quinta-feira, 30 de março de 2017

A GEOMETRIA DO CORPO E A CONTEMPLAÇÃO DO MISTÉRIO

Da curiosidade à contemplação do mistério. É o caminho do sagrado. Não é religião. A diferença do profano e do sagrado é só o quanto você sabe sobre um determinado objeto de estudo. A diferença entre o profano e o iniciado é só o quanto que você sabe, porque para se começar o caminho você precisa ter em si algo que o permita começar o caminho que vai além da curiosidade,que significa uma fome não definida de conhecimento. A minha busca espiritual é inerente à dança e levou-me ao estudo da filosofia,Conhecimento acadêmico, filosófico e a relação com o objeto pesquisado. Sou movida por alguma coisa que me faz dançar, que faz a minha vida fazer sentido é uma meditação em movimento. Arte no meu conceito é o território de investigação da condição humana é onde volto para minha casa, o meu corpo. Cada parte dele é celebrado em torno de uma investigação de mim mesma, que torna minha existência próxima ao sublime. A dança como literatura, filosofia junto com o pensamento espiritual e emocional. Uma cerimônia. No entanto não "baixa" nada. A dança pode sim criar uma atmosfera ritualística e onírica. Um estado de presença, uma aura.Esse efeito visual, sinestésico e atmosférico não é acessado facilmente é preciso uma iniciação e um estudo aprofundado de si mesmo e da linguagem. Um treinamento corporal intenso. Interessante é que para a dança me encontrar precisei assimilar um vazio e uma inconsistência na minha alma, eu não cabia no mundo. E na busca por consistência busquei os templos e uma vez iniciada nunca mais parei de estudar e buscar o que alimenta minha alma. O primeiro aspecto que pesquisei foi esse efeito e como assimilar essa presença em mim, esse efeito de estranhamento e familiaridade que evoca uma apresentação criando um estado de hipnose e mergulho no universo de sonhos e imagens, onde a dança dialoga e provoca um efeito no espectador.Para se ter uma ideia deste efeito, o encenador francês Antonin Artaud (1896-1948) ficou tão impressionado com a dança Balinesa que o seu efeito foi devastador, ele reinventou uma maneira totalmente inovadora de ver o teatro ocidental e que até hoje é objeto de estudo e pesquisa, mesmo não tendo deixado um método prático. Bertold Brecht, o dramaturgo Alemão (1898-1956) também percebeu códigos e signos no oriente através da ópera de pequim que contribuiu para a criação do "efeito de distanciamento" na atuação dos atores.Só para citar alguns exemplos deste diálogo oriente-ocidente.Na dança Laban( 1879-1958) o coreógrafo, dançarino e considerado o maior teórico da dança do século XX, ficou fascinado pelos dervixes quando em uma de suas viajou foi para o oriente. Isso para citar alguns exemplos de como a arte no ocidente se reinventou a partir o efeito da arte oriental. Claro que este diálogo aconteceu do oriente para o ocidente também, O butoh é fruto do contato com a dança expressionista Alemã, mas eu me refiro aqui ao oriente que contribuiu para a mudança de paradigmas no ocidente. Atualmente nem é tão radical esta distinção, a ampliação das fronteiras estão ampliando o nosso olhar. O segundo caminho que percorri foi o caminho da geometria impressa no corpo que reproduz como na natureza, as propriedades matemáticas, a harmonia do assimétrico, daquilo que desconhece a linearidade e a lógica daquilo que provoca o equilíbrio, as partes iguais.Uma investigação que começa com a imperfeição, a pequena peculiaridade a deformação, a discrepância. Na natureza a geometria sagrada tem um padrão que rege todas as formas existentes, presentes em cada detalhe do nosso corpo, nas sementes dos girassóis, nas espirais, nas galáxias. Este conhecimento é muito profundo e exige muito estudo,estou longe de entender a proporção áurea, mas encontrei este conhecimento na gestualidade da Dança Clássica Indiana,onde o corpo é uma forma geométrica e cada parte, é como se fossem fractais. Fractais vem do latim fractus, que quer dizer quebrado, é um objeto geométrico que pode ser dividido em partes e cada uma das quais semelhante ao objeto original. Nesta dança o corpo é feito de ângulos e cada parte é treinada separadamente para criar o todo. O equilíbrio é feito de partes que se unem ao todo através da total falta de lógica e com inúmeras combinações de direção, tempo e lógica para criar a forma perfeita, apolínea. No entanto sou Dionisíaca e Shivaísta, o caos faz parte do meu sistema. Por isso minha pesquisa tem o princípio oriental, porque estou entre a o Apolíneo e o Dionisíaco. Eu posso partir da rigidez da forma perfeita para encontrar o desequilíbrio da fragmentação na separação de todas as partes e ao mesmo tempo, como Isis a Deusa do Egito juntar todas as partes e renascer através do caos. Porque o primeiro encontro com esta arte por um ocidental é marcado pelo caos no cérebro e na alma. É uma entrada no portal do total desconhecimento das fronteiras do nosso estado mental tendo o corpo como a chave de todos os mistérios. É um estranhamento de posicionamento de cada parte do corpo de forma não linear, é experimentar não saber onde o braço vai estar e que posição da cabeça, pés, mãos e olhos, o corpo vai ocupar no espaço. O corpo tendo uma experiência de total estranhamento para encontrar a sua ordem. Este é um dos efeitos mais poéticos que podemos acessar através do nosso corpo, a permissão para não entender nada e ao mesmo tempo sair se fazendo sentido. É uma experiência única de entrar no caos e na ordem e "abrir as portas da percepção". Este é o legado da tradição oriental sentir com o corpo a contradição da condição humana e da vida que é feita de impermanência num jogo de claro e escuro.

quarta-feira, 22 de março de 2017

VIAJANTE DO TEMPO

"Falar da minha aldeia", para me explicar no – e para – o mundo. Explicar-me para mim. Minha dança é fruto da tentativa de auto explicação, por meio da procura de uma linguagem pessoal, a dramaturgia do corpo. O oriente sempre estará presente, mas agora, diluído entre as novas fronteiras que estou abrindo. Sou uma viajante do tempo, onde presente, passado e futuro fazem parte da mesma substância. Procuro e busco o que não está restrito no tempo e no espaço. Aquela qualidade de presença que transforma qualquer instante, superação e ternura. "Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para podermos viver a vida que nos espera. A pele velha tem que cair para que uma nova possa nascer". Tem uma frase de Albert Camus que gosto muito: " Quando encontro o que há de fundamental em mim,é o gosto da felicidade que encontro".

quinta-feira, 16 de março de 2017

O CORPO QUE DANÇA E SUA EXPERIÊNCIA DE CURA

Quando decidi entender a minha vida e buscar o sentido dela, busquei primeiro a experiência como fonte de todas as minhas descobertas.E fui lendo bastante, vinculando terapias corporais ao meu trabalho pessoal em direção a uma arte mais sincera e menos comprometida com o sistema. Meu compromisso sempre foi com o outro, eu sempre concebi a minha dança e construí no meu corpo possibilidades que possam trazer o outro para um estado de amor, uma atmosfera ritualística sem ser religião. Mesmo sabendo que foi através de uma filosofia oriental que descobri a dança e a minha espiritualidade. Eu percebo que quando uma experiência passa pelo nosso corpo e nos emociona é impossível voltar ao estado anterior. Recentemente abri uma turma de dança e o que era para ser uma aula, virou uma grande troca de cura. As alunas trocaram suas máscaras sociais por abertura e sinceridade. Uma aluna me disse que busca a cura através da dança, narrou com grande beleza sua luta no cuidado de ter dois filhos especiais e se descobrir autista também.Eu me reconheci naquela fala, daquela mulher doce, magra e aparentemente frágil mas que exalava uma força incomensurável, Venezuelana que adotou o Brasil, com uma mãe Xamã. Tudo muito especial, outra aluna muito rica de alma, com olhos expressivos e beleza suave, incrível como sua beleza foi se revelando para ela mesma e aos poucos sua alma foi nos desvelando sua beleza tão delicada e sutil e havia outra aluna que é um verdadeiro instrumento de pureza e verdade, com os seus olhos grandes ávidos de beleza e ternura. E havia também uma fotógrafa maravilhosa que nos presenteou com fotos, foi como se o universo quisesse nos presentear com o registro daquele instante mágico que acontecia diante de nossos olhos, naquela tarde silenciosa, mulheres se reuniram para dançar a si mesmas, e na roda da vida, esta dança virou uma grande ciranda, uma dança de almas que querem se aquecer do frio e do deserto do mundo.A dança pode sim ser um grande portal de enriquecimento uma ponte entre os nossos antepassados e a nossa linha de crescimento e evolução. As melhores coisas da vida, nem sempre conseguimos explicar,não existem palavras suficientes para descrever a magia de ser e se pertencer.Por mais que eu tente,minhas palavras aqui jamais traduzem o quanto é incrível encontrar pessoas que sentem o mundo como nós. É tão comum sofrer por ser diferente. É quando um milagre acontece e certo dia tudo passa a fazer sentido, é como se abrisse uma porta mágica e tudo o que achamos de ruim em nós mesmos e nos leva ao sentimento de isolamento por sermos muitas vezes incompreendidas, por sermos o que somos, não existisse mais. E por algumas horas você sente que está no caminho certo e que ser diferente e sentir o mundo com outras lentes passa a ser motivo de celebração, porque tudo o que aprendemos justamente por não fazer parte do padrão é a mola propulsora para melhorar o mundo.

segunda-feira, 6 de março de 2017

DANÇAR EM TEMPOS DE INTOLERÂNCIA

Hoje fiz uma apresentação de dança para crianças.Encontrei uma forma muito peculiar de narrar histórias para qualquer idade.Primeiro eu danço a história com o corpo e depois conto a história integrando a palavra aos gestos. A força de criar uma narrativa com o corpo em detrimento da palavra tem um efeito muito forte, porque o gesto precede à palavra e eu sei, porque estudei o livro a história dos nossos gestos do Câmara Cascudo. O evento que dancei foi para chamar atenção para a semana da deficiência e para levar beleza a um tema tão falado e pouco compreendido que é aceitar a limitação e incluir. Viver e conviver com as diferenças é um grande desafio para a humanidade e quando assistimos atônicos a criação de muros por países da Europa e a intensificação do muro nos Estados Unidos é preciso pensar. A imigração e o fluxo de pessoas buscando um lugar para viver num espaço diferente de sua cultura é uma realidade.Da mesma forma que a escola, o mercado de trabalho e qualquer grupo precisa aceitar as diferenças sociais, econômicas, culturais, de gênero e alguma diferença física ou psíquica. Eu não costumo acreditar que alguém é limitado por não fazer parte de um padrão que a meu ver está ruindo. Contei a seguinte história que eu adaptei da tradição Indiana: um rei perfeccionista que administrava o seu reino exigindo perfeição de tudo e de todos.Um dia o Rei decidi encomendar um escultura de si mesmo. Procura na cidade e ninguém quer saber de fazer a escultura para o rei, afinal teria que ser perfeita.Um dia aparece um mágico na cidade que aceita a proposta do rei mas com uma condição, o rei não pode ver a escultura até ela ficar pronta.O mágico começa a fazer a escultura e com o passar do tempo o Rei começa a ficar curioso e impaciente, e um dia tomado de curiosidade e impaciência ele finalmente abre a porta. O mágico surpreendido desaparece. O Rei fica assustado mas resolve olhar a escultura de perto e para seu absoluto espanto a escultura estava inacabada, sem as mãos.E naquele instante o Rei percebeu que também estava sem as suas próprias mãos. Sua majestade o rei tinha agora um desafio muito sério se percebendo imperfeito querendo um reino perfeito.Mas um dia ele pensou sobre aquilo tudo e o seu coração abriu e ele começou a ver as pessoas pelo olhar do coração e percebeu que cada um é perfeito na sua imperfeição, porque cada um precisa ser aceito como é, doando o que tem e quando pode. O reino chegou a viver momentos de paz de verdade e mesmo quando o Rei morreu sua estátua permaneceu no centro da cidade, sem as mãos.Para que todos os novos governantes lembrassem de suas próprias limitações ante de exigir perfeição de alguém. Quando terminei de narrar a história percebi a atmosfera de beleza e harmonia entre todos nós.Percebi lágrimas nos olhos emocionados de algumas crianças.Eu ganhei o meu dia, ganhei vida e a certeza de que muita gente pode até achar que arte não serve para nada, mas viver sem ser tocado pelo espírito é o grande sintoma da intolerância dos nossos tempos. A arte nos ensina a sentir e a pensar na beleza contida na condição humana. Ouvir uma boa história nos faz sentir com o coração que a nossa humanidade tem jeito e que a beleza precisa ser servida como prato do dia. Estas crianças com certeza tiveram um instante poesia e um dia o que ficou dentro delas deste instante vai ser fruto de paz no mundo. Pode ser que eu seja pretensiosa de acreditar que uma simples dança-história numa escola pública no meio do planalto central possa mudar o mundo de alguém, mas eu sou assim. Como disse John Lennon(1940-1980) em Imagine." Você pode até achar que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Espero que um dia você se junte a nós. E o mundo viverá como um só."

domingo, 5 de março de 2017

DANÇAR A CONEXÃO COM A VIDA

A humanidade buscou solucionar seus enigmas através da religião, da ciência e da tecnologia. Penso na "revolução" que acontecerá quando a compreensão da vida ter como princípio básico o entendimento, partindo do lugar de onde residimos, nossa primeira casa: nosso corpo, tão negado e mal interpretado. Na Grécia antiga a arte intermediava a relação com a vida e o corpo estava presente em todos os rituais do cotidiano. Quando pensar passou a ser mais importante que sentir, separamos sem perceber a mente e o espírito do corpo. Precisamos de muito lirismo para conectar e integrar o "sentir", o "pensar" e o "agir". Apesar de todas as possibilidades que o mundo contemporâneo nos oferece, com os ensinamentos de pensadores que subverteram todos os >cânones até então propostos, com teorias libertárias, estamos muito aquém dos nossos ancestrais. Penso que nós somos os "primitivos", porque estamos perdendo a conexão com o nosso espírito humano mais profundo. "A poética do Humano" (Rolando Toro (1924-2010), antropólogo, criador do Sistema Biodança). Precisamos conhecer mais, revisitar nosso legado, interpretar a alma escrita dos que ousaram pensar a Humanidade e todos que, antes da escrita e do pensamento, escreveram a nossa História com o corpo. Reafirmo que o corpo é um arquivo de memórias e sentimentos. O olhar organiza nosso espaço de movimento. O ouvido é a nossa concha sussurrante do tempo. Nosso quadril o centro do Universo, os pés são os símbolos da nossa força na relação com a terra. O coração, centro afetivo. O tornozelo está unido às articulações e dele, depende a harmonia. Segundo Jean Ives Leloupe (1950), "A vida nos é dada, mas nem sempre é recebida. Tudo nos é dado mas nem tudo é recebido. Existem partes de nós mesmos, alguns de nossos membros, que estão fechados ao próprio movimento da vida, que estão fechados ao Sopro do Vivante. Cada um de nós tem um espaço de abertura e um espaço de fechamento". Só chegaremos à luz, se fortalecermos nossas raízes e, este conhecimento, passar para nosso corpo. Está na hora da Humanidade abrir o Livro da Vida e "revelá-lo" ao corpo. Conhecer as mensagens do nosso corpo, escutá-lo, entregar nossa experiência de transbordamento para o outro que também sou eu. Porque sou feita do mesmo tecido. "Tudo o que é Humano me interessa".

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas...