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domingo, 31 de agosto de 2014

O PROCESSO E O BELO

A certa altura de uma das entrevistas mais fascinantes desta coletânea, o crítico inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra detalhes sobre os desafios técnicos que enfrentou para elaborar as Torqued Ellipses, declara-se impressionado com a beleza das peças. O escultor então responde que não está interessado nesse tipo de qualificação, e sim no grau de inclinação das obras. Seu interlocutor persiste no assunto, dizendo que todo artista é como um gato concentrado na caça, alheio a tudo que o desvie de seu objetivo e, portanto, despreocupado com a aparência de seus movimentos. Segundo o crítico, são os outros que veem beleza no que ele faz. Do manifesto "Lista de verbos, 1967-1968" (1971) ao texto "Desenhos para o Courtauld" (2013), Richard Serra se apresenta como alguém interessado mais no fazer do que nos resultados. Ao longo de cinco décadas de produção, seus depoimentos enfatizam a busca por resultados imprevisíveis, capazes de apontar novos caminhos para a escultura e para o desenho. Em outra passagem notável, ao comparar os trabalhos tardios de Matisse e Picasso, Serra explica sua preferência pelo primeiro. Matisse, quando acamado, teria reinventado a maneira de delimitar a forma com seus recortes de papel, enquanto Picasso, seduzido pelo próprio talento, teria abandonado a experimentação. Richard Serra faz parte de uma geração que se formou no ambiente estimulante das universidades norte-americanas do pós-guerra, e para a qual a escrita foi uma prática constante, uma maneira de fomentar o debate crítico em torno das obras. Os textos aqui reunidos foram selecionados a partir das coletâneas Richard Serra: Writings, Interviews¹ e Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008)² e de depoimentos recentes publicados em catálogos e pequenas edições. Eles abordam momentos-chave da trajetória de um dos principais protagonistas da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influente há tanto tempo é sua capacidade de periodicamente surpreender o público e a crítica com novas pesquisas derivadas de seu próprio fazer ? "o trabalho vem do trabalho", ele costuma dizer ? e de uma relação dialética com a história da arte e a contemporaneidade. É sobretudo nas entrevistas que ele expõe os desdobramentos internos de uma obra à outra, o processo que o levou das Splashs e Castings às peças apoiadas (Props) e, destas, à criação das esculturas site-specific. Em mais de um depoimento, o artista aborda a relação independente, porém implicada, entre seus desenhos e suas esculturas ? o desenho é um meio privilegiado para a reinvenção de procedimentos e, ao mesmo tempo, uma parte integrante das esculturas, com os limites definidos pelo corte funcionando como linhas. As conversas com David Sylvester e Kynaston McShine abordam o processo de elaboração das esculturas de grande porte realizadas a partir da década de 1990. Elas não são mais site-specific; são espaços fechados que têm o poder de desorientar o sentido de ortogonalidade, lançando o espectador numa espécie de vertigem, ou, em certos casos, numa sensação de imprevisibilidade semelhante à experiência a que o próprio artista se propõe em sua prática. Os depoimentos revelam também fracassos e momentos de crise, histórias de projetos rejeitados por arquitetos e instituições e também pelos espectadores, além de brigas públicas em defesa de obras e ideias. As narrativas acabam por enfocar não apenas a trajetória de Richard Serra, mas conceitos e questões fundamentais da arte recente. Textos como "Shift" (1973) e "Saint John's Rotary Arc" (1980) trazem análises acuradas das condições para a instalação de esculturas numa paisagem natural e num espaço urbano de grande circulação, respectivamente, de modo que se compreenda, no caso de Serra, de que maneira a forma responde em certa medida ao contexto, para depois revelá-lo, incluí-lo e modificá-lo. Shift e Saint John's Rotary Arc são obras que representam o avesso da ideia de cubo branco e foram realizadas num momento em que a busca por uma interação mais concreta entre a arte e a vida era uma das principais pautas artísticas em debate. Em Yale e na cena cultural nova-iorquina dos anos 1970, Serra teve contato com alguns dos personagens mais importantes da segunda metade do século XX. Seus encontros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resultam em relatos saborosos e revelam aspectos centrais de sua formação. Mas as referências vão muito além da arte contemporânea ou dos movimentos com os quais sua obra tem uma conexão mais direta. O artista surpreende ao citar seu interesse, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gravidade nas obras de Claes Oldenburg, ou ao relatar seu aprendizado sobre a integração da pintura à arquitetura com os muralistas mexicanos. O minimalismo é apresentado como uma fonte, mas também como um movimento ao qual foi preciso se contrapor. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jardins zen de Kyoto foram absorvidos de uma maneira muito particular, filtrados pelos interesses que motivam o próprio trabalho de Serra. Parece haver uma correspondência entre a materialidade explícita das obras de Richard Serra e o estilo franco de suas palavras. Nas duas instâncias, o artista se afasta de qualquer metafísica. Suas reflexões sobre o espaço como conteúdo da obra, sobre a ação da gravidade, sobre os limites das formas e dos materiais estão associadas a experiências físicas e ao enfrentamento de problemas concretos. Seus escritos revelam-se uma parte constitutiva de seu processo de trabalho, veículos de ideias que se materializam em ações. ¹ SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994. ² Idem. Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010. Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS. desenhos, matisse, picasso, richard serra, david sylvester, esculturas Este texto de Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS, é a apresentação do livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, que será lançado em 29 de maio no IMS-RJ na abertura, para convidados, da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, com a presença do artista.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

