quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

.DANÇA E PROPORÇÃO ÁUREA


DANÇA E  PROPORÇÃO ÁUREA
A natureza segue um fluxo, uma árvore por exemplo quando está em crescimento tem uma sabedoria secreta que consiste em encontrar padrões que através das bifurcações,e distorções dos galhos, localização no espaço, o crescimento das folhas ,com formas tridimensionais encontra assim a forma perfeita e as condições necessárias para ser nutrida com a luz do sol,água para garantir a vida contida naquela planta.
Desde a antiguidade a proporção áurea é usada na arte, existe uma frequência , um padrão.
O número de ouro pode ser encontrado na natureza, no corpo humano e no universo.
Um planta sempre busca as condições apropriadas para crescer. O ser humano para crescer necessita também de encontrar a plena conexão com a vida que se manifesta no ambiente, que precisa estar em plena harmonia com os recursos oferecidos como nutrição,acolhimento, luz,afeto.O movimento orgânico que leva ao crescimento de um ser levando em conta que o corpo já vem programado para crescer e é fruto de condições apropriadas que cada um precisa desenvolver.
Não existe um caminho de crescimento, muita vezes é preciso olhar uma situação e perceber se é o momento de mudar a direção, o espaço ou esperar o momento de encontrar o melhor ângulo para voltar a crescer, quando algo não floresce na vida.
Só há fluidez na vida quando se encontra a plena sintonia com ambiente para  tornar-se sagrado.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

MIRABAI " UM INSTANTE DE BELEZA É UMA ALEGRIA PARA SEMPRE"

Depoimento do professor/doutor Reinaldo Guedes Machado,
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) sobre MIRABAI.
 
“Não faz muito tempo. Maria (MIRABAI) foi minha aluna na disciplina de Teoria das Artes no curso de pós-gradução da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. A turma era hetereogênea: alguns alunos arquitetos, um licenciado em educação artística, um bacharel em História e ela. 
Visando aproveitar os diferentes saberes ali reunidos solicitei como trabalho escolar que cada qual elaborasse uma apresentação baseada em suas vivências anteriores no campo artístico. Maria (MIRABAI) dançou, na pequena praça em frente ao centro acadêmico, lugar de trânsito dos que se dirigem para a próxima aula, onde permanecem os que descansam, namoram ou discutem a política estudantil em toscos e velhos sofás. 
Pouco a pouco, a faculdade agitada e ruidosa naqueles momentos de intervalo entre aulas, silenciou. 
Paradoxalmente, como se fora som, o silêncio, foi-se propagando pelas salas vizinhas e atraindo alunos, professores e servidores que se acomodavam como podiam para apreciar a beleza que acontecia inesperada num lugar inadequado! Que sabíamos nós, meus alunos, colegas e eu, da dança indiana para apreciar a arte que se realizava naquele momento? No entanto, ainda que incapazes de uma apreciação judiciosa, todos fomos envolvidos pela verdade profunda que emanava das mãos, dos olhos, do movimento do corpo da dançarina. A opacidade pesada da matéria dava passagem ao espírito que a conduzia e nos reunia num espaço e num tempo além da contingência concreta do cotidiano. Isso aconteceu e eu me lembro, para confimar John Keats: Um instante de beleza é uma alegria para sempre. (Endymion, em tradução livre)”.




Koyaanisqatsi Movie Full Soundtrack - Phillip Glass (1982)

BARAKA: MIRABAI - Maria

BARAKA: MIRABAI - Maria: Depoimento do professor doutor Reinaldo Guedes Machado Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB universidade de Brasília “Não faz ...

sábado, 7 de dezembro de 2013

"O corpo Fala". E muito!


O CORPO COMO VEÍCULO DE LINGUAGEM

A  pesquisa realizada por mim no ESPETÁCULO DE DANÇA
& TEATRO BARAKA é a desmonstração de uma técnica baseada em elementos da dança clássica indiana, que continua causando forte impacto no público que tem me prestigiado desde a estréia, em setembro/2011. A força das imagens reveladas pelo meu corpo em cena e a plasticidade dos movimentos provocam diálogo profundo com os expectadores, derrubando as fronteiras entre palco e platéia, relações
de consumo e entretenimento.
A arte que resgata a força do ser humano.
Não há em cena nenhum artefato ou elemento da linguagem visual – como cenografia, iluminação ou efeitos especiais.
Há apenas a dançarina e a dança.

