todos um. E tudo o que existe no universo tem dentro de mim e dentro de você. No oriente se chama Leela a brincadeira de Deus. Finalizo com este sábio o Osho: "Você tem que viver no mundo, mas você precisa ter o mundo apenas como um grande teatro. Sou contra renunciar ao mundo. Você não tem que fugir do mundo, você precisa viver nele, mas de uma maneira totalmente diferente. Não o leve muito a sério, leve-o muito despreocupadamente, como uma piada cósmica. Ele é uma piada cósmica. No Oriente o chamamos de brincadeira de Deus. (Leela) Você pode ser um rei no drama, mas você não leva isso a sério. Se é uma brincadeira de Deus então somos apenas atores nela e ninguém leva a representação a sério. Quando a cortina cai, você esquece tudo sobre ser um rei; isso não vai para sua cabeça. Se você for rico, não deixe isso ir para sua cabeça, ou se você for pobre, não leve isso a sério. Estamos todos representando papéis; represente-os tão belamente quanto possível, porém lembre-se continuadamente que tudo isso é um jogo. E quando a morte chegar, a última cortina cai. Depois todos os atores desaparecem. Todos eles desaparecem numa energia universal. Se pudéssemos viver no mundo lembrando disso, estaríamos totalmente livres de toda miséria. Sofrimento é uma conseqüência de se levar as coisas a sério e alegria é uma conseqüência de se levar as coisas de maneira leve. Leve a vida de modo divertido Desfrute-a." Osho em Meditações para a noite

sábado, 15 de abril de 2017

O SIMBOLISMO DAS MÃOS

As mãos curam, abençoam, evocam,louvam, defendem, e comunicam. Assim as várias crenças as vêem. É, sem dúvida, nos estudos sobre “Mudras, nas yogas de origem indiana e nas práticas do Budismo, principalmente o Mahayana (grande veículo), que encontramos, a maior diversidade simbólica dos gestos. Tal palavra, em sânscrito, significa “sinal”. Segundo tais linhas, as mãos manifestam o estado de consciência em que estão os seus praticantes, e o objetivo a que se propõem no momento.Acreditam que as posições de suas mãos retêm energias dentro do ser humano, produzindo nele transformações não só em seu físico mas também em seu emocional e mental. Os Mudras -assim creem- podem captar energias da natureza. Então, caso um praticante faça um gesto representando um nascer do sol, estará atraindo para si a energia solar, podendo depois transmiti-la com outro Mudra.Os mudras podem também representar a movimentação dos peixes, dos insetos, e trazerem assim a energia desta movimentação. As Hatha Yogas usam também os Mudras aliando-se com as Asanas (posturas corporais) e a respiração, despertando, assim os seus adeptos para as forças cósmicas. Os Mudras aparecem com freqüência nas danças indianas, em sua arte, e nas esculturas e imagens de seus deuses. È bastante comum então se ver as estátuas de Buda ou de seus Bodisatwas emitindo diversificados sinais sobre a humanidade. O Cristianismo, ao representar Jesus, e algumas vezes apóstolos como Paulo e Lucas, os põe emitindo energias divinas, os Mudras de bênçãos. As interpretações esotéricas dos gestos que aparecem em imagens cristãs, onde geralmente os dedos mínimo e anular estão abaixados para a palma da mão, nos dizem que são pelos outros dedos, o polegar, o indicador e o médio, que fluem as potências mais superiores do homem, sendo então, estes os escolhidos para o uso das bênçãos. Os sacerdotes cristãos estão investidos pela Igreja do poder de as transmitirem embora algumas linhas espiritualistas ampliem estas transmissões. Baseadas num princípio possível da troca energética entre todos os seres acham que uma pessoa que evoca forças divinas, poderá igualmente abençoar outrem e até curá-lo, difundindo tais forças pelo simples poder de suas próprias mãos. A importância dos dedos, não só nos Mudras indianos, mas também em quaisquer crenças de outras procedências, é imensa. No Islã, um de seus símbolos mais sagrados é a “Mão de Fátima” (filha do Profeta). É um talismã onde a sua palma aberta propõe um gesto de defesa contra perigos. Os cinco dedos representam os cinco pilares da devoção islâmica; Peregrinação, profissão de fé, esmola, prece e jejum. Vindo da idéia de que a figueira é uma árvore de poderes mágicos, o simbolismo do “gesto da figa” onde com a mão fechada o dedo polegar é colocado entre o índex e o médio aparece como o amuleto contra mal olhado nas regiões que receberam influência africana, como o nordeste brasileiro. Tendo sua procedência nos negros escravos aqui vindos da Guiné, é também conhecido entre nós como a “Figa de Guiné”. Os objetos que a representam, principalmente em nosso estado da Bahia, são inúmeros e valem, segundo a crença, por um esconjuro. A linha