terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PAUSA NO REPOUSO/ DANÇA CONTEMPORÂNEA

" Pessoas que não tinham o direito de pensar, mas que acumulavam em seus corações, ventres e músculos a força que um dia subverteria o mundo." 1984 - Geroge Orwell Na ópera de pequim,todo o sistema codificado de movimentos do ator se baseia no princípio pelo qual cada movimento deve começar na direção oposta à qual se dirige. Todas as formas de composição de danças balinesas são construídas através da composição de uma série de oposições. Naõ gosto da assimetria do movimento linear. Me identifico quando estou equilibrada no desequilíbrio em cena, quando estudo estruturas de composições coreográficas que me façam surpresa. Criar uma partitura corporal com sequências coreográficas tendo as respostas do meu corpo, a partir das minhas experiêncais e do contato com o diferente e o estranho. Aprendi a aceitar a simplicidade contida na complexidade. " O mundo está confortável no desconforto" A resistência é a principal qualidade de um ator. Acreditamos e duvidamos ao mesmo tempo. Lembrei do livro 1984 do Gerge Orwell, sobre o duplipensamento, a capacidade de abrigar simultaneamente duas crenças opostas, é claro que no livro é pejorativo. Aplico aqui aqui para exercitar a beleza do torto, do "ponto fora da curva", outra expressão que foi usada para justificar o mal, mas que tomo emprestado para escrever sobre a beleza da assimetria, do tridimensional. Transcrevo aqui um texto interessante que tem uma definição sobre dança contemporânea, porque muita gente pensa que precisa dançar um estilo, ou seguir um modelo, uma forma," abrindo mão" de conhecer o seu próprio movimento e a sua voz. Defendo o aprendizado de uma técnica, da alfabetização do movimento, conhecer, espaço, ritmo, movimento, tempo, etc, desde que se conserve a identidade e a cultura e a história do corpo de cada um. "Mais que uma técnica específica, a dança contemporânea é uma coleção de sistemas e métodos desenvolvidos a partir da dança moderna e pós-moderna. O desenvolvimento da dança contemporânea foi paralelo, mas separado do desenvolvimento da New Dance na Inglaterra. Distinções podem ser feitas entre a dança contemporânea estadunidense, canadense e européia. A dança contemporânea não se define em técnicas ou movimentos específicos, pois o intérprete/bailarino ganha autonomia para construir suas próprias partituras coreográficas a partir de métodos e procedimentos de pesquisa como: improvisação, contato-improvisação, método Laban, técnica de release, Body Mind Centery (BMC), Alvin Nikolai. Esses métodos trazem instrumentos para que o intérprete crie suas composições a partir de temas relacionados a questões políticas, sociais, culturais, autobiográficas, comportamentais e cotidianas, como também a fisiologia e a anatomia do corpo. Aliado a isso, viu-se a necessidade da pesquisa teórica para complementação da prática. O corpo na dança contemporânea é construído na maioria das vezes a partir de técnicas somáticas, que trazem o trabalho da conscientização do corpo e do movimento, como a técnica Alexander, Feldenkrais, eutonia, Klauss Vianna (Brasil), dentre outras"

" A CONSEQUÊNCIA DO DESTINO É AMAR"

O meu corpo comprimido,fechado e com os punhos fechados, a cabeça encostada no chão. Dancei no solo, plano baixo. Dancei a opressão e deixei o meu corpo falar. Os movimentos bruscos brigavam com o chão, com transferências de peso.Meu corpo acessou memórias desconhecidas e num certo momento meu corpo entrou numa vivência muito profunda, me trancando no porão. O corpo é um mistério. A emoção explodiu dentro do corpo, era como se toda a minha musculatura estivesse querendo sair,ampliar. Angustiada por dentro e morta por fora, o corpo se negava a voar. Tenho muitas camadas. Precisei caminhar por minhas retas, curvas, transcender o concreto armado, e me encontrar na assimetria diante do espaço vazio e da aridez do deserto que é algum espaço meu ainda inefável, inominável. Sair da "secura" do "Ser" e penetrar na poesia das árvores e do céu de minha Brasília. Coloquei meu corpo à disposição da grande experiência de dançar opressão, para merecer liberdade. Dancei num segundo momento alegria, força e sensações de brilho e trasncendência. Muita coisa acendeu dentro de mim, cheguei e dancei com Deus. No final da dança eu encontrei o olhar dos meu amigos da Biodança, atônitos, maravilhados com as imensas possibilidades de renascimento em vida. Amigos estudantes das lições do nosso grande mestre, o nosso corpo. Agradeço à minha facilitadora de Biodança Neusa Ribacionka e aos meus amigos. Quando pensei que o meu momento de plenitude tinha acabado, ao som de Maria, Maria do Milton Nascimento me colocaram no colo! Dançar nos palcos da vida e dançar a minha vida, me salvaram da morte. Esta semana o meu grande amor quase morreu, por complicações no estômago, eu vi a "cara da morte e ela estava viva", como dizia o Cazuza. Primeiro, a vida me ofereceu de bandeja a oportunidade de nascer, na outra semana lutei para ajudar o meu companheiro a seguir vivo ao meu lado. A vida! Seus ciclos, repletos de amigos, família, flores , dores e sabores. Felicidade é estar vivo, inteiro e integrado ao grande mar de mistério que somos nós, os outros e o universo. Para mim isso é Deus, uma grande consciência cósmica, um acontecimento.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

