quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SOU SELVAGEM

O local da minha identidade é exterior a mim? Penso nesta questão que me acompanha durante toda a minha vida.Minha identidade me pertence? Ou é fruto de pensamentos plantados? Carrego o legado de algum antepassado? Estou sendo influenciada por alguma entidade, ou enlouquecendo mais um pouquinho, fui abduzida por algum ser do espaço? Delírios à parte, sou minha matéria prima de observação na vida e na arte. Não subo nunca mesmo num palco, mesmo correndo o risco de ser vaiada, execrada se a minha mensagem não brotar das minhas inquietações e epifanias.Estou agora com o meu paradoxo que sou eu em plena briga. Meu lado encantador muito bem explorado em cena, estava anulando minha natureza selvagem. Fui em busca do meu grito ancestral novamente e Comecei a representar personagens fortes e até cruéis. No fim do ano passado, representei uma banhista que quase morre afogada, e num momento de lucidez, começa a falar um poema do walt witmam sobre os momentos de ansiedade e angústia e como esses sentimentos são amenizados quando imaginamos que em todas as partes do mundo, pessoas sentem a mesma coisa. Percebi que isso também é identidade, não pautada por fora, como uma curtida de Facebook pode ser.Uma identificação que é fruto de uma investigação profunda de si mesmo, aí a arte pode ser um colo, o mundo passa a ser a confirmação do que já somos. Não esqueço a cara da platéia, todos os olhares atônitos, foi tão surpreendente, que eu até pensei que não tinham gostado.Eu ali despida de mim mesma diante daquela audiência embasbacada com minha cena. Brotaram elogios sinceros, reflexões fantásticas. Me senti aliviada por ter avançado mais um passo em direção à mim mesma, começando a acolher minha sombra e me aceitar como sou. E percebi que minha arte está em processo de mutação, minha investigação sobre a cultura oriental está fechando um ciclo e me sinto mais livre, para ser selvagem, incorrigível. Não nasci para ser moldada, catalogada. A vida é impermanência e resgate constante de partes adormecidas em nós. Eu realmente quero passar pelo mesmo rio, sabendo que não sou a mesma, permanecendo fiel à minha identidade. Pode ser paradoxal, mas nascemos para a descoberta, para criar junto com os deuses o milagre da vida. Eu fiz um curso recentemente e fiz uma descoberta fantástica sobre a origem da palavra pecado: quando os peregrinos iam para Meca, muitos não conseguiam cumprir com a sua missão e não chegar ao seu destino era um infortúnio, portanto pecado é você não encontrar o seu caminho, não buscar saber quem é você.

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