BUTOH

Conhecidos mundialmente como os criadores da dança Butoh, Tatsumi Hijikata (09 de março de 1928 - 21 de janeiro de 1986), Kazuo Ohno ( 27 de outubro de 1906 - 1 de junho de 2010) nasceu em Hakodate, Hokkaido-Japão, partiu para o caminho da dança quando em 1929 viu pela primeira vez, em Tóquio, a bailarina espanhola, nascida na Argentina, Antônia Mercé ( La Argentina ) que o envolveu por completo, dando-lhe as primeiras impressões do renascimento da dança espanhola, e impulsionou Ohno a estudar a moderna técnica de dança de Mary Wigman, coreógrafa expressionista alemã. Tatsumi Hijikata, criou e desenvolveu ações teatrais, performáticas, na década de 40, quando o Japão do pós-guerra sofria uma invasão cultural por parte do ocidente. Foi em bares, boates, cabarés e pelas ruas do submundo de Tóquio que Hijikata dava início ao que nos anos 60, essa forma marginal de expressão, como era considerada, passara a ser chamada de Ankoku Butoh, dança das trevas. Hoje simplesmente Butoh. Essa forma de expressão nascida literalmente na sarjeta, retomou tradições antigas do Japão, técnicas de dança ocidental e, antes de tudo, a idéia quase esquecida de que o dançarino não dança para si, mas para reviver algo muito maior. De acordo com palavras do próprio Ohno, “Butoh é uma das mais arrojadas formas de dança contemporânea, única do Japão. Expressa ao mesmo tempo tantas idéias diferentes que é impossível defini-la. Ela somente choca e surpreende”. Ohno busca no inconsciente comum a todo homem, oriental ou não, a beleza e a decrepitude, a simplicidade e a complexidade, o cômico e o trágico. Da mobilidade e/ou imobilidade das extremidades corporais, que os braços, as pernas, o tronco, o pescoço, a cabeça levam o performático a mergulhar na viagem corporal que conduz à poesia. Os dançarinos do Butoh quase não usam vestimentas, para eles a roupa veste o corpo e o corpo a alma. E é através da alma, das emoções, da vivência de cada um é que são criadas as seqüências gestualísticas que formam o Butoh. A maquiagem melancólica, o branco sobre todo o corpo, faz com que os músculos sejam realçados, e suas formas expressivas delineadas em movimentos essenciais, se valorizem pela ausência de pêlos. O Butoh recupera a vitalidade e a força do corpo, de um corpo domesticado pelas atividades cotidianas e esmagado pelas regras estabelecidas. O desenho de cada gesto é simbólico. Ele estimula idéias, associações e emoções tramando uma visibilidade: As intensidades, os afetos que atravessam os corpos, a música, os movimentos, são expressos através dos gestos. O corpo é o veículo de expressão dos elementos vitais: terra, água, fogo e ar. Além de Kazuo Ohno que já veio ao Brasil por três vezes( 1986, 1992 e 1997 ), o grupo Sankai Juku, Natsu Nakajima, Anzu Furukawa, Ko Murobushi, Min Tanaka, Carlotta Ikeda e sua Cia. a Ariadone, também já se apresentaram por aqui. Como a arte também está em evolução, Saburo Teshigawara, difundiu para o ocidente o pós-Butoh, assim como ele se define na sua coreografia “Dah-dah-sko-dah-dah”. O Alemão Peter Sempel realizou “Just visiting this Planet”, um filme rodado em dez países (inclusive no Brasil) onde acompanhou Kazuo Ohno, combina o valor documental a uma sensível interpretação do universo deste senhor que, completava 95 anos no ano 2001, e ainda arrebatava platéias com suas coreografias que pretendem revelar “as formas da alma”. “A minha dança é a reza para a vida. O que me faz dançar é o sofrimento que eu carrego dentro do meu coração. A vida e a morte são inseparáveis, estão juntas dentro de mim enquanto eu danço, a vida é a reza, a fé e a dança é também a mesma coisa”, define Kazuo Ohno. Quando alguém vai a ele pedir pra ensinar a dançar, a resposta é sempre a mesma: “A dança não se ensina. Ela está dentro de cada um de nós. Primeiro tem que analisar sua vida, quando entender sua própria vivência, surgirá sua própria dança”. (Publicado no Jornal Dança Brasil - Por Joao Butoh)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O PARTICULAR E O UNIVERSAL