IV FESTIVAL DE DANÇA SOLIDÁRIA BRASÍLIA

O IV Festival de Dança Solidária de Brasília, cujo ingresso é uma lata de leite em pó , foi criado para ajudar o trabalho assistencial da instituição, Multirão Chico Xavier. Sua realização acontece sempre no primeiro domingo de dezembro (este ano será dia 07/12) e será realizado no Complexo Cultural da República-Museu Honestino Guimarães, reúne dezenas de artistas, grupos, escolas e academias de dança de Brasília, com a maioria dos integrantes pertencentes a grupos de dança da melhor idade e portadores de necessidades especiais e companhias de dança de Brasília.. O Mutirão Chico Xavier é uma obra assistencial que nasceu no âmbito do Sanatório Espírita de Brasília em 2002, sendo fruto do esforço de um grupo de pessoas que, imbuídas do sentimento Cristão, colocou em prática o propósito de auxiliar famílias carentes a superarem seus próprios desafios. O Mutirão Chico Xavier acontece pela dedicação de uma centena de voluntários e artistas da dança que, por meio de ações de solidariedade, contribuem para amenizar as dificuldades de natureza material, moral e psicológica de famílias necessitadas moradoras da periferia de Brasília e entorno do Distrito Federal. Agradecemos aos grupos que participam desta edição: Companhia Atmos, Oficina Flamenca , Grupo de dança Especial, Las Ninfas, Danzare, Caminhos do vento,César e Vera Vasconcelos, Sonia Bichara, e Lucas Bichara, Helena Muniz, Divas Dance, Sarah Matins Janson Damasceno,Warley, Eduardo Landivar — com Sandra Helena.

domingo, 16 de novembro de 2014

DANÇA DAS OPOSIÇÕES

A dança das oposições. Um dos princípios que incorporei ao meu treinamento pessoal. Tomei emprestado nas técnicas de dança do oriente. O exercício consiste em começar um exercício sempre em oposição à trajetória final. Portanto, o movimento nunca é linear e previsível e as possibilidades de ampliação do repertório de gestos é infinita. Interessante é que essa possibilidade surgiu da minha experiência de estudar danças codificadas e sistematisadas e codificadas não existindo improvisação. São movimentos assimétricos e tridimensionais. Entrar em contato com este treinamento, foi justamente o excesso de organização, disciplina e rigidez que me libertou.Para voar precisei criar raizes. Hoje meu movimento é livre, improvisado e orgânico, assimétrico, não linear e preciso. Para aceitar o caos busquei a ordem. O caminho pode ficar muito rico e profundo quando é permitido iniciar um movimento onde o ponto de partida é totalmente oposto ao ponto de chegada. A liberdade de me divertir com a trajetória e o inusitado, sem me preocupar com o ponto final.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

" O CORPO COMO VEÍCULO DE LINGUAGEM"

A pesquisa realizada por mim para o *Espetáculo de Dança Baraka* é a desmonstração de uma técnica baseada em elementos da dança clássica indiana e continua causando forte impacto no público que tem me prestigiado desde a estréia, em setembro/2011. A força das imagens reveladas pelo meu corpo em cena e a plasticidade dos movimentos promovem diálogo profundo com os expectadores, derrubando as fronteiras entre palco e platéia, relações de consumo e entretenimento. É arte que resgata a força do ser humano. Não há em cena nenhum artefato ou elemento da linguagem visual – como cenografia, iluminação ou efeitos especiais, no caso, desnecessários. Há apenas a dançarina e a dança. Na minha opinião, uma apresentação perfeita acontece quando a dança se sobrepõe à dançarina. Gostaria de revelar um aspecto da minha pesquisa muito comentada por mim e pouco compreendida. Durante algum tempo escrevi textos sobre meus estudos sobre dança clássica indiana. Mas, quantas pessoas conhecem a dança clássica indiana? Pequena minoria. E a criação de uma linguagem própria? E, a que “linguagem própria” me refiro? O corpo continua sendo um ilustre desconhecido para as pessoas e, a dança, com o tempo, foi passando por um processo de “elitização” e difusão de técnicas que só aumentam o seu hermetismo. O resultado é a perda e do público não “iniciado”. Pensei em criar um método para ensinar dança, onde a técnica e a vivência da dança, com prazer e organicidade, fossem o veículo para sua compreensão e sentido. Na tarefa de construir sentido nessa linguagem, comecei a pautar as aulas. Sobre a minha experiência como professora de dança e teatro, uma das minhas fontes de pesquisa é o efeito da dança na vida das pessoas. Dou aulas para alunos da rede pública de Brasília, atuo como coreógrafa e preparadora corporal de pessoas de várias faixas etárias, pertencentes a todas as classes sociais. Com o tempo percebi nos alunos a carência do contato com o próprio corpo. Na avidez por ter acesso a esse conhecimento e o encantamento pela vida que as minhas aulas estimulam, percebo que muitos alunos(as) reencontram o riso e o prazer. Infelizmente, a escola proporciona pouca vivência com o corpo. Temos a educação fisica, que nem sempre cria espaço para a expressão poética do ser. A escola formal que existe hoje praticamente suprimiu o ensino da dança como linguagem. São raras as iniciativas e, quando existem são isoladas. Recentemente o governo aprovou uma Lei que regulamenta o ensino da música nas escolas públicas em Brasília. Mas, eu continuo perguntando: quando é que o corpo terá o * status* de matéria curricular? Não me refiro ao estudo do corpo como objeto de estudo em várias disciplinas. Falo da experiência do “contato real” do indivíduo com seu próprio o corpo, suas emoções, prazer e a vivência que constrói o conhecimento holístico. Uma possibilidade de retomar a razão e a emoção. O estudo do “todo”, já que “tudo” começa com o corpo. Historiadores, antropólogos e profissionais de outras áreas do conhecimento já ensinaram que “o gesto antecede a fala”, que “o corpo fala” e que 70% da nossa linguagem ou comunicação começam com a nossa linguagem corporal. No cérebro humano, os hemisférios esquerdo e direito, são os responsáveis e nos conduzem ao entendimento e percepção do mundo. Temos de estimular os dois hemisférios constantemente, sempre. O ocidente negou o corpo e até o considerou perigoso. Por isso, o momento é de devolver a capacidade de integrar *Corpo, Mente & Alma*. Pensar e agir no mundo com emoção. Precisamos – é necessário – retomar um modelo de alfabetização e ensino que entenda, priorize e contemple o corpo como veículo de linguagem.

