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quinta-feira, 14 de março de 2013

A ALMA E A DANÇA

Sócrates: - Erixímaco, esse serzinho dá o que pensar... Reúne em si, assume uma
majestade que estava confusa em todos nós, e que habitava imperceptivelmente os
atores deste festim... Um simples andar, e aqui está a deusa; e nós, quase deuses! É
como se ela pagasse o espaço com belos atos bem iguais, e forjasse como
calcanhar as sonoras efígies do movimento. Parece enumerar e contar moedas de
ouro puro, aquilo que gastamos distraidamente bem vulgares níqueis de passos ,
quando vamos em a algum lugar.
Erixímaco:- Caro Sócrates, ela nos ensina o que fazemos, mostrando claramente as
nossas almas o que nossos corpos obscuramente realizam. (...)
Sócrates: - Está inteira em seus olhos fechados, w sozinha com sua alma, no seio
de alguma intima atenção... Ela se sente transformar em algum acontecimento.
Erixímaco:-Ela se transforma toda em dança, e se consagra toda ao movimento
total! (...) então menina como te sentes agora? (...) De ondes voltas?
Athiktê: Asilo, asilo, ó meu asilo, Turbilhão! – Eu estava em ti, ó movimento, e
fora de todas as coisas... (VALÉRY, 1996, p. 33, 36, 39 e 68).“A Alma e a Dança”, de
 “A Alma e a Dança”, de
Paul Valéry, em que seus protagonistas se encontram diante da dança da dançarina Atikté:

PRECE DA DANÇA

PRECE

Dançar é minha prece mais pura
Momento em que meu corpo vislumbra o divino,
Em que meus pés tocam o real
Religiosidade despida de exageros,
Desejo lascivo, bordado de plenitude
Através de meus movimentos posso chegar ao inatingível
Posso sentir por todos os corpos, abraçar com todo o coração,
E amar com os olhos
Cada gesto significativo desenha no espaço o infinito,
Pairando no ar, compreensão e admiração
Iniciar uma prece é como abrir uma porta
Um convite a você, para entrar em meu universo
O mágico contorna minha silhueta, ao mesmo tempo
Que lhe toco sem tocar
Nada a observar, só a participar
Esta prece ausente de palavras
É codificada pela alma
E faz-nos interagir, de maneira soblime e hipnótica
Quando eu terminar esta dança,
Estarei certa de que não seremos os mesmos.

(Merit Aton)




A dança é uma das mais belas e antigas artes,pois por meio dela, o homem passa a perceber o seu corpo de maneira instintiva.

A LINGUAGEM DO CORPO NA DANÇA

“Dançar é vivenciar, é exprimir com o máximo de intensidade e emoção a relação do homem com a anatureza, com a sociedade, com o futuro, com seus deuses”… (Siva)

Danza, dança, TANZ derivado da raiz TAN que em sânscrito significa “FUSÃO”.

A Dança é uma arte tão antiga quanto o homem enquanto forma de linguagem oral. A dança, através dos elementos coreográficos utiliza essa linguagem, ampliando-a e codificando-a para estabelecer uma comunicação e expressão. Na dança as formas e passos são as unidades significativas ou signos corporais. Estes se organizam em sequências, no tempo, espaço, com certa conotação enfática na expressão do gesto e por um discurso não verbal de valor estético, chamada significativamente de COREOGRAFIA ou arte de Dançar.

A coreografia aporte da Dança procura transmitir um estado de espírito, uma maneira de se ver ou de ver o mundo, enfim expressar-se e comunicar-se pela linguagem corporal. É a linguagem do corpo, às vezes, mais adequadas do que a linguagem verbal, para informar sobre as atitudes e emoções de uma pessoa. Por isso, a Dança como uma arte conceitual, além de transmitir os valores estéticos inerentes ao trabalho coreográfico é adequada para transmitir emoções, idéias, sentimentos, princípios filosóficos ou éticos – chaves da linguagem corporal.

