quinta-feira, 29 de maio de 2014

NOTÍCIAS DE MIM

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia
Mia Couto

DANÇAR OS ANSEIOS DA ALMA

“Sapatinhos Vermelhos”, interpretado à luz da psicanálise no livro “Mulheres Correm com os Lobos” por Clarissa Pinkólas Ester.
A história tem várias versões nos detalhes, mas no geral é resumidamente o seguinte:
Uma menina pobre e sozinha mora em uma cabana, na floresta. É tão pobre que nem sapatos tem e seu grande sonho é ter um par de sapatos vermelhos. Ela mesma fez um par de sapatos vermelhos de pano, com os retalhos que encontrava. Ela adorava esse sapatos e usá-los fazia com que se sentisse feliz, mesmo frente às dificuldade diárias pela sobrevivência.
Quando andava pela estrada, acabou encantando uma velha muito rica que resolveu criá-la como filha. Ao chegar à mansão, foi banhada, penteada e vestida. Seus sapatos de retalhos, jogados fora.
A menina agora era obrigada a ficar sentada, quietinha, o dia todo. Não podia comer com as mãos. Não podia correr ou pular, ou rolar na grama. E, quanto mais o tempo passava, mais falta ela sentia de seus lindos sapatinhos vermelhos feitos à mão.
Um dia, a velha levou a menina a um velho sapateiro aleijado, que era considerado muito bom, para fazer um par de sapatos novos para a ocasião especial. Na vitrine do sapateiro havia um lindo par de sapatos vermelhos, do melhor couro. A menina escolheu os sapatos vermelhos.
Usando-os foi à missa com a velha e na saída, um velho soldado disse para a menina “que belas sapatilhas para dançar”. E a menina, mesmo sem querer, começou a rodopiar ali mesmo.
Ela continuou dançando, dando voltas, fazendo piruetas. Todos corriam atrás, assustados. Finalmente, um grupo de pessoas conseguiu segurá-la, e o cocheiro arrancou os sapatos vermelhos, com grande dificuldade, dos pés da menina. Os sapatos foram colocados no fundo do armário, com a ordem de que ela jamais colocasse eles nos pés novamente. A menina, entretanto, não conseguia parar de pensar nos sapatos. Muitas vezes abria o armário, e ficava espiando os seus lindos sapatinhos vermelhos.
Sem resistir ao desejo, desobedeceu a velha e pôs nos pés os sapatos vermelhos. Imediatamente, começou a dançar, rodopiar, bailar. E assim ela saiu de casa, dançando, e atravessou a propriedade, dançando, e chegou na floresta, dançando. Exausta, tentava, vez por outra, arrancá-los. Mas não conseguia. Por fim, procurou o carrasco de uma aldeia, e lhe implorou que cortasse os sapatos. O carrasco tentou, mas não conseguiu. Desesperada, a menina disse “então corte-me os pés, não posso viver dançando”. O carrasco, penalizado e implorando perdão a ela e a Deus, cortou seus pés, com lágrimas nos olhos. E os seus pés, com sapatinhos vermelhos e tudo, continuaram dançando, dançando, dançando, pelo mundo afora.
Nem parece conto de fadas para crianças de tão horrível, cruel e real a história. Mas ela se encaixa na maneira como às vezes colocamos nossos sapatinhos vermelhos, respondendo ao mundo externo, dançando, dançando, dançando freneticamente, e nos esquecendo de nosso próprio ritmo, de nossas necessidades de alma.
Periodicamente a vida nos lembra, com algum fato ou situação chocante, qual o valor do nosso sapatinho feito à mão, costurado por retalhos. Não é tão lindo e nem tão brilhante quanto o par de verniz na vitrine do outro (sempre é a do outro), mas tem o nosso cheiro, é único, original, representa e conta quem somos nós.
Assim como na história infantil, nos fascinamos por algo que vemos ao longe e que, na maioria das vezes, não nos traz qualquer satisfação ou felicidade. Deixamos de viver o aqui e o agora com a alma, na expectativa do que viveremos nossos anseios no futuro: depois que os filhos crescerem, depois que a aposentadoria chegar, depois de pagar a hipoteca da casa, depois, depois, depois…
Abrimos mão daquilo que desejamos por aquilo que achamos que desejamos ou o que percebemos que os outros desejam para nós.
Deixamos que os sapatinhos “amaldiçoados” se grudem em nossos pés e nos ponham para dançar uma música que sequer ouvimos. Movimentos frenéticos que levam muitos à beira da loucura e até mesmo à automutilação para se livrar desse par vermelho diabólico.
Considero que episódios de pânico, ansiedade, depressão e até tédio, sejam indícios de que podemos estar com o par de sapatos errados. A maneira como vemos o tempo passar sem nos darmos conta também denuncia nosso ritmo antinatural.
Quem se interessar por uma análise mais detalhada deste conto pode, além do livro da Clarissa Pinkólas, acessar o site:http://www.femininoplural.com.br/fogo/lenda/sapatoensina.html. Gostei da abordagem e da maneira direta pela qual os símbolos são decifrados e interpretados. Vale a pena conferir e refletir. Muitos insights…

