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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

NASCEMOS DANÇARINOS COMO SHIVA




Dr. Gaiarsa. Foto: Divulgação
Como quase não dançamos, morremos de tédio e de falta de movimento
“Muitos anos atrás, um amigo me disse que eu era o mestre do óbvio, e até hoje acho que essa é a melhor definição que me deram. Porque de fato eu não invento nada, só constato o óbvio. Agora porque só eu vejo o óbvio é que eu não entendo. Depois que eu falo, as pessoas concordam e dizem: É verdade, é óbvio. Mas nem sempre praticam esse óbvio.
O movimento, por exemplo. Se 2/3 de nosso cérebro funcionam apenas para nos movimentarmos, para mim é óbvio que o movimento é a coisa mais importante de nossa vida, aliás movimento é vida (parêntesis meu: curiosamente esse é exatamente o nome de um livro do Meir Schneider e de um CD da Sylvia Lakeland, dois terapeutas que sabem do que falam, como o Gaiarsa). E nós valorizamos cada vez mais a palavra e pouco ligamos ao movimento. E também à visão, que usa mais ou menos a metade do 1/3 restante do cérebro. Então, visão e movimento são tudo na vida, desde o nosso nascimento.
Você quer um exemplo? Você ouve um ruído muito forte nesta cozinha. Você fica alerta mas não se move. Você olha para o lado que vem o som e aí então é que você vai se movimentar. Ou seja, a audição não induz ao movimento, não induz à ação, com a exceção, talvez única, da música na dança. Mas nós podemos dançar muito bem sem qualquer música, sem qualquer som.”
Eh, velho Gaiarsa, 89 anos e em plena forma – física e mental!
“Olha, eu não lembro o teu nome, mas também nunca guardei bem os nomes das pessoas. Mas lembro bem de você nas outras conversas que tivemos, do teu rosto e de como você presta atenção ao que estou falando. Assim dá gosto conversar com alguém, ou dar uma entrevista.
“Você já reparou que ninguém olha para o rosto de ninguém? Entra num supermercado, por exemplo, e presta atenção. Ninguém olha para ninguém, somos todos seres isolados, pensando em nossa segurança. Eta conceito bobo. Se nós mudamos praticamente a cada segundo, e o universo mais ainda do que nós, como vamos ter segurança em alguma coisa? No nosso apartamentozinho, no nosso carrinho? Tudo isso também muda e pode desaparecer de repente…
“O movimento é fundamental no aprendizado dos bebês, como o Instituto do Glen Doman já cansou de provar. O bebê deve primeiro se arrastar no chão, claro que num lugar arrumadinho e confortável, depois engatinhar muito e só depois disso começar a andar (penso cá comigo, que pena que os pais, ansiosos que só, querem ver os filhos andando o mais cedo possível e pulam a etapa do engatinhar… e aí o desenvolvimento cerebral é menos ou bem mais lento!)
“Até os 4 anos, mais ou menos, a criança aprende 90% de tudo que vai saber a vida inteira, e o volume do cérebro, nessa idade, já está com 90% de sseu volume final. Se você compara o cérebro de uma criança de 4 anos com um de adulto não dá nem para notar a diferença.
“A partir daí, ou pouco depois, a criança entra na escola e seus movimentos são limitados brutalmente. E começa o blá, blá, blá, o aprendizado só pela palavra. E a partir daí vamos virando autômatos… A palavra tem um valor apenas genérico, estatístico… Se eu falo para você, por exemplo, peguei a tesoura e coloquei na mesa. Se você não estiver vendo o que estou falando, com certeza a minha tesoura e a minha mesa não terão nada a ver com a tesoura e a mesa que estão na sua cabeça. Só quando eu te mostro a tesoura e a mesa das quais estou falando é que nós vamos ter uma comunicação efetiva.
