quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A DANÇA DO LIRISMO

Histórias para acalentar a alma. Sonhei que estava terminando uma apresentação e convido o público para subir ao palco para comer doces. Convidei a criança de cada um para se deixar envolver pela magia da presença. Os espaços para o lirismo, precisam ser preservados. A sombra gigante que estamos envolvidos necessita de sonhos e de muita luz. Estamos construindo cercas, muros, repressão, retrocesso. Vivemos tempos frenéticos.O que me assusta não é o frenesi e sim o excesso de informações negativas da indústria do medo, em detrimento da difusão de projetos ou novas idéias.O mundo está cheio de possibilidades, só é necessário difundir. Eu tenho a alma vinculada aos anos 60, período da potência das idéias e da utopia de mudar o mundo. Não consigo conceber a vida sem sonho,criação, poesia e liberdade. Atualmente falamos mais de pessoas e fatos do que de ideias. E reflexão sobre como melhorar o mundo é fundamental. /a> Adoro ter projetos.Eu preciso da síndrome do papel branco, para expressar minhas idéias e materializar meu universo, criar novos mundos.Lançar minha garrafa ao mar. Vou me costurando através de vários caminhos, e muitas vezes, com antagonismo da ideia inicial.construindo parcerias,trocas, e grandes intercâmbios e encontros. A literatura, a pesquisa para dissecar minha técnica, a natureza como minha aliada, para serem transformadas em gestos, movimentos. Necessito do cinema e não é qualquer filme, psicologia, investigo meus sonhos e anoto. A arquitetura tem papel fundamental na criação coreográfica, a geometria sagrada e a relação do espaço com o corpo e o tempo. A fotografia é muito importante na construção da minha gestualidade, o silêncio, a pausa, o autoconhecimento, o diálogo que vou criando dentro de mim diante do mundo. Todos os atalhos para me perder no caminho, virar de cabeça pra baixo e me distanciar do óbvio, do caminho fácil, da minha sombra, a minha essência, que é minha matéria de alquimia transformada em cena. Encontrar uma linguagem lírica, permanecer no mistério, não significa alienação, significa expressar a poética do meu ser e transformá-la em sentido para a alma de alguém, posso falar da morte, do terror, de perdas, de encontros e desencontros com o público, declarar meu amor à humanidade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

SOU AMIGA DAS ÁRVORES

Dançar a natureza surgiu em 2008, através da minha experiência com uma árvore que ficava em frente à minha casa. Um dia aconteceu uma tempestade durante a noite e de manhã quando abri as janelas, vi a imagem surpreendente de uma árvore, metade em pé, metade no chão, um raio a cortou ao meio! Era a única árvore da paisagem,trava-se de uma árvore que reinava soberana, enorme e frondosa.Eu sempre a cumprimentava ao acordar. Incrível foi a maneira digna, como suportou aquele golpe, sua postura de rainha, altiva e digna expondo a sua divisão. Na época pensei em aprender com ela a me manter de pé, íntegra apesar de estar cortada ao meio. O fato é como tirar forças para sair inteira das situações difíceis, depois de ser cortada ao meio por um raio. Acompanhei o seu processo de recuperação e nossa relação foi aprofundando. Até que um dia virou uma dança. Me mudei para outro lugar, e nunca a esqueci. Depois dancei os quatro elementos, fiz coreografias baseadas nos movimentos das árvores, virei muita coisa. O inefável , a chuva, uma árvore,uma escada,um mistério,uma sombra, um jardim, o torto, o erro, o acerto, uma flecha, o contínuo,a que flutua, um barco, a selvagem, uma brisa, o limite, a falta de limite, o caos, eu. É claro que a vida me ensinou a perder um pouco da malícia.Eu acho que encarnei. Sobrevivi a algumas perversidades. Mas isso me deu um grande poder sobre o que estou fazendo agora e consciência da profundidade da minha dança e o que ela provoca, o efeito do meu estado em cena. E assim vou afinando a minha percepção do mundo, ás vezes o som é dissonante. Importante é deixar o caminho aberto, caminhar no vazio, esvaziar, olhar para mim mesma com profundidade e me reencontrar, descansar em mim. Esse processo contínuo de olhar a minha essência e dançá-la, me permitiu encontrar uma relação com a natureza e virar dança.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

LIÇÕES DA DANÇA

Tenho uma aluna que se chama Sandra Regina. Olhos vivos e o coração cheio de vontade. Segundo a filosofia, uma atitude filosófica é encontrar o deslumbramento em tudo.É perceber o milagre da existência.Esta minha aluna consegue apesar de tudo, se encantar com cada gesto,cada movimento novo aprendido nas aulas.Um dia, no meio da aula, ela sentiu uma emoção profunda consigo mesma que transbordou num choro feliz. Um choro de contentamento por sua presença, por estarmos ali naquela sala, sendo nós mesmas, nossa essência sedenta por poesia. Se dançar é um exercício de superação esta minha aluna é um exemplo vivo. Eu vejo o seu desejo, a sua vontade. Nesses momentos eu agradeço pelo dom de dançar, de ter abraçado o caráter não heroico da dança,por saber que não precisamos dar infinitas piruetas e qualquer movimento complexo para dançar.A técnica pode ser um veículo para vivenciar a dança dentro de si. Aprender e ensinar fazem parte do processo."Quando o discípulo está pronto o mestre aparece"

domingo, 18 de outubro de 2015

SOMBRAS

Participei este fim de semana de uma oficina de teatro de sombra,com a Companhia de teatro Lumbra/ clube da sombra(RS), ocupação Funarte-Brasília. Primeiro o contato com o escuro, a sombra se esgueirando e chegando sorrateiramente.Eu entrei na caverna, fui fundo e caminhei na escuridão, até receber o convite de fazer amizade com ela: a sombra. O sombrista (é assim que se chama o profissional que atua com esta linguagem) foi muito pragmático, para a oficina não se enveredar na terapia, ou na filosofia, que o tema suscita. Na medida que o trabalho avançava, eu entrava em contato com o meu abismo até me perder completamente. O fato é que mesmo se tratando de uma oficina com fins práticos, para trabalhar com a sombra dentro do contexto da arte, além do contato com as etapas de produção desta arte extremamente complexa, eu entrei em contato comigo e vou levar para a minha técnica pessoal esse aprendizado. Por uma arte que se recusa a se engessar.Com vida e compromisso com a verdade. Percebi que com a sombra não se brinca, até você seguir e aprender os protocolos. Não é fácil olhar para a sombra, e uma regra do jogo é não perdê-la de vista.A complexidade reside na percepção da superação do ego,nossas técnicas e presunções não se encaixam no desejo da sombra.Para permitir que o seu tempo seja revelado é necessário caminhar na verdade e na essência de cada um, no estudo e na pesquisa. No universo da sombra existem muitas camadas para serem desveladas.O ritmo é outro,o tempo acontece no mergulho na atemporalidade. E quando aparece a luz diante da tela branca, aí sim vem o abismo. Fiquei amiga da sombra, mas quando me encantei por ela fiquei deslumbrada, caí em outro ponto cego.É preciso ser exata, precisa nas idéias, consciente da luz,e de tudo o que envolve ter algo a dizer, construir uma narrativa com início, meio e fim. O tempo é senhor de tudo, e o nosso tempo de aprendizado era muito curto, para compreender um universo tão grande, mas foi suficiente para perceber a beleza do inusitado, do improvável, do inexpugnável.A nossa sombra, que negamos, é justamente o que nos define como seres humanos.Nós somos feitos de luz e sombra. "A sombra está em oposição à luz, representando tudo que seja irreal, fugidio e sujeito à mudanças. Para muitos povos da África está associada à morte ou ao reino dos mortos e é considerada uma segunda natureza do ser. Entre vários povos indígenas da América do Sul, uma mesma palavra significa sombra, alma, imagem. No Islã, toda manifestação da realidade é considerada como a sombra de Deus. Na psicanálise, sombra representaria: as tendências incompatíveis ou traços inferiores do caráter, tudo aquilo que a pessoa recusa admitir ou reconhecer, porém sempre se impõe a ela"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

DANÇA E PERCEPÇÃO

Dançar é um exercício de superação. Vivemos uma crise de percepção. Temos cinco sentidos, que estão abafados,discurso do olhar, cotidiano focado em imagens. Olhar sem ver, sem tempo para aprofundar as nuances. A presença é construída através da presentificação do sutil.Quando a percepção está refinada estamos presentes e atentos aos detalhes, " Tudo que é sólido se desmancha no ar" Na dança posso viver os estados da matéria, posso ser sólida, líquida e gasosa, desafiar a gravidade,criar uma sonoridade encantatória, pulsar o belo.Ser eu mesma é o meu processo de cura. Afirmo a minha identidade na vida e me alimento do aprendizado, que a experiência de viver me oferece. Para desta forma me desconstruir em cena e morrer, para ser absolutamente meu ser inteiro. Dançar é exumar memórias, trazer os ancestrais, viver a atemporalidade, traçar sentido por linhas imaginárias.

domingo, 4 de outubro de 2015

A ARTE DA PRESENÇA

Os problemas nos constroem. Acredito na possibilidade de errar novos erros. Clarice Lispector(1920-1977) dizia que, precisamos ter consciência do defeito que queremos cortar, por que pode ser esse defeito que sustente a nossa estrutura. O medo de sair do comum mora aí, na falta de permissão para errar, perder o rumo, encontrar o caos.E é justamente na incerteza, no abismo, no encontro com a nossa sombra que o amor por nós emerge. Experimentei muitos processos na minha vida e na arte. Na arte como na vida, percebo que estou em constante processo de pesquisa e reelaboração das formas de construir o diálogo comigo. Hoje minha arte e minha vida estão cruzados. Não vejo separação entre arte e vida.Dançar é o meu alimento cotidiano. Voltei a dar aulas de dança, desta vez, utilizando uma metodologia criada por mim.Assumo este novo projeto com o foco na experiência, no treinamento corporal Meu processo de pesquisa, proponho para quem quiser mergulhar num universo novo, a oportunidade de traçar novas formas de criar com o corpo, buscar o inusitado, abrir novas janelas. Meu foco reside também na aventura de deixar o corpo ser o centro do processo. Voltar a ter experiências no corpo. . Abrir espaços para a meditação,o multisensorialismo,dançar mantras, encontrar uma gestualidade nova, um corpo não linear,tridimensional.Outro aspecto de meu método é a criação do corpo que constrói presença, um corpo vivo e numinoso.Quem sabe um corpo livre para dançar sua gestualidade própria? Um corpo pronto para se dançar no espaço sem medo? Li uma vez em algum lugar, que quando encontramos a resposta,a vida muda todas as perguntas. O movimento é de deixar o corpo falar, ouvir suas lições e ser um ser humano mais integrado,existem muitos caminhos, eu encontrei a dança.

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...