(...) Mímica de gestos espirituais que escandem, podam, fixam, afastam e subdividem sentimentos, estados de alma, idéias metafísicas. Esse teatro de quintessência onde as coisas realizam estranhas meias voltas antes de voltar a abstração. (Antoine Marie Joseph Artaud , conhecido como Antonin Artaud (Marselha , 4 de setembro de 1896 — Paris em 4 de março de 1948) O meu objetivo como dançarina- pesquisadora é incorporar diferentes maneiras de contruir gestos, movimentos através do contato com outras culturas,estéticas e pensamentos, para a criação de minha corporeidade,criada através das interfaces oriente-ocidente. Expressar a minha identidade em cena, partindo do ponto de vista que o meu caminho na dança integra,teatro,filosofia,arquitetura, artes visuais. Fruto de minhas inquietações e vontade de criar um movimento que seja verdadeiro e profundo. Não estou afirmando que uma criação artística necessita de muita informação e pesquisa de diferentes contextos, cada artista cria e desenvolve a sua estética e visão do mundo. Escrevo sobre o meu processo criativo, que muitas vezes é caótico e sem conexão entre sí, as" partes" fazem parte de uma misteriosa construção e associação que vou editando sistematicamente. Me considero complexa ao lidar com muitas idéias e ao mesmo tempo encontro comigo. Eu imagino que a dança, mesmo sendo efêmera, pode ser eterna no inconsciente de quem assiste. Eu busco com a minha técnica representar a minha ausência. Ser dança. Procuro de diferentes maneiras encontrar dentro de mim, soluções para as minhas inquietações, busco alargar as minhas referências mudando as minhas certezas. Estou sempre recomeçando e no limite. Danço por necessidade para garantir a minha sobrevivência emocional. Sonhar sempre para trazer o cotidiano e saborear a vida. Acabo um projeto e apesar do aprendizado que a experiência acrescenta, me vejo novamente inquieta, preciso falar sem palavras,desafiar o meu corpo a encontrar com o desconhecido. O processo de criação, pesquisa e montagem, a relação que se constroe com cada profissional e suas contribuições, a riqueza da troca de experiências, sonhos, frustrações e vontades enriquecem o meu espírito. Como dizia Jersy Grotowski, fundador do teatro laboratório de Wroclaw (Polônia) (1933-1999)" A arte é um veículo" Começar do zero, a "síndrome do papel branco", penetrar o vazio. Ainda tenho muitas versões de mim mesma para transformar em dança.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