Dançar

Estudo atualmente as possibilidades do corpo para criar uma dança sutil para todos, independente da idade, classe social e nível de escolaridade. Dança iniciática, cujo objetivo principal é sentir "verdadeiramente" o corpo vivo e o coração pulsar. Apenas o movimento natural da vida. Muitas pesquisas foram realizadas sobre os efeitos da dança e dos movimentos livres. O paradoxo é que sabemos que faz bem, no entanto, poucos querem sair da "zona de conforto". A Idade Média já passou e ainda precisamos comprovar a importância do profundo contato interior. A todo instante, seja através de um gesto sincero, ouvindo uma música ou percebendo integralmente nossa própria presença. Dançar é para todos, não para uma minoria de privilegiados. Precisamos sentir nossos pés se deslocando para encontrar o nosso chão, nossa terra, o território do coração. Precisamos tocar outras mãos, perceber nosso corpo girando e cortando o espaço, girando sem parar até perdermos a noção do tempo. É muito simples, até necessário vez ou outra parar de racionalizar tudo. Sair do "controle" – do "comando" – para então ouvir o ritmo da vida nos levando para espaços desconhecidos e novos. É urgente sentir emoção, chorar, sorrir, rir e gargalhar quando o prazer nos deixar extasiados de amor e vontade de gritar. É fácil: é simplesmente "Ser". Sentir a própria energia. Conectar com o mais íntimo da alma. Olhar nosso próprio labirinto para iluminar nossa caminhada. Quando danço me sinto assim, integrada ao "todo". Percebo que sou um "Ser" simples, integral, que faz parte da "multidão". Minha impressão é que, atualmente, esse culto exagerado à "celebridade" e a necessidade exagerada de tornar pública a intimidade para o mundo através de redes sociais, é o vazio provocado pela ausência de si mesmo. O indivíduo que está integrado "aparece" naturalmente, porque age no mundo e é protagonista de sua própria vida. Escrevo no meu blog sobre minha relação com a dança e como ela pode melhorar a vida de qualquer pessoa, inclusive daqueles (daquelas) que também são dançarinos/dançarinas profissionais. Fazemos parte de uma teia – e assim vamos tecendo nossas vidas e sonhos. Poesia deveria compor o cardápio da mesa ao amanhecer. Todos os dias.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

MARIA

pesquisa de linguagem corporal e técnica para a criação de uma metodologia de trabalho ; visa a simbiose entre história , dança e arquitetura. A história como elemento narrativo da dança. O corpo é um texto e tem memória. Para criar possibilidades, matrizes para a realização de montagem de espetáculo ou performance. Eu acredito que vou ter que interromper minha prática e pesquisa pessoal e agregá-la a um mestrado. Só assim, vou ter condições "dignas" para pesquisar, para cuidar do meu processo de criação. Patrocínio é muito complicado e exige resultados rápidos., apesar de não desistir nunca de tentar.Aqui em Brasília o principal órgão que patrocina os artistas, geralmente no edital dá o prazo de um ano para a execução de um projeto. precisamos de um edital que contemple a pesquisa, demonstração de trabalho, publicações e multiplicação dos métodos reelaborados. O Fomento à intercâmbios de técnicas, ampliar as fronteiras. . Em meu processo pessoal de pesquisa estudei a cultura Indiana e através do estudo da dança clássica Indiana desenvolvi uma metodologia baseada no universo simbólico dessa cultura. Realizei estudos , publico textos em revistas e nesse blog , além de contribuir para a pesquisa em dança em Brasília, através da demonstração do meu processo de montagem e espetáculos . Pensar o movimento e fazer com que ele seja presente e verdadeiro, essa é a principal característica da dança de Maria, é a investigação que consiste na resolução da equação pensamento, ação e espírito, como podem ser expressados em uma única manifestação.Portanto, um caminho é expor a transparência da busca através do Registro do movimento , de vídeo, fotografia e catálogos expondo todo o processo percorrido, intercâmbio de técnicas com outros bailarinos e outras culturas .Nesse novo projeto o ponto de partida é o particular para o universal, dançar a relação com a cidade , além da história da cidade, um convite à memória . A proposta também de um projeto sólido de pesquisa em dança, que seja uma politica de difusão e compartilhamento do processo de criação, contribuir na formação de plateia e no diálogo com as tendências da dança contemporânea, que muitas vezes é considerada hermética. O acesso a linguagem da dança, de maneira acessível para todos os públicos,para que que o dançarino ou ator iniciante tenha acesso ao que já foi feito e pensado,um arquivo público,a doação do resultado em escolas e a realização do espetáculo em comunidades sem acesso à espetáculos de dança através de livros, fotografias,vídeos, aulas espetáculos, intervenções urbanas. estabelecendo a integração da dança com a arquitetura e corpo e memória.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

