domingo, 23 de julho de 2017

O ESTRANHO FAMILIAR

O deserto é uma metáfora da árida paisagem psicológica, onde a criatividade e a geratividade estão ausentes, onde nada floresce e a vida é sem sentido e emocionalmente monótona. Para materializar uma ideia, vou me costurando através de vários caminhos, e mutas vezes com um antagonismo atroz da ideia principal. Literatura para dissecar o universo de idéias para serem transformadas em gesto, movimento. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto.A arquitetura tem papel importante na construção coreográfica, na relação do espaço com o corpo e o tempo.A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar. O papel branco, o momento que simplesmente não sabemos onde nosso período de investigação vai dar.Mais do que qualquer resultado objetivo, de conhecimento ou comportamento, conduz ás fronteiras do desconhecido. Apenas abre.E por ela abrir a significados e sentidos na vivência, para espaços conscientes, convite ao acolhimento do inusitado, não pensado, não vivido.Chego onde não entendo.Vivo o "entre". Por mais angustiante que seja, entrar nesse universo novo,mesmo trilhando um processo temeroso, rumo ao "não sei onde vai dar a estrada", vale a pena concretizar uma ideia, projeto.Eu considero fundamental sair do reino das certezas, das fórmulas prontas, negando as dúvidas, e o não saber.Quando não arriscamos, mergulhados numa falsa segurança, somos impedidos de sentir a emergência do novo. A travessia da criação é bloqueada, e a alma fica no deserto. A dança é a irrigação dos jardins da alma,antidoto contra a desertificação.Somos trezentos, como dizia Mario de Andrade. "A minha casa vive aberta, abre todas as portas do coração".Tornar estranho o que é familiar e familiar o que é estranho, esse foi o tema de uma aula de sociologia que participei quando era estudante de arte. Foi há tanto tempo e continua tão atual. Percebi que tenho esse estranhamento constante. Eu que me dedico a pesquisar uma arte que não busca o óbvio, vejo o efeito de minha atuação no público que é uma mistura de estranhamento e encantamento. Segundo meu antigo professor esta é a fórmula para não se deixar seduzir pela manipulação do gosto. Arte quando não passa pela experiência e pelo estudo da linguagem deixa qualquer um refém da indústria e dos meios de produção que utilizam todos os meios para que a arte vire mero consumo e entretenimento. Esta fronteira entre o que é produzido pela alma impalpável e verdadeiro sem se deixar engessar pela necessidade de dinheiro, é um grande dilema.Todo artista quer reconhecimento do seu trabalho e dinheiro para financiar seus projetos e viver.Eu escolhi fazer e ser minha arte no cotidiano e na vida e lutar unida a todos que buscam o pão com poesia.

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