A coreografia foi, e será sempre contextualizada. Sabemos que todo o comportamento humano expressivo é sempre destituído de significado fora de seu contexto cultural, pois a cultura desempenha um papel importante do dimensionamento humano da comunicação e expressão.

A criação da arte coreográfica é, portanto, expressão da dimensão humana do artista aliada as influências do contexto sócio-cultural onde este está inserido.

Nosso corpo é denso pesado pela ação muscular e pelo peso dos órgãos. Fortemente preso ao solo pela ação da gravidade, esta imprime uma ação positiva entre a força destes músculos e o peso do corpo. Pela precisão de alavancas corporais possuímos a capacidade de dominá-lo e controla-lo no solo e no ar. Ao controlar seus movimentos, passos e gestos é o humano com seu corpo, capaz de exprimir, transmitir ao público receptor seus anseios, tensões e sentimentos pela linguagem corporal DANÇA.

Reportando-nos a estudos desenvolvidos por arqueólogos e antropólogos pressupomos que o homem primitivo dançava apara simbolizar sua força e vigor físico – uma rudimentar tentativa de comunicação; só posteriormente é que a dança nasce como forma de ritual. Os arquivos encontrados nas escavações mostram gestos rítmicos, repetitivos, às vezes, levados ao paraxismos, retratam danças em torno de fogueiras, diante das cavernas ou parecem aquecer o corpo antes das atividades de caça ou combate. Assim, desde as mais remotas organizações sociais a dança se faz presente como manifestação de expressão e comunicação e de celebrações, forças da natureza, tais como, mudança de estações ou celebrações bélicas antes ou após os combates. Ela está presente em todos os momentos solenes da existência do homem: guerra e paz, casamento, funerais, semeaduras e colheitas.

Tomemos alguns exemplos para aclarar o discurso acima. Os grandes saltos são movimentos de ousadia, coragem de avanço e nunca de desânimo ; de alegria, nunca de timidez ou retraimento. Aos pequenos saltos nos associamos a graça, leveza e alegria. A sequência de passos, deslizamentos no solo poderá denotar fuga, medo. As posições de equilíbrio denotam expectativas, espera a possibilidade de caminhar para frente como nos “arabesques”. As coesões do dorso ou contrações da totalidade do corpo podem descrever emocionais de dor, desespero ou simulações. Os deslocamentos rápidos do corpo nas diagonais como os “chaines”, “piques”, dão-nos sensação de aproximação em velocidade dos corpos.

Os braços são partes importantes e fundamentais na linguagem do corpo nas coreografias. Podem ser molduras para o rosto; ser o “élan” ou impulso para os saltos: fonte de equilíbrio para os passos ou ser elementos de inter-relação entre os personagens da coreografia. Podem expressar: uma linha entre a terra, o infinito; as asas para os grandes saltos ou círculos de equilíbrio e segurança.

Hoje, a postura do corpo – “aplomb” – é o primeiro elemento existente na dança clássica ou postura geral do dançarino. O “aplomp” é a postura ereta e alongada, com a cabeça erguida sem qualquer conotação de esforço: é uma postura harmônica e com características requintadas permeia resquícios de sua origem nobre. O “Aplomb” clássico exige postura e equilíbrio. Este equilíbrio poderia ser transportado para o aspecto psicológico das pessoas como, por exemplo, a análise da seguinte linguagem do corpo; se houver um equilíbrio entre cabeça, tórax e abdome, isto poderá denotar equilíbrio de personalidade. Quando uma coreografia aborda em sua temática, um elemento ou personagem perturbado ou negativo, seu corpo entra em desequilíbrio para dar a conotação específica e desejada à interpretação dos aspectos pretendidos.

No Ballet Clássico os braços arredondados são resquícios da origem aristocrática: coroas e molduras para o rosto. Enquanto que na época romântica eles evoluíram para as formas arredondadas. Os braços hoje se alongam nos trabalhos coreográficos tornando-se não mais um adorno, mas um elemento significativo na comunicação e expressão de conteúdo de uma temática coreográfica.

