segunda-feira, 11 de agosto de 2014

PARA DANÇAR O QUE É ETERNO

Durante um certo período, dei aulas de dança para um grupo de mulheres muito especial.
Um dia, uma delas me contou que estava com câncer.
Eu tive a oportunidade de levar lirismo através da dança, para uma pessoa com mais de 60 anos, que apesar de estar muito doente e após uma sessão de quimioterapia, abria os braços para a dança, e não faltava as minhas aulas e ainda fazia dança ciga...na com a professora e dançarina Rute Santana, que introduziu a dança na sua vida.
Luciene era assim, a minha aluna era uma potência de viver.
Certo dia, ela chegou feliz da vida na aula, me falando maravilhas do seu cabeleireiro que cortara o seu cabelo que estava ralo, mas que sempre ele dava um jeito de tratá-la com tanta reverência.
Ela sempre me agradecia por levá-la junto com o meu grupo, para dançar na sala Villa Lobos do Teatro Nacional, o sonho dela.
Um dia, Luciene parou de dançar. Venceu um câncer, e em seguida surgiu o segundo câncer , que a levou definitivamente para dançar no céu das dançarinas.
Durante muito tempo, quando encontrava com ela, acontecia uma magia, seus olhos ficavam encharcados de lágrimas quando me via. Eu não entendia direito e me intrigava o fato de desencadear tanta emoção naquele ser. Simples e profundamente sempre assim, abraços seguidos de muita emoção.

Esta semana com a sua morte, eu entendi a importância de se doar para alguém, de fazer a diferença na vida de uma única pessoa. Se você que está me lendo neste instante, tiver o privilégio de mudar a vida de uma única pessoa, você chegou perto da grande experiência que é se sentir humano.
Quando a arte penetra no coração é eterna.
Transcende a morte.
Ontem sonhei andando nas ruas, lado a lado com a Luciene, e eu refletindo sobre como ela poderia estar morta e ao mesmo tempo caminhando tão viva ao meu lado.

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