quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A DANÇA DA SUPERAÇÃO

Minha avó era muito vaidosa. Não permitia que nenhum membro da família comprasse suas roupas. Até na reta final da sua vida, só aceitava ir para o hospital produzida. Ela dizia que detestava camisola de bolinha. Cresci vendo minha avó pentear seus longos cabelos e fumar o seu cachimbo, cresci vendo beleza na velhice, meu avô também era muito vaidoso, e minha mãe também. Atualmente, produzo um festival de dança que visa promover a inclusão da dança na vida das pessoas, até aí pensava que era a dança, depois percebi que o processo de descoberta adquirido através da Dança são muitos. Principalmente o direito à beleza depois dos 50 anos, ou quando a dança vem acompanhada da superação, no nosso caso quem tem alguma"deficiência", também é bem vindo. Ao término da realização do festival ano passado, ouvi pessoas criticando e querendo ver no palco a tão falada beleza padrão. Por mais que eu diga, que precisamos ver beleza na superação, no passado, nas memórias, nas rugas colorindo a ação do tempo, na verdade dos passos que são verdadeiras declarações de amor à vida, nossos padrões ainda são rígidos e preconceituosos. Não precisamos de beleza traducional, a mídia já nos serve esse prato todo dia. Vejo a trajetória de cada pessoa que subiu naquele palco, e os caminhos de luta e sofrimento para voltar a sorrir, superar as perdas, doenças e seguir em frente. O festival também inclui portadores de necessidades especiais e companhias de dança profissionais. Eu vi nesse festival pessoas agradecidas por poder mostrar sua beleza, seu movimento de doação, seu resgate do feminino e do direito a se sentir, bela, sensual, pertencendo. Esta é a verdadeira beleza.Fico pensando se não está na hora da platéia,(não falo de todos, eu vi muita gente encantanda com o espetáculo e recebi muitas felicitações e olhares agradecidos e até promessas de " ano que vem vou dançar". Fundamental é aprender com o exemplo dessas mulheres e homens, e tirar a sua alma para dançar. Ver a beleza e a potência de viver, que podemos nos proporcionar, quando saímos do papel de vítimas do tempo e começamos a enxergar beleza na reinvenção do humano. No final do espetáculo platéia e público, se encontram no palco para dançar" ô abre alas" da Chiquinha Gonzaga. É a consagração da beleza do encontro das presenças, sem julgamento, a arte como instrumento de transformação de modelos e paradigmas ultrapassados.

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