“O movimento é importante a vida inteira, mas poucos adultos conseguem utilizar uma porcentagem significativa de seus 250 mil neurônios motores, e nem mesmo conseguem movimentar mais do que 15 ou 20% de seus músculos. Todos os animais têm movimentos lindos, mas nenhum deles consegue imitar outros animais.
O homem, quando está solto, também tem movimentos lindos e consegue imitar qualquer animal. Solte-se um pouquinho e mexa as suas mãos à vontade e perceba como você consegue fazer movimentos lindos… Somos todos Shiva… Somos dançarinos natos, pena que quase não dançamos… Eu danço quase todos os dias, quase uma hora, e de preferência um CD do Mozart (ah, lembro do curso de Gestão de Si Mesmo, que fiz com a Lia Diskin, e que a base era dançar músicas clássicas. Uma beleza!)
“Aliás, continua José Ângelo Gaiarsa, nós morremos não é tanto por envelhecimento ou por doenças. Nós envelhecemos, ou adoecemos, por tédio e falta de movimentos. Agora eu sugiro que as pessoas idosas pratiquem qualquer tipo de atividade de movimento mas nunca em academias, ou com treinadores, porque aí voltamos à repetição dos movimentos até a exaustão. Então, faça 6 meses de Yoga, depois 6 meses de natação, depois caminhadas, Tai Chi Chuan, sempre variando o tipo de movimentos porque o cérebro, os neurônios motores e os músculos gostam muitos de novidades, de surpresas. Só que a ‘segurança’ que tanto valorizamos detesta surpresas e novidades, gosta de repetição, de automatismo…
Pergunto para o Gaiarsa se a mídia e a propaganda não estão ajudando muito a virarmos autõmatos cada vez mais. “Claro, a propaganda quer criar ‘pré-conceitos’, ou seja, antes de você formar um conceito sobre um produto a propaganda quer que você compre sem pensar, no automatismo puro… Mas no meu tempo de jovem não existia a influência da propaganda e nós também éramos programados por outros preconceitos. Por exemplo: na minha adolescência se alguém falasse qualquer coisa de sexo, e isso numa roda só de homens, ficava todo mundo travado e ninguém falava nada por vários minutos. E tínhamos mais um mundo de condicionamentos colocados em nossa cabeça por pais, parentes, igreja, professoras… Agora temos esses mesmos condicionamentos e mais a quantidade infernal de anúncios e receitas prontas do que devemos fazer…
“Mas eu tenho algumas esperanças de melhoras no ser humano. Com pais e mães trabalhando cada vez mais, eles ficam cada vez menos em casa, assim as crianças têm mais liberdade e um convívio maior com outras crianças. Assim, como na primeira infância aprendemos basicamente por imitação, temos mais modelos para imitar. E, melhor ainda, a possibilidade de as crianças criarem entre si os seus próprios, e novos, modelos. Porque nem sempre os pais são grandes modelos a se seguir…
Contato mesmo? Só pele com pele!
“Bom, já falamos bastante, diz Gaiarsa, vamos fechar com o que considero o único contato efetivo entre pessoas. Como já disse, com palavras apenas, o contato é minimo. Com o olhar, ele aumenta bastante. Mas o contato real e maior se faz pele com pele (penso novamente cá comigo: certo, com-tato só pode ser feito pelo tato, pela pele).
“Então me dê um abraço de despedida e pode ir embora. Abraçamo-nos e eu ainda tento dizer mais umas coisinhas mas logo sou interrompido:”Cale a boca e apenas fique abraçado comigo e sinta o seu coração bater junto ao meu.. Só isso, e silêncio!!!
Eh, eh Gaiarsa, valeu. Você vê e fala sobre o óbvio e às vezes a gente demora para absorver esse óbvio.
Serviço: Para saber mais sobre o pensamento do Gaiarsa leia seus livros (Editora Summus) – aliás ele disse na entrevista que nunca escreveu tão bem como atualmente – e veja seu site: www.drgaiarsa.com.br

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