quinta-feira, 17 de setembro de 2015

REFUGIADOS OU A ARTE DE ABOLIR FRONTEIRAS

A Globalização dirimiu as fronteiras do dinheiro, mas aprofundou a distância entre ricos e pobres. Na contemporaneidade é impossível pensar o mundo sem olhar a diversidade e identidade. No século XVI os barcos e as grandes navegações carregavam o preço do desconhecido, novas terras para serem desbravadas, e enfim exploradas saqueadas.Havia a escravidão, a exploração. Atualmente com toda a tecnologia existente, as embarcações hoje estão carregadas de gente, imigrantes fugindo da guerra, de governos insanos e economias devastadas. O fato é que estamos no mesmo barco. A Europa nunca vai dormir tranquila, o preço da indiferença já está sendo cobrado.Um mundo sem fronteiras deveria ser uma realidade. Enquanto a Hungria cria cercas e criminaliza a imigração, a Finlândia pensa em aumentar os impostos dos ricos para acolher refugiados. A primeira vez que entrei em contato com essa realidade foi através da exposição Êxodos do fotógrafo Sebastião Salgado, vi muito sofrimento e olhares perdidos. Recentemente, fiquei chocada, com a foto de uma criança Síria, morta na praia, com a polícia maltratando os refugiados, crianças, inocentes, velhos, famílias que só pedem para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. lembro também daquela menina refugiada do Afeganistão, de olhar fulminante, verdes, foto célebre do fotógrafo Steve Mccurri, que precisou costurar os rolos na sua roupa disfarçado de habitante local. Trinta anos depois ele a fotografou novamente, mesmo com o impacto da fotografia, ela continuou anônima. Eu poderia citar inúmeros artistas de diferentes épocas, para ilustrar o quanto a arte tem esse papel de refletir o que de belo e perverso há no ser humano. Acredito que a arte se reinventou bastante quando rompeu fronteiras e estabeleceu o diálogo da tradição com a inovação. As vanguardas do inicio do século XIX, Por exemplo, Antonin Artaud( 1848-1948 diretor, dramaturgo, ator Frânces que ao entrar em contato com a dança Balinesa, inovou no teatro,Gerzy Grotowiski( 1933-1999) e o teatro pobre, incorporando mantras e o conceito do ator santo, influência do teatro oriental, a coreógrafa e dançarina Pina Bausch ( 1940- 2009) criadora da "dança-teatro contemporânea, propondo a integração destas linguagens, o termo já era usado em 1910, por membros da dança expressionista distanciando a linguagem do balé Clássico,ela herdou influências de Rudolf Van Laban ( 1879-1958), que fez pesquisas quando viajou para a ásia,posterior a ele estão Mary Wigmam( 1886-1973) e Kurt Jooss(1901-1979), em essência é buscar o elemento humano,uma arte que aprofunde a relação com o público, se somos todos " analfabetos emocionais", cruzar fronteiras e importar símbolos, signos e técnicas de uma cultura estranha à nossa, pode ser o caminho trilhado pela arte para romper as fronteiras que nos afastam. A arte pode integrar e reinventar o humano.Quem sabe a economia mundial, um dia, não vai olhar o ser humano em sua grandiosidade em detrimento dos lucros? Foto -Steve Mccurri A seguir um texto sobre A MESA VERDE do coreografo Kurt Jooss, que até hoje é muito atual, uma metáfora da hipocrisia das conferências de paz e dos horrores da guerra. o texto abaixo foi escrito por Vasco Tomás - do blog- Verbiário Volátil A dança como denúncia da inoperância política: o exemplo de A Mesa verde de Kurt Jooss "O coreógrafo alemão Kurt Jooss ( 1901-) impôs na cena internacional a dança livre de tendência expressionista, produzindo várias versões dos Ballets Russos. A sua obra prima continua a ser, ainda hoje, o espetáculo de dança A Mesa Verde, apresentada em Paris em 1932, o qual é uma parábola de denúncia da hipocrisia das conferências de paz e dos horrores da guerra. No início do bailado, em volta de uma mesa verde, senhores ajaezados de modo grotesco (com perucas na cabeça e com fatos de cerimónia) discutem o destino da humanidade. Não havendo acordo, puxam das pistolas e recomeça a guerra. Numa sequência de quadros em que os horrores da guerra se fazem sentir sobre os soldados e as populações, uma figura gigantesca, com o esqueleto desenhado nas suas vestes, executa a dança da Morte. Após o que, mais uma vez, se retomavam as negociações de paz, nos mesmos moldes e com o mesmo desfecho. Nova tragédia estava à vista. O bailado de Jooss assume, para nós hoje, um significado particular que interessa meditar. Ele foi premonitório, no momento em que surgiu (1932), do desastre que estava em marcha: o nazismo estava em ascensão galopante, que o levaria ao poder no ano seguinte, e a Alemanha estava assolada por uma crise econômica e social crescente, na sequência da crise financeira de 1929-32. A guerra era uma possibilidade que se tornou uma realidade irreparável. Continua a lembrar-nos de que as soluções políticas, só por si, não imunizam contra as guerras. Temos que buscar os meios - e têmo-los - que previnam esse mal maior, sempre à espreita".

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