Translate

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

TEATRO ESSENCIAL - DENISE STOKLOS

Teatro Denise Stoklos Essencial
Denise Stoklos acredita que seu teatro pode mudar o mundo - e o faz. Não é por nada que sua face expressiva simboliza os eventos de teatro deste verão. Ela é como uma chama que passa por cima do palco e do público queimando o limo. Não me lembro de ter visto com freqüência - se alguma vez - tanta força interna e externa numa só pessoa. Especialista em expressão, Stoklos é ao mesmo tempo brilhantemente inteligente, engraçada e trágica. Seu 'Teatro Essencial' transforma e muda o mundo. O teatro pode enfim mudar o mundo? Dizem que não, mas o teatro de Denise Stoklos pode. O espectador não é mais o mesmo depois de assisti-la. Stoklos se parece com Don Quixote, em sua guerra solitária contra o cinismo e egoísmo. Os sentimentos da platéia foram expressos muito bem pela diretora do Festival, Viveca Bandler, que disse ter vivido tanto tempo somente para poder presenciar este espetáculo. Kirsikka Moring, Helsingin Sanomat - Helsinki/ Finlândia - 16/08/92
 Denise Stoklos 
Denise StoklosDenise Stoklos

Teatro Essencial criado por Denise Stoklos dá prioridade máxima à matéria viva que é o ator com seus recursos humanos: voz, corpo, inteligência e intuição. Evita-se utilizar recursos cenográficos e tecnológicos que deixem em segundo plano o trabalho de pesquisa do humano, que é muito delicado e requer sensibilidade, comprometimento verdadeiro e também muita coragem.
Naturalmente político, o Teatro Essencial desafia o artista a assumir a responsabilidade integral por suas escolhas. Cada detalhe: o texto, a coreografia, a modulação da voz, a atitude do gesto. Sem a possibilidade de recorrer a uma autoridade externa que o avalize, todos os acertos e erros são assumidos por completo. Não há como escapar ao comprometimento geral. Assumir cada mínimo átomo do corpo, cada mínimo gesto. Assinar. Tomar a palavra. Estar inteiramente só na atitude de expressar-se. Quando eu sou completamente eu, aí então eu posso chegar plenamente ao outro e criar a comunicação. De posse de todos os meus recursos, trabalhados à exaustão para ampliá-los sempre, e sem intermediários, ocupo meu espaço e entrego meu depoimento original à comunidade, para reflexão conjunta e crescimento coletivo. Nesse sentido, não há como fugir à indignação em relação a tudo que não promova a vida e não estimule o desenvolvimento social e humano. O Teatro Essencial implica posicionamento libertário, humanista e revolucionário.
A seguir o Teatro Essencial pela voz de Denise Stoklos:
Denise Stoklos "O que me encanta no teatro é esta possibilidade de escolher. Assim, escolho para mim o Teatro Essencial. E o estabeleço como meu. Aquele teatro que tenha o mínimo possível de efeitos, o mínimo. E que contenha a máxima teatralidade em si próprio. Que na figura do humano no palco se realize uma alquimia única: aquela em que a realidade da representação (da reapresentação) é mais vibrante que o próprio tempo cronológico. Que critique esse tempo, que revele esse tempo. Que nesse fim de século o teatro possa reafirmar o sentido essencial como bem mais evidente que matéria descartável. Quero trocar a fantasia da composição teatral pela presença viva do ator. Acredito na relação de nova realidade que se faz na força da presença viva do ator, engajado na história com suas idiossincrasias, sem recursos do fabricado, limpidamente como água na fonte. Os valores do palco muitas vezes estão povoados de valores de bastidor, de camarim. Quero o palco nu. Os figurinos, cenários e discursos radiofônicos muitas vezes acoplam parasitárias imagens no ator. Não quero decoração. Quero no seco. Com raiva decreto o fim do excesso. A pirotecnia mente. Quero sinceridade." (Manifesto do Teatro Essencial, 1987).
 "O Teatro Essencial – um teatro feito apenas com os recursos do corpo, da voz, do pensamento e da intuição – não tem fronteiras em nenhum sentido. Ele não se reduz a uma interpretação imediata, regional ou temporal e nem a uma auferição intelectual. Ele pode ser lido nas suas diversas camadas de possibilidade de leitura. A coisa mais simples, a mais aparente é também a elaboração mais filosófica. Uma peça essencial é fatalmente um prisma." (Revista "Caros Amigos", 1999)Denise Stoklos
 "Toda a arte, de uma certa forma, seja ela pintura, música, está sempre interessada em apenas dois temas: a liberdade e o amor, em todos os tempos. Então, o meu teatro também. A gente precisa expandir nossos limites, tanto como pessoas, como os limites da comunidade, os limites do Estado. Nossa função, enquanto estamos aqui na Terra, é expandir esses limites, para que a próxima geração expanda os dela, e a humanidade evolua espiritualmente. Nós somos apenas um elo nessa cadeia de evolução. Estar aqui e deixar que os limites se cristalizem, é fazer pouco. Precisamos expandir esses talentos que estão sufocados." (Revista "Abre Aspas")
Denise Stoklos "Minha opção é um teatro em que a base esteja no corpo e na voz, e na organização desses dois elementos. O resto pode entrar, mas não é fundamento. O teatro sem cenário existe, sem iluminação existe, sem palavra também existe. Mas um teatro sem ator, não. Tudo o que venha do ator é que significa verdadeiramente o teatro. O meu, pelo menos, é baseado nisso em todas as peças. Pode ter luz, ou não ter luz; cenário, ou não cenário. E se tiver que fazer em outro lugar e sem luz, ele também sobrevive. A relação do artista com o que ele diz é que interessa, e não os efeitos." (Revista "Abre Aspas")
 "O que eu faço é meio música com a voz. Eu quase que defaceto a palavra pra gente poder ir mais no fundo dela, uso muita repetição, para chegarmos em outro nível, mais profundo. Desmanchar o cotidiano. E trabalhar em outros idiomas dá uma experiência muito legal sobre isso. E além do mais, me dá a oportunidade de checar esse teatro e ver se ele realmente fala à natureza humana, que é universal. Porque o teatro que não é universal não funciona em todos os lugares do mundo." (Revista "Abre Aspas")
 "A intuição é muito sábia. Ela mesma nos conta quando estamos errados. Ela é muito forte, e na nossa sociedade não é muito desenvolvida. A gente vive muito no pragmatismo, no racional, no conquistar, no competir. Tem que deixar fluir." (Revista "Abre Aspas")
 "Se comunicar, eu acho válido. Eu faço minhas peças sempre pra serem lidas em vários níveis. Se a pessoa Denise Stoklosentrar pra ler no nível mais simples, ela lê. Se ela entrar pra ler no nível mais metafórico, mais profundo, ela lê. Então, a peça é pra qualquer público: um analfabeto, operário, ou um professor de filosofia. Cada um tem a sua formação e o teatro é para todos. Não é uma coisa elitista. Eu faço com um formato, que se a pessoa quiser pegar na comédia ela pega. quiser pegar na tragédia ela pega. Se pegar nos três eu gosto até mais, porque daí ela está viajando como eu. Eu estou viajando nos três, no simples, no médio e no profundo."(Revista "Abre Aspas")
 "A sociedade precisa de duas coisas, mesmo: de pão e de circo. Nós todos precisamos do pão, que significa a matéria, e do circo, a poesia. Tanto quanto comer a gente precisa do teatro. E o teatro é a maneira mais profunda de comunicação na arte, porque é de gente viva com gente viva. Aquela pessoa que está no palco, está envelhecendo ao mesmo tempo que a pessoa sentada na platéia. É como uma relação amorosa, como um ato sexual, onde duas pessoas estão em interação. É uma coisa sagrada. As pessoas saem de casa, deixam seus filhos, fecham seus livros, pra ver uma coisa que pertence a elas. E quando saírem daqui, elas saem melhor, mais sábias. Então o teatro tem que apresentar vários prismas para que a pessoa cresça. Quando eu vou ao teatro eu estou crescendo." (Revista "Abre Aspas")

