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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

PRESENÇA

Quando danço respiro minha presença. Na minha opinião o mundo está precisando de presença de qualidade. O mestre Jesus há milênios já pedia para olharmos os lírios do campo,ele falava da importância da pausa para penetrar no mundo interno e contemplar o belo. Passando por uma rua numa tarde de sol observei a luz sobre a grama verde e o efeito visual que causava. Imagino se Claude Monet (1840-1926), o grande pintor impressionista se ele seria capaz de observar a luz com tanta propriedade para pintar o seu efeito em sua obra se fosse contemporâneo no século XXI. Ele pintava ao ar livre e em diferentes horários do dia e em várias épocas do ano e apesar de viver com dificuldades financeiras,seguia pintando a natureza e suas nuances. Deixou o registro por exemplo da catedral de Ruen, uma série de pinturas(1892-1894)onde pintava a construção em diversos momentos do dia, com variações de luminosidade. Será que a Virgem Maria ouviria o anjo que Deus enviou para anunciar a ela que foi a escolhida para gerar Jesus? Ou a família do príncipe Sidarta Gautama conseguiria manter Buda num palácio afastado da miséria e sofrimento do mundo? E será que Buda saberia o momento de sentar embaixo de uma árvore e se iluminar diante do barulho do mundo? Eu sei que ainda existem lugares para fazer pausa, mas eu falo do cotidiano, da vida sem freios da corrupção, vaidade, Donald trump, Michel Temer, barcos afundando com gente fugindo de guerras e destruição, e por aí segue nosso mundo. Penso muito sobre isso porque estamos transformando nossa civilização, que está muito conectada com o que é de fora respondendo a muitos chamados e o nosso mundo interno fica carente de pausa, silêncio, mistério e da qualidade de pensamento e transcendência. Atualmente ando fugindo do barulho, criando meu espaço para silenciar minha alma,fazer minha pausa necessária para estar no mundo com presença. A cada dia danço presença, sou presença em cena. Na vida enfrento como todo mundo minha dispersão e a dificuldade de estar aqui e agora. Marina Abramovic a artista Sérvia fez uma performance intitulada " A artista está presente", sentada numa cadeira, ela convidava o público individualmente para sentar diante dela para ficar na sua presença e olhar nos seus olhos. Naquele instante assistimos a presença de dois seres e a humanidade de cada um ser expressada, choros, emoção, beleza e encantamento de ser humano. A nossa riqueza se manifesta quando temos o privilégio de encontrar uma qualidade de presença no cotidiano, estar com o outro sem telefone, computador e a mente submersa em devaneios. Acho fundamental fugir da realidade também, ser onírica, entrar no meu mundo interno ser poesia, sentir que tenho um mundo paralelo para viajar e criar minha arte de viver e até navegar no mundo virtual, mas me recuso a fotografar tudo o que faço só para mostrar ao mundo que existo. Sou logo existo. Estar no mundo intermediado por imagens, opiniões, notícias, consumo, redes sociais, selfies e sorrisos eletrônicos encapados por eletricidade e baterias é a nossa realidade, no entanto precisamos olhar para dentro e esculpir nossa beleza e viver a experiência do aqui e agora, estar presente diante do mundo. Escutar, olhar, sentir viver a aventura de ser aqui e agora.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

VII FESTIVAL DE DANÇA SOLIDÁRIA DE BRASÍLIA

Produzo este festival com muito amor, junto com minha amiga Maria Helena e muitos parceiros na dança e na caminhada de fazer arte e encontrar na dança um caminho de superação de limites. O Festival de Dança Solidária de Brasília, que nasceu em 2009, surge da necessidade de dirimir as fronteiras de grupos de dança da melhor idade e pessoas com deficiência e tem como foco incluir a dança na vida das pessoas, independente da limitação, tais como: idade, física, mental. É um festival aberto a todos os grupos, não tem curadoria. A proposta do Festival é enfatizar que todo ser humano, independentemente de sua inserção, pode encontrar beleza no movimento, dançá-lo, e aprender a superar suas limitações visíveis ou invisíveis. Acreditamos ser importante que a sociedade veja do que o ser humano é capaz, quando lhe é oferecida a oportunidade de crescer e ser feliz.Além da inserção destes grupos na vida cultural da cidade, o ingresso para o festival é uma lata de leite em pó, que será doado ao Mutirão Chico Xavier, entidade que assiste famílias carentes do entorno de Brasília. Leite em pó é o item menos doado em cestas básicas.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O QUE PODE UM CORPO?

Estava numa biblioteca e uma mulher bonita, de aproximadamente uns 40 anos veio conversar comigo.Me contou com toda a naturalidade do mundo que sofreu violência doméstica antes de nascer, porque o pai batia na mãe dela e chegou ao ponto de chutar sua pobre mãe na barriga grávida. Ela me narrou com uma naturalidade espantosa suas agruras e como lutou para nascer. Seu relato continua muito profundo. Fiquei parada sem saber o que dizer e continuei ouvindo a beleza daquela mulher que prometera antes de sua mãe morrer que iria estudar e se formar. E de fato ela estudou, e passou no vestibular. No entanto aconteceu uma fatalidade: no dia que ia começar o curso de administração sofreu um acidente e ficou imobilizada numa cadeira de rodas. Quando se recuperou era tarde demais,o corpo não obedeceu ao seu sonho. Quando a vida é ultrajada é complicado acertar na vida. Como não havia trancado a faculdade a vaga expirou. Seu sonho acabara ali. Seguiu com sua vida e casou com um homem e teve uma filha. Este homem a trocou por outra e ainda ficou com a casa comprada por ela. Esta mulher segue para Brasília e vai morar na casa de um irmão. Este era para ser um relato de uma mulher que sofreu, lutou e venceu mas não é. Ela iniciou uma jornada de oração e tanto que pediu para Deus, que o marido deixou a amante para retomar o casamento com ela. Fiquei muito arrasada de ver que o ciclo de violência não se rompera e que se libertar de lares destrutivos é muito difícil e as feridas na alma e na memória da pele não desaparecem sem amparo e ações de apoio. Ela não retomou os estudos, não soltou seu grito de revolta e tristeza sobre este pai, que com certeza reproduziu também o que recebeu. E esta cadeia parece não ter fim. Na minha opinião o que falta aos movimentos sociais e ao feminismo é a experiência com o corpo. Não digo que não existem, mas precisa muito mesmo de corpo. O corpo que foi maltratado. Vejo que nós mulheres já temos teorias demais, apesar de que nunca será demais pensar sobre como estaremos livres, e pensarmos bastante sobre nossa condição. Eu falo de uma política séria sobre o corpo, e a desmaterialização do abandono, descaso e desrespeito muito comuns, que ficam marcados na alma. O abuso emocional é uma ferida que precisa ser tratada, a dor profunda provocada por companheiros nefastos precisa ser silenciada com abraços, qualificação e ternura. Muitas vezes um olhar profundo e uma presença amorosa podem fazer uma pessoa que sofreu abuso emocional a vida inteira se olhar diferente e se pensar com ternura. A mulher precisa de sua autoestima de volta, para dar a volta por cima e se encontrar novamente consigo mesma. Voltando a falar da mulher do início do meu relato, ela comemorando e eu com um sorriso de Monalisa, triste por dentro. Esta pessoa ainda me disse que tinha um recado de Deus para mim: que o que eu estava planejando ia dar certo. Tomara meu Deus, porque o que eu mais quero nessa vida é nunca mais conviver com uma sociedade que tolera a morte de mulheres, e não falo da morte física, hoje tão banalizada por jornais" que se espremer sai sangue", fala das mulheres que estão mortas por dentro. Porque seguir vivendo morta é outra prisão. Eu espero que o corpo seja um dia lembrado, não adianta cuidar da cabeça sem incluir o corpo. Uma mulher deveria após passar por traumas, passar por um corredor de abraços, passar por um círculo de olhares amorosos, passar por mãos cheias de doçuras ao som de Halleluia de Leonard Cohen. O corpo precisa de novas memórias, outro chão para pisar, outra respiração. Para gerar outro nascimento. Nós temos o universo dentro de nós.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

" A FONTE ORIGINAL"

Hoje pensei o dia todo sobre meu aprendizado, as lições que levei para a vida, através da dança. A primeira coisa que aprendi é estar inteira, presente, toda em cada gesto. Confesso que esta lição ainda não aprendi totalmente no cotidiano cheio de momentos e situações que não fazem sentido para mim. Integrar corpo, mente e espírito. Quanto penso muito, fico sem foco e quando sinto demais a realidade me escapa e se fico muito na devoção a vida me chama para a ação. Estar pronta. Treinar bastante porque a qualquer momento vou entrar em cena e preciso de precisão e estar em estado de prontidão. Como na vida que muda o tempo todo e precisamos responder ao seu chamado. Finalizar uma ação para começar outra, esta é fundamental. Aprender a fechar ciclos. Olhar nos olhos. Aprendi a olhar de verdade, perceber nuances, detalhes e sutilezas. Pensar através de ações. Amar é atitude. Estar presente, cultivar um estado de vibração e uma atmosfera. Conhecer minha energia e a mim mesma, olhar para dentro e para fora. Pesquisar, estudar, criar um mundo onde eu possa encontrar minha expressão, verdade e autenticidade. Ser simples na complexidade e encontrar minha tranquilidade no caos. criar é mover forças desconhecidas. Me pertencer, parir a mim mesma. Pensar no espaço, encontrar meu lugar no mundo, aquele sentimento de pertencimento, embora muitas vezes eu me sinta um Alien. A força do tempo e do atemporal, a transcendência. Sentir meu corpo e minhas emoções e vivenciar Deus dentro de mim. Muitas vezes na vida o sentimento de que algo maior me move faz toda a diferença, mesmo quando me sinto só com minhas questões e perguntas. Nutrir a força dos meus pés, sentir minhas raízes. A vida precisa de terra de enraizamento para sentir o aqui e agora. O corpo tem memória, é um arquivo, nele registramos nossa memória impressa na pele.nos ossos , na carne, portanto cuidar do corpo e das minhas emoções me faz melhorar minha existência e se tenho memórias ruins, posso ressignificá-las. Nada é definitivo, tudo pode ser revisto e tocado com amor. Tocar outro ser humano, respeitar seu limite e conhecer meus limites. Onde começa meu espaço e como interagir sem ultrapassar a linha do outro sem deixar que invadam meu espaço. Honrar a vida dentro de mim. O movimento cria entusiasmo dentro de mim, tudo pulsa, vira energia e eleva meu ser. A força da beleza, tocar o que me parece feio e olhar diferente, sentir beleza, emanar beleza. E por último a força da identidade na diversidade. Dançar a mim mesma. Ser eu mesma na vida.