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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A MEMÓRIA DO CORPO

"Nós vos pedimos com insistência:Nunca digam - Isso é natural -diante dos acontecimentos de cada dia.Numa época em que reina a confusão,em que escorre o sangue,em que se ordena a desordem,em que o arbítrio tem força de lei,em que a humanidade se desumaniza....Não digam nunca - Isso é natural! -Para que nada passe a ser imutável. Eu peço com insistência Não diga nunca - Isso é natural -Sob o familiar,Descubra o insólito,Sob o cotidiano, desvele o inexplicável. Que tudo o que é considerado habitual Provoque inquietação, Na regra, descubra o abuso, E sempre que o abuso for encontrado, Encontre o remédio". Bertold Brecht Observando nuvens, mergulhei no mistério da imensidão da perplexidade diante do comum. Perceber a grandeza de observar a beleza contida no cotidiano e torná-lo sublime. Na dança busco uma energia extracotidiana. A coragem de reinventar o movimento comum e o resgate de uma gestualidade que era comum, mas que se reinventa.Resgatar o gesto é a supremacia sobre o banal. A civilização super valorizou o pensamento em detrimento do corpo. Reservamos para o carnaval e festas isoladas o prazer de soltar o movimento e dançar livremente. Não dançamos nas praças, nas ruas. Foram criadas muitas tecnicas para acessar a dança. E temos o rigor,onde se impõe muita disciplina e pouco prazer. Tudo o que sei da dança, foi conquistado com disciplina e muita dor, para caber na forma. Com o tempo, joguei a tecnica para o espaço. A técnica é um veículo e não o fim. Integrar técnica e alma, seria o ideal. A questão é quando você não se enquadra em rótulo nenhum, quando o que você dança não tem nome. No momento, danço a mim mesma. O nome de minha dança é Maria, meu estilo é resultado da estória do meu corpo. O corpo tem memória e o mapa geográfico, presente em cada movimento, expressado por meio de treinamentos que colaram no meu corpo e no meu ser. Não faço pirotecnia em cena, não levanto a perna, dando cinco piruetas, fazendo um mortal e caindo num cambré. Busco a dimensão " não heróica da dança. A vivência que me proporciona, a organicidade,e o movimento que brota da minha busca espiritual e autoconhecimento. Os efeitos da respiração, energia, sinergia, meditação, o treinamento em cada parte do corpo. Aprendi a relação das emoções com corpo e a doença. Se bato os pés posso ficar menos dispersa, e criar raízes. Se prestar atenção ao respirar, jogando pernas e braços para baixo, posso criar raízes, criar foco, ou apenas ficar calma, diante de situações difícies. Posso jogar os braços para cima e para baixo pulando gritando, isso libera a raiva. Posso sentar em silêncio, colocar uma música suave e prestar atenção no meu mundo interno, esta pequena ação, eleva e fico em paz. E se pensar numa cor, mudo a minha frequência. Existe também o simbolismo do corpo e inúmeras possibilidades de construir sentido na vida. A dança que estou construindo é um convite para a liberdade.

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