segunda-feira, 6 de março de 2017

DANÇAR EM TEMPOS DE INTOLERÂNCIA

Hoje fiz uma apresentação de dança para crianças.Encontrei uma forma muito peculiar de narrar histórias para qualquer idade.Primeiro eu danço a história com o corpo e depois conto a história integrando a palavra aos gestos. A força de criar uma narrativa com o corpo em detrimento da palavra tem um efeito muito forte, porque o gesto precede à palavra e eu sei, porque estudei o livro a história dos nossos gestos do Câmara Cascudo. O evento que dancei foi para chamar atenção para a semana da deficiência e para levar beleza a um tema tão falado e pouco compreendido que é aceitar a limitação e incluir. Viver e conviver com as diferenças é um grande desafio para a humanidade e quando assistimos atônicos a criação de muros por países da Europa e a intensificação do muro nos Estados Unidos é preciso pensar. A imigração e o fluxo de pessoas buscando um lugar para viver num espaço diferente de sua cultura é uma realidade.Da mesma forma que a escola, o mercado de trabalho e qualquer grupo precisa aceitar as diferenças sociais, econômicas, culturais, de gênero e alguma diferença física ou psíquica. Eu não costumo acreditar que alguém é limitado por não fazer parte de um padrão que a meu ver está ruindo. Contei a seguinte história que eu adaptei da tradição Indiana: um rei perfeccionista que administrava o seu reino exigindo perfeição de tudo e de todos.Um dia o Rei decidi encomendar um escultura de si mesmo. Procura na cidade e ninguém quer saber de fazer a escultura para o rei, afinal teria que ser perfeita.Um dia aparece um mágico na cidade que aceita a proposta do rei mas com uma condição, o rei não pode ver a escultura até ela ficar pronta.O mágico começa a fazer a escultura e com o passar do tempo o Rei começa a ficar curioso e impaciente, e um dia tomado de curiosidade e impaciência ele finalmente abre a porta. O mágico surpreendido desaparece. O Rei fica assustado mas resolve olhar a escultura de perto e para seu absoluto espanto a escultura estava inacabada, sem as mãos.E naquele instante o Rei percebeu que também estava sem as suas próprias mãos. Sua majestade o rei tinha agora um desafio muito sério se percebendo imperfeito querendo um reino perfeito.Mas um dia ele pensou sobre aquilo tudo e o seu coração abriu e ele começou a ver as pessoas pelo olhar do coração e percebeu que cada um é perfeito na sua imperfeição, porque cada um precisa ser aceito como é, doando o que tem e quando pode. O reino chegou a viver momentos de paz de verdade e mesmo quando o Rei morreu sua estátua permaneceu no centro da cidade, sem as mãos.Para que todos os novos governantes lembrassem de suas próprias limitações ante de exigir perfeição de alguém. Quando terminei de narrar a história percebi a atmosfera de beleza e harmonia entre todos nós.Percebi lágrimas nos olhos emocionados de algumas crianças.Eu ganhei o meu dia, ganhei vida e a certeza de que muita gente pode até achar que arte não serve para nada, mas viver sem ser tocado pelo espírito é o grande sintoma da intolerância dos nossos tempos. A arte nos ensina a sentir e a pensar na beleza contida na condição humana. Ouvir uma boa história nos faz sentir com o coração que a nossa humanidade tem jeito e que a beleza precisa ser servida como prato do dia. Estas crianças com certeza tiveram um instante poesia e um dia o que ficou dentro delas deste instante vai ser fruto de paz no mundo. Pode ser que eu seja pretensiosa de acreditar que uma simples dança-história numa escola pública no meio do planalto central possa mudar o mundo de alguém, mas eu sou assim. Como disse John Lennon(1940-1980) em Imagine." Você pode até achar que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Espero que um dia você se junte a nós. E o mundo viverá como um só."

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