quarta-feira, 22 de outubro de 2014

" O CORPO COMO VEÍCULO DE LINGUAGEM"

A pesquisa realizada por mim para o *Espetáculo de Dança Baraka* é a desmonstração de uma técnica baseada em elementos da dança clássica indiana e continua causando forte impacto no público que tem me prestigiado desde a estréia, em setembro/2011. A força das imagens reveladas pelo meu corpo em cena e a plasticidade dos movimentos promovem diálogo profundo com os expectadores, derrubando as fronteiras entre palco e platéia, relações de consumo e entretenimento. É arte que resgata a força do ser humano. Não há em cena nenhum artefato ou elemento da linguagem visual – como cenografia, iluminação ou efeitos especiais, no caso, desnecessários. Há apenas a dançarina e a dança. Na minha opinião, uma apresentação perfeita acontece quando a dança se sobrepõe à dançarina. Gostaria de revelar um aspecto da minha pesquisa muito comentada por mim e pouco compreendida. Durante algum tempo escrevi textos sobre meus estudos sobre dança clássica indiana. Mas, quantas pessoas conhecem a dança clássica indiana? Pequena minoria. E a criação de uma linguagem própria? E, a que “linguagem própria” me refiro? O corpo continua sendo um ilustre desconhecido para as pessoas e, a dança, com o tempo, foi passando por um processo de “elitização” e difusão de técnicas que só aumentam o seu hermetismo. O resultado é a perda e do público não “iniciado”. Pensei em criar um método para ensinar dança, onde a técnica e a vivência da dança, com prazer e organicidade, fossem o veículo para sua compreensão e sentido. Na tarefa de construir sentido nessa linguagem, comecei a pautar as aulas. Sobre a minha experiência como professora de dança e teatro, uma das minhas fontes de pesquisa é o efeito da dança na vida das pessoas. Dou aulas para alunos da rede pública de Brasília, atuo como coreógrafa e preparadora corporal de pessoas de várias faixas etárias, pertencentes a todas as classes sociais. Com o tempo percebi nos alunos a carência do contato com o próprio corpo. Na avidez por ter acesso a esse conhecimento e o encantamento pela vida que as minhas aulas estimulam, percebo que muitos alunos(as) reencontram o riso e o prazer. Infelizmente, a escola proporciona pouca vivência com o corpo. Temos a educação fisica, que nem sempre cria espaço para a expressão poética do ser. A escola formal que existe hoje praticamente suprimiu o ensino da dança como linguagem. São raras as iniciativas e, quando existem são isoladas. Recentemente o governo aprovou uma Lei que regulamenta o ensino da música nas escolas públicas em Brasília. Mas, eu continuo perguntando: quando é que o corpo terá o * status* de matéria curricular? Não me refiro ao estudo do corpo como objeto de estudo em várias disciplinas. Falo da experiência do “contato real” do indivíduo com seu próprio o corpo, suas emoções, prazer e a vivência que constrói o conhecimento holístico. Uma possibilidade de retomar a razão e a emoção. O estudo do “todo”, já que “tudo” começa com o corpo. Historiadores, antropólogos e profissionais de outras áreas do conhecimento já ensinaram que “o gesto antecede a fala”, que “o corpo fala” e que 70% da nossa linguagem ou comunicação começam com a nossa linguagem corporal. No cérebro humano, os hemisférios esquerdo e direito, são os responsáveis e nos conduzem ao entendimento e percepção do mundo. Temos de estimular os dois hemisférios constantemente, sempre. O ocidente negou o corpo e até o considerou perigoso. Por isso, o momento é de devolver a capacidade de integrar *Corpo, Mente & Alma*. Pensar e agir no mundo com emoção. Precisamos – é necessário – retomar um modelo de alfabetização e ensino que entenda, priorize e contemple o corpo como veículo de linguagem.