Na minha opinião, uma apresentação perfeita acontece quando
a dança aparece, e não a dançarina. Gostaria de revelar um aspecto da minha pesquisa muito comentado por mim e pouco compreendido. Durante algum tempo escrevi textos sobre
meus estudos a respeito da dança clássica indiana.
Mas, quantas pessoas conhecem a dança clássica indiana?
Uma minoria. E a criação de uma linguagem própria? A que “linguagem própria” me refiro?
O corpo continua sendo um ilustre desconhecido para as pessoas e, a dança, com o tempo,
foi passando por um processo de “elitização” e difusão de técnicas que só aumentaram
o seu hermetismo. O resultado é a perda do público não “iniciado”.

Pensei em criar um método para ensinar dança, onde a técnica e a vivência da dança
fossem estudadas com prazer e organicidade. O veículo para sua compreensão e sentido.
Na tarefa de construir essa linguagem, comecei a pautar as aulas.

Sobre a minha experiência como professora de dança e teatro, uma das minhas fontes
de pesquisa é o efeito da dança na vida das pessoas. Dou aulas para alunos da rede pública
de Brasília, atuo como  coreógrafa e preparadora corporal de pessoas de várias faixas etárias,
pertencentes a todas as classes sociais. Com o tempo, percebi nos alunos(as) a carência do contato
com o próprio corpo. Na avidez por ter acesso a esse conhecimento e o encantamento pela vida
que as minhas aulas estimulam, percebo que muitos alunos(as) reencontram o riso e o prazer.
A escola proporciona pouca vivência com o corpo. Temos a educação física, que nem sempre
cria espaço para a expressão poética do ser.  A escola formal que existe hoje, praticamente suprimiu
o ensino da dança como linguagem. São raras as iniciativas – e isoladas.

Recentemente o governo aprovou uma Lei que regulamenta o ensino da música nas escolas públicas
em Brasília. Mas eu continuo perguntando “quando é que o corpo terá o status de matéria curricular”?
Não me refiro ao estudo do corpo como objeto de pesquisa em várias disciplinas.
Falo da experiência do “contato real” do indivíduo com seu próprio o corpo, suas emoções, prazer
e a vivência que constrói o conhecimento holístico. Uma possibilidade de retomar a razão
e a emoção. O estudo do “todo”, já que “tudo” começa com o corpo.

Historiadores, antropólogos e profissionais de outras áreas do conhecimento humano já ensinaram
que “o gesto antecede a fala”, que “o corpo fala” e que 70% da nossa linguagem ou comunicação,
começam com a nossa linguagem corporal. No cérebro humano, os hemisférios esquerdo
e direito são os responsáveis e nos conduzem ao entendimento e percepção do mundo.

O ocidente negou o corpo e até o considerou "perigoso". O momento é de devolver
a capacidade de integrar Corpo, Mente & Alma. Pensar e agir no mundo com emoção.
Precisamos – é necessário – retomar um modelo de alfabetização e ensino que entenda,
priorize e contemple o corpo como veículo de linguagem. Quando isso será possível?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

BARAKA:MIRABAI.m4v

O ESPETÁCULO DE DANÇA BARAKA/ PROCESSO DE PESQUISA

O ESPETÁCULO DE DANÇA BARAKA foi criado pela atriz, dançarina, pesquisadora e professora Maria Vilarinho Cardoso, que adotou o nome artístico MIRABAI.

Formada em 1999 na Faculdade de Artes Dulcina de Morais, atualmente MIRABAI leciona História da Arte e Artes Cênicas na Escola Parque 307/308 Sul. Professora contratada pela Secretaria de Educação do Distrito Federal .

 Como pesquisadora MIRABAI direcionou seus estudos às origens da dança, seus significados e influências objetivas/subjetivas no cotidiano gestual do mundo contemporâneo. Posteriormente,

na composição de seus personagens, foi fortemente influenciada pela cultura Oriental.