NÚCLEO DE PESQUISA EM DANÇA-TEATRO E TRANSCENDÊNCIA

   Atualmente pesquiso a multisensorialidade e a disponibilidade para criar a partir da minha identidade.


 A proposta  é  a  interdiciplinariedade, o relativismo, e os métodos comparativos.
A noção de performance aliada a ritos,rotinas, disciplina, o cotidiano.
A dança fazendo parte da vida individual e coletiva, a forma sensorial e perceptiva.
 Procuro técnicas corporais que induzam a um fluxo diferenciado de energia , a uma intensificação da presença e consequentemente a uma alteração do meu estado perceptivo,para ampliar o diálogo com o público.
Quando estou em cena,o palco é o único lugar no meu mundo onde nenhuma intervenção,  nada mesmo, me tira do meu estado de presença absoluta no aqui e agora..
  Dançar como se fosse a minha última oportunidade de me comunicar, e dizer o que sinto, ampliar a minha urgência de falar o que nem sei bem o que é, um lugar onde as palavras não chegam, onde  toda a  tentativa de me explicar, seja válida, mas nunca de forma  arbitrária. . Não tenho legenda. 
 Arquétipos , transculturalidade,  técnica, tudo o que explica a presença humana e ajuda a  traduzir sofrimento em encantamento.




  

terça-feira, 27 de maio de 2014

DANÇA-TEATRO ORIENTAL



O teatro oriental tem algumas características em comum que o distinguem nitidamente do teatro pós-renascentista ocidental. São obras de arte unificadas — uma realização da ideia do teatro total — semelhante ao de Wagner, em que se misturam literatura, dança, música e espetáculo.
A formação dos atores dá ênfase à dança, à expressão, à agilidade corporal e às habilidades vocais mais que à interpretação psicológica. Os figurinos e maquiagem são muito importantes e quase uma arte em si. A estilização estende-se ao movimento e mesmo as ações da vida diária se transformam em uma dança ou gesto simbólico.
Em termos de público, é um teatro de participação. As representações costumam ser demoradas e os espectadores se movimentam, comem, conversam e por vezes só se mostram atentos aos momentos que são de seu maior agrado. A solenidade do espectador ocidental lhes é totalmente estranha.
O teatro oriental, tal como outros aspectos da cultura oriental, só viria a ser conhecido no Ocidente em fins do século XIX. Exerceu certa influência sobre as concepções de interpretação, criação de roteiros e encenação de alguns simbolistas, como Strindberg, Artaud, Meyerhold, Reinhardt e outros.
O teatro indiano, em sânscrito, floresceu nos séculos IV e V. Baseava-se em histórias tiradas da épica hindu, como o Mahabharata e o Ramayana. O palco apresentava decoração trabalhosa, mas não se usavam técnicas de representação. Os movimentos de cada parte do corpo, a recitação e a canção eram rigidamente codificados. As marionetes e o teatro dançado, sobretudo o kathakali, também foram grandemente apreciados em vários momentos da história da Índia e até hoje.
O teatro chinês começou a se desenvolver em princípios do século IV. Era muito literário e tinha convenções bastante rígidas. No entanto, a partir do século XIX, passou a ser dominado pela Ópera de Pequim. Nela se dá importância primordial à interpretação, ao canto, à dança e às acrobacias, mais que ao texto literário. Sob o governo comunista a temática se modificou, mas o estilo e a representação foram mantidos.
O teatro japonês é talvez o mais complexo do Oriente. Seus dois gêneros mais conhecidos são o teatro nô e  o kabuki. Nô, o teatro clássico japonês, é estilizado, uma síntese de dança-música-teatro. Tem estreita relação com o budismo zen. Outros gêneros dramáticos são o bugaku, um sofisticado teatro dançado, e um teatro de bonecos ou marionetes, chamado bunraku.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

BUTOH - VIDA E MORTE

O Butoh, estilo de dança/teatro japonês, faz o Leste encontrar o Oeste. Como boa parte das expressões culturais do Oriente, o "butoísmo" mergulha na introspecção para buscar o mito de cada um por via da aceitação e integração dos dualismos.

O Butoh, estilo de dança-teatro japonês surgido no pós-guerra é inspirado no limite entre o mundo dos vivos e dos mortos e na percepção dualista de opostos – como a imobilidade e a mobilidade e a luz e as trevas. O estilo foi fortemente influenciado pela tensão entre a visão Ocidental e a Oriental e entre a tradição e a modernidade em um período de dissociação do espírito nipônico.
Um trabalho freelancer me fez ir atrás do tema em 2012, que só conhecia por alto por conta do filme Hanami.O background filosófico do Butoh é formado por influências tão distintas e paradoxais como o zen budismo e o Teatro Nô de um lado e o surrealismo e o expressionismo europeus de outro. Anticonvencional e marginal, a arte é mais popular no Ocidente que no Japão.
O estilo nasceu com o nome de Ankoku Butoh, ou dança das trevas, criado por Tatsumi Hijikata (9 de março de 1928 - 21 de janeiro de 1986) e Kazuo Ohno (27 de outubro de 1906- 1 de junho de 2010). O primeiro espetáculo, “Kinjiki”, “Cores Proibidas”, inspirado em livro de Yukio Mishima, teve como tema a homossexualidade e ocorreu em 1959.

O humanismo sem máscaras da estética do Butoh, que inclui reflexões sobre violência, amor, sexo, solidão e vida e morte exige uma entrega radical dos dançarinos-atores. Uma de suas premissas é o descondicionamento das cargas morais, mentais e emocionais que se refletem em “marcas” no corpo, nos gestos e expressões. Alinhado com a abordagem zen budista, o dançarino de Butoh deve buscar o vazio que permite o acesso a seu inconsciente, à sua historia e seu eu verdadeiros, bem como a percepção da impermanência.

Nascido como uma reação à ocidentalização do Japão recém liberado da invasão norte-americana do pós-guerra, o Butoh, paradoxalmente, buscou beber também das fontes do Oeste. Tanto Tatsumi Hijikata como Kazuo Ohno foram fortemente influenciados por escritores, artistas e movimentos europeus, contemporâneos ou não - a arte de Hijikata é tributária da obra de escritores como o Marquês de Sade e Lautréamont, que viveram nos séculos XVIII e XIX, respectivamente.
O surrealismo, o dadaísmo e o expressionismo, suas pinturas, esculturas e filmes (Metrópolis, Nosferatu...), escritores e personalidades como Antonin Artaud e Jean Genet forneceram uma referência poética e estética a nova arte, que exigia a mobilização de conteúdos que escapassem à norma. Na dança uma das maiores influências foi a dançarina e coreógrafa alemã Mary Wigman, com a qual Ohno estudou.
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15. Hexentanz (1929) Chor. Mary Wigman.avi

Metropolis - Dance Scene

quarta-feira, 21 de maio de 2014

DANÇA E ORGANICIDADE

A dança que transmite a intensificação da vida, e a presentificaçáo das sensações.
A dança orgânica necessita da escrita do corpo, de ouvir o corpo, como se todos os poros fossem ouvidos, trazendo intensidade e vivência. 
A pausa no repouso. 
A energia não corresponde necessariamente a movimentos no espaço. Quanto mais a dançarina busca intensidade e consciência, maior é a sua capacidade de ser a mensagem. Seus movimentos atingem diretamente o coração do público sem hermetismos.
A linguagem da dança é universal quando a técnica é um veículo e não um fim.


A dança pode ser pura e não arbitrária, pode ser abstrata e comunicar sem necessariamente narrar uma história.
A dança quer existir no presente.
A poética do efêmero, o que importa é a experiência coletiva de sonhar publicamente.

Bertolt Brecht ( 1898-1956) um dos maiores homens de teatro do século XX, dramaturgo, encenador e teórico, afirmou que o teatro que quer representar movimentos inconscientes da alma, ultrapassa o diálogo interpessoal.O diálogo se desautoriza, se desqualifica, por ser racional; é um tanto marginal para exprimir o inconsciente.
"Na medida em que o mundo anônimo, impessoal, é considerado de alta relevância na determinação do comportamento individual, é preciso ultrapassar o diálogo pela inclusão de recursos narrativos."
Existe uma linguagem secreta transmitida, que vai além das palavras e dos rótulos, que não pertence a catálogos, impossível de caber na prateleira do supermercado, intraduzível, que pertence ao reino das pessoas que ainda não estão presas ao que é dito de "fora pra dentro".
Gente que ainda investiga o mundo buscando suas próprias respostas.

Bibliografia
Rosenfeld, Anatol -A arte do teatro.
Brecht Bertolt - Na selva das Cidades.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

ARTE

arte



Ludwig van Beethoven 
Batizado em Bonn (Alemanha), em 17 de dezembro de 1770 — Viena (Áustria), 26 de março de 1827

Um dos maiores compositores da história, foi atormentado em toda sua vida por uma surdez progressiva sem diagnóstico definitivo.
Teria tido Beethoven a mesma genialidade que mostrou em suas sinfonias caso ele não tivesse hipoacusia e zumbido? Qual a influência que sua surdez teve sobre sua vida e obra?

Ele escreveu ao amigo e médico Franz Gerhard Wegeler em 21 de junho de 1801, quando tinha 31 anos de idade: 
"Você tem tido notícia da minha situação? Os meus ouvidos nos últimos 3 anos estão cada vez mais fracos, Frank o diretor do Hospital de Viena procurou retonificar o meu organismo com tônicos e meus ouvidos com óleo de Mandorle. Não houve nenhum efeito, a surdez ficou ainda pior. Depois um asno de um médico me aconselhou banhos frios o que me levou a ter dores fortes. Outro médico me aconselhou banhos rápidos no Danúbio, todavia a surdez persiste, as orelhas continuam a rosnar e estalar dia e noite. Te confesso que estou vivendo uma vida bem miserável. Há quase 2 anos me afastei de todas as atividades sociais, principalmente porque me é impossível dizer para as pessoas : Sou surdo !... Se minha profissão fosse outra, talvez poderia me adaptar à minha doença, mas no meu caso a surdez representa um terrível obstáculo. E se os meus inimigos vierem a saber ? O que falarão por aí? Para te dar uma ideia desta estranha surdez, no teatro eu tenho que me colocar pertíssimo da orquestra para entender as palavras dos atores e a uma certa distância não consigo ouvir os sons agudos dos instrumentos e do canto. Surpreendentemente, nas conversas com as pessoas muitos não notaram minha surdez, acreditam que eu sou distraído. Muitas vezes posso ouvir o som da voz mas não entendo as palavras, mas se alguém grita eu não suporto ! O doutor Vering me disse que certamente meu ouvido melhorará, se isso não for possível tenho momentos em que penso que sou a mais infeliz criatura de Deus.” 

Não há dados que possam estabelecer exatamente o início de sua surdez. Por alguns manuscritos de Beethoven parece que os sintomas se manifestaram quando tinha 26 anos (em 1796), ano no qual fez sua primeira turnê em Berlin, Dresda, Praga, Lipsia, Nuremberg e Budapest. 
Esta imprecisão se deve ao fato de que ele provavelmente não a percebeu ou não dava valor pois não foi súbita e por ser jovem e consciente de suas amplas capacidades artísticas e musicais, não esperava ficar surdo. 
Apesar de racional em suas escritas sobre a ineficácia dos tratamentos médicos sempre procurou esperança em novos tratamentos. 