DANÇA & NATUREZA - O EQUILÍBRIO INTERIOR DE CADA UM

Mesmo que você não perceba, sua mente e seu corpo percebem e reagem a qualquer manifestação exterior. Até aí, nada de novo. Mas, na corrida tresloucada que rege nossas vidas, a percepção do espaço que nos rodeia quase sempre nos passa despercebida. Se o óbvio não é percebido, como poderemos notar verdadeiramente as sutilezas? Como viver a plenitude dos momentos, a beleza da natureza e das pessoas? A nossa própria beleza? Como ser mais natural e equilibrado? Nada místico nem compreensível só para alguns “iluminados” ou “iniciados”. Não, nada disso. Me refiro aos detalhes do nosso cotidiano, que “olhamos” mas não “vemos” nem “vivemos”. O foco de nossa atenção está direcionado quase sempre para o trabalho, as tarefas diárias, a “obrigação”. Implacável, a mídia nos apresenta os fatos ao vivo. A qualquer hora, dia e noite, vemos e sabemos sobre tudo. O bem e o mal. A “roda da vida” gira sem parar. O homem do século XXI, isolado, mas globalizado em frente ao computador, sufocado pelo lixo e poluição das metrópoles congestionadas, contraria cada vez mais a natureza, o óbvio. Semeia, colhe hoje e colherá amanhã o inimaginável. Caminhamos todos para o caos, como bois para o abate? Torna-se urgente entender o óbvio. Compreender os “sinais” mais simples da natureza é imperioso. Nossos corpos e mentes precisam (re) descobrir a harmonia que existe em nós mesmos. POESIA CORPÓREA – Essa é minha principal busca na vida e, em cena, o convite que faço a todos por meio da investigação dos princípios do Bharatanatyam, estilo de dança clássica indiana. Vamos perceber – garanto que não é difícil – a relação da metafísica dos gestos com a natureza. Vivenciemos a beleza dos Hastas (gestos das mãos) que significam flores e animais. Gestos codificados e sistematizados há milênios, que simbolizam a natureza humana e dos deuses. O convite se estende à pesquisa sobre os elementos da natureza e a construção simbólica de uma gestualidade integrada ao divino de cada um. O exercício de não ser “embalsamado” pelo vulgar, dançar o Apolíneo e o Dionisíaco. Integrar o espírito, ser todo, completo, único e verdadeiro. É possível e prazeroso criar o próprio método de análise – e praticar – uma coreografia corpórea baseada nas árvores, paisagens, elementos da natureza (água, terra, fogo, ar) ou nas estações do ano – os ciclos. É saudável elaborar um vocabulário simbólico para o corpo. Talvez, negar o óbvio. Podemos e devemos estimular – vivenciar – nossa energia individual, corporificando-a e conservando-a qualquer que seja a intenção. O entendimento do todo explica o uso de determinada gestualidade ou dança. A energia é pessoal, vista sob determinada perspectiva e concretizada por ritmo próprio. Geometria sagrada e proporção áurea na dança: danças menos lineares. Tridimensionalidade, reconstrução de fluxos e refluxos. Deslocamentos energéticos baseados em padrões da natureza. As propriedades matemáticas das espirais. A importância do assimétrico. Uma oportunidade de equilíbrio que podemos oferecer a nós mesmos é a criação de uma dança pessoal, onde cada um de nós possa manifestar seu próprio vocabulário gestual e simbólico. Sua própria dramaturgia e verdade na dança da vida. A natureza é um grande palco. Entre na dança!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"ARTE COMO VEÍCULO"

