quarta-feira, 27 de julho de 2016

CORPO E LUGAR

A lei da física é categórica:dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. No entanto,ao vivenciar experiências com o corpo, existe a possibilidade de subverter esta ordem por um corpo que pode ocupar o espaço que o outro ocupou e nesta troca ambos podem fazer do espaço o que a experiência faz dele. Se a humanidade trocasse passos de dança, por troca de guerras e disputas territoriais, não haveria tantas fronteiras entre nós, porque na dança ou em qualquer linguagem artística é possível experimentar esta lei da física que é experimentar nem que seja por alguns instantes,ocupar o lugar do outro. Com certeza a empatia seria um lugar muito mais conhecido por todos, porque a linguagem separa e o corpo une. O corpo não precisa ser a prisão da alma como dizia o filósofo Platão. A liberdade através do corpo chega quando começamos a valorizar o não dito, quando nossas sensações e sentimentos ganham voz, o instante supremo que é quando superamos e reinventamos o presente. Na cultura Africana a roda simboliza a oportunidade de todos passarem pelo mesmo lugar do outro,isso acontece por exemplo na capoeira,na tradição dos griôs,os mestres que são sábios da tradição oral. A dança sobrepõe o lugar deste corpo no mundo e nos convida a explorar de maneira radical a relação entre corpo e lugar e aos poucos vamos ocupando nosso espaço na vida e no mundo. " Aquele que quer aprender a voar um dia precisa primeiro aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar; ninguém consegue voar só aprendendo vôo." Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 25 de julho de 2016

DANÇAR PARA DEVOLVER A POÉTICA DO CORPO

Desenvolver através da dança a riqueza de possibilidades corpóreas, para que a vivência do simples, do singelo e do encantamento devolva ao corpo a sua poética . Dançar com os olhos, com as mãos, com os pés, com a energia do próprio movimento individual, equilibrar de forma geométrica , andar com graça e leveza, e força. Treinamento corporal para cada parte do corpo, dançar cada fragmento e ao mesmo tempo integrar corpo-mente-alma, onde a dança vira meditação e não há mais dançarino só a dança. Treinamento centrado especificamente nos olhos, de modo que o bailarino tome consciência da colocação e da expressão do seu olhar. Exercícios de desenvolvimento da flexibilidade das mãos , dos dedos e dos pulsos , para possibilitar ao dançarino o domínio minucioso da colocação das mãos no espaço. - Trabalho das diferentes batidas ( ou golpes) dos pés ( em meia-ponta e com a planta ), em torno de diferentes ciclos rítmicos ( 3, 4, 5 e 7 tempos). - Trabalho de flexibilidade e fortalecimento dos pés, tornozelos , ancas e costas - Trabalho de colocação do corpo. - Trabalho de deslocamento e de controle do centro de gravidade. - Trabalho de isolamento, dissociação, assimetria ,movimentos não lineares , desconstrução e coordenação corporal - Trabalho baseado em linhas geométricas perfeitas ( círculo, meio circulo, vertical. horizontal, e diagonal 45 graus), acompanhado de posturas de mãos, deslocações e saltos, utilizando diferentes orientações no espaço. -Trabalho de equilíbrio e estudo de posturas como a célebre " postura de Shiva Nataraja- Rei dos bailarinos" em conformidade com as regras de arquitetura da iconografia dos templos hindus. Trabalho de isolamento e dissociação rítmica dos pés. - Estudo da relação dança & natureza - Coreografias baseadas no cotidiano, arquitetura , formas das árvores - Expressões faciais