 O estreito contato da artista com o estilo de Dança Clássica Indiana BharataNatyam e suas sucessivas viagens de aperfeiçoamento, conduziram de forma natural suas pesquisas e trabalho a uma identidade própria, promovendo o diálogo entre teoria e prática.
O inerente sentimento de brasilidade presente na identidade, personalidade e sentimentos de MIRABAI, somaram-se a pesquisa transcultural e, com a associação da criação cênica interartística, brotou – tal qual uma flor nasce nas pedras – um conceito estético inovador.

 A partir de então, MIRABAI subverteu a ordem natural que separa Continentes, povos e culturas. Mesclou a enigmática e milenar arte indiana com as mais autenticas raízes brasileiras.

Vislumbrou  e ousou o impensável: colocou lado a lado no mesmo palco, na mesma personagem, o gestual sagrado da Índia, o sapateado da cabocla nascida no sertão nordestino e o gingado da cabrocha urbana do Brasil. No rosto, os mistérios contidos nos olhos da mulher indiana fundiram-se com o olhar sestroso e cúmplice da mulher brasileira.
O ESPETÁCULO DE DANÇA BARAKA dialoga com tendências da dança contemporânea, interagindo com o que há de mais moderno no teatro, na arquitetura, artes visuais, performance e video-dança.
BARAKA é uma palavra Sufi, e significa “Sopro de Vida”, “Benção”, “Graça”, “Sopro Divino e Sagrado contido em todas as coisas”.
MIRABAI apresenta em dez atos as nuances das emoções, onde a narrativa é feita por meio do seu corpo. Cabeça, olhos, tronco, braços, mãos, pernas e pés são utilizados separada ou individualmente para esse fim.
O universo feminino é o ponto de partida e não de chegada.

. O ESPETÁCULO procura também resgatar de forma lúdica, poética e lírica o sentido da vida no mundo contemporâneo, sobrecarregado pelo excesso de informações tecnicistas que fragmentam e alienam o Homem de si mesmo.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DANÇA NUMINOSA

"Uma coisa é apenas acreditar no supra-sensorial; outra, também vivenciá-lo; uma coisa é ter ideias sobre o sagrado; outra perceber e




dar-se conta do sagrado como algo atuante, vigente, a se manifestar em sua atuação. É convicção fundamental de todas as religiões e da religião em si que também a segunda possibilidade é viável, que não só a voz interior, a consciência religiosa, o discreto sussurro do espírito no coração, o palpite e o anseio prestem testemunho a seu respeito, mas que seja possível encontrá-los em eventos, fatos, pessoas, em atos de auto-revelação, ou seja, que além da revelação interior no espírito também haja revelação exterior do divino".1

OTTO, R. O Sagrado. Petrópolis: Vozes.


DANÇA "NUMINOSA"

O "Numinoso" (do latim "númen" = "deus", "divindade")
é um adjetivo que qualifica algo que é sagrado ou divino.
A palavra "numinoso" não existe nos dicionários da língua portuguesa,
mas, esse termo ("numinous", em latim) foi posto em circulação
no mundo acadêmico por Rudolf Otto (Alemanha, 25/09/1869
 – 06/03/1937),
um dos pais da Fenomenologia Religiosa. É usado numa conotação psicológica
na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (Suíça, 26/07/1875 – 06/06/1961)
e diz respeito ao sentimento de êxtase frente ao Universo.
Aquela sensação de perplexidade frente à beleza e complexidade
de um Universo infinito, mas desvendável, pelo menos em parte.
O termo foi criado para descrever uma espécie de experiência
religiosa que independe de divindades.      
Em Goiânia, neste fim de semana (23/11/2013),
participei de uma aula de Biodança sobre o tema.
facilitador Olavo me disse que Jung criou o termo "numinoso"
Rolando Toro (Chile, 19/04/1924 – 16/02/2010),
o criador da Biodança, inventou a experiência do "Numinoso no Corpo".
Sim, é possível viver o  milagre da vida "aqui e agora", sem gurus,
fumacinhas ou trombetas tocando, anunciando algo surgindo por uma abertura
apoteótica no céu. Portanto, a experiência do contato com o sagrado
está ao alcance de todos. Sem distinções ou privilégios.
Em Goiânia, naquela pequena sala, nosso grupo, homens e mulheres, dançamos
formando uma constelação. Dançamos o caos, as estrelas, formamos mandalas
no chão com os nossos corpos unindo corações, braços e pernas e, pouco a pouco,
o inefável aconteceu. Numa experiência atemporal, a verdadeira transcendência.
O significado profundo de estar com outra pessoa num movimento de abertura
para ver e sentir profundamente quem eu sou e compartilhar com o outro.
Dançamos a nossa essência e a possibilidade de transformar esse mundo
tão perverso em paraíso.
Precisamos escutar a vida, abrir o coração para os detalhes, observar os" recados"
da natureza, a verdadeira dança da vida. Afirmo que as melhores experiências
da vida são vivenciadas no corpo. Quando estamos distantes do corpo e.
 perdemos a capacidade de sentir e sonhar  o resultado é o vazio,
buraco negro para onde somos tragados para a nossa sombra.
A necessidade do sublime está contida no cotidiano.
O sagrado pode estar na simplicidade.
Numa xícara de chá que tomamos ou na leveza de deixar o corpo
fluir através do movimento. Ou, ainda, ao contemplarmos uma obra de arte.
Toda experiência pode – e deveria – ser sagrada.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MOVIMENTO AUTÊNTICO

A pesquisa realizada por mim para o Espetáculo de Dança Baraka é a desmonstração de uma técnica
baseada em elementos da dança clássica indiana e continua causando forte impacto no público
que tem me prestigiado desde a estréia, em setembro/2011. A força das imagens reveladas
pelo meu corpo em cena e a plasticidade dos movimentos promovem diálogo profundo
com os expectadores, derrubando as fronteiras entre palco e plateia, não faço entretenimento

. É arte que resgata a força do ser humano.
Não há em cena nenhum artefato ou elemento da linguagem visual – como cenografia,
iluminação ou efeitos especiais, no caso, desnecessários. Há apenas a dançarina e a dança.

Na minha opinião, uma apresentação perfeita acontece quando a dança se sobrepõe à dançarina.
Gostaria de revelar um aspecto da minha pesquisa muito comentada por mim e pouco compreendida.
Durante algum tempo escrevi textos sobre meus estudos sobre dança clássica indiana.
Mas, quantas pessoas conhecem a dança clássica indiana? Pequena minoria.
E a criação de uma linguagem própria? E, a que “linguagem própria” me refiro?
O corpo continua sendo um ilustre desconhecido para as pessoas e, a dança, com o tempo,
foi passando por um processo de “elitização” e difusão de técnicas que só aumentam
o seu hermetismo. O resultado é a perda e do público não “iniciado”.

Pensei em criar um método para ensinar dança, onde a técnica e a vivência da dança,
com prazer e organicidade, fossem o veículo para sua compreensão e sentido.
Na tarefa de construir sentido nessa linguagem, comecei a pautar as aulas.

Sobre a minha experiência como professora de dança e teatro, uma das minhas fontes
de pesquisa é o efeito da dança na vida das pessoas. Dou aulas para alunos da rede pública
de Brasília, atuo como coreógrafa e preparadora corporal de pessoas de várias faixas etárias,
pertencentes a todas as classes sociais. Com o tempo percebi nos alunos a carência do contato
com o próprio corpo. Na avidez por ter acesso a esse conhecimento e o encantamento pela vida
que as minhas aulas estimulam, percebo que muitos alunos(as) reencontram o riso e o prazer.
Infelizmente, a escola proporciona pouca vivência com o corpo. Temos a educação fisica, que nem sempre
cria espaço para a expressão poética do ser. A escola formal que existe hoje praticamente suprimiu
o ensino da dança como linguagem. São raras as iniciativas e, quando existem são isoladas.

Recentemente o governo aprovou uma Lei que regulamenta o ensino da música nas escolas públicas
em Brasília. Mas, eu continuo perguntando: quando é que o corpo terá o status de matéria curricular?

Não me refiro ao estudo do corpo como objeto de estudo em várias disciplinas. Falo da experiência
do “contato real” do indivíduo com seu próprio o corpo, suas emoções, prazer e a vivência
que constrói o conhecimento holístico. Uma possibilidade de retomar a razão e a emoção.
O estudo do “todo”, já que “tudo” começa com o corpo.