Em 16 de novembro de 1801 o compositor escreveu novamente ao seu amigo Wegeler: 
..."quer saber como estou? E do que preciso? O doutor Vering me coloca torniquetes nos braços. Este tratamento é muito desagradável, à parte da dor, fico privado de usar o braço por 2 ou 3 dias. Devo confessar que o ruído nos ouvidos fica menor, principalmente no esquerdo onde começou a doença, mas a audição fica na mesma. Não gosto de trocar muito de médico, mas me parece que Vering seja um pouco empírico... O que você pensa do doutor Schmidt**? Parece ser um outro homem. Me contam maravilhas dele, O que você acha? Um médico me disse que viu em Berlin um menino surdo-mudo começar a ouvir e um homem surdo a sete anos se curar totalmente.” 

Mas mesmo o Dr. Schmidt, não fez nada mais do que aconselhar-lhe a vida no campo para proteger-se do nervosismo da cidade. 
Beethoven seguiu seus conselhos e no fim de abril de 1802 se transferiu a Heiligenstadt, pequeno e tranquilo subúrbio aos pés dos bosques de Viena. 
Isso o fez se concentrar por seis meses e atingir a plenitude de seus pensamentos musicais. E foi neste local que se encontrou, anos após sua morte, um manuscrito dentro de uma velha escrivaninha - seu testamento, que entre tantas dizia: 

“Para meus amigos e para aqueles que pensavam que eu era anti-social, distraído e ermitão, me julgaram mal. Vocês não conheceram a causa secreta disso tudo. Eu era atormentado de um mal sem esperança, piorado devido a médicos insensatos. Por anos fui enganado com esperanças de melhora e no final fui constrangido a aceitar a realidade de uma doença incurável. Nascido com um temperamento ardente e ativo e sensível às atrações da sociedade, tive que bem cedo me isolar e transcorrer a vida em solidão. Se às vezes tentava me esquecer, meu ouvido me trazia de volta à realidade. Não podia nem pedir para as pessoas : Falem mais alto, gritem, porque sou surdo ! Como poderia admitir uma doença na qual o sentido que para mim mais do que para ninguém deveria ser perfeito? Tive que viver sozinho e se estou com alguém fico com uma enorme ansiedade do medo de correr o risco de se notar a minha condição. Provei desta humilhação quando um aluno que estava ao meu lado ouvia o som de uma flauta e eu não, ouvia o canto de um pastor e eu nada. Quase coloquei fim à minha vida algumas vezes. Foi a música que me entreteve. Me parecia impossível abandonar este mundo antes de criar todas as óperas que sentia imperiosa necessidade de compor. Esta foi minha vida, angustiosa. Quando lerem estas linhas saberão que aqueles que de mim falaram, cometeram grande injustiça. Peçam ao Dr. Schmidt para descrever minha doença para que o mundo possa se reconciliar comigo, ao menos após minha morte.” 
(Ludwig van Beethoven, in Testamento de Heilingenstadt, a 6 de Outubro de 1802)

Este documento testemunha perfeitamente o drama psicológico do grande compositor e justifica plenamente sua involução de caráter. Todavia a surdez não interferiu de modo algum na sua veia criativa que terminou por expressar de modo sublime todo seu mundo interior, todos os sentimentos, todas as paixões, todas as emoções e cada percepção de sua alma e da natureza. 


O caráter do maestro, fechado, foi em parte reflexo de sua doença, mas é evidente que sua formação teve também influência de sua infância e adolescência.

Beethoven nasceu em 16 de dezembro de 1770 em Bonn, Alemanha. O pai era um tenor medíocre e com vício da bebida; sua mãe, Maria Madalena Keverich, já viúva de um camareiro da corte. era filha de um cozinheiro e tinha 19 anos quando ele nasceu. Sua infância foi rígida e triste. Como manifestou precocemente o talento para música, não tinha ainda 8 anos e seu pai, incapacitado de prever um gênio em formação e querendo desfrutar de lucros pessoais o apresentou como prodígio na Academia de Música de Colônia, mentindo sua idade para seis anos. 

Com 11 anos fazia parte da orquestra de Bonn e aos 13 era organista. O pai sem dúvida atrapalhou seu início de carreira obrigando-o a ganhar a vida. 