terça-feira, 19 de julho de 2016

CORPO MEMÓRIA E IDENTIDADE

Minha dança não me define, mas foi e continua sendo meu espaço de expressão da minha palavra não dita. Não existe construção de destino e identidade sem liberdade, e o lugar onde me sinto livre é quando estou dançando. Reescrevo minha natureza morta, vejo minha humanidade e busco entender os sentimentos dos outros para me recriar em cena e na vida. Sou minha matéria-prima, meu relevo disforme, minha semente mal plantada, meus olhos diante de um mundo que me devora se não ficar e me definir no meu espaço interno. Porque preciso dançar nem que seja sozinha diante do espelho, dos meus bichos e das minhas plantas. São meus sonhos privados que me levam a levar minha alma para o universo. Sendo quem sou no espaço que me permito, pernas, braços, olhos e bocas que podem me escrever no livro da vida. Não sei se fica claro para todos, quando afirmo que o corpo tem memória. Muita gente ainda pensa que esta é uma tarefa do cérebro. Me vejo na revelação do que Merleau-Ponty denomina de "olhar corporificado", em que o corpo ativo na interação com o mundo produz a percepção e experiência. Ontem estava no grupo que faço parte da Biodança e foi nos ofertada a oportunidade de deixar os pensamentos em casa para trabalharmos o nosso corpo através da experiência. Um exercício muito utilizado nesta técnica corpórea, é a reprodução de um ninho. Todos os corpos ficaram deitados no chão, colados e embaralhados sem julgamento ou identificação com alguém ou algo. No espaço que estava deitada, percebo um leve acariciar na minha cabeça, principalmente no meu cabelo.Voltei imediatamente para a minha infância, quando era cuidada pela minha avó, e ela trançava meus longos cabelos antes de dormir enquanto me narrava histórias mágicas com um delicioso chá de capim santo, colhido por ela do seu quintal.O cheiro da minha infância. Eu que nesse dia estava muito assustada com o mundo e com medo de viver, queria ficar invisível e até sem respirar,era este o meu grande plano do dia, me esquecer por alguns segundos e não me acontecer mais nada. Me deixe aqui sem existir por favor. E aquela carícia amorosa me transportou no tempo para o lugar mais sagrado do mundo, o instante onde ainda era um papel branco, com poucos medos e muitos sonhos, e através da memória despertada por esse gesto de afeto, voltei a viver e fiquei com vontade de ser novamente. E para coroar a experiência tão transformadora, este carinho virou um colo e depois eu pude dar colo também, e depois fomos para a varanda nos ofertar a lua e diante de nossas presenças nossos corpos nos revelaram que não precisamos lamentar nada, porque no nosso corpo nenhuma experiência se perde, e quando a experiência não é boa temos a oportunidade de ressignificar, e quando o corpo não tem o registro temos a capacidade de gravar a cada experiência uma nova memória. Sim, somos um livro aberto para novas edições. No meu caso que tive uma mãe que não sabia lidar com a maternidade delegando esta função à minha avó,a cada experiência de receber colo que tenho,recebo o colo dela, e a sinto como minha mãe e posso honrá-la, recebo a prova viva de que através de outros braços posso vivenciar o colo amoroso de minha mãe que ficou perdido no tempo. Este é o grande mistério revelado que nos foi negado, porque a história do conhecimento também foi no ocidente também a história da negação do corpo e da vida. Portanto a urgência do reconhecimento do corpo como parte integrante do nosso processo de criação de identidade e de pertencimento no mundo. O ser humano que tem a oportunidade de integrar o pensar, agir e sentir promove revoluções. Imagine que dançar para mim é me encontrar com a matéria volátil que me define. Lembrei da amiga de Simone de Beuavoir,(9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), Violette Leduc, Escritora que encontrou sua emancipação e libertação através da literatura. Violette Luduc, misturou vida real e sonho e se fez compreender e entregou sua alma para o mundo e assim não havia mais desculpas para se esconder, não precisava mais ser segundo ela " um deserto que monologa".

