terça-feira, 15 de novembro de 2016

O QUE PODE UM CORPO?

Estava numa biblioteca e uma mulher bonita, de aproximadamente uns 40 anos veio conversar comigo.Me contou com toda a naturalidade do mundo que sofreu violência doméstica antes de nascer, porque o pai batia na mãe dela e chegou ao ponto de chutar sua pobre mãe na barriga grávida. Ela me narrou com uma naturalidade espantosa suas agruras e como lutou para nascer. Seu relato continua muito profundo. Fiquei parada sem saber o que dizer e continuei ouvindo a beleza daquela mulher que prometera antes de sua mãe morrer que iria estudar e se formar. E de fato ela estudou, e passou no vestibular. No entanto aconteceu uma fatalidade: no dia que ia começar o curso de administração sofreu um acidente e ficou imobilizada numa cadeira de rodas. Quando se recuperou era tarde demais,o corpo não obedeceu ao seu sonho. Quando a vida é ultrajada é complicado acertar na vida. Como não havia trancado a faculdade a vaga expirou. Seu sonho acabara ali. Seguiu com sua vida e casou com um homem e teve uma filha. Este homem a trocou por outra e ainda ficou com a casa comprada por ela. Esta mulher segue para Brasília e vai morar na casa de um irmão. Este era para ser um relato de uma mulher que sofreu, lutou e venceu mas não é. Ela iniciou uma jornada de oração e tanto que pediu para Deus, que o marido deixou a amante para retomar o casamento com ela. Fiquei muito arrasada de ver que o ciclo de violência não se rompera e que se libertar de lares destrutivos é muito difícil e as feridas na alma e na memória da pele não desaparecem sem amparo e ações de apoio. Ela não retomou os estudos, não soltou seu grito de revolta e tristeza sobre este pai, que com certeza reproduziu também o que recebeu. E esta cadeia parece não ter fim. Na minha opinião o que falta aos movimentos sociais e ao feminismo é a experiência com o corpo. Não digo que não existem, mas precisa muito mesmo de corpo. O corpo que foi maltratado. Vejo que nós mulheres já temos teorias demais, apesar de que nunca será demais pensar sobre como estaremos livres, e pensarmos bastante sobre nossa condição. Eu falo de uma política séria sobre o corpo, e a desmaterialização do abandono, descaso e desrespeito muito comuns, que ficam marcados na alma. O abuso emocional é uma ferida que precisa ser tratada, a dor profunda provocada por companheiros nefastos precisa ser silenciada com abraços, qualificação e ternura. Muitas vezes um olhar profundo e uma presença amorosa podem fazer uma pessoa que sofreu abuso emocional a vida inteira se olhar diferente e se pensar com ternura. A mulher precisa de sua autoestima de volta, para dar a volta por cima e se encontrar novamente consigo mesma. Voltando a falar da mulher do início do meu relato, ela comemorando e eu com um sorriso de Monalisa, triste por dentro. Esta pessoa ainda me disse que tinha um recado de Deus para mim: que o que eu estava planejando ia dar certo. Tomara meu Deus, porque o que eu mais quero nessa vida é nunca mais conviver com uma sociedade que tolera a morte de mulheres, e não falo da morte física, hoje tão banalizada por jornais" que se espremer sai sangue", fala das mulheres que estão mortas por dentro. Porque seguir vivendo morta é outra prisão. Eu espero que o corpo seja um dia lembrado, não adianta cuidar da cabeça sem incluir o corpo. Uma mulher deveria após passar por traumas, passar por um corredor de abraços, passar por um círculo de olhares amorosos, passar por mãos cheias de doçuras ao som de Halleluia de Leonard Cohen. O corpo precisa de novas memórias, outro chão para pisar, outra respiração. Para gerar outro nascimento. Nós temos o universo dentro de nós.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DANÇA DA CHUVA

Estou pesquisando sempre o eixo que emana na transição do efeito da dança na dançarina e o trabalho da dançarina sobre si mesma. Um c...