quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ALMA SEM FRONTEIRA

Preciso ouvir os chamados que ecoam dentro de mim, são vozes sussurrando,lugares onde eu não consigo penetrar ou explicar. São respostas misteriosas que querem ser dançadas, porque meu vocabulário ortográfico esgotou. Nina Simone disse uma vez que o artista precisa refletir o seu tempo, nem gosto mais desta palavra artista, ela pode ter tantas interpretações no nosso tempo. Mas eu falo daqueles que têm uma angústia e uma coisa de não se adaptar, estas vozes internas que me referi ficam dialogando o tempo todo. São forças misteriosas que te fazem sair do papel branco e fazer um pacto com Deus, talvez ate traduzir ou expressar o pensamento de Deus. Se Deus, ou o nome que cada um dá a esta força que nos faz levantar da cama apesar de todas as dificuldades, olhar diferente para uma rua, um jardim, uma melodia e depois tomar para si um desejo de falar sobre e através do corpo, sensações e mistérios que não estão nos livros, nem nas escolas, ou na academia. Muitas vezes a tradução da nossa voz está no deserto de nós mesmos, na nossa infância, nossos ancestrais e raízes. Escrevo também sobre outra fala, outra escuta, outra faixa do tempo, onde falar não encontra entendimento na razão e sim no sentir.É buscar sutileza no inefável, naquilo que não foi dito, mas está lá gritando para ser visto. No mundo ecoam gritos de gente faminta por falar o que não tem explicação, eu eu sei que existem muitas fomes no mundo contemporâneo, e muita gente está morrendo tragado pelos desejos. Neste emaranhado de" quereres e estares sempre a fim", ainda existem aqueles que desejam traduzir sonhos e desejos em poesia de movimentos, paisagem e melodia e até a tristeza em puro encantamento da alma na sombra. Eu espero que todo artista que está exprimido entre o que quer dizer e ao mesmo tempo está atropelado pela burocracia dos órgãos patrocinadores encontre seu caminho. E para quem ainda está torturado por ser criativo como se fosse uma sentença,porque sua voz não é ouvida ou entendida que é importante continuar produzindo. Não acredito nesta história de posteridade e não gosto de caminhar com a cabeça no futuro ou no passado. Vou dançar sempre, é o que me mantém viva. Estou começando a produção de um espetáculo e fiquei encantada com músicos que vêm do Suriname para brindar Brasília com música de primeira qualidade e tudo o que eles pediram foi passagem, estadia e alimentação e abriram mão do cachê. E claro que também precisamos pagar contas igual todo mundo, mas isso não nos impede de seguir realizando nossa missão. Bailarinas que compõem o espetáculo comigo, uma bailarina dos Estados Unidos e outra grande Bailarina do Paraná, todos nós unidos pelo desejo de ser dança, e tudo o que queremos é proporcionar este encontro de almas. Fazer acontecer um instante mágico acontecer entre público e platéia, mostrando mais uma vez que a arte quando é feita por gente verdadeira transcende silêncios e mostra uma sabedoria oculta, onde o tempo pára e tudo o que importa se faz presença. Estarmos juntos numa experiência em uma única manifestação. Por uma arte sem fronteiras, universal porque tenta nos revelar nossa humanidade. Eu desejo que a humanidade encontre sua voz, sua maneira mais bela de estar no mundo.

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