sexta-feira, 15 de julho de 2016

CRIAÇÃO DE ROTEIRO PARA DRAMATURGIA DO CORPO

A arte pode emergir para abrir portas para o sentido da busca, e ampliar novas percepções sobre os mesmos fatos, a interpretação da realidade pode ser reinventada e ampliada para aquela dimensão que ninguém olhou, ou pode ser a própria busca em si. A situação muda quando matrizes precisam ser criadas e transformadas em signos, a criação de uma partitura e uma paleta de gestos e movimentos que serão transformados em sequências coreográficas. Meu universo flutua entre a dança e o teatro e o meu texto é o corpo Estou criando o minha dramaturgia baseada na jornada do Herói do Joseph Campbell: - Exposição do personagem - Cotidiano - Chamado à aventura - Recusa - travessia do primeiro Limiar, localiza a fábula que acontece num mundo real - Testes, aliados e inimigos - Caverna profunda - Aprovação suprema - Encontro com a Deusa - Recompensa - Caminho de volta - Ressurreição - Retorno do elixir - Tradição-tradução-traição - Narrativa linear - Ideia, estrutura, personagem, exposição,clímax,resolução e ataque. - Personagem - emoções, antagonista, questionamento, planejamento, atmosfera/gravidade. comunicação( mentor), problemas técnicos,, necessidades técnicas - A partida - A iniciação - O retorno - Metáfora- poesia- fantasia

MITOLOGIA PESSOAL

Se " tornar mais humano que o humano" adquirir uma segunda natureza refinada que permite olhar para dentro de si e para o mundo ,. , o desafio de sempre ao finalizar um projeto recomeçar do zero.Ampliar as fronteiras e desafios de investigar o inefável, o "inominável", renomear partes de mim e os diferentes diálogos que vou traçando com as diferentes linguagens a serem investigadas.Muito importante para mim é a liberdade da busca, não me prender a modelos ou fórmulas fáceis.Construir uma linguagem e permanecer acreditando que o lirismo e a poesia devem fazer parte do cotidiano e não apenas por instantes. A modernidade nos exige um poder de síntese e de foco muito grande.Temos muita informação e pouca sabedoria.Cultivar o simples e o que é essencialmente primordial para chegarmos a alguma resposta.A arte pode abrir portas para o sentido da busca, ou pode ser a própria busca em sí. Estou novamente em busca da relação com o particular e o universal, " falar da minha aldeia", para me explicar no mundo. O blog Baraka é fruto desta tentativa de auto-explicação através da procura por minha linguagem pessoal, no entanto o rótulo da dança Indiana é muito forte,, por mais que tente me fazer entender continuo realizando a difícil tarefa de me "despir " desta estética para criar a minha.. Vai ser uma viajem de dentro pra fora, porque eu não preciso mais buscar o estranho o distante para construir a minha identidade como artista, o diálogo sempre foi da India para o Brasil. O recente projeto tem como foco principal a geometria,arquitetura do ser e a dramaturgia do corpo.O oriente sempre estará presente mas diluído entre as novas fronteiras que estou abrindo. Sou uma viajante do tempo onde presente ,passado e futuro fazem parte da mesma substância porque eu busco a atemporalidade, aquela qualidade de presença que transforma qualquer instante de superação em ternura. "Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para podermos viver a vida que nos espera. A pele velha tem que cair para que uma nova possa nascer." É possível criar uma mitologia pessoal, uma dramaturgia para se contar histórias com o corpo, tirar lições dele e aplicá-las na vida e no palco. Abaixo seguem frases de Joseph Campbell, grande fonte de inspiração para mim. "O privilégio de toda uma vida é ser aquele que nascemos para ser." "Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para podermos viver a vida que nos espera. A pele velha tem que cair para que uma nova possa nascer." "Quando nos deixamos guiar pela felicidade, nos posicionamos num tipo de caminho que sempre esteve ali, à nossa espera, e vivemos exatamente a vida que deveríamos estar vivendo." "E qual é a natureza do deserto? É uma terra onde todos vivem uma vida falsa, fazem as mesmas coisas que os outros fazem, do modo como lhes foi ensinado, sem que ninguém tenha coragem de viver sua própria vida." "O objetivo dos artistas é quebrar janelas nos muros da cultura local para a eternidade." "As oportunidades para procurar forças mais profundas em nós mesmos vêm quando a vida parece mais desafiadora." "Siga a sua bem-aventurança, lá onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir." "Encontre a paixão da sua vida e siga-a, siga o caminho que não é caminho." "Quando tiver essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde antes não havia portas e você sequer imaginava que pudesse haver." Joseph Campbell

