SOBRE GOLFINHOS, SILÊNCIO E SEGREDOS

Uma semente precisa do silêncio da terra, do escuro e da solidão do escuro, escondido silencioso para crescer. Me parece que muitas coisas belas nascem do mistério, do segredo impresso na memória ancestral. Uma reportagem sobre um golfinho me chamou a atenção. O golfinho morreu vítima da avidez das pessoas por fotos, registros da vaidade instantânea. Sinto falta dos impressionistas que retratavam a natureza, sem agredi-la, dos desenhistas e navegantes com os seus diários de bordo Estamos vivendo tempos sombrios de tanta avidez, de exposição e viramos seres predatórios de nós mesmos e de tudo que a nossa cultura classifica como símbolo de superioridade. Deve ser lindo para muita gente fotografar a si mesmo junto de um golfinho. Gente tão asfixiada pelo narcisismo que ignora as necessidades desse animalzinho indefeso, até matá-lo. Imaginemos a agonia deste animal acuado, coagido, passando de mão em mão, sendo imolado vivo, para o deleite de uma multidão ávida por curtidas nas redes sociais. Fico pensando se os pais ainda fazem álbuns de família, para manter a memória da família, no futuro talvez, não teremos aquela famosa cena dos pais mostrando o álbum de família para visitantes, diante do olhar constrangido dos filhos. Eu quero meus segredos de volta, eu quero sumir sem gps e entrar numa caverna sem sinal de wifi e crescer em segredo sem ninguém ver. Pode ser que eu volte a entender quando foi que surgiu essa carência da espécie humana por atenção, aplausos, reconhecimento e admiração. Fred explica? Alguém poderia me explicar o nível de barbaridades acontecendo em nome da fama, dinheiro? Eu quero ser multidão, sentir o prazer do anonimato, ou seja, viver o presente, fruir o instante com o compromisso fiel comigo mesma,isso traz bem estar, amigos verdadeiros, menos consumismo. Sentimento de pertencimento só acontece com trabalho interior, com a experiência sensorial no corpo. A verdade que brota à partir do nosso interior, fruto da nossa respiração com a vida, do não dito, do inefável. Para isso acontecer é preciso parar, olhar para dentro, fotografar nossa alma, registrar na pele nossos instantes de intimidade com o nosso ser, nossa essência. Não foi à toa que Jesus meditou 40 dias no deserto e Buda 49 dias embaixo de uma arvore. Eu preciso de solidão e silêncio para me pertencer. E como isso acontece? É segredo.

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