Historiadores, antropólogos e profissionais de outras áreas do conhecimento já ensinaram
que “o gesto antecede a fala”, que “o corpo fala” e que 70% da nossa linguagem ou comunicação
começam com a nossa linguagem corporal. No cérebro humano, os hemisférios esquerdo
e direito, são os responsáveis e nos conduzem ao entendimento e percepção do mundo.
Temos de estimular os dois hemisférios constantemente, sempre.

O ocidente negou o corpo e até o considerou perigoso. Por isso, o momento é de devolver
a capacidade de integrar Corpo, Mente & Alma. Pensar e agir no mundo com emoção.
Precisamos – é necessário – retomar um modelo de alfabetização e ensino
que entenda, priorize e contemple o corpo como veículo de linguagem.
A pesquisa realizada por mim para o Espetáculo de Dança Baraka é a desmonstração de uma técnica
baseada em elementos da dança clássica indiana e continua causando forte impacto no público
que tem me prestigiado desde a estréia, em setembro/2011. A força das imagens reveladas
pelo meu corpo em cena e a plasticidade dos movimentos promovem diálogo profundo
com os expectadores, derrubando as fronteiras entre palco e platéia, relações de consumo
e entretenimento. É arte que resgata a força do ser humano.
Não há em cena nenhum artefato ou elemento da linguagem visual – como cenografia,
iluminação ou efeitos especiais, no caso, desnecessários. Há apenas a dançarina e a dança.

Na minha opinião, uma apresentação perfeita acontece quando a dança se sobrepõe à dançarina.
Gostaria de revelar um aspecto da minha pesquisa muito comentada por mim e pouco compreendida.
Durante algum tempo escrevi textos sobre meus estudos sobre dança clássica indiana.
Mas, quantas pessoas conhecem a dança clássica indiana? Pequena minoria.
E a criação de uma linguagem própria? E, a que “linguagem própria” me refiro?
O corpo continua sendo um ilustre desconhecido para as pessoas e, a dança, com o tempo,
foi passando por um processo de “elitização” e difusão de técnicas que só aumentam
o seu hermetismo. O resultado é a perda e do público não “iniciado”.

Pensei em criar um método para ensinar dança, onde a técnica e a vivência da dança,
com prazer e organicidade, fossem o veículo para sua compreensão e sentido.
Na tarefa de construir sentido nessa linguagem, comecei a pautar as aulas.

Sobre a minha experiência como professora de dança e teatro, uma das minhas fontes
de pesquisa é o efeito da dança na vida das pessoas. Dou aulas para alunos da rede pública
de Brasília, atuo como coreógrafa e preparadora corporal de pessoas de várias faixas etárias,
pertencentes a todas as classes sociais. Com o tempo percebi nos alunos a carência do contato
com o próprio corpo. Na avidez por ter acesso a esse conhecimento e o encantamento pela vida
que as minhas aulas estimulam, percebo que muitos alunos(as) reencontram o riso e o prazer.
Infelizmente, a escola proporciona pouca vivência com o corpo. Temos a educação fisica, que nem sempre
cria espaço para a expressão poética do ser. A escola formal que existe hoje praticamente suprimiu
o ensino da dança como linguagem. São raras as iniciativas e, quando existem são isoladas.

Recentemente o governo aprovou uma Lei que regulamenta o ensino da música nas escolas públicas
em Brasília. Mas, eu continuo perguntando: quando é que o corpo terá o status de matéria curricular?

Não me refiro ao estudo do corpo como objeto de estudo em várias disciplinas. Falo da experiência
do “contato real” do indivíduo com seu próprio o corpo, suas emoções, prazer e a vivência
que constrói o conhecimento holístico. Uma possibilidade de retomar a razão e a emoção.
O estudo do “todo”, já que “tudo” começa com o corpo.

Historiadores, antropólogos e profissionais de outras áreas do conhecimento já ensinaram
que “o gesto antecede a fala”, que “o corpo fala” e que 70% da nossa linguagem ou comunicação
começam com a nossa linguagem corporal. No cérebro humano, os hemisférios esquerdo
e direito, são os responsáveis e nos conduzem ao entendimento e percepção do mundo.
Temos de estimular os dois hemisférios constantemente, sempre.