Com 22 anos deixou Bonn e foi para Viena, na Áustria, considerada capital da música. Foi em Viena que conquistou rapidamente a notoriedade e sucesso como concertista e compositor. 

Em 1814 veio o apogeu da vida musical de Beethoven quando no Congresso de Viena foi aclamado como o maior músico vivo. 

O Imperador Francisco I da Áustria (irmão da Princesa Leopoldina do Brasil) colocou a sua disposição dois salões em seu palácio em Viena e lhe deu a cidadania honorária de Viena. 

Mas foi neste momento também que a o agravamento de sua surdez o fez abandonar a carreira de concertista. 
Consultou vários médicos, inclusive o médico da corte de Viena.  Fez curativos, usou cornetas acústicas, realizou balneoterapia, mudou de ares; mas os seus ouvidos permaneciam arrolhados. Desesperado, entrou em profunda crise depressiva e pensou em suicidar-se.
"Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!"

Derradeiros anos
A culminância destes anos foi a Sinfonia nº 9 em Ré Menor, Op.125 (1822-1824), para muitos a sua maior obra-prima. Pela primeira vez é inserido um coral num movimento de uma sinfonia. O texto é uma adaptação do poema de Friedrich Schiller, "Ode à Alegria".

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

(Parte do verso da Ode à Alegria, de Friedrich Schiller, utilizado por Ludwig van Beethoven)

Beethoven recebeu a extrema unção na manhã do dia 24 de março, junto a ele estavam a mulher de seu irmão Johann e um jovem músico de Graz de nome Anselm Huettenbrenner vindo a ser dado como morto no dia 26 às 17:45. O jovem escultor Danhauser moldou sua máscara mortuária na manhã seguinte. 
Os funerais de Ludwig van Beethoven foram realizados no final do dia 29 de março de 1827 na igreja da rua Alserstrasse em Viena, Áustria. 
Viena lhe ofereceu todas as honras que lhe havia negado em vida. As escolas foram fechadas e naquele dia os vienenses tiveram a certeza de terem perdido algo de verdadeiramente grande; todavia a imensa e emocionada participação não resgatou aos olhos daqueles que o amaram profundamente, a longa indiferença ao músico nos últimos anos de sua triste existência. 
Seu devoto companheiro, Nikolaus Zmeskal, poucos dias depois escreveu a Therese von Brunsvik, mais que amiga do maestro: "A sua morte suscitou uma emoção da qual não se tem lembrança...” 
De vinte a trinta mil pessoas acompanharam o funeral. Os compositores mais ilustres entre os quais Franz Schubert (que morreu aos 31 anos 1 ano depois de Beethoven e foi enterrado ao lado dele) estavam ao lado de sua urna funerária.
Terminou assim a vida do Maestro, uma vida triste e solitária, não obstante os sucessos artísticos, atormentada nos últimos 30 anos por uma saúde precária e sobre tudo por uma surdez progressiva, angustiante, iniciada precocemente com zumbido e intrusões auditivas persecutórias que o foram excluindo gradualmente e inevitavelmente da vida em sociedade. 
*            *            *

DANÇAR A PRESENÇA

     Me sinto privilegiada por sentir. Sentir e perceber as mensagens do meu corpo.Ouvir quando é possível o incessante diálogo do corpo com a alma. 
     Não importa quando não compreendo a linguagem subterrânea das diferentes camadas e nuances que formam a síntese de mim mesma.
     Gostaria de ter olhos no meu interior, para dançar partes de mim que ainda não visitei.
     Quando escrevo sobre dançar a minha alma, criar um vocabulário próprio em cena, escrevo sobre esta necessidade de estar com a minha lanterna acesa, para quando entrar na caverna dos meus labirintos secretos, encontrar a luz e entendimento.
     " A dança afasta a prisão do Eu"
     Dançar  é necessidade da alma, para revelar a experiência do prazer de perceber coisas sobre o meu mundo, olhar o olhar de mim mesma e me  permitir olhar outras coisas.
    
"  A maior alegria é nos perdermos de nós mesmos por alguns instantes.O si mesmo não pode ser dito , porque ele é tão singular para cada si mesmo, que deveria haver uma palavra .Se você quer falar do si mesmo, você tem que inventar uma palavra  e é incomunicável.
 Dançar é um exercício de superação. "




"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas...