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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"SACUDIR AS CERTEZAS"

Encontrar na diversidade a identidade. Existe um lugar que é só nosso. Quando encontramos nosso lugar, permanecemos equilibrados em qualquer sistema estranho à nós. Dentro de minha pesquisa de gestualidade, comecei pela aula de Power Yoga e recentemente fui a uma aula de rítmos. Confesso que esperava uma percussão, músicas de tradição, samba, enfim muita melodia. Mas que nada a seleção de músicas que realmente tinham ritmo, mas não havia alma. Respeito de verdade esta iniciativa, mas não consigo ver a dança sendo vendida como ginástica. Eu venho de uma tradição na dança onde o movimento tem um porquê, e cada gesto é um convite para entrar no movimento com consciência e não fuga. Me senti torturada, a aula não acabava, apesar de ver que todos em minha volta gostavam e até vibravam com as músicas. Eu ainda era muito diferente do grupo. Estava de saia esvoaçante, cabelos soltos, descalça. E todas as alunas estavam de visual academia, tênis, calça leg, por aí. Realmente é muito bom sentir meu estranhamento sem me intimidar,saborear ser de outra tribo, ser diferente e ao mesmo tempo fazer parte. Ninguém me condenou ou descriminou. Isso foi bom. A razão de estarem dançando numa academia já é maravilhoso. O fato de não me encaixar, não significa que está errado. Mas uma coisa me chamou a atenção, o fato de que sempre que a música terminava todas desocupavam o espaço e ficavam no fundo da sala, eu ficava sozinha parada no meu lugar esperando a próxima música. Interessante como a força de dançar com consciência me trouxe a necessidade de buscar o meu espaço na vida. E mesmo quando não estou pertencendo me pertenço. Portanto dançar vai além de repetir passos de dança, vai além da estética. Dançar é transcender a si mesmo e sintonizar com o ritmo da vida. Não nasci para repetir, minha necessidade de criar é visceral, por isso criei um método para ensinar dança.É possível sim, criar dentro de uma dança codificada e sistematizada, mas como disse uma vez Clarice Lispector (1920-1977), " liberdade é pouco, o que eu quero não tem nome". Não suportei a ideia de me submeter a me engessar numa técnica, sem nem poder improvisar, ou deixar meu aluno sair de uma aula sem sentir um estante de leveza nessa vida. Quando um aluno meu cria uma dança pessoal, fico muito feliz. Dançar a si mesmo é o começo de seguir na vida com identidade recriando sua própria história, sem a necessidade de gurus e mestres. Lógico que devemos reverenciar as tradições e técnicas existentes o cardápio é variado. O perigo reside na repetição automática e cega. Eu posso criar,ser livre, ser eu mesma, mesmo num mundo uniformizado. Preciso me sentir viva. Crédito da imagem da Clarice- codex-libraria - do blog- eu-sem-poesia

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