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quarta-feira, 6 de maio de 2015

TREINAMENTO: UMA CAMINHADA PARA A CONSTRUÇÃO DO ESPETÁCULO TEATRAL

Por VALÉRIA MARIA DE OLIVEIRA Atriz e Mestranda em Teatro pela Universidade Estadual de Santa Catarina UDESC e Professora da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI Treinamento: uma caminhada à construção do espetáculo teatral Ao longo da história do teatro, especificamente entre os séculos XIX e XX, a idéia de treinamento foi incorporada a grupos de teatro, como uma possibilidade de formação do ator. O treinamento passou então a ser visto como um instrumento para que os atores pudessem pôr à prova as dúvidas sobre o seu trabalho e o acontecimento teatral em si. Questões estas que estão sempre intimamente ligadas às condições artísticas, sociais, culturais, políticas, de sua época. Então, as noções de treinamentos e suas práticas, assim como a criação e realização dos espetáculos teatrais, sofrem modificações a partir de relações estreitas com os fenômenos sócios-culturais. Desde Stanislavski, que registrou um método de trabalho do ator a partir de suas próprias experiências como diretor e ator, passando por Grotowski, que definiu seu trabalho pela cultura de grupo, até Eugenio Barba e seu "teatro antropológico", além de muitos outros importantes homens de teatro, se investiga variadas abordagens de treinamento teatral. Estes diretores, prestaram assim, uma grande contribuição à tradição teatral. Bem como, possibilitaram o surgimento de dúvidas, que são quase sempre, o questionamento das regras naturais criadas por cada processo. Assim, é permitido que as novas gerações de atores façam uso do constante refletir e elaborar de novas investigações nesta área, na tentativa de compreender seu processo próprio, o meio em que está inserido e sua síntese no fazer teatral. O surgimento de questionamentos em relação aos procedimentos de treinamento e criação de espetáculos, que podem ir desde a escolha de exercícios, a perguntas como: por que? Pra que? Ou ainda, a tentativa de compreender a relação entre o ocidente e o oriente, enfim qualquer dúvida, não são situações inéditas.Muitos atores depararam-se, e deparam-se ao longo de suas histórias, com dificuldades de aliar o estado físico ao desenvolvimento do processo de criatividade (pois o próprio treinamento às vezes é tomado como algo sisudo e sério por demais, afastando o ator do aspecto lúdico), que culminará na personagem do espetáculo, fazendo-a presente tanto fisicamente quanto nos aspectos mais íntimos que esta personagem oferece. Assim sendo, torna-se necessário um olhar outro sobre o aspecto do treinamento do ator. É importante que se vislumbre um trabalho onde se possa integrar processos de treino, de produção de material criativo e de aparatos técnicos para o espetáculo teatral.De maneira tal, que a ausência de qualquer um desses aspectos possa ser considerada uma lacuna, uma inquietação, e não um caminho para estabelecer-se em zona de conforto, onde se demanda um esforço para se criar uma teoria “às vezes” absurda para dar conta de sustentar uma lacuna que merece estudo e investigação. Neste marco não seria possível escutar afirmações tais como: "posso deixar de fazer teatro, mas não posso deixar de treinar". O estudo deste contexto parece revelar a existência de uma tendência de procedimentos de formação de atores submetidos a um processo que reproduz modelos hegemônicos sem muita reflexão. Desta forma se estaria criando uma mentalidade que se acomoda com facilidades a modelos que merecem uma maior experimentação e questionamento. Ainda observo que o treinamento para o ator precisa estar além dos limites do trabalho fechado de sala. Há a necessidade de fazer espetáculos e toma-los como parte do exercício do ator assim como uma série de outras questões, (como por exemplo ler dramaturgia, estudar sociologia, filosofia ...), que podem ser inseridas na totalidade da formação do ator. Treinamento e espetáculos são duas práticas de natureza diferente porém devem caminhar juntas para que o treinamento se constitua em um elemento que colabore com o material espetacular, de tal forma que este possa vir a ser a síntese de todo o processo. É preciso manter o foco do fazer teatral para que a idéia e o plano de fazer teatro não se desloque para outro campo, esse foco pode evitar qualquer mescla com conceito de“seita”e torna possível definir um conceito teatral. O aceitar as diferenças, assim como novas formas e questionamentos de trabalho –como o treinamento associado à prática espetacular – denotam uma possibilidade de um crescimento para atores, grupos de teatro, investigadores teatrais e para o fazer teatral em si. Através de um processo construtivo, partindo da prática pessoal como defendia Grotowski e da união de treinamento, material espetacular e outros materiais criativos como defende a realidade teatral de Stanislavski, proporcionando um resultado em que não só o ator saia ganhando, mas principalmente o público. Se faz necessário então, uma tentativa de delimitar um conceito de treinamento do ator que propicie uma articulação voltada à formação integral e dinâmica do ator.Estruturar o treinamento a partir da premissa de que este não se restringe ao trabalho físico desenvolvido em sala.Compreender o exercício de se fazer espetáculos como parte do treinamento do ator.Verificar “in loco” a existência de treinamento e material criativo como dois pólos que se unem para dar vida e estrutura ao material espetacular, percebendo a importância de tornar a técnica invisível perante os olhos do público. Para se fazer concretizar essa tentativa a pergunta chave que se faz é: Como viabilizar o treinamento de forma que ator possa através deste apropriar-se do seu ato criativo? Em suma é necessário discutir como fazer do treinamento um espaço que se abre para dinamizar o trabalho do ator sobre si mesmo e não para fechar-se sobre si mesmo.Refletindo sobre o espaço de formação dos atores numa perspectiva grupal, tentando compreender qual conceito instalado sobre treinamento que pontos de discussão podem ser levantados para dinamização e transformação deste. Referências bibliográficas BARBA, E. A canoa de papel: tratado de antropologia teatral. São Paulo: Hucitec, 1994. _____. Além das ilhas flutuantes. São Paulo: Hucitec, 1991. CARLSON, M. Teorias do teatro: estudo histórico-crítico, dos gregos à atualidade. São Paulo: UNESP, 1997. GROTOWSKI, J. Em busca de um teatro pobre. 4.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. ROUBINE, J. A linguagem da encenação teatral. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. STANISLAVSKI, C. A preparação do ator. 14.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados

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