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quarta-feira, 24 de maio de 2017

DANÇA IMPERFEITA

Recebi numa aula de Biodança um desafio de surpresa: dançar o meu caos.Eu vivo num constante movimento de equilíbrio entre a derrapagem e a ordem. Aceitei plenamente na hora.Já visitei meu caos inúmeras vezes nestas aulas, mas desta vez não fiquei com medo, eu tinha uma fantasia que ia gostar tanto da loucura que poderia acabar permanecendo por lá.Mas felizmente sempre voltava para me pensar no espaço e sentir o meu chão de volta. Naquele momento aceitei simplesmente e deixei o meu corpo seguir sua trajetória.Fiquei suavemente penetrando meus espaços vazios e silenciosos, era uma dança sinuosa sem gritos, gestos de socar bruscos sem agressividade, sim eu vivi a delícia de ser louca sem julgamento e sem medo de me perder. Vivi aquela frase ou ditado não sei bem "Se você está no inferno abrace o diabo", foi assim que me senti, abraçando meus caos e fazendo as pazes com ele. No final do exercício acabei deitada no chão me pertencendo,sentido minha presença, com os vazios preenchidos e o corpo preenchido de mim mesma.Levantei refeita daquela viajem dentro de mim. Eu que nasci do caos, que sempre tive a derrapagem como caminho pude abraçar o vazio. Isso me explica. Até explica o porquê de ter escolhido uma arte complexa como matéria-prima de trabalho. Uma dança que desconhece a linha reta e linear, que se cria através do fragmento, do torto, da curva do corpo, onde todas as ações são belas e ao mesmo tempo exige presença sempre,movimentos tridimensionais que desafiam nossa necessidade de entender e apreender conhecimento rápido, uma dança que não te promete bem estar rapidamente, é necessário se dar para ela, se lançar no escuro, não entender nada por um bom tempo, ser criança de novo vendo algo pela primeira vez num mundo tão igual e uniformizado.É buscar no desafio e na indecisão a força, é encontrar no desequilíbrio o equilíbrio, é sair do estado de certeza para se fazer sentido. Não existe a fuga da realidade e sim o mergulho no desconhecido, para se chegar no maravilhamento de ver o próprio corpo fazendo novos gestos, as mãos sendo encontradas no olhar e o toque suave ou forte dos pés no chão convidando o corpo a ser ao mesmo tempo forte e suave.Feminino e masculino sendo presentes numa dança de guerreiros e guerreiras do coração. Para se dançar é necessário ser um " atleta afetivo". Não consegui me acostumar ao correto e linear. Preciso dançar com os meus medos, dores e loucuras para ser quem eu sou, integrando cada parte minha que desconheço e que me fazem no fragmento a morada do sentir, do pensar e do agir. E muito devagar e delicadamente viro força na delicadeza de estar cruzando um espaço sonoro em direções opostas e tridimensionais para encontrar equilíbrio no desequilíbrio. Mas é assim que encontro comigo.

3 comentários:

  1. Uma das graças do viver, é se envolver com o novo, com as procuras, que às vezes acham algo, outras vezes redescobrem o "perdido", e de vez em quando, adormecem na "pró-cura".
    O se equilibrar no desiquili-brio, nada mais é do que saber trafegar, no movimento de "vem cá, vai lá" que a vida nos acondiciona.
    No dia que percebi, que tudo era tão normal, tive a doce consciência, da minha glicose e anormalidade.

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  2. Respostas
    1. Acredito mesmo que este é o segredo da vida a sua impermanência e a doce procura por sermos aceitos segundo nossa natureza e essência. Ainda bem que provamos da nossa loucura, como disse Nise da Silveira: Gente normal demais é muita chata."

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