(...)Meu último espetáculo, como diretor de teatro, é intitulado ‘Apocalypsis cum figuris’. Foi criado em 1969 e suas representações terminaram em 1980. Desde então eu não fiz nenhum espetáculo. ‘Ação’ não é um espetáculo. Não pertence ao domínio de arte como apresentação. É uma obra criada no campo de arte como veículo. É concebida para estruturar, em um material ligado às artes cênicas, o trabalho em si dos fazedores (doers). Testemunhas, observadores de fora, podem estar presentes ou não. Depende de várias condições que, sob circunstâncias diferentes, esta abordagem exige. Quando eu falo de arte como veículo, eu me refiro à verticalidade. Verticalidade- nós podemos ver este fenômeno em categorias de energia: energias pesadas mas orgânicas (ligadas a forças vitais, a instintos, a sensualidade) e outras energias, mais sutis. A questão da verticalidade quer dizer passar de um nível, por assim dizer, grosseiro, em um certo senso, poderíamos dizer um “nível cotidiano”, para um nível de energia mais sutil ou até mesmo para a conexão mais elevada. Eu simplesmente indico a passagem, a direção. Aqui, há outra passagem: se alguém se aproxima da conexão mais elevada—quer dizer, falando em termos de energia, se a pessoa chega a energia muito mais sutil—então também há a questão da descida, trazendo este algo mais sutil para a realidade mais comum que é ligada à densidade do corpo. (...) Em relação à verticalidade a questão é não renunciar a partes de nossa natureza—tudo deve reter seu lugar natural: o corpo, o coração, a cabeça, aquilo que está “debaixo de nossos pés” e aquilo que está “sobre a cabeça.” Tudo como uma linha vertical, e esta verticalidade deveria acontecer entre a organicidade e o estado de atenção - estado de atenção quer dizer a consciência que não está ligada à linguagem (a máquina de pensar), mas à Presença. (...) O que uma pessoa pode transmitir? Como e para quem transmitir? Estas são questões que toda pessoa que é herdeira de uma tradição se coloca, porque essa pessoa herda também, de certa forma, o dever transmitir aquilo que recebeu para si. Que participação tem a pesquisa em uma tradição? (...) Uma vertente do Budismo Tibetano diz que uma tradição pode viver se a nova geração for um quinto além da geração precedente, sem esquecer ou destruir suas descobertas. (...) No campo de arte como veículo, se eu considerar o trabalho de Thomas Richards em ‘Action’, com as antigas canções vibratórias e com todo este vasto terreno que liga a tradição que ocupa as pesquisas aqui, eu observo que a nova geração já avançou em relação à precedente. Texto sem nome por Jerzy Grotowski, Pontedera, Itália, 4 de julho, 1998, de acordo com o desejo de Jerzy Grotowski este texto foi publicado postumamente:[1]

DANÇAR A EXPERIÊNCIA DE SER

Escutar a vida. O percurso para encontrar a integração do agir, sentir e pensar que está relacionado ao processo de descoberta dos próprios potenciais. A dança é o meu canal de integração, quando estou dançando sinto que faço parte de tudo,vibração, percepção e presença. tenho a oportunidade de encontrar o processo para desenvolver no meu corpo as minhas possibilidades. " Penso logo existo"? Nem sempre. Prefiro sentir, pensar e agir, não necessariamente nesta ordem. Os três centros dificilmente funcionam simultaneamente. Uma pessoa pode ter a ação e não ter a capacidade de sentir e vivenciar as suas emoções, pensar e não agir. " A arte pode ser um veículo". Interessa buscar o caminho do sublime. Não estou escrevendo sobre a política do "pão e circo" ou de qualquer arte produzida pela humanidade de todos os tempos. Não escrevo sobre a necessidade de consumir arte. Escrevo sobre a arte que inspira, transpira sentimento e cria experiência e vivência. Todo artista busca esta simbiose, para que a sua arte seja uma experiência profunda na vida de alguém. Arte deveria intermediar as relações de maneira simbiótica. A metafísica da arte que produz atmosfera e nos devolve o sentido, os símbolos e a resposta da vida para as questões que a filosofia, a religião a psicologia, a ciência e todo o saber epistemológico tentam nos responder. Eu consigo encontrar as minhas respostas, mesmo sabendo que mesmo sentindo o"colo" da arte, voltarei ao vazio, mas nunca serei a mesma, toda experiência cria sabedoria e potencializa nossa identidade. Experimento poética no meu corpo através da dança, da música, do teatro, enfim qualquer vivência que permita a pausa, o silêncio, sair de mim mesma, algo que me devolva o fogo e a vontade de estar viva. Preciso investigar mais, porque toda resposta passa a ter sentido quando a pergunta surge da minha antítese, da minha complexidade e vontade de encontrar o meu lugar no mundo, que muda constantemente. Ritos, tambores, risos e encontro a minha individualidade celebrando a coletividade, o particular e o universal. Identidade e diversidade, como princípio para ampliar a capacidade de me sentir incluída e fazendo parte da espécie humana. Eu acredito que muitas crises na humanidade vêm desta sensação de não pertencimento, de estranhamento, de se sentir estrangeiro, "um ponto fora da curva". Entendo arte como o processo de busca, pergunta e da necessidade de mostrar o óbvio, o cotidiano e a natureza humana e resignificar através de novas formas, novos olhares. A resposta vem do corpo, da alma, da vivência, do encontro com mestres da dança, do teatro, da filosofia, da espiritualidade e do mestre que está dentro de cada um. O mundo contemporâneo nos "roubou" a privacidade.No entanto todo ser é sozinho. Uma planta nasce sozinha em silêncio,com o tempo, nascem outras singularidades para construir o todo. Somos todos canais e mestres uns dos outros.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