mística do Budismo Mahayana trabalha com as cores do prisma solar. Faz de cinco raios dele uma correspondência com os cinco dedos da mão. Chamam a isto a “Mão do Maha Chohan” porque crêem que exista um grande ser que administra espiritualmente o mundo, os setores ativos de amor, arte, ciência , união e liberdade, a que correspondem as características daqueles cinco raios estudados, dando assim, à mão e seus dedos , um simbolismo de atividade espiritual. Do séc, XIV ao sec. XVIII alguns países da Europa, particularmente a França e a Inglaterra, foram tomados pela crença de que o rei tinha o poder de curar pelas mãos. Isto advinha da idéia, estranha a nossa modernidade, do caráter sagrado atribuído às monarquias de outrora, ao poder régio, o qual –segundo acreditavam- era investido por virtudes divinas. O contato com mãos reais curavam, em especial as Escrófulas (uma doença de pele, causada pela inflamação dos gânglios linfáticos) que em certas regiões francesas e inglesas em razão da pouca higiene eram endêmicas. No livro do professor Marc Bloc, é narrada com detalhes a crença nestes poderes miraculosos das mãos reais. No simbolismo das mãos, os significados da direita e da esquerda são divergentes. A Cabala judaica em sua diferença bíblica de um deus da justiça, e um da misericórdia os faz representar respectivamente pela mão direita e esquerda. Dando um caráter benéfico à mão direita, e maléfico á esquerda, as feiticeiras africanas usam sua mão direita para manipular ervas amuletos e apetrechos usados em rituais sagrados, mas usam a esquerda para prepararem venenos e fetiches maléficos. Já no Corão Islâmico é citado: “Aquele que recebe o Livro (O livro da vida do pós morte , onde estão as ações humanas ) com sua mão esquerda dirá : serão reveladas desgraças para mim! Aquela que receber seu livro com a mão direita será julgado com mansuetude.” Vamos também encontrar no latim a palavra sinistra referindo-se á mão esquerda. Os espiritualistas afirmam: A mão esquerda recebe (as bênçãos do céu) e a direita dá. A primeira é passiva e a segunda ativa, e é assim que as usam em seus ritos de bênçãos. Há quem creia que as linhas da mão formam um gráfico que revela nosso destino. São os quiromantes. A Quiromancia, tal como a Astrologia, acredita que as forças planetárias atuam no indivíduo. Porem, a Quiromancia afirma ainda que tais forças estão marcadas nas palmas das mãos e por elas podemos estudar talentos , tendências e futuro.O povo cigano sempre se dedicou a esta crença. Seguindo o mesmo raciocínio da influência planetária vibrando nas mãos, o Afro Brasileira, em sua linha umbandista, usa como recurso de intercâmbio entre médiuns e seus orixás e caboclos, um estalar de dedos que produz um som semelhante ao bater de um castanhola. Cada um dos orixás trazem a força de um dos planetas do nosso sistema, e os caboclos se inserem também nas sete linhas dos orixás. Entre os planetas, crêem que é Venus aquele cuja influência é mais forte. Ao concordarem então com a Quiromancia , quando esta diz que na elevação que temos junto ao pulso, é onde se encontrará a influência de Venus , chamando-a até de” Monte de Venus “. O médium recebedor do orixá ou do caboclo estala o dedo tocando fortemente este monte excitando-o provocando reações vibratórias que fortificam a sua relação com o orixá ou o caboclo que está recebendo. Em sua conotação de comunicadoras , as mãos encontram o seu intercâmbio simbólico mais importante na linguagem usada pelos surdos –mudos. Numa linguagem gestual, estes encontram a oportunidade de prescindirem da comunicação verbal por meio de sinais que substituem com perfeição os sinais fonéticos. Sejas tu um Yogue a levantar as mãos numa saudação ao sol, sejas tu um sacerdote a abençoar, estejas unindo-as em formato de lótus para orar, ou movimentando-as graciosamente numa dança ritual , se perante teu hino pátrio ,as tiver sobre o peito em fervor nacional, se as estenderes a alguém em sinal de amizade, sempre tuas mãos estarão usando um simbolismo revelador do teu estado psicológico ou espiritual. Do sec. XIV ao sec. XVIII alguns países europeus, particularmente a França e a Inglaterra, foram tomadas pela crença de que os reis tinham o poder de curar pelas mãos. Isto advinha da idéia estranha à nossa modernidade Do caráter sagrado atribuído às monarquias de outrora, ao poder régio, o qual –segundo acreditavam- era investido por virtudes divinas. O contato de mãos reais curava em especial as Escrófulas (uma doença de pele causada pela inflamação dos gânglios linfáticos), que em certas regiões francesas e inglesas medievais, em razão da pouca higiene, eram endêmicas. No livro “Os reis Taumaturgos” do professor francês Marc Bloch são narrados em detalhes, a crença nestes poderes miraculosos das mãos reais. No simbolismo das mãos, os significados da direita e da esquerda são divergentes. A Cabala judaica em sua diferença bíblica de um deus da justiça e um deus misericordioso os faz representar respectivamente pela mão direita e esquerda. Dando, um caráter benéfico á mão direita e maléfica à esquerda as feiticeiras africanas usam a sua mão direta para manipular ervas, amuletos e apetrechos usados nos rituais sagrados, mas usam a esquerda para preparar venenos e fetiches maléficos. Já mo Corão islâmico é citado: “Aquele que recebe o Livro (o Livro da Vida do pós morte , onde estão as ações humanas feitas no mundo) com sua mão esquerda dirá: serão reveladas desgraças para mim Aquele que recebe seu livro com a mão direita ,será julgado com mansuetude. Vamos também encontrar no latim a palavra sinistra, referindo-se á mão esquerda. Os espiritualista afirmam: “A mão esquerda recebe (as bençãos do céu) e a direita dá”.A primeira é passiva e a segunda é ativa, e é assim que as usam em seus rituais de bençãos. A quem creia que as linhas da mão forma um gráfico que revela nosso destino. São eles os quiromantes. A Quiromancia, tal como a astrologia, acredita que as forças planetárias atuam no indivíduo, mas vão além, afirmando que tais forças estão marcadas nas palmas de suas mãos, e por elas podemos estudar seus talentos ,tendências e futuro. Seguindo o mesmo raciocínio da influência planetária vibrando nas mãos, a afro-brasileira, em sua linha umbandista, usa como curso de intercâmbio entre seus médiuns e seus orixás e caboclos, um estalar de dedos que produz um som semelhante ao bater de castanholas. Cada um de seus orixás trazem a força de um dos sete planetas do nosso sistema, e os caboclos se inserem também na sete linhas dos orixás. Entre os planetas, é Vênus aquela cuja influência é mais forte assim creem. Ao concordarem então com a Quiromancia, quando esta diz que na elevação que temos junto ao pulso é onde se encontrará a influência de Vênus,chamando-a até de “monte de Vênus”, o médium recebedor do orixá estala o dedo, tocando fortemente este monte, excitando provocando reações vibratórias que fortificam a sua relação como orixá ou caboclo que está recebendo. Em sua conotação de comunicadoras as mãos encontram seu intercâmbio simbólico mais importante na linguagem usada pelos surdos-mudos. Numa linguagem gestual, esses encontram a oportunidade de prescindirem da comunicação verbal, por meio de sinais que substituem com perfeição os sinais fonéticos. Sejas tu um yogue a levantar as mãos numa ‘saudação ao sol”, sejas um sacerdote a abençoar, estejas unido-as em formato de lótus para orar, ou movimentando-as graciosamente numa dança ritual, se perante teu hino pátrio as tiver sobre o peito os espiritualista afirmam: “A mão esquerda recebe (as bençãos do céu) e a direita dá”.A primeira é passiva e a segunda é ativa, e é assim que as usam em seus rituais de bençãos. Seguindo o mesmo raciocínio da influência planetária vibrando nas mãos, a afro-brasileira, em sua linha umbandista, usa como curso de intercâmbio entre seus médiuns e seus orixás e caboclos, um estalar de dedos que produz um som semelhante ao bater de castanholas. Cada um de seus orixás trazem a força de um dos sete planetas do nosso sistema, e os caboclos se inserem também na sete linhas dos orixás. Entre os planetas, é Vênus aquela cuja influência é mais forte assim creem. Ao concordarem então com a Quiromancia, quando esta diz que na elevação que temos junto ao pulso é onde se encontrará a influência de Vênus,chamando-a até de “monte de Vênus”, o médium recebedor do orixá estala o dedo, tocando fortemente este monte, excitando provocando reações vibratórias que fortificam a sua relação como orixá ou caboclo que está recebendo. Em sua conotação de comunicadoras as mãos encontram seu intercâmbio simbólico mais importante na linguagem usada pelos surdos-mudos. Numa linguagem gestual, esses encontram a oportunidade de prescindirem da comunicação verbal, por meio de sinais que substituem com perfeição os sinais fonéticos. Sejas tu um yogue a levantar as mãos numa ‘saudação ao sol”, sejas um sacerdote a abençoar, esteja unido-as em formato de lótus para orar, ou movimentando-as graciosamente numa dança ritual, ou perante teu hino pátrio as tiver sobre o peito em fervor nacional, se as estender a alguém em sinal de amizade, sempre tuas mãos estarão um simbolismo revelador do teu estado psicológico ou espiritual. Fonte: "A Influência de Crenças e Símbolos"

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas...