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quarta-feira, 28 de junho de 2017

IMAGINAÇÃO NA ESCOLA

O escritor José Saramago afirmou que é preciso sair da ilha,para regressar à ilha e ressignificá-la, não foi exatamente como ele disse, mas gostaria de citá-lo como meu primeiro pensamento de consolo, depois da experiência que vou relatar hoje. Fui convidada junto com uma professora a ajudar crianças da faixa etária dos nove aos 12 anos a criar uma coreografia para uma apresentação; como a única referência e identificação que os estudantes tinham era o funk, hip hop e dança de rua, resolvemos colocar alguns elementos,apesar de não dominarmos estas técnicas. O que me chamou a atenção foi a total paixão que eles nutriam por estas danças.E muito mais surpresa também foi quando eu pedi para ouvir as letras, que prontamente foram cantadas em coro por eles. Fiquei parada cercada pelos estudantes, ouvindo as músicas que mais pareciam crônicas sobre o cotidiano deles. Não conseguia conciliar meu olhar para aqueles rostos suaves e olhares pueris, com o peso daquela narrativa que mais parecia o jornalismo que é veiculado na televisão e em tabloides baratos, com o seu desfile de morte, traição, injustiças e desventuras. Cuidei bastante para não criticar e ao mesmo tempo acolher. Me chamou a atenção uma música que dizia que a único desejo de uma certa personagem era casar e ter uma família tradicional, encontrar o seu grande amor, casa e quando fica grávida morre no parto e outros desfiles de mazelas que nem cabem neste pequeno texto. Como que em pleno ´seculo XXI ainda existem identificação das meninas com uma vida sem objetivo e sonhos de mudar o mundo? Porque não acreditam mais?Na minha opinião falta o mergulho no simbolo.Fiquei com a alma pequena, tentando perceber quando foi que mataram a imaginação na escola. Ou quando foi que o mundo subjetivo e as emoções coloridas brotadas e embaladas por sonhos perderam a necessidade de beleza tão inerente à condição humana, como um ser humano pode viver tendo perdido a capacidade de se encantar? Sem saber que seu corpo é sua casa e sua grande fonte de descobertas? A supremacia do pensamento é uma ilusão.Não estou sendo categórica e fico torcendo para que algum projeto bem mágico esteja acontecendo em alguma escola neste momento, mas são minorias. Eu me pergunto se faz sentido decorar tanto conteúdo, sem a experiência no corpo. Acredito que a escola precisa incluir o papel do corpo como matéria-prima no aprendizado,a imaginação precisa voltar a ocupar os bancos da escola, o lúdico e aquilo que nos faz construir memória e aprendizado sobre o outro e sobre nós mesmos. Precisamos escutar nosso corpo, nossas emoções e principalmente olhar a vida com lirismo. E a arte é um caminho para que possamos mergulhar nos símbolos, mitos, lendas e tudo o que possa aquecer nossa alma, e tornar o mundo um lugar quentinho e suave,mesmo que seja só na nossa imaginação.

ANTÍGONA

Denise Stoklos, atriz criadora do método Teatro essencial, reconhecida internacionalmente com sua metodologia reconhecida e ensinada nas mais prestigiadas instituições do mundo,trouxe para Brasília três espetáculos incríveis. Tive a oportunidade de assisti-los.Foi e continua sendo uma oportunidade de riqueza de transbordamento de alma, que me alimentará por muito tempo. A arte quando é verdadeira e profunda se instala dentro da gente e faz morada de oásis para os nossos desertos. Das inúmeras reflexões que fiz até agora, tem uma que está gritando dentro de mim e precisa ser dita. Como hoje está ficando muito difícil encontrar escuta de qualidade, não gostaria de falar algo tão profundo num lugar infértil.Portanto, espero que você que vai pausar sua vida por alguns instantes para me visitar,que você possa ler como a delicadeza de uma folha caindo de uma árvore pela ação do vento, o que vou te contar. Denise me disse, e para todo mundo, que na Grécia antiga quando alguém ficava doente, o médico tratava do paciente escolhendo uma peça de teatro para curar sua alma, se o paciente precisasse entender a injustiça por exemplo, ele indicava Antígona que é uma peça que tratava de injustiça.Meu coração bateu forte, minha alma dançou por dentro. Porque eu acredito no poder da arte para curar e elevar nossa essência.Interessante que vou montar Antígona. Meu próximo projeto de dança é inspirada nesta tragédia grega do Sófocles. Apresentar um espetáculo de dança é sonhar publicamente e destilar sua alma após construir silêncio e presença dentro de mim mesma a duras penas. É refletir o tempo todo sobre a importância de dizer tudo o que sinto para um mundo anestesiado de sentimento, automatizado por opiniões formadas e deformadas. No palco temos a oportunidade de celebrar o encontro do humano diante de sua humanidade.O espelho de nossa incapacidade de ver o óbvio. É através da celebração da presença que nosso ser pode se encantar pela espécie humana e criar a capacidade de sonhar de se importar com o rumo que queremos seguir.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ADORÁVEIS IMPERFEITOS

A psiquiatra e médica Nise da Silveira disse que gente curada demais é muito chata. Refleti muito sobre esta afirmação. Eu queria muito numa fase da minha vida ser bem certinha. Acreditava que se fizesse tudo "certo", se é que existe um jeito certo de fazer alguma coisa, seria mais amada, mais feliz e encontraria meu lugar no mundo. Mas o tempo foi passando e fui percebendo que errada estava certa, e que meu esforço para ser perfeita em tudo para ser amada era uma troca injusta. Assisti um filme Francês chamado Marguerite sobre uma mulher muito rica nos anos 20, apaixonada por ópera que cantava muito desafinado. Ela tinha um círculo de pessoas que assistiam seus recitais desafinados e todos fingiam que gostavam, mordomos, o marido, todos encantados com a pureza daquela mulher livre e feliz, mas ouviam seu canto com muita dificuldade. Um dia ela resolve para desespero de todos, cantar num grande teatro com uma platéia isenta de bajulações. Sua vontade de de compartilhar beleza era muito grande, o objetivo dela não era ser famosa e aplaudida e sim tornar a música viva na alma das pessoas, como era para ela. Sua trajetória inspira porque o filme nos coloca naquela posição de enfrentamento e nos desperta a vontade de continuar mesmo sendo incompletos e imperfeitos. O filme é inspirado numa história real e apesar dela ter sido considerada a pior soprano do mundo nos encanta, por seguir fazendo o que acreditava. No filme até tem uma personagem que é uma cantora linda, que canta perfeitamente que tem ótimo caráter e ainda é pobre, tem tudo que seria de argumento para gostarmos dela. E no entanto o improvável acontece. Achei a perfeição dela sem graça e chata. Quanto tempo de minha vida busquei uma excelência fora do normal. Eu tenho meus medos assumidos, meus receios de errar e sempre que vou entrar em cena peço para morrer, parece que não irei sobreviver à experiência, de me lançar para o espaço vazio e quando mergulho acabo saindo viva. Ainda vai levar um tempo para me lançar no palco da vida, caminhar sem medo de errar, viver o instante com a certeza de que posso errar, sem imperfeita e mesmo assim serei amada.E que esse amor transborde dentro de mim e que chegue aquele momento onde não vai fazer diferença a opinião de ninguém, porque me assumo como eu sou, com minha sombra e minha luz. A beleza do humano consiste em seguir fazendo o que o coração pede, para continuar imperfeitamente feliz.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

AFAGOS NA ALMA

Somos feitos também de energia e vibração.A dança tem a materialidade do corpo como suporte para realizar a experiência do sentir o sutil. Isso acontece quando o corpo começa a ser visto como experiência de crescimento e liberdade. Quando sentimos nosso corpo acontece a experiência de sentir a energia pulsar dentro do corpo. É muito bonito ver o nosso corpo despertando para sensações mais sutis. A delicadeza de ver a energia percorrendo pelo corpo trazendo vida, sentido, entendimento, emoções. É outro universo que se abre, são novas conexões e a organicidade que se amplia.Mudamos o nosso diálogo com o espaço e o tempo, nosso ritmo. A riqueza maior é olhar a vida através do sutil, do inominável, do não dito. Uma pessoa quando chega num espaço ela o modifica e esta dança de energias ocorre de uma forma muito nebulosa e quem não tem uma conexão e não busca nenhuma trabalho corporal ou energético acaba prisioneiro de energias desconhecidas e recebendo uma carga de informações sem saber como ela pode afetar sua própria energia, humor e bem estar. Portanto é importante desenvolver uma escuta do corpo e dos caminhos da energia, muitas vezes não nos sentimos bem em certos ambientes, ou alguém nos faz passar mal, ou chega aquela tristeza sem motivo.Somos diariamente mergulhados neste mar de pensamentos e jogo de sombra e luz. A proteção vem de uma vida com mais consciência e o aprendizado do invisível. A física quântica já nos revela que através da ciência o que arte e a espiritualidade vem informando há milênios, que somos feitos de energia e temos um campo energético que contém informações sobre todos os que convivem no mesmo espaço e tempo. A dimensão e a importância de incluir o corpo, a mente e a alma numa mesma manifestação é o que garante perceber pessoas,lugares,cores, vibrações e o olhar além das aparências.Muitas vezes a crise de percepção e do sentir da contemporaneidade está associada a super valorização da palavra em detrimento da pausa e do silêncio. Na minha experiência um simples olhar verdadeiro pode afagar uma alma.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

UNIVERSO FEMININO

Pesquisei aspectos do universo feminino para compor o meu espetáculo de dança Baraka, busquei uma visão sem fronteiras e fui adentrando as contradições e princípios comuns que nos unem em diversas culturas. O resultado foi um aprendizado sobre como ser mulher é um desafio constante em qualquer cultura. Até para as mulheres em contextos sofisticados a dificuldade de ter sua alma respeitada é enorme. Uma civilização que até hoje usa o corpo da mulher como objeto, arma de guerra, faxina étnica, escudo humano. Lembro que nesse espetáculo, a abordagem sobre o amor costura cada cena e nos envolve numa atmosfera de lirismo e força. Começo falando de uma mulher que busca a sua presença, e o direito de estar em si mesma no seu valor.Em outra cena o assunto é o corpo e a relação com a sua fragmentação,danço partes separadas do corpo, só os pés, as mãos e cada gesto separado mostra uma alma pedindo para ser inteira na fragmentação, o corpo como um manifesto,um ritual de pertencimento. Todas as cenas são ritos baseados em mitos que declaram a força e urgência do feminino.O arquétipo que transcende qualquer definição e rótulo, sobre como deveríamos ser, ou nos comportar. Está em cena a mulher selvagem que ama com paixão, que chora suas dores, que luta para sobreviver e se costura por dentro sempre que está machucada. O projeto BARAKA é de 2008 e continua muito atual. Vejo a cultura do estupro muito forte e no caso do Brasil, está totalmente inserido em todas as camadas sociais, com a conivência da mídia e da publicidade que continua usando o corpo da mulher como mercadoria. Estamos assistindo a seres bárbaros em todo o mundo, vendendo como mercadorias para serem escravas sexuais,ou como propriedade de uso coletivo, meninas sendo sequestradas para esse fim, virgindades sendo leiloadas, infâncias roubadas dentro dos tradicionais lares. O fato é que não vamos parar de denunciar essa sangria, e a luta pelo direito de existir sempre vai prevalecer sobre a covardia. Fragilidade não é o nosso nome, que me perdoe Shakespeare. Nosso universo é cheio de mágica, de afeto, de vontade de cheirar flores do campo. E temos uma capacidade muito grande de levantar a cabeça, mesmo que o grito esteja sufocado, até ele sair inteiro acordando a floresta, a cidade e quem estiver surdo para entender. Eu termino com um grito,que nosso corpo, dança, sabedoria e a que a alma feminina seja celebrada e honrada.