 Pequena Ode à Enorme Atriz
Stoklos, em uma língua secreta,
criada por Dioniso e conhecida dos deuses do teatro
significa fluxo de amor.
Um veio contínuo, infinito e sem forma,
que alimenta, a partir dos subterrâneos,
seres de olhos brilhantes e inquietos,
seres movediços que não se deixam capturar por nada
e que só mastigam e florescem liberdade.

Liberdade ainda que de tarde,
porque à noite tem teatro,
tem celebração xamânica,
tem distribuição de alimento fortificante
num rito de alegria escancarada de amor,
desavergonhado amor pela força humana.
Um canto a milhões de vozes
nessa linguagem cifrada dionisíaca
que ultrapassa em multivelocidade a consciência explicativa de detalhes técnicos
e se introjeta em explosão nas emoções dos corpos,
nas paixões alojadas na pele.

Então os olhos, perplexos já,
recebem um feixe ultra-refinado de luz metálica
a trezentos bilhões de vibrações por milissegundo.
E a lucidez da poetisa se apresenta em absurdo vislumbre,
tão energético, tão claro, tão necessário, tão feliz.
Pelos deuses, Denise, então tudo é amor?


Para saber mais
 Denise Stoklos site oficial da atriz, autora, diretora, coreógrafa, produtora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário