Translate

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PLATÉIA SOLIDÁRIA

O encenador, ator, poeta e teórico Francês Antonin Artaud(1896-1948) disse: “O processo de criação aproxima-se sempre da angústia, que é um sentimento ligado ao desconhecido. Tem-se medo de algo; angustia-se de uma sensação apenas. É a cultura das sensações (do imaginário, do sensível), não da cultura erudita. Mas um teatro que vai do sensorial ao intuitivo. Não é um teatro físico, apenas.” O teatro da crueldade é o nome da proposta de Artaud. Por um teatro onde a platéia e o público participem do espetáculo de maneira simbiótica numa única manifestação. Ele já fazia em plena década de 20 uma crítica à cultura do espetáculo e a própria forma que a cultura ocidental entendia o teatro que para ele vai além do entretenimento, um teatro que não se limita num palco, que pode se transformar, um teatro pré-verbal, metafísico, ritualístico. Nunca pensei que a experiência que vou descrever através do VII festival de dança solidária de Brasília fosse tão pertinente ao teatro da crueldade, salvo que Artaud é muito mais complexo do que esta minha analogia, mas vejam que é apenas um recorte da nossa realidade que vai ser associada aos escritos dele. Portanto peço permissão. O festival de dança solidária realizado em Brasília tem como foco a expressão através da dança na terceira idade e pessoas com deficiência. O festival tem esta característica unir gerações, saberes e diferenças. Promover encontros com arte e beleza. Durante o festival observei o carinho da platéia e a ausência de crítica tão comum a qualquer plateia. Presenciei um diálogo amoroso onde não havia separação, todos dançavam juntos. Num certo momento, um grupo entra em cena e acontece um problema técnico e a música silencia e o grupo olhando para a platéia, aquela pausa. Eu vi naquele momento que todos queriam que o espetáculo continuasse e que não havia nada de errado naquela cena. Eu senti que a imperfeição fazia parte e era totalmente aceita e necessária.Não no sentido piegas, mas no sentido da vontade de ver em cena que todos nós somos incompletos e imperfeitos e que errar faz parte do caminho do aprendizado e só chega a um objetivo quem vai em frente apesar das limitações. Na hora fiquei gelada e imaginei muita coisa, mas aconteceu a imagem mais linda, a platéia ficou em silêncio respeitoso, alguns incentivando e deixando o grupo decidir se dançaria ou não. Quando elas decidiram dançar, foram ovacionadas porque a decisão de ficar e enfrentar o medo do fracasso ou de críticas é inerente à condição humana. Com grande satisfação aconteceu o improvável. Uma platéia que assistiu o espetáculo com os olhos do coração e com a alma aberta para ver beleza, sutileza e humanidade. Cada dança tinha sua peculiaridade e harmonia. E no final desta linda celebração, todos da platéia e dançarinos dançaram ao som de chiquinha Gonzaga" Ô abre alas". O ser humano é capaz de coisas incríveis quando se sente aceito e percebe que pode. Percebi que este festival de dança solidária também está reinventando outro tipo de público, que não é aquele que vai para ver virtuosismo técnica apurada e um show de iluminação e todos os elementos que compõem uma linguagem em dança e sim um público que não fica passivo, mas que se doa também, que até quer ver tudo isto afinal falamos de arte, mas busca também humanidade .

Um comentário:

  1. Me comovi com este espetáculo de extrema beleza e solidariedade.
    Parabéns Maria Vilarinho

    ResponderExcluir