O ocidente negou o corpo e até o considerou perigoso. Por isso, o momento é de devolver
a capacidade de integrar Corpo, Mente & Alma. Pensar e agir no mundo com emoção.
Precisamos – é necessário – retomar um modelo de alfabetização e ensino
que entenda, priorize e contemple o corpo como veículo de linguagem.

TERCEIRO ESPETÁCULO DANÇA SOLIDÁRIA BRASÍLIA


domingo, 17 de novembro de 2013

DANÇAR A ESSÊNCIA


  Dançar traz alegria. A verdadeira alegria de poder reconhecer e expressar, de forma simples e direta, os anseios da alma. 

Dançar nos restitui os laços perdidos com nossa própria essência. Isso realmente acontece quando nos entregamos ao seu movimento como uma onda que brota espontaneamente, de uma fonte que não é racional, nem esteticamente premeditada. Quando deixamos que o movimento expresse livremente algo que é único em cada um de nós. Nesse sentido, a dança espontânea se revela como sendo uma linguagem corporal subjetiva, rica de significados. Assim, a dança se abre como um caminho maravilhoso para o autoconhecimento. 

Através de exercícios de sensibilização, expressão, interação e consciência corporal, entramos em contato com nossos próprios bloqueios, herdados de uma educação e cultura voltados para a praticidade de um mundo cada vez mais alienado de nossas necessidades anímicas. Assim, aprendemos a reconhecer nossas próprias limitações, a nos libertarmos dos condicionamentos e padrões indesejados, aqueles que negam a nossa verdadeira essência e o exercício do nosso potencial criativo. 

Com a dança espontânea se propõe um caminho de retorno de cada um consigo mesmo. Uma redescoberta, numa viagem, que pode começar pela percepção e refinamento dos sentidos, adentrar nas paisagens coloridas das emoções, encontrar o seu ritmo na respiração e, da integridade dos gestos, nascer uma verdadeira fonte de inspiração e renovação.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

DANÇAR PARA NÃO ENLOUQUECER


Estudo atualmente as possibilidades do corpo para criar uma dança
sutil para todos, independente da idade, classe social e nível de escolaridade.
Dança iniciática, cujo objetivo principal é sentir "verdadeiramente" o corpo
vivo e o coração pulsar. Apenas o movimento natural da vida.
Muitas pesquisas foram realizadas sobre os efeitos da dança e dos movimentos livres. 
O paradoxo é que sabemos que faz bem, no entanto, poucos querem sair da "zona de conforto".
A Idade Média já passou e ainda precisamos comprovar a importância do profundo contato 
interior.
A todo instante, seja através de um gesto sincero, ouvindo uma música ou percebendo
integralmente nossa própria presença.
Dançar é para todos, não para uma minoria de privilegiados. Precisamos sentir
nossos pés se deslocando para encontrar o nosso chão, nossa terra, o território do coração.
Precisamos tocar outras mãos, perceber nosso corpo girando e cortando o espaço,
girando sem parar até perdermos a noção do tempo. É muito simples, até necessário
vez ou outra parar de racionalizar tudo. Sair do "controle" – do "comando" – para então
ouvir o ritmo da vida nos levando para espaços desconhecidos e novos.
É urgente sentir emoção, chorar, sorrir, rir e gargalhar quando o prazer nos deixar
extasiados de amor e vontade de gritar. É fácil: é simplesmente "Ser".
Sentir a própria energia. Conectar com o mais íntimo da alma.
Olhar nosso próprio labirinto para iluminar nossa caminhada.
Quando danço me sinto assim, integrada ao "todo".
Percebo que sou um "Ser" simples, integral, que faz parte da "multidão". 
Minha impressão é que, atualmente, esse culto exagerado à "celebridade" e a necessidade
exagerada de tornar pública a intimidade para o mundo através de redes sociais,
é o vazio provocado pela ausência de si mesmo. O indivíduo que está integrado "aparece"
naturalmente, porque age no mundo e é protagonista de sua própria vida.
Escrevo no meu blog sobre minha relação com a dança e como ela pode melhorar
a vida de qualquer pessoa, inclusive daqueles (daquelas) que também
são dançarinos/dançarinas profissionais.
Fazemos parte de uma teia – e assim vamos tecendo nossas vidas e sonhos.
Poesia deveria compor o cardápio da mesa ao amanhecer. Todos os dias.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"O QUE UMA PESSOA PODE TRANSMITIR? COMO E PARA QUEM TRANSMITIR?"

O último discurso:
Texto sem nome por Jerzy Grotowski, Pontedera, Itália, 4 de julho, 1998, de acordo com o desejo de Jerzy Grotowski este texto foi publicado postumamente:[1]

(...)Meu último espetáculo, como diretor de teatro, é intitulado ‘Apocalypsis cum figuris’. Foi criado em 1969 e suas representações terminaram em 1980. Desde então eu não fiz nenhum espetáculo.
‘Ação’ não é um espetáculo. Não pertence ao domínio de arte como apresentação. É uma obra criada no campo de arte como veículo. É concebida para estruturar, em um material ligado às artes cênicas, o trabalho em si dos fazedores (doers).
Testemunhas, observadores de fora, podem estar presentes ou não. Depende de várias condições que, sob circunstâncias diferentes, esta abordagem exige. Quando eu falo de arte como veículo, eu me refiro à verticalidade. Verticalidade- nós podemos ver este fenômeno em categorias de energia: energias pesadas mas orgânicas (ligadas a forças vitais, a instintos, a sensualidade) e outras energias, mais sutis. A questão da verticalidade quer dizer passar de um nível, por assim dizer, grosseiro, em um certo senso, poderíamos dizer um “nível cotidiano”, para um nível de energia mais sutil ou até mesmo para a conexão mais elevada. Eu simplesmente indico a passagem, a direção. Aqui, há outra passagem: se alguém se aproxima da conexão mais elevada—quer dizer, falando em termos de energia, se a pessoa chega a energia muito mais sutil—então também há a questão da descida, trazendo este algo mais sutil para a realidade mais comum que é ligada à densidade do corpo.
 (...)
Em relação à verticalidade a questão é não renunciar a partes de nossa natureza—tudo deve reter seu lugar natural: o corpo, o coração, a cabeça, aquilo que está “debaixo de nossos pés” e aquilo que está “sobre a cabeça.”  Tudo como uma linha vertical, e esta verticalidade deveria acontecer entre a organicidade e o estado de atenção - estado de atenção quer dizer a consciência que não está ligada à linguagem (a máquina de pensar), mas à Presença.
(...)
O que uma pessoa pode transmitir? Como e para quem transmitir? Estas são questões que toda pessoa que é herdeira de uma tradição se coloca, porque essa pessoa herda também, de certa forma, o dever transmitir aquilo que recebeu para si. Que participação tem a pesquisa em uma tradição?
(...)
Uma vertente do Budismo Tibetano diz que uma tradição pode viver se a nova geração for um quinto além da geração precedente, sem esquecer ou destruir suas descobertas.
(...)
No campo de arte como veículo, se eu considerar o trabalho de Thomas Richards em ‘Action’, com as antigas canções vibratórias e com todo este vasto terreno que liga a tradição que ocupa as pesquisas aqui, eu observo que a nova geração já avançou em relação à precedente.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

TERCEIRO ESPETÁCULO SOLIDÁRIO BRASÍLIA

Comecei a dar aulas de dança indiana
com objetivo de aprimorar meu treinamento
pessoal, realizar intercâmbios, ampliar
as fronteiras de cuidado e bem estar do corpo.
Com o passar do tempo, entre minhas alunas,
percebi que o grupo que tinha maior interesse nessa forma
de arte era o das mulheres mais experientes, aquelas
que passavam da faixa dos 40 anos.
No rico universo de atividades específicas realizadas,
fui incorporando às aulas de dança, noções de meditação,
teatro e técnicas de diversas culturas, criando assim,
não só uma “dança para o corpo”, mas,
principalmente, uma “dança para a alma e o espírito”.
Em 2007 conheci um grupo fantástico de mulheres,
todas acima dos 50 anos. Elas queriam com muita força
e determinação aprofundar os estudos de dança indiana.
Uma arte milenar. E não podemos esquecer que
a dança clássica indiana é extremamente complexa,
exige força, delicadeza