A utilização das mãos na dança é um efetivo recurso expressivo. Passar uma expressão de relaxamento e harmonia, tensão e energia ou completar a forma alongada proposta pelo corpo. O olhar é outro elemento essencial e de forte expressão para os personagens de uma coreografia. Sua direção no palco ou a distancia entre o personagem e a platéia é fundamental para completar a comunicação. Naturalmente que ele deve ser vivo e coerente com a emoção do personagem que se está dançando . Tudo isso é completado pela direção da cabeça, posição do corpo e colocação dos braços. Em resumo o olhar informa, sobretudo a respeito da direção a ser tomada pelo dançarino e cria também uma relação de proximidade ou afastamento entre este o e público.

A distribuição espacial dos dançarinos no palco pode informar ao público sobre sentimentos, emoções, idéias. A aproximação entre dois corpos como harmonia que denota amor. O espaço é, portanto, elemento informativo de sentimentos entre duas pessoas.

Nos “pás-de-deux”, por exemplo, as desavenças amorosas, os jogos de aceitação ou recusas são simbolizados pela mudança da posição do corpo. Afastar-se, virar-se de costas para o outro, caminhar apressado ou correr pelo palco indica desavenças. Em uma temática coreográfica, quando um personagem é obrigado a se afastar do outro sem desejá-lo, ele o fará mantendo de frente para o mesmo.

A organização de pessoas em pequenos e grandes grupos é elemento informativo bastante usado para indicar as relações emocionais e também sociais. Assim, as posições dos elementos em colunas no palco indicam uma conotação militar de submissão apelo comando dos elementos de vanguarda.

Os desenhos formados pela irregularidade no palco dão a impressão de descontração, alegria e liberdade ou opressão, dúvidas, questionamentos. A retórica do corpo é sem sombra de dúvida um meio de comunicação e expressão onde o coreógrafo e dançarinos expressam em suas danças um discurso como qualquer outra forma de expressão através de seus significados específicos ao colocar no corpo o código da linguagem de uma ou mais técnicas de dança. O corpo é, portanto, o principal elemento utilizado do conteúdo de sua comunicação para expressar sentimentos e emoções.

Os coreógrafos contemporâneos, em seu processo criativo, tem-se utilizado dos vários códigos da linguagem corporal para elaborar e deixar vazar todo o potencial artístico através das tensões, resoluções, direções, velocidade, ritmo, dinâmicas das formas e movimentos no espaço físico.

A DANÇA É UMA LINGUAGEM


"A dança é uma linguagem universal, pois torna possível contar uma história com o início, meio e fim, e através dos movimentos dançados mais as pantomimas, que são peculiares a esta forma de expressão, vencemos as barreiras da língua e falamos com as emoções.

Os movimentos falam. Um gesto pode ferir mais do que uma palavra, daí a preocupação com essa forma de linguagem. Preciso saber se o que estou querendo transmitir e comunicar será bem compreendido através dos movimentos executados. Não devo falar por falar, dançar por dançar e sim pensar, refletir para então me fazer entender e o mesmo deve acontecer com a montagem coreográfica, ou a dança propriamente dita.

Muitos hoje em dia, profissionais da dança optam pela execução de movimentos sem que necessariamente fale algo, mas, para mim, nada é mais belo que ir ao Teatro, sentar e me emocionar com uma história contada através das músicas clássicas e dos movimentos e expressões que fazem calar a nossa alma, é sem dúvida um pedacinho do céu. Arte é vida e está intimamente ligada ao Artista Maior.

 O corpo é uma preciosidade física com qual experimentamos a vida. A dança completa essa experiência porque é a arte do movimento. Sem dúvida somos um espírito que por um período de tempo passamos pela terra morando num corpo mas que vivemos ansiando o paraíso eterno!"

domingo, 10 de março de 2013

Antônio Nóbrega _ A Morte do Cisne

QUANDO DANÇO QUERO SER MÚSICA



   "Vós todos que tendes uma escola, que andaes sob a canga de uma orientação,
   que pertenceis a qualquer cousa que acabe no ismo, que sois quaisquer entes
   que acabem  em  ISTAS! Para quê o limite se para ser limitado  basta existir?
   Crear é libertar-se!
   Crear é substituir-se a si-próprio!
    Crear é ser desertor!
   Substituamos as personalidades à personalidade.Que cada um seja muitos!
   Basta ser para si a primeira pessoa do singular de qualquer pronome ou verbo.
    Sejamos a pessoa absoluta do Plural inconmensurável.Menos que isto é arte do passado!
    Acabemos com o não haver machinas no verso,e com haver versos com a mesma medida
    para tudo-fato-feito da inspiração barateira.
    Tragam-me isso por casa de não terem casa!
    Não façamos a apologia  dos heroes-mas dos completos!
    Ser heroe é ser  tudo num só ato de vida!
    Queiramos mais! Queiramos ter o heroísmo!
     Queiramos mais!"

  trecho do livro Prosa de Álvaro de Campos

 

 



sábado, 2 de março de 2013

DANÇA & NATUREZA




  Poesia corpórea. Essa é minha principal busca em cena, através da investigação dos princípios do Bharatanatyam, estilo de dança clássica indiana. Percebi a relação da metafísica dos gestos com a natureza. Hastas (gestos das mãos), que significam flores e animais. Gestos devidamente codificados e sistematizados há milênios, que simbolizam a natureza humana e os Deuses.
  Estou em pleno processo de pesquisa sobre os elementos da natureza e a construção simbólica de uma gestualidade integrada ao divino de cada um. O exercício de não me deixar embalsamar, dançar o Apolíneo e o Dionisíaco. Integrar o espirito, ser toda, completa, concentrada e única.

  A técnica
  Método de introdução e imersão na dança baseado na natureza, estabelecido a partir das relações dos movimentos, notadamente quando a variação se efetua segundo a polaridade força/delizadeza.
  A criação de um método de análise e prática na criação coreográfica baseada nas árvores, paisagens, elementos da natureza (água, terra, fogo, ar), ou nas estações do ano (verão, outono, inverno e primavera) – os ciclos.
  Elaboração de um vocabulário simbólico do corpo
   
  Descrição da energia
  Consiste em praticar e vivenciar a própria energia, corporificando-a, para que o artista – neste caso específico o dançarino ou dançarina – possa conservá-la, qualquer que seja a origem, a escola ou a tendência da dança executada.
  Estudo sobre a maneira  pela qual o contexto cultural explica o uso de determinada dança.
  A energia é da cultura, vista através de uma determinada perspectiva e concretizada por certo ritmo.
  Geometria sagrada e proporção áurea na dança: danças menos lineares. Tridimensionalidade, recosnstrução de fluxos e refluxos. Deslocamentos energéticos baseados em padrões da natureza.  
  Propriedades matemátricas das espirais. A importânica do assimétrico.

  Equilíbrio
  A procura das peculiaridades, o equilíbrio no desequilíbrio. Partes iguais, lados desiguais,
a deformação da forma, a discrepância, a harmonia no desequilíbrio.
  Desenhar a tragetória de uma ação física. Segundo Eugenio Barba (Brindisi, Itália, 29/10/1936), autor, pesquisador e diretor de teatro. Fundador e diretor do Odin Teatret, criador do conceito da Antropologia Teatral e criador da ISTA: "a dança do pensamento em ação".

  Dramaturgia Simbólica
  Criação de uma dança pessoal, onde cada indivíduo participante possa manifestar seu próprio vocabúlario gestual e simbólico, sua própria dramaturgia e verdade na dança.

  Dançarino Intérprete
  Conciliar a semiologia "Cartesiana" (razão) com a vetorização "Artaudiana" (metafísica – Antonan Artaud (Marselha, França, 4/9/1896 – Paris, França, 4/3/1948), para criar danças a partir da corporeidade pessoal de cada dançarino ou dançarina.

  Processo de Pesquisa Autoral
  Sonhar em público. Interpretar a verdade no e com o corpo.