segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SOBRE GOLFINHOS, SILÊNCIO E SEGREDOS

Uma semente precisa do silêncio da terra, do escuro e da solidão do escuro, escondido silencioso para crescer. Me parece que muitas coisas belas nascem do mistério, do segredo impresso na memória ancestral. Uma reportagem sobre um golfinho me chamou a atenção. O golfinho morreu vítima da avidez das pessoas por fotos, registros da vaidade instantânea. Sinto falta dos impressionistas que retratavam a natureza, sem agredi-la, dos desenhistas e navegantes com os seus diários de bordo Estamos vivendo tempos sombrios de tanta avidez, de exposição e viramos seres predatórios de nós mesmos e de tudo que a nossa cultura classifica como símbolo de superioridade. Deve ser lindo para muita gente fotografar a si mesmo junto de um golfinho. Gente tão asfixiada pelo narcisismo que ignora as necessidades desse animalzinho indefeso, até matá-lo. Imaginemos a agonia deste animal acuado, coagido, passando de mão em mão, sendo imolado vivo, para o deleite de uma multidão ávida por curtidas nas redes sociais. Fico pensando se os pais ainda fazem álbuns de família, para manter a memória da família, no futuro talvez, não teremos aquela famosa cena dos pais mostrando o álbum de família para visitantes, diante do olhar constrangido dos filhos. Eu quero meus segredos de volta, eu quero sumir sem gps e entrar numa caverna sem sinal de wifi e crescer em segredo sem ninguém ver. Pode ser que eu volte a entender quando foi que surgiu essa carência da espécie humana por atenção, aplausos, reconhecimento e admiração. Fred explica? Alguém poderia me explicar o nível de barbaridades acontecendo em nome da fama, dinheiro? Eu quero ser multidão, sentir o prazer do anonimato, ou seja, viver o presente, fruir o instante com o compromisso fiel comigo mesma,isso traz bem estar, amigos verdadeiros, menos consumismo. Sentimento de pertencimento só acontece com trabalho interior, com a experiência sensorial no corpo. A verdade que brota à partir do nosso interior, fruto da nossa respiração com a vida, do não dito, do inefável. Para isso acontecer é preciso parar, olhar para dentro, fotografar nossa alma, registrar na pele nossos instantes de intimidade com o nosso ser, nossa essência. Não foi à toa que Jesus meditou 40 dias no deserto e Buda 49 dias embaixo de uma arvore. Eu preciso de solidão e silêncio para me pertencer. E como isso acontece? É segredo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

CORPO ARQUIVO

O corpo é um arquivo, nele está impresso nossa história, memória e emoções. É a nossa casa, o espaço que quando não é ignorado, realiza grandes transformações. No iluminismo movimento intelectual do século XVIII, razão e o pensamento racionalista guiavam todos os desejos e as vontades. Os pensadores pautavam suas reflexões nas temáticas relacionadas à sociedade e ao mundo natural em que vivemos. A partir de então, começaram a pensar sobre as desigualdades sociais e a composição de elementos naturais (como a água). Sobre as formas de governo, os pensadores iluministas retomaram uma discussão dos filósofos gregos antigos, principalmente Platão e Aristóteles. Dessa maneira, para o Iluminismo, a chave para decifrar tais indagações se encontrava na capacidade racionalizante do ser humano, ou seja, no racionalismo, e não na tradição e na religião. A razão iluminista era o caminho para as pessoas vencerem suas ignorâncias e medos e construírem um mundo baseado na verdade, no progresso e na liberdade. Dessa maneira, a razão permitiria alcançar a universalidade, a individualidade e a autonomia política e comercial dentro do processo civilizatório criado pelos filósofos iluministas. Acredito que a razão sem a experiência cria o afastamento da natureza e cria a dicotomia mente e corpo e espírito. Essa fragmentação cria vazio e ausência. Existimos Buscando presença na ausência de si mesmo. Como existir se o meu pensamento a respeito de mim está separado da experiência de totalidade? Quanto mais consciente de minhas experiências mais amplio o mergulho no mistério de estar vivo. Todos os nossos gestos e ações cotidianos são inscrições gravadas no nosso corpo-museu. Cada ser humano pode e deve acessar esses arquivos e exumar suas memórias para que viver seja o espaço do aqui e agora.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

DANÇARINO-ATOR-ILUMINADO

A natureza é observada há milênios. O conceito de mímeses na Poética de Aristóteles consiste resumidamente em imitação. . A sabedoria contida na natureza pode ser integrada à investigação da natureza humana,até chegarmos a um ponto de não haver separação.Temos muitas ferramentas para se criar esta sensação e certeza de que fazemos parte do todo. Existem muitas ferramentas para encontrar esse estado de bênção, sensação de pertencimento, fundamental para sairmos do jogo do sistema.O modelo de inclusão que primeiro entramos em contato é o econômico, mas já foi comprovado que quanto mais temos, mais queremos.Acredito que muitas ações na vida são motivadas pelo desejo de pertencer, fazer parte, se sentir incluído,amado. O I ching, sabedoria milenar, foi todo construido através da observação da natureza há milênios.Fiquei maravilhada ao saber numa aula de biodança que o trovão vem da terra para despertar as sementes para a primavera, a água na sua trajetória nos leva para o abismo para depois sair para se doar, molhar a terra,prepará-la para dar fruto."Eu sou a onda, faz de mim o mar". O vento quentinho vem nos descongelar, abrir nosso espírito,levar nossa rigidez, trazer leveza, para seguir na vida como um sopro, como num átmo, um suspiro.O fogo nos convida a ter aderência, paixão,ação,chama para abrir o peito, Florescer o que tem no nosso coração. Buda encontrou sua iluminação sentado embaixo de uma árvore, Isaac Newtom,estava na fazenda da mãe, quando observou uma maçã caindo de uma árvore, esse fenômeno corriqueiro o fez pensar que havia uma força puxando a fruta para a terra,e esta mesma força poderia estar puxando a lua impedindo-a de de escapar da sua órbita, espaço à fora, a força da gravidade. Natureza também tem ciclos, é impermanência. Nós temos a capacidade de refletir sobre a natureza, estudá-la, defendê-la, porque não dançá-la? Percebo que podemos desbravar aspectos da nossa identidade entrando em contato com a nossa natureza selvagem, permitindo olhar para si mesmo, dançar o ar, terra, fogo, água, criar uma coreografia através da observação de uma árvore,fazer uma dança para o sol, dança da semente, ou dançar com os índios a dança da chuva, ou dancar a reverência aos elementos da natureza, ensinamentos contidos na mãe África e várias culturas do mundo.O ser humano é divino e não tem fronteiras.Ser orgânico, encontrar o seu passo, seu rítmo, sua gestualidade contida,sua dança pessoal,na identidade e diversidade.

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...