EQUILÍBRIO NA DANÇA

" Equilíbrio é a habilidade de manter o centro de gravidade do corpo, minimizando oscilação postural. É um estado de equilíbrio corporal caracterizado por completo o silêncio, vazio de forças opostas em todos os lados. O equilíbrio é conseguido através da coordenação de três sistemas do corpo: o sistema vestibular, sistema motor e do sistema visual. O sistema vestibular está localizado no ouvido interno, o sistema motor é feito de músculos, tendões e articulações, o sistema envia os sinais visuais dos olhos ao cérebro sobre a posição atual do corpo. Ficar equilibrada não é uma questão de ficar rigidamente em um ponto. O equilíbrio é encontrado em constante deslocamento do corpo para fazer ajustes sutis. Dança requer rápidas mudanças no posicionamento do corpo, especialmente nos pés, tornozelos, joelhos e quadris. Porque os olhos não se fixam em um único ponto, um bom equilíbrio é necessário para tornar suave, movimentos completos. Os exercícios a seguir devem ajudar a melhorar seu equilíbrio. Estar ao lado de uma cadeira ou parede, no caso você precisa pegar o seu equilíbrio. 1 - Permaneça descalço, suba lentamente para a meia-ponta dos pés, pressionando os dedos dos pés para o chão. Concentre-se na centralização do peso do corpo em algum lugar entre o calcanhar e o dedão do pé. Tente puxar para cima e para fora das articulações, mas manter os joelhos relaxados. Abaixe o calcanhar lentamente e repita. 2 - Fique em um pé sobre uma superfície dura, sem travar os joelhos. Divida o peso do corpo em partes iguais entre o calcanhar e a bola do pé. Fique nesta posição por um minuto, em seguida, mude para o outro pé. 3 - Fique em um pé com o peso do corpo dividido entre o calcanhar e a bola do pé. Levante o calcanhar e gire lentamente para a esquerda (uma volta de 90 graus) sobre a bola do pé, então pare e abaixe o calcanhar. Repita algumas vezes, em seguida, alternar os pés. Uma vez que você estiver confortável com curvas pequenas, tente voltas inteiras. Se você perder o seu equilíbrio durante os exercícios, tente recuperá-lo rapidamente com o ajuste mínimo possível. Estenda a mão e toque levemente a cadeira ou parede com a ponta dos dedos. Quando você se sentir firme tente novamente." Filed under: Dança & Fitness, Dicas de Dança É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera. Clarice Lispector - A descoberta do mundo

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O QUE É DANÇA?

“O que é a dança?” interroga-se o filho de outra coreógrafa famosa, Brigit Cullberg.Para depois afirmar: se alguém responder a essa pergunta não é uma pessoa confiável.”E acrescenta, “mas, de qualquer maneira, deixem-me tentar.A dança é pensar com o corpo. E será necessário pensar com o corpo? Talvez não para sobreviver, mas sim para viver. Há tantos pensamentos que apenas podem passar pelo corpo. Coisas como a paz poderão ser bem mais importantes que a dança, porém, precisamos da dança para celebrar a paz. E para exorcizar os demónio da guerra, tal como o fez Nijinsky. A anarquista, Emma Goldman, talvez o tenha dito da melhor maneira: não vale a pena lutar por uma revolução que não me permita dançar. O deus Shiva criou o universo com a sua dança. Mas a dança é o oposto de todas as pretensões divinas. A dança é uma eterna tentativa, tal como escrever na água. A dança não é a vida mas mantém vivas todas as pequenas coisas que constituem a grande coisa coisa." :http://www.revistadadanca.pt/Luís Galego

PARA DANÇAR O QUE É ETERNO

Durante um certo período, dei aulas de dança para um grupo de mulheres muito especial.
Um dia, uma delas me contou que estava com câncer.
Eu tive a oportunidade de levar lirismo através da dança, para uma pessoa com mais de 60 anos, que apesar de estar muito doente e após uma sessão de quimioterapia, abria os braços para a dança, e não faltava as minhas aulas e ainda fazia dança ciga...na com a professora e dançarina Rute Santana, que introduziu a dança na sua vida.
Luciene era assim, a minha aluna era uma potência de viver.
Certo dia, ela chegou feliz da vida na aula, me falando maravilhas do seu cabeleireiro que cortara o seu cabelo que estava ralo, mas que sempre ele dava um jeito de tratá-la com tanta reverência.
Ela sempre me agradecia por levá-la junto com o meu grupo, para dançar na sala Villa Lobos do Teatro Nacional, o sonho dela.
Um dia, Luciene parou de dançar. Venceu um câncer, e em seguida surgiu o segundo câncer , que a levou definitivamente para dançar no céu das dançarinas.
Durante muito tempo, quando encontrava com ela, acontecia uma magia, seus olhos ficavam encharcados de lágrimas quando me via. Eu não entendia direito e me intrigava o fato de desencadear tanta emoção naquele ser. Simples e profundamente sempre assim, abraços seguidos de muita emoção.

Esta semana com a sua morte, eu entendi a importância de se doar para alguém, de fazer a diferença na vida de uma única pessoa. Se você que está me lendo neste instante, tiver o privilégio de mudar a vida de uma única pessoa, você chegou perto da grande experiência que é se sentir humano.
Quando a arte penetra no coração é eterna.
Transcende a morte.
Ontem sonhei andando nas ruas, lado a lado com a Luciene, e eu refletindo sobre como ela poderia estar morta e ao mesmo tempo caminhando tão viva ao meu lado.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

"UM ESTRANHO ÍMPAR"



         Sentir a própria pulsação e uma certa insanidade temporária.
          Estar  integrada na totalidade.
          Ser sutil é acontecer no instante, existir no presente.
          Minha dança acontece nos detalhes, observo para construir sentido.
         Quando perco o sabor do ritmo da vida, perco o sagrado contido nas coisas e acabo caindo no vazio, fico paralisada no tempo.
           Dançar é estar em pleno gozo e em constante diálogo com a natureza e a dança cósmica do universo.
            O perigo de perder a sintonia com a vida é perder a poesia, é quando o vazio de uma existência entorpece os sentidos. Pior do que perder a capacidade de sonhar e sentir a beleza, é ser totalmente pragmática e utilitária. Dançar para quem ? faz sentido ainda propor arte com sentimento e alma?
            Experimentar a beleza e sentir a vida, deveria ser prioridade, numa sociedade conceitual ,baseada no discurso e na palavra, onde o mercado "organiza" tudo e não permite que a arte passe pelo caminho da transcendência, e da separação do si mesmo. Cada pessoa precisa encontrar e lutar por espaços afetivos, onde as leis do mercado não tenham penetração no sentido de " rotular" e embalar para vender, antes que a poesia se instale na poética de cada um. Não sou contra o mercado no sentido literal da palavra, todo artista precisa  sobreviver, pagar os impostos, é difícil fazer poesia sem pão.
            Estou na contramão,  quero me entender enquanto ser histórico, quero uma arte mais humana e permanente. Quero a dança que brota das minhas raízes e transforme através do diálogo e da força do inefável e do inominável.

 Ser um instrumento de beleza e colocar poesia no cotidiano de alguém.
            " E se você me achar esquisita, respeite também.
    Até eu fui obrigada a me respeitar"