DANÇAR A VONTADE DE POTÊNCIA EM NÓS

Desenvolver através da dança a riqueza de possibilidades corpóreas, para que A vivência do simples, do singelo e do encantamento devolva ao corpo a sua poética . Dançar com os olhos, com as mãos, com os pés, com a energia do próprio movimento individual, equilibrar de forma geométrica , andar com graça e leveza, e força treinamento corporal para cada parte do corpo, dançar cada fragmento e ao mesmo tempo integrar corpo-mente-alma, onde a dança vira meditação e não há mais dançarino só a dança. Dançar a vontade de potência em nós, dançar a vida que respira através do nosso corpo, para nos dar leveza nos passos, sonhar com os pés. A dança pode ressignificar o lugar do nosso corpo no mundo, a relação e as nuances como dialogar com as categorias do viver. O ato de dançar nos convida a sentir nosso movimento e ajuda a construir identidade. O corpo nos revela quem somos, porque tem memória,quando entramos no lugar onde as palavras se calam, acessamos o inefável, o não dito e a faixa do tempo e espaço são suspensas e o corpo pode viver sua transcendência e sacralidade. E assim faremos o caminho de volta para a nossa casa,nosso corpo. Estar vivo começa quando sentir e pensar dançam juntos. “Cada um de nós é um violinista no telhado, tentando arranhar alguma melodia agradável e simples, sem despencar de lá de cima. Não é fácil”.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O CORPO COMO EXPERIÊNCIA E DEVIR

Vivemos em vários mundos e direções muitas vezes opostas ao que a nossa alma pede. Muitas vezes até esquecemos do nosso maior aliado, nosso corpo. O corpo ensina e quando deixamos a experiência se manifestar através do corpo encontramos o nosso vazio, o inefável, o numinoso. O conceito de devir vem do latim, devenire, e significa chegar. É um conceito filosófico que significa a mudança pelas quais as coisas passam. O conceito de "se tornar", nasceu na Grécia antiga, pelo filósofo Heráclito de Éfeso no século VI A.C., que disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação. Somos feitos de ciclos,de qualquer experiência que leve o corpo para vivenciar estar vivo. E quando menos esperamos temos algum entendimento de nós mesmos, uma revelação do corpo para nós. O conhecimento acontece onde as palavras não alcançam, os pequenos átmos de segundos de presença, quando nossas vozes internas param de falar e apontar julgamento e definições. O ideal são trabalhos corporaes que liberem esse estado de presença de qualidade e rompam com o tempo e o espaço. Somos o devir, o tornar-se,"um poema inacabado", impermanência. Somos seres agarrados a vontade de possuir, ter, acumular e tudo o que a vida nos pede é para viver no presente e liberar tudo, experiências, memórias e desejo de posse. Desapegar talvez seja um dos nossos grandes desafios. Eu escolhi viver através da experiência proporcionada pelo meu corpo. Aprendo todo dia a corporificar e liberar as emoções guardadas, a resgatar a minha sacralidade no cotidiano, encontrar Deus nos detalhes. Ontem na minha aula de Biodança, conversamos como nossos ancestrais, eu tenho muito orgulho do meu grupo, tentamos juntos apontar um caminho para acessar esse espaço do desapego, do sentimento de que estar vivo. Vivenciar o milagre de fruir, saborear, sentir sua própria vibração,estar presente no presente. Ser humano já é uma experiência, encontrar nossa humanidade é o nosso desafio. Antes da supremacia do pensamento, o corpo, as sensações e a relação com a natureza eram simbióticas. A história e o pensamento como detentor de todas as respostas para a condição humana foi matando a vida em nós. Construímos nossa história negando a vida em nós.

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...