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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

DANÇA E EXPERIÊNCIA DE TOTALIDADE

Na antiguidade a experiência fazia parte do cotidiano,a vida era compartilhada e sentir era vivenciado através de experiências coletivas. A história do pensamento ocidental nos revelou a negação do corpo e da vida em detrimento da supremacia da razão e do pensamento. Estamos no mundo contemporâneo sedentos por sentir experiências no nosso corpo, sentir a vida acontecendo num instante supremo dentro de nós. É como se a vida estivesse ao nosso lado e não possuímos mais acesso à ela. Freud(1856-1939) disse que é lindo ser um homem e não um depósito de experiências monótonas,mas podemos ser homens durante uma hora, embora sejamos um depósito por onze horas. Penso que estamos esperando que alguma coisa aconteça para que a vida seja sentida com toda a sua plenitude. Interessante na minha caminhada é que todas as vezes que a vida fez sentido para mim foi e continua sendo em momentos de grande prazer com o meu corpo, eu continuo acreditando que sem uma experiência integradora na nossa sociedade continuaremos vendo a vida passar pela janela. Eu estou escrevendo sobre o verdadeiro prazer que na nossa cultura está extremamente reduzido a sexo e consumo. A sensualidade é saber degustar a vida para sentir o seu sabor que exige um refinamento da alma, uma busca por respiração, afeto, troca e muita partilha. O nosso corpo é um caminho para atingir estados de consciência elevados. O materialismo, a desigualdade social, as guerras e as ditaduras seguidas de golpe, com exceção de poucos países tira a dignidade humana. Desde a segunda guerra mundial que não temos um fluxo migratório tão intenso, o mundo aguarda com muito alarme, muros e fechamento de fronteiras o desespero humano por melhores condições de vida. A vida está sendo negada porque o ser humano não quer abrir a fronteira do preconceito que nos impede de chegar ao outro. Na minha opinião o que importa é a experiência, é a vivência que nos transforma e humaniza. Não adianta muito falar sobre afeto e experiência no corpo para uma cultura que fragmentou o conhecimento e alienou o corpo. Felizes as pessoas que ainda podem num mundo automatizado, tirar os sapatos e dançar na chuva, sentir o cheiro do vento numa tarde ensolarada, sentar com amigos para fazer nada. Sair na rua para compartilhar alguma coisa sua, um olhar, um abraço, dançar numa festa, rir junto com desconhecidos numa sessão de cinema, olhar nos olhos, sentir a mão de alguém e flutuar dentro de si mesmo ouvindo uma música saborosa. Sentir o invisível, cair no vazio e encontrar sentido no milagre da vida. Acumular dinheiro e buscar poder só alimenta uma porção da nossa identidade que não recebeu amor e reconhecimento. A questão é que todos os mestres do oriente e ocidente sempre afirmaram há milênios que o caminho se faz ao caminhar e as respostas estão dentro de nós. Então não adianta buscar fora se por dentro não tem vida pulsando, coração flamejante desejando paixão e sangue quente correndo nas veias. Estou me preparando para dançar ao ar livre para todo mundo, compartilhar meu dom. Os xamãs modernos não guardam seus dons em caixinhas esperando serem lembrados, ou um patrocínio legal. Eu fiquei anos da minha vida esperando um reconhecimento um carimbo para libertar meu desejo de dançar e não ser um "depósito de experiências monótonas". Não espero mais nada além de mim mesma me amando muito por não precisar de nada, só do meu corpo para soltar meu movimento em praça pública, parques e qualquer lugar que me leve para a vida dentro de mim. É claro que trabalho muito para ser o meu destino, não nasci rica e pago iptu como todo mundo. A diferença é que não conseguiram me "engessar", me institucionalizar e desistir da vida. Compartilhar, curtir e escrever ideias nas redes sociais e blog é muito pouco para mim, não me satisfaz e me deixará morta se ficar presa a isso.Um dia preciso olhar o que está acontecendo de profundidade e humanidade na internet, mas depois preciso apertar o botão e abrir meus braços para a vida que acontece lá fora e dentro de mim. E comigo tem que ser no meu corpo, na minha escuta do mundo.

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