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terça-feira, 19 de julho de 2016

CORPO MEMÓRIA E IDENTIDADE

Minha dança não me define, mas foi e continua sendo meu espaço de expressão da minha palavra não dita. Não existe construção de destino e identidade sem liberdade, e o lugar onde me sinto livre é quando estou dançando. Reescrevo minha natureza morta, vejo minha humanidade e busco entender os sentimentos dos outros para me recriar em cena e na vida. Sou minha matéria-prima, meu relevo disforme, minha semente mal plantada, meus olhos diante de um mundo que me devora se não ficar e me definir no meu espaço interno. Porque preciso dançar nem que seja sozinha diante do espelho, dos meus bichos e das minhas plantas. São meus sonhos privados que me levam a levar minha alma para o universo. Sendo quem sou no espaço que me permito, pernas, braços, olhos e bocas que podem me escrever no livro da vida. Não sei se fica claro para todos, quando afirmo que o corpo tem memória. Muita gente ainda pensa que esta é uma tarefa do cérebro. Me vejo na revelação do que Merleau-Ponty denomina de "olhar corporificado", em que o corpo ativo na interação com o mundo produz a percepção e experiência. Ontem estava no grupo que faço parte da Biodança e foi nos ofertada a oportunidade de deixar os pensamentos em casa para trabalharmos o nosso corpo através da experiência. Um exercício muito utilizado nesta técnica corpórea, é a reprodução de um ninho. Todos os corpos ficaram deitados no chão, colados e embaralhados sem julgamento ou identificação com alguém ou algo. No espaço que estava deitada, percebo um leve acariciar na minha cabeça, principalmente no meu cabelo.Voltei imediatamente para a minha infância, quando era cuidada pela minha avó, e ela trançava meus longos cabelos antes de dormir enquanto me narrava histórias mágicas com um delicioso chá de capim santo, colhido por ela do seu quintal.O cheiro da minha infância. Eu que nesse dia estava muito assustada com o mundo e com medo de viver, queria ficar invisível e até sem respirar,era este o meu grande plano do dia, me esquecer por alguns segundos e não me acontecer mais nada. Me deixe aqui sem existir por favor. E aquela carícia amorosa me transportou no tempo para o lugar mais sagrado do mundo, o instante onde ainda era um papel branco, com poucos medos e muitos sonhos, e através da memória despertada por esse gesto de afeto, voltei a viver e fiquei com vontade de ser novamente. E para coroar a experiência tão transformadora, este carinho virou um colo e depois eu pude dar colo também, e depois fomos para a varanda nos ofertar a lua e diante de nossas presenças nossos corpos nos revelaram que não precisamos lamentar nada, porque no nosso corpo nenhuma experiência se perde, e quando a experiência não é boa temos a oportunidade de ressignificar, e quando o corpo não tem o registro temos a capacidade de gravar a cada experiência uma nova memória. Sim, somos um livro aberto para novas edições. No meu caso que tive uma mãe que não sabia lidar com a maternidade delegando esta função à minha avó,a cada experiência de receber colo que tenho,recebo o colo dela, e a sinto como minha mãe e posso honrá-la, recebo a prova viva de que através de outros braços posso vivenciar o colo amoroso de minha mãe que ficou perdido no tempo. Este é o grande mistério revelado que nos foi negado, porque a história do conhecimento também foi no ocidente também a história da negação do corpo e da vida. Portanto a urgência do reconhecimento do corpo como parte integrante do nosso processo de criação de identidade e de pertencimento no mundo. O ser humano que tem a oportunidade de integrar o pensar, agir e sentir promove revoluções. Imagine que dançar para mim é me encontrar com a matéria volátil que me define. Lembrei da amiga de Simone de Beuavoir,(9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), Violette Leduc, Escritora que encontrou sua emancipação e libertação através da literatura. Violette Luduc, misturou vida real e sonho e se fez compreender e entregou sua alma para o mundo e assim não havia mais desculpas para se esconder, não precisava mais ser segundo ela " um deserto que monologa".

3 comentários:

  1. suas palavras são um voô...viagem intensa na emoção do retratado...a dança do relato nos faz entrar na dança real do fato,,Fato esplendido e de significado existencial inigualável...Gratidão por dançar a vida..beijos

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  2. suas palavras são um voô...viagem intensa na emoção do retratado...a dança do relato nos faz entrar na dança real do fato,,Fato esplendido e de significado existencial inigualável...Gratidão por dançar a vida..beijos

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  3. Sim minhas palavras me ensinam a voar, dançam comigo na melodia etéria do cotidiano.

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