CAMINHAR

Participei de uma aula de Biodança,(Segundo pesquisas, a Biodança é um sistema afetivo e desenvolvimento humano fundamentado em intensas experiências no “aqui e agora” criadas por meios dos movimentos de dança com músicas específicas, compatíveis em encontros não-verbais, focados em olhares e toques físicos. Essa sistemática foi criada na década de 60 pelo antropólogo e psicólogo chileno Rolando Toro Araneda( 1924-2010) e está presente em diversos países da América Latina, Europa, Canadá, Japão e África do Sul até os dias atuais). Aula com a facilitadora Neusa Ribacionka. A proposta da aula era para dar atenção às pernas.Experimentamos maneiras diferenciadas durante o caminhar, utilizando vários planos altos, médios e baixos, dialogando com o espaço.Vivenciamos também sensações, através da nossa imaginação, por exemplo caminhar na praia com a água batendo no joelho, na areia quente, na grama, andar na selva, criar movimentos de oposição, obstáculos durante a realização da trajetória.Eu imaginei galhos, folhas, abismos, animais predadores impedindo o meu caminhar.Quando finalizei a sequência coreográfica, observei que não havia parado nenhuma vez. Percebi que muitas vezes interrompia o meu movimento nos primeiros obstáculos, nos primeiros desafios, para depois repetir novamente. tantas vezes refiz esse exercício que o movimento com o tempo ganhou fluidez e a sequência passou a ser contínua, sem interrupções e os obstáculos foram totalmente incorporados à minha gestualidade. O corpo ensina muito sobre como estamos dialogando com a vida.Inúmeras vezes fiz exercício de caminhar e só agora me olhei de forma diferente. Não sou mais a mesma, posso caminhar apesar dos obstáculos criados por mim ou pelas circunstâncias do instante vivido. Finalizamos a aula caminhando como reis e rainhas e abençoando nossos pés. Muitas pessoas escolhem caminhar por terras sagradas, montanhas, florestas para se encontrar ou se perder. Eu acredito no processo de caminhar para dentro de si mesmo, para encontrar luz, amor, verdade e o entendimento da própria caminhada. Dar significado à nossa presença no mundo. O meu mestre é o meu corpo. Lembrei de Heráclito,(aprox. 535 a.C. - 475 a.C.) filósofo pré-socrático, que no século VI A.C. dizia que não entramos duas vezes no mesmo rio. Não entramos duas vezes no mesmo rio,nem o rio é o mesmo,muito menos nós.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

PESO E LEVEZA

Planejar formas, espaços e proporções no meu corpo. A questão é como resolver o conflito entre sair do limite e ir para um lugar seguro. Dançar todos os dias, nem que seja em pensamento, a riqueza de me sentir viva e agradecendo a Deus. Estou em plena mutação. O projeto Baraka era uma imersão no universo simbólico do corpo e da expressão do sagrado, baseada em técnicas do estilo de dança Clássica Indiana Bharatanatyam. O resultado desta pesquisa foi a montagem do espetáculo BARAKA, com programa contendo técnicas pesquisadas. O meu novo projeto é a continuidade do meu processo de pesquisa .Pretendo ampliar o intercâmbio de técnicas com um bailarino de balé clássico e o diálogo com a escultura e a arquitetura. No estilo Bharatanatyam,o meu treinamento corporal exigia usar a gravidade a meu favor. Não sei se todos os bailarinos de dança Clássica indiana pensam assim, mas foi a maneira que encontrei para dar sentido àquela elaborada técnica que me exigia compreender um corpo equilibrado no desequilíbrio, numa forma tridimensional, sem espaço para improvisação, e o movimento linear. Dança que predominava o elemento terra, e a grande beleza nos detalhes. O treinamento utiliza todas as partes do corpo fragmentado para dançar o corpo por inteiro. Não pretendia dominar a técnica e ser uma bailarina de dança clássica Indiana, o meu objetivo é ter uma base técnica para criar a minha técnica pessoal. Ter o domínio do meu processo de pesquisa e a criação dos meus espetáculos. Nesta nova proposta ainda estou pesquisando o movimento leve, o elemento ar como base.Acrescentar delicadeza na força, linhas expressivas, plasticidade nos movimentos, estudo a trajetoria dos meus movimentos, livres, ousados, sem couraça, de dentro pra fora.Enfim me danço no espaço. Eu sei que quando começar o intercâmbio com o bailarino e as outras linguagens, vou reconstruir o meu norte, criar novas regras e levar o meu corpo para outras paisagens, novas intervenções, novos paradigmas.Sou feita de interrogações. preciso entender a minha insatisfação e a necessidade de continuar buscando a minha verdade em cena. Hoje minhas mestras são as árvores. Ando pela cidade, observando árvores, e criando coreografias a partir delas.Observo também a minha sensação e a relação com os espaços,curvas, retas e as espirais contidas nos edifícios,e quando sinto e observo leveza e menos rigidez neles, parece que dançam sobre o asfalto.Observo o balé das nuvens do céu de Brasília e as formas. Estou experimentando novamente a sensação de não saber o caminho, de voltar a me transformar em vários estados da matéria. Posso ser sólida, líquida e gasosa. No momento me sinto vaporizada diante da seca de Brasília. Quero que me leiam pela emoção, sem legenda. Escolhi o corpo como matéria prima de crescimento. Posso transformar peso em leveza, desafiar a gravidade e o tempo. "Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do corpo."

