SANGUE E PÓ

Lenine, compôs uma canção muito tocante sobre o quanto a vida acelera e ele prefere a valsa. Nesta simples analogia sinto a sabedoria do meu caminhar lento para sentir o chão e entrar em contato com a terra. Eu sei que muita gente detesta, mas eu adoro filmes de estética oriental. Principalmente os filmes Iranianos com planos longos, imagens quase paradas, poucas ações e tudo muito carregado de sentimento. Eu acredito nas ações que sejam carregadas de sentido onde o tempo é uma fenda que transcende o espaço.Eu percebo este momento de construção de presença quando me encontro com o público e começamos a dialogar através do silêncio da minha dança. Temos que ter vida interior só assim olhamos o inefável, cobrimos de sentido nossa existência. Uma vez vi um documentário com o registro de uma aula de interpretação de um diretor Francês. Nesta aula ele pedia para a atriz observar pessoas em jejum, pessoas saindo de uma igreja e olhasse o estado energético daquelas pessoas. Era este estado de energia e prontidão que ela tinha que criar em torno de si mesma. Uma vibração que transcende a superficialidade do cotidiano. Como a imagem daquele menino Sírio coberto com sangue e pó, resgatado do bombardeio na cidade de Aleppo. Muito significativo e profundo o silêncio de sua mão tocando os olhos e a inocência de não entender o porquê daquela violência, seu silêncio disse muito sobre a brutalidade humana e ao mesmo tempo nos trouxe silêncio, nos lembrou de nossa humanidade perdida em tantas redes sociais e eventos do cotidiano, ele nos fez parar um pouquinho, e olhar a existência de um jeito raro.É nesse sentindo que já existem movimentos contrários à comida rápida, filmes com propostas semelhantes, performances que nos levam a labirintos de universos simbólicos e oníricos que nos fazem sair dos automatismo para nos lembrar quem somos e o que estamos fazendo aqui. Eu acredito no movimento, no ritmo e na intensidade da vida e sei da importância da ação,do verbo e da loucura do caos, mas é muito bom quando encontramos ordem no caos, silêncio na vertigem. Muito rico quando encontramos uma dança que seja também aquela pausa que a nossa alma precisa.

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