terça-feira, 26 de novembro de 2013

DANÇA NUMINOSA

"Uma coisa é apenas acreditar no supra-sensorial; outra, também vivenciá-lo; uma coisa é ter ideias sobre o sagrado; outra perceber e




dar-se conta do sagrado como algo atuante, vigente, a se manifestar em sua atuação. É convicção fundamental de todas as religiões e da religião em si que também a segunda possibilidade é viável, que não só a voz interior, a consciência religiosa, o discreto sussurro do espírito no coração, o palpite e o anseio prestem testemunho a seu respeito, mas que seja possível encontrá-los em eventos, fatos, pessoas, em atos de auto-revelação, ou seja, que além da revelação interior no espírito também haja revelação exterior do divino".1

OTTO, R. O Sagrado. Petrópolis: Vozes.


DANÇA "NUMINOSA"

O "Numinoso" (do latim "númen" = "deus", "divindade")
é um adjetivo que qualifica algo que é sagrado ou divino.
A palavra "numinoso" não existe nos dicionários da língua portuguesa,
mas, esse termo ("numinous", em latim) foi posto em circulação
no mundo acadêmico por Rudolf Otto (Alemanha, 25/09/1869
 – 06/03/1937),
um dos pais da Fenomenologia Religiosa. É usado numa conotação psicológica
na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (Suíça, 26/07/1875 – 06/06/1961)
e diz respeito ao sentimento de êxtase frente ao Universo.
Aquela sensação de perplexidade frente à beleza e complexidade
de um Universo infinito, mas desvendável, pelo menos em parte.
O termo foi criado para descrever uma espécie de experiência
religiosa que independe de divindades.      
Em Goiânia, neste fim de semana (23/11/2013),
participei de uma aula de Biodança sobre o tema.
facilitador Olavo me disse que Jung criou o termo "numinoso"
Rolando Toro (Chile, 19/04/1924 – 16/02/2010),
o criador da Biodança, inventou a experiência do "Numinoso no Corpo".
Sim, é possível viver o  milagre da vida "aqui e agora", sem gurus,
fumacinhas ou trombetas tocando, anunciando algo surgindo por uma abertura
apoteótica no céu. Portanto, a experiência do contato com o sagrado
está ao alcance de todos. Sem distinções ou privilégios.
Em Goiânia, naquela pequena sala, nosso grupo, homens e mulheres, dançamos
formando uma constelação. Dançamos o caos, as estrelas, formamos mandalas
no chão com os nossos corpos unindo corações, braços e pernas e, pouco a pouco,
o inefável aconteceu. Numa experiência atemporal, a verdadeira transcendência.
O significado profundo de estar com outra pessoa num movimento de abertura
para ver e sentir profundamente quem eu sou e compartilhar com o outro.
Dançamos a nossa essência e a possibilidade de transformar esse mundo
tão perverso em paraíso.
Precisamos escutar a vida, abrir o coração para os detalhes, observar os" recados"
da natureza, a verdadeira dança da vida. Afirmo que as melhores experiências
da vida são vivenciadas no corpo. Quando estamos distantes do corpo e.
 perdemos a capacidade de sentir e sonhar  o resultado é o vazio,
buraco negro para onde somos tragados para a nossa sombra.
A necessidade do sublime está contida no cotidiano.
O sagrado pode estar na simplicidade.
Numa xícara de chá que tomamos ou na leveza de deixar o corpo
fluir através do movimento. Ou, ainda, ao contemplarmos uma obra de arte.
Toda experiência pode – e deveria – ser sagrada.

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