domingo, 31 de agosto de 2014

O PROCESSO E O BELO

A certa altura de uma das entrevistas mais fascinantes desta coletânea, o crítico inglês David Sylvester, após ouvir de Richard Serra detalhes sobre os desafios técnicos que enfrentou para elaborar as Torqued Ellipses, declara-se impressionado com a beleza das peças. O escultor então responde que não está interessado nesse tipo de qualificação, e sim no grau de inclinação das obras. Seu interlocutor persiste no assunto, dizendo que todo artista é como um gato concentrado na caça, alheio a tudo que o desvie de seu objetivo e, portanto, despreocupado com a aparência de seus movimentos. Segundo o crítico, são os outros que veem beleza no que ele faz. Do manifesto "Lista de verbos, 1967-1968" (1971) ao texto "Desenhos para o Courtauld" (2013), Richard Serra se apresenta como alguém interessado mais no fazer do que nos resultados. Ao longo de cinco décadas de produção, seus depoimentos enfatizam a busca por resultados imprevisíveis, capazes de apontar novos caminhos para a escultura e para o desenho. Em outra passagem notável, ao comparar os trabalhos tardios de Matisse e Picasso, Serra explica sua preferência pelo primeiro. Matisse, quando acamado, teria reinventado a maneira de delimitar a forma com seus recortes de papel, enquanto Picasso, seduzido pelo próprio talento, teria abandonado a experimentação. Richard Serra faz parte de uma geração que se formou no ambiente estimulante das universidades norte-americanas do pós-guerra, e para a qual a escrita foi uma prática constante, uma maneira de fomentar o debate crítico em torno das obras. Os textos aqui reunidos foram selecionados a partir das coletâneas Richard Serra: Writings, Interviews¹ e Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008)² e de depoimentos recentes publicados em catálogos e pequenas edições. Eles abordam momentos-chave da trajetória de um dos principais protagonistas da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Uma das razões de Richard Serra ser influente há tanto tempo é sua capacidade de periodicamente surpreender o público e a crítica com novas pesquisas derivadas de seu próprio fazer ? "o trabalho vem do trabalho", ele costuma dizer ? e de uma relação dialética com a história da arte e a contemporaneidade. É sobretudo nas entrevistas que ele expõe os desdobramentos internos de uma obra à outra, o processo que o levou das Splashs e Castings às peças apoiadas (Props) e, destas, à criação das esculturas site-specific. Em mais de um depoimento, o artista aborda a relação independente, porém implicada, entre seus desenhos e suas esculturas ? o desenho é um meio privilegiado para a reinvenção de procedimentos e, ao mesmo tempo, uma parte integrante das esculturas, com os limites definidos pelo corte funcionando como linhas. As conversas com David Sylvester e Kynaston McShine abordam o processo de elaboração das esculturas de grande porte realizadas a partir da década de 1990. Elas não são mais site-specific; são espaços fechados que têm o poder de desorientar o sentido de ortogonalidade, lançando o espectador numa espécie de vertigem, ou, em certos casos, numa sensação de imprevisibilidade semelhante à experiência a que o próprio artista se propõe em sua prática. Os depoimentos revelam também fracassos e momentos de crise, histórias de projetos rejeitados por arquitetos e instituições e também pelos espectadores, além de brigas públicas em defesa de obras e ideias. As narrativas acabam por enfocar não apenas a trajetória de Richard Serra, mas conceitos e questões fundamentais da arte recente. Textos como "Shift" (1973) e "Saint John's Rotary Arc" (1980) trazem análises acuradas das condições para a instalação de esculturas numa paisagem natural e num espaço urbano de grande circulação, respectivamente, de modo que se compreenda, no caso de Serra, de que maneira a forma responde em certa medida ao contexto, para depois revelá-lo, incluí-lo e modificá-lo. Shift e Saint John's Rotary Arc são obras que representam o avesso da ideia de cubo branco e foram realizadas num momento em que a busca por uma interação mais concreta entre a arte e a vida era uma das principais pautas artísticas em debate. Em Yale e na cena cultural nova-iorquina dos anos 1970, Serra teve contato com alguns dos personagens mais importantes da segunda metade do século XX. Seus encontros com Josef Albers, Robert Rauschenberg, Philip Guston, Jasper Johns, Donald Judd, Robert Smithson, Philip Glass, John Cage e Merce Cunningham resultam em relatos saborosos e revelam aspectos centrais de sua formação. Mas as referências vão muito além da arte contemporânea ou dos movimentos com os quais sua obra tem uma conexão mais direta. O artista surpreende ao citar seu interesse, nos anos 1960 e 1970, pela ação da gravidade nas obras de Claes Oldenburg, ou ao relatar seu aprendizado sobre a integração da pintura à arquitetura com os muralistas mexicanos. O minimalismo é apresentado como uma fonte, mas também como um movimento ao qual foi preciso se contrapor. Brancusi, Velázquez, Borromini, Cézanne, Pollock, Flavin, Picasso, Matisse, Le Corbusier e os jardins zen de Kyoto foram absorvidos de uma maneira muito particular, filtrados pelos interesses que motivam o próprio trabalho de Serra. Parece haver uma correspondência entre a materialidade explícita das obras de Richard Serra e o estilo franco de suas palavras. Nas duas instâncias, o artista se afasta de qualquer metafísica. Suas reflexões sobre o espaço como conteúdo da obra, sobre a ação da gravidade, sobre os limites das formas e dos materiais estão associadas a experiências físicas e ao enfrentamento de problemas concretos. Seus escritos revelam-se uma parte constitutiva de seu processo de trabalho, veículos de ideias que se materializam em ações. ¹ SERRA, Richard. Richard Serra: Writings, Interviews. Chicago/Londres: The University of Chicago Press, 1994. ² Idem. Richard Serra: escritos y entrevistas (1972-2008). Navarra: Universidad Pública de Navarra, 2010. Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS. desenhos, matisse, picasso, richard serra, david sylvester, esculturas Este texto de Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS, é a apresentação do livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, que será lançado em 29 de maio no IMS-RJ na abertura, para convidados, da exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, com a presença do artista.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