Dançar

Estudo atualmente as possibilidades do corpo para criar uma dança sutil para todos, independente da idade, classe social e nível de escolaridade. Dança iniciática, cujo objetivo principal é sentir "verdadeiramente" o corpo vivo e o coração pulsar. Apenas o movimento natural da vida. Muitas pesquisas foram realizadas sobre os efeitos da dança e dos movimentos livres. O paradoxo é que sabemos que faz bem, no entanto, poucos querem sair da "zona de conforto". A Idade Média já passou e ainda precisamos comprovar a importância do profundo contato interior. A todo instante, seja através de um gesto sincero, ouvindo uma música ou percebendo integralmente nossa própria presença. Dançar é para todos, não para uma minoria de privilegiados. Precisamos sentir nossos pés se deslocando para encontrar o nosso chão, nossa terra, o território do coração. Precisamos tocar outras mãos, perceber nosso corpo girando e cortando o espaço, girando sem parar até perdermos a noção do tempo. É muito simples, até necessário vez ou outra parar de racionalizar tudo. Sair do "controle" – do "comando" – para então ouvir o ritmo da vida nos levando para espaços desconhecidos e novos. É urgente sentir emoção, chorar, sorrir, rir e gargalhar quando o prazer nos deixar extasiados de amor e vontade de gritar. É fácil: é simplesmente "Ser". Sentir a própria energia. Conectar com o mais íntimo da alma. Olhar nosso próprio labirinto para iluminar nossa caminhada. Quando danço me sinto assim, integrada ao "todo". Percebo que sou um "Ser" simples, integral, que faz parte da "multidão". Minha impressão é que, atualmente, esse culto exagerado à "celebridade" e a necessidade exagerada de tornar pública a intimidade para o mundo através de redes sociais, é o vazio provocado pela ausência de si mesmo. O indivíduo que está integrado "aparece" naturalmente, porque age no mundo e é protagonista de sua própria vida. Escrevo no meu blog sobre minha relação com a dança e como ela pode melhorar a vida de qualquer pessoa, inclusive daqueles (daquelas) que também são dançarinos/dançarinas profissionais. Fazemos parte de uma teia – e assim vamos tecendo nossas vidas e sonhos. Poesia deveria compor o cardápio da mesa ao amanhecer. Todos os dias.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

MARIA

pesquisa de linguagem corporal e técnica para a criação de uma metodologia de trabalho ; visa a simbiose entre história , dança e arquitetura. A história como elemento narrativo da dança. O corpo é um texto e tem memória. Para criar possibilidades, matrizes para a realização de montagem de espetáculo ou performance. Eu acredito que vou ter que interromper minha prática e pesquisa pessoal e agregá-la a um mestrado. Só assim, vou ter condições "dignas" para pesquisar, para cuidar do meu processo de criação. Patrocínio é muito complicado e exige resultados rápidos., apesar de não desistir nunca de tentar.Aqui em Brasília o principal órgão que patrocina os artistas, geralmente no edital dá o prazo de um ano para a execução de um projeto. precisamos de um edital que contemple a pesquisa, demonstração de trabalho, publicações e multiplicação dos métodos reelaborados. O Fomento à intercâmbios de técnicas, ampliar as fronteiras. . Em meu processo pessoal de pesquisa estudei a cultura Indiana e através do estudo da dança clássica Indiana desenvolvi uma metodologia baseada no universo simbólico dessa cultura. Realizei estudos , publico textos em revistas e nesse blog , além de contribuir para a pesquisa em dança em Brasília, através da demonstração do meu processo de montagem e espetáculos . Pensar o movimento e fazer com que ele seja presente e verdadeiro, essa é a principal característica da dança de Maria, é a investigação que consiste na resolução da equação pensamento, ação e espírito, como podem ser expressados em uma única manifestação.Portanto, um caminho é expor a transparência da busca através do Registro do movimento , de vídeo, fotografia e catálogos expondo todo o processo percorrido, intercâmbio de técnicas com outros bailarinos e outras culturas .Nesse novo projeto o ponto de partida é o particular para o universal, dançar a relação com a cidade , além da história da cidade, um convite à memória . A proposta também de um projeto sólido de pesquisa em dança, que seja uma politica de difusão e compartilhamento do processo de criação, contribuir na formação de plateia e no diálogo com as tendências da dança contemporânea, que muitas vezes é considerada hermética. O acesso a linguagem da dança, de maneira acessível para todos os públicos,para que que o dançarino ou ator iniciante tenha acesso ao que já foi feito e pensado,um arquivo público,a doação do resultado em escolas e a realização do espetáculo em comunidades sem acesso à espetáculos de dança através de livros, fotografias,vídeos, aulas espetáculos, intervenções urbanas. estabelecendo a integração da dança com a arquitetura e corpo e memória.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

DANÇA & NATUREZA - O EQUILÍBRIO INTERIOR DE CADA UM

Mesmo que você não perceba, sua mente e seu corpo percebem e reagem a qualquer manifestação exterior. Até aí, nada de novo. Mas, na corrida tresloucada que rege nossas vidas, a percepção do espaço que nos rodeia quase sempre nos passa despercebida. Se o óbvio não é percebido, como poderemos notar verdadeiramente as sutilezas? Como viver a plenitude dos momentos, a beleza da natureza e das pessoas? A nossa própria beleza? Como ser mais natural e equilibrado? Nada místico nem compreensível só para alguns “iluminados” ou “iniciados”. Não, nada disso. Me refiro aos detalhes do nosso cotidiano, que “olhamos” mas não “vemos” nem “vivemos”. O foco de nossa atenção está direcionado quase sempre para o trabalho, as tarefas diárias, a “obrigação”. Implacável, a mídia nos apresenta os fatos ao vivo. A qualquer hora, dia e noite, vemos e sabemos sobre tudo. O bem e o mal. A “roda da vida” gira sem parar. O homem do século XXI, isolado, mas globalizado em frente ao computador, sufocado pelo lixo e poluição das metrópoles congestionadas, contraria cada vez mais a natureza, o óbvio. Semeia, colhe hoje e colherá amanhã o inimaginável. Caminhamos todos para o caos, como bois para o abate? Torna-se urgente entender o óbvio. Compreender os “sinais” mais simples da natureza é imperioso. Nossos corpos e mentes precisam (re) descobrir a harmonia que existe em nós mesmos. POESIA CORPÓREA – Essa é minha principal busca na vida e, em cena, o convite que faço a todos por meio da investigação dos princípios do Bharatanatyam, estilo de dança clássica indiana. Vamos perceber – garanto que não é difícil – a relação da metafísica dos gestos com a natureza. Vivenciemos a beleza dos Hastas (gestos das mãos) que significam flores e animais. Gestos codificados e sistematizados há milênios, que simbolizam a natureza humana e dos deuses. O convite se estende à pesquisa sobre os elementos da natureza e a construção simbólica de uma gestualidade integrada ao divino de cada um. O exercício de não ser “embalsamado” pelo vulgar, dançar o Apolíneo e o Dionisíaco. Integrar o espírito, ser todo, completo, único e verdadeiro. É possível e prazeroso criar o próprio método de análise – e praticar – uma coreografia corpórea baseada nas árvores, paisagens, elementos da natureza (água, terra, fogo, ar) ou nas estações do ano – os ciclos. É saudável elaborar um vocabulário simbólico para o corpo. Talvez, negar o óbvio. Podemos e devemos estimular – vivenciar – nossa energia individual, corporificando-a e conservando-a qualquer que seja a intenção. O entendimento do todo explica o uso de determinada gestualidade ou dança. A energia é pessoal, vista sob determinada perspectiva e concretizada por ritmo próprio. Geometria sagrada e proporção áurea na dança: danças menos lineares. Tridimensionalidade, reconstrução de fluxos e refluxos. Deslocamentos energéticos baseados em padrões da natureza. As propriedades matemáticas das espirais. A importância do assimétrico. Uma oportunidade de equilíbrio que podemos oferecer a nós mesmos é a criação de uma dança pessoal, onde cada um de nós possa manifestar seu próprio vocabulário gestual e simbólico. Sua própria dramaturgia e verdade na dança da vida. A natureza é um grande palco. Entre na dança!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"ARTE COMO VEÍCULO"

(...)Meu último espetáculo, como diretor de teatro, é intitulado ‘Apocalypsis cum figuris’. Foi criado em 1969 e suas representações terminaram em 1980. Desde então eu não fiz nenhum espetáculo. ‘Ação’ não é um espetáculo. Não pertence ao domínio de arte como apresentação. É uma obra criada no campo de arte como veículo. É concebida para estruturar, em um material ligado às artes cênicas, o trabalho em si dos fazedores (doers). Testemunhas, observadores de fora, podem estar presentes ou não. Depende de várias condições que, sob circunstâncias diferentes, esta abordagem exige. Quando eu falo de arte como veículo, eu me refiro à verticalidade. Verticalidade- nós podemos ver este fenômeno em categorias de energia: energias pesadas mas orgânicas (ligadas a forças vitais, a instintos, a sensualidade) e outras energias, mais sutis. A questão da verticalidade quer dizer passar de um nível, por assim dizer, grosseiro, em um certo senso, poderíamos dizer um “nível cotidiano”, para um nível de energia mais sutil ou até mesmo para a conexão mais elevada. Eu simplesmente indico a passagem, a direção. Aqui, há outra passagem: se alguém se aproxima da conexão mais elevada—quer dizer, falando em termos de energia, se a pessoa chega a energia muito mais sutil—então também há a questão da descida, trazendo este algo mais sutil para a realidade mais comum que é ligada à densidade do corpo. (...) Em relação à verticalidade a questão é não renunciar a partes de nossa natureza—tudo deve reter seu lugar natural: o corpo, o coração, a cabeça, aquilo que está “debaixo de nossos pés” e aquilo que está “sobre a cabeça.” Tudo como uma linha vertical, e esta verticalidade deveria acontecer entre a organicidade e o estado de atenção - estado de atenção quer dizer a consciência que não está ligada à linguagem (a máquina de pensar), mas à Presença. (...) O que uma pessoa pode transmitir? Como e para quem transmitir? Estas são questões que toda pessoa que é herdeira de uma tradição se coloca, porque essa pessoa herda também, de certa forma, o dever transmitir aquilo que recebeu para si. Que participação tem a pesquisa em uma tradição? (...) Uma vertente do Budismo Tibetano diz que uma tradição pode viver se a nova geração for um quinto além da geração precedente, sem esquecer ou destruir suas descobertas. (...) No campo de arte como veículo, se eu considerar o trabalho de Thomas Richards em ‘Action’, com as antigas canções vibratórias e com todo este vasto terreno que liga a tradição que ocupa as pesquisas aqui, eu observo que a nova geração já avançou em relação à precedente. Texto sem nome por Jerzy Grotowski, Pontedera, Itália, 4 de julho, 1998, de acordo com o desejo de Jerzy Grotowski este texto foi publicado postumamente:[1]

DANÇAR A EXPERIÊNCIA DE SER

Escutar a vida. O percurso para encontrar a integração do agir, sentir e pensar que está relacionado ao processo de descoberta dos próprios potenciais. A dança é o meu canal de integração, quando estou dançando sinto que faço parte de tudo,vibração, percepção e presença. tenho a oportunidade de encontrar o processo para desenvolver no meu corpo as minhas possibilidades. " Penso logo existo"? Nem sempre. Prefiro sentir, pensar e agir, não necessariamente nesta ordem. Os três centros dificilmente funcionam simultaneamente. Uma pessoa pode ter a ação e não ter a capacidade de sentir e vivenciar as suas emoções, pensar e não agir. " A arte pode ser um veículo". Interessa buscar o caminho do sublime. Não estou escrevendo sobre a política do "pão e circo" ou de qualquer arte produzida pela humanidade de todos os tempos. Não escrevo sobre a necessidade de consumir arte. Escrevo sobre a arte que inspira, transpira sentimento e cria experiência e vivência. Todo artista busca esta simbiose, para que a sua arte seja uma experiência profunda na vida de alguém. Arte deveria intermediar as relações de maneira simbiótica. A metafísica da arte que produz atmosfera e nos devolve o sentido, os símbolos e a resposta da vida para as questões que a filosofia, a religião a psicologia, a ciência e todo o saber epistemológico tentam nos responder. Eu consigo encontrar as minhas respostas, mesmo sabendo que mesmo sentindo o"colo" da arte, voltarei ao vazio, mas nunca serei a mesma, toda experiência cria sabedoria e potencializa nossa identidade. Experimento poética no meu corpo através da dança, da música, do teatro, enfim qualquer vivência que permita a pausa, o silêncio, sair de mim mesma, algo que me devolva o fogo e a vontade de estar viva. Preciso investigar mais, porque toda resposta passa a ter sentido quando a pergunta surge da minha antítese, da minha complexidade e vontade de encontrar o meu lugar no mundo, que muda constantemente. Ritos, tambores, risos e encontro a minha individualidade celebrando a coletividade, o particular e o universal. Identidade e diversidade, como princípio para ampliar a capacidade de me sentir incluída e fazendo parte da espécie humana. Eu acredito que muitas crises na humanidade vêm desta sensação de não pertencimento, de estranhamento, de se sentir estrangeiro, "um ponto fora da curva". Entendo arte como o processo de busca, pergunta e da necessidade de mostrar o óbvio, o cotidiano e a natureza humana e resignificar através de novas formas, novos olhares. A resposta vem do corpo, da alma, da vivência, do encontro com mestres da dança, do teatro, da filosofia, da espiritualidade e do mestre que está dentro de cada um. O mundo contemporâneo nos "roubou" a privacidade.No entanto todo ser é sozinho. Uma planta nasce sozinha em silêncio,com o tempo, nascem outras singularidades para construir o todo. Somos todos canais e mestres uns dos outros.

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...