domingo, 20 de fevereiro de 2011

Guglielma

Era uma devota leiga, amiga dos monges da Abadia de Chiaravalle, perto de Milão, Itália. Chamava-se Guglielma e foi o centro da maior heresia cometida pelo cristianismo contra as mulheres. Viveu no século 13 e era venerada como a encarnação do Espírito Santo, e até mesmo como o lado feminino de Jesus. Como tal, passou sua vida anunciando uma nova salvação. Guglielma morreu em 1281, aos 60 anos de idade. Durante o tempo em que viveu, ela reuniu uma multidão de crentes ao seu redor para escutar suas palavras. Mas é óbvio que, em plena época da Inquisição, esse fato não passaria despercebido pelos inquisidores: todos os seguidores de Guglielma foram acusados de hereges pela Igreja Católica e queimados vivos na Praça Vetra de Milão, ao término de um processo iniciado em julho de 1300. Na época, nem mesmo o fato de Guglielma ter falecido havia 19 anos impediu que o inquisidor Guido da Cocconato ordenasse que seu corpo fosse desenterrado da Abadia de Chiaravalle, para ser queimado em fogueira na praça com os seus discípulos.
O motivo desse insano gesto do inquisidor, contudo, vai bem além das simplórias pregações de Guglielma. Ela, por ser encarnação do Espírito Santo, iria subir ao céu, no Pentecostes de 1300, na presença de seus discípulos para elevar as mulheres e instaurar uma nova Igreja com hierarquia feminina. Tanto é que, ainda em vida, ela havia designado uma discípula, Maifreda, como vigária. Maifreda, na espera de ser eleita papisa, pregava, exercitava poderes sacerdotais, solicitando de seus seguidores gestos de obséquio usualmente reservados ao papa.
Após a morte de Guglielma, Maifreda e Andrea Saramita tornaram-se os líderes do movimento. Eles sustentavam que, com o auxílio do Espírito Santo, os homens poderiam encontrar Deus dentro de si mesmos, sem terem de recorrer às hierarquias eclesiásticas. Pensem bem: se o número de seguidores de Guglielma que acreditassem nessa premissa aumentasse vertiginosamente, como é que a instituição Igreja iria sobreviver, não é mesmo? Daí as mortes de todos os integrantes do movimento na fogueira da Inquisição.
Também fica evidente nessa história de heresias, que se concluiu em 1302 com a condenação à fogueira não somente dos discípulos, mas até do próprio corpo de Guglielma, o anseio pela edificação de uma Igreja no feminino. Bom, mas esse é um assunto para outra hora. Voltando à condenação e morte de Guglielma, seus seguidores continuaram (e ainda hoje isso ocorre) a idolatrá-la como uma santa em Milão.

Revista Planeta

A “caça às bruxas” durou mais de quatro séculos e ocorreu, principalmente, na Europa, iniciando-se, de fato,em1450 e tendo seu fim somente por volta de 1750, com a ascensão do Iluminismo. A “caça às bruxas” admitiu diferentes formas, dependendo das regiões em que ocorreu, porém, não perdeu sua característica principal: uma massiva campanha judicial realizada pela Igreja e pela classe dominante contra as mulheres da população rural (EHRENREICH & ENGLISH, 1984: 10). Essa campanha foi assuminda, tanto pela Igreja Católica, como a Protestante e até pelo próprio Estado, tendo um significado religioso, político e sexual. Estima-se que aproximadamente 9 milhões de pessoas foram acusadas, julgadas e mortas neste período, onde mais de 80% eram mulheres, incluindo crianças e moças que haviam “herdado este mal” (MENSCHIK, 1977: 132).
Acreditava-se que mulheres com poderes de feitiçaria podiam lançar aos seus vizinhos toda espécie de sorte maléficas, como morte de gado, perda de colheita, morte de filhos, etc. Segundo a tradição, o poder mais pernicioso de tais bruxas era tornar seus maridos cegos a respeito da má conduta de suas esposas e de fazer com que as chamadas feiticeiras gerassem filhos idiotas ou aleijados. Como a caracterização de bruxas era a de velhas megeras desdentadas com hábitos excêntricos e língua venenosa, muitas mulheres com tais características foram mortas em Salem, nos EUA em 1692.
Vejam só a barbaridade: ter um filho com alguma deficiência já caracterizava a mãe como bruxa ou feiticeira. Na Europa, a figura de feiticeira era a de "uma moça linda e perversa", e grande número de adolescentes e jovens mulheres casadas foram mortas na Alemanha e França. Sob o comando de Calvino em 1545, 34 mulheres foram queimadas ou esquartejadas (vivas) sob acusação de serem ou praticarem feitiçaria. Qualquer pessoa podia ser denunciada ao “Tribunal da Inquisição”. Os suspeitos, em sua grande maioria mulheres, eram presos e considerados culpados até provarem sua inocência. Geralmente, não podiam ser mortos antes de confessarem sua ligação com o demônio. Na busca de provas de culpabilidade ou a confissão do crime, eram utilizados procedimentos de tortura como: raspar os pêlos de todo o corpo em busca de marcas do diabo, que podiam ser verrugas ou sardas; perfuração da língua; imersão em água quente; tortura em rodas; perfuração do corpo da vítima com agulhas, na busca de uma parte indolor do corpo, parte esta que teria sido “tocada pelo diabo”; surras violentas; estupros com objetos cortantes; decapitação dos seios, torturadas com agulhas enfiadas sob suas unhas, assando-se os pés em fogueiras ou esmagando-se as pernas sob grandes pesos "até que a medula espirrasse dos ossos". A intenção era torturar as vítimas até que assinassem confissões preparadas pelos inquisitores. Geralmente, quem sustentava sua inocência, acabava sendo queimada viva. Já as que confessavam, tinham uma morte mais misericordiosa: eram estranguladas antes de serem queimadas. Em alguns países, como Alemanha e França, eram usadas madeiras verdes nas fogueiras para prorrogar o sofrimento das vítimas. E, na Itália e Espanha, as bruxas eram sempre queimadas vivas. Os postos de caçadores de bruxas e informantes eram financeiramente muito rentáveis. Estes, eram pagos pelo Tribunal por condenação ocorrida e os bens dos condenados eram todos confiscados.
Ao analisarmos o contexto histórico da Idade Média, vemos que bruxas eram as parteiras, as enfermeiras e as assistentes. Conheciam e entendiam sobre o emprego de plantas medicinais para curar enfermidades e epidemias nas comunidades em que viviam e, conseqüentemente, eram portadoras de um elevado poder social. Estas mulheres eram, muitas vezes, a única possibilidade de atendimento médico para mulheres e pessoas pobres. Elas foram por um longo período médicas sem título. Tanto que o significado nome BRUXA em sanscrito e “Mulher Sábia”. Aprendiam o ofício umas com as outras e passavam esse conhecimento para suas filhas, vizinhas e amigas.
Diante de tantas mortes de mulheres acusadas por bruxaria durante este período, podemos afirmar que o ocorrido se tratou de um verdadeiro genocídio contra o sexo feminino, com a finalidade de manter o poder da Igreja e punir as mulheres que ousavam manifestar seus conhecimentos médicos, políticos ou religiosos. Existem registros de que, em algumas regiões da Europa a bruxaria era compreendida como uma revolta de camponeses conduzida pelas mulheres (EHRENREICH & ENGLISH, 1984: 12). Nesse contexto político, pode-se citar a camponesa Joana D`arc, que aos 17 anos, em 1429, comandou o exército francês, lutando contra a ocupação inglesa. Esta acabou sendo julgada como feiticeira e herege pela Inquisição e queimada na fogueira antes de completar 20 anos. Diante disso, configurava-se a clara intenção da classe dominante em conter um avanço da atuação destas mulheres e em acabar com seu poder na sociedade, a tal ponto que se utilizava meios de simplesmente exterminá-las.As bruxas, através de seus conhecimentos medicinais e sua atuação em suas comunidades, exerciam um contra-poder, afrontando o patriarcado e, principalmente, o poder da Igreja. Em verdade, elas nada mais foram do que vítimas do patriarcado.







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