BUTOH

Conhecidos mundialmente como os criadores da dança Butoh, Tatsumi Hijikata (09 de março de 1928 - 21 de janeiro de 1986), Kazuo Ohno ( 27 de outubro de 1906 - 1 de junho de 2010) nasceu em Hakodate, Hokkaido-Japão, partiu para o caminho da dança quando em 1929 viu pela primeira vez, em Tóquio, a bailarina espanhola, nascida na Argentina, Antônia Mercé ( La Argentina ) que o envolveu por completo, dando-lhe as primeiras impressões do renascimento da dança espanhola, e impulsionou Ohno a estudar a moderna técnica de dança de Mary Wigman, coreógrafa expressionista alemã. Tatsumi Hijikata, criou e desenvolveu ações teatrais, performáticas, na década de 40, quando o Japão do pós-guerra sofria uma invasão cultural por parte do ocidente. Foi em bares, boates, cabarés e pelas ruas do submundo de Tóquio que Hijikata dava início ao que nos anos 60, essa forma marginal de expressão, como era considerada, passara a ser chamada de Ankoku Butoh, dança das trevas. Hoje simplesmente Butoh. Essa forma de expressão nascida literalmente na sarjeta, retomou tradições antigas do Japão, técnicas de dança ocidental e, antes de tudo, a idéia quase esquecida de que o dançarino não dança para si, mas para reviver algo muito maior. De acordo com palavras do próprio Ohno, “Butoh é uma das mais arrojadas formas de dança contemporânea, única do Japão. Expressa ao mesmo tempo tantas idéias diferentes que é impossível defini-la. Ela somente choca e surpreende”. Ohno busca no inconsciente comum a todo homem, oriental ou não, a beleza e a decrepitude, a simplicidade e a complexidade, o cômico e o trágico. Da mobilidade e/ou imobilidade das extremidades corporais, que os braços, as pernas, o tronco, o pescoço, a cabeça levam o performático a mergulhar na viagem corporal que conduz à poesia. Os dançarinos do Butoh quase não usam vestimentas, para eles a roupa veste o corpo e o corpo a alma. E é através da alma, das emoções, da vivência de cada um é que são criadas as seqüências gestualísticas que formam o Butoh. A maquiagem melancólica, o branco sobre todo o corpo, faz com que os músculos sejam realçados, e suas formas expressivas delineadas em movimentos essenciais, se valorizem pela ausência de pêlos. O Butoh recupera a vitalidade e a força do corpo, de um corpo domesticado pelas atividades cotidianas e esmagado pelas regras estabelecidas. O desenho de cada gesto é simbólico. Ele estimula idéias, associações e emoções tramando uma visibilidade: As intensidades, os afetos que atravessam os corpos, a música, os movimentos, são expressos através dos gestos. O corpo é o veículo de expressão dos elementos vitais: terra, água, fogo e ar. Além de Kazuo Ohno que já veio ao Brasil por três vezes( 1986, 1992 e 1997 ), o grupo Sankai Juku, Natsu Nakajima, Anzu Furukawa, Ko Murobushi, Min Tanaka, Carlotta Ikeda e sua Cia. a Ariadone, também já se apresentaram por aqui. Como a arte também está em evolução, Saburo Teshigawara, difundiu para o ocidente o pós-Butoh, assim como ele se define na sua coreografia “Dah-dah-sko-dah-dah”. O Alemão Peter Sempel realizou “Just visiting this Planet”, um filme rodado em dez países (inclusive no Brasil) onde acompanhou Kazuo Ohno, combina o valor documental a uma sensível interpretação do universo deste senhor que, completava 95 anos no ano 2001, e ainda arrebatava platéias com suas coreografias que pretendem revelar “as formas da alma”. “A minha dança é a reza para a vida. O que me faz dançar é o sofrimento que eu carrego dentro do meu coração. A vida e a morte são inseparáveis, estão juntas dentro de mim enquanto eu danço, a vida é a reza, a fé e a dança é também a mesma coisa”, define Kazuo Ohno. Quando alguém vai a ele pedir pra ensinar a dançar, a resposta é sempre a mesma: “A dança não se ensina. Ela está dentro de cada um de nós. Primeiro tem que analisar sua vida, quando entender sua própria vivência, surgirá sua própria dança”. (Publicado no Jornal Dança Brasil - Por Joao Butoh)

BLADE RUNNER

Ontem vi uma senhora grávida no último lugar num caixa de auto-atendimento, eu estava numa posição privilegiada na fila e estava lend...