sexta-feira, 5 de agosto de 2016

ESCUTA DO CORPO

Estava afogada em pensamentos e com a alma sem cor, tinha acabado de escrever um projeto no programa cultural de uma certa instituição pública. Estava exausta com o trabalho que hoje qualquer artista precisa empreender para exalar, expressar e concretizar suas ideias. Ultimamente estou transitando muito nas duas primeiras opções, e esta burocracia aliada a minha sede de pesquisa e sistematização do meu projeto de pesquisa estavam me sufocando. Tudo para continuar dançando. Cansada de pensar em dança e embriagada de vontade. Coreografias sendo criadas diariamente dentro de minha cabeça, sonhos com o cartaz e o conceito do espetáculo, textos aparecem, livros, isso é de uma sincronicidade perfeita. Mas a imperfeição da espera, os nãos da vida exigem vontade. Estava a ponto de pirar com estas questões e os pensamentos começando a me deixar para baixo. Agi contra a gravidade. Porque dançar é uma luta constante com a gravidade. Decidi fazer algo diferente, fui a uma aula de power yoga. Primeiro achei esquisito porque não havia nenhuma atmosfera mística, nenhuma imagem da iconografia Hindu, nem musiquinha com cítara, incenso, nada! Percebi que não ia rolar lirismo. E começamos as práticas. Exercícios que exigiam muita resistência. Força nos músculos, equilíbrio e presença, além de muita concentração.Durante o treinamento fui começando a sentir novamente meu corpo e os pensamentos foram acalmando também. Cada exercício me fazia perceber novas formas de olhar meu corpo e novas ações que foram me desafiando e aumentando meu repertório de gestos. E assim fui saindo do automático e a graça e a leveza chegaram devagar.Enfim a alegria. Pensamentos leves, me senti suave e faceira e a vida também ficara maravilhosa. O corpo sabe o que precisa, basta confiarmos. E ainda saí com esta lição do meu treinamento de hoje.Precisamos criar resiliência, que é nossa capacidade de resistir, aguentar firme e se manter equilibrado quando tudo está difícil.Eu sei que para estar no mundo é preciso resistir e aprender a cair de pé, porque o mundo não espera, se quebrou algo dentro de nós, temos que seguir em frente mesmo com a asa quebrada. Que bom que mesmo com a asa quebrada, consegui permanecer resistindo à dor. E ao mesmo tempo que prazer que dá saber que me pertenço e que sou capaz de me entregar ao meu caos e consigo sair inteira, pronta para continuar fazendo o que mais amo. Todo mundo quer ganhar dinheiro fazendo o que gosta, mas para cheirar as flores é necessário muito trabalho. Muito triste ver artistas consagrados massacrados pela opinião pública alienada que não entende nada de lei de cultura, achando que estamos enchendo os bolsos de dinheiro do governo. Se as pessoas soubessem que um patrocínio é bom e ao mesmo tempo tem tanta burocracia e exigência que se o artista for ingênuo acaba ainda pagando dinheiro para o governo na prestação de contas. Atualmente percebi o quanto a supremacia da ignorância da população foi longe, a ponto de acreditar que é normal um governo interino quase acabar com o Ministério da Cultura e o macartismo brasileiro de perseguir o artista que além de sua arte, pensa e deseja expressar sua opinião e vontade de viver numa sociedade mais justa. Vi muito artista que admiro sendo pisoteado, isso feriu minha alma.Não temos o direito de julgar ninguém por pensar diferente de nós. E o artista não precisa declarar sua opinião, só se quiser.Nós podemos levar nossa mensagem através da nossa arte.Mas é muito fácil para o sistema ter o artista lacaio do dinheiro e sem compromisso com a reflexão. Acredito também que não é papel do artista salvar a humanidade, mas a arte pode contribuir e muito para o ser humano, se conhecer, se encantar e ter fé na nossa civilização. No meu caso é o que me indica o caminho de casa. A pergunta é como alguém pode extrair tanto ensinamento de uma simples aula de Power Yoga? Isso é fruto de muita busca por mim mesma e treinamento de dança. É muito claro para mim, que a integração da mente do corpo e do espírito podem trazer o entendimento de si mesmo e do sentido da vida.Só que isso é trabalho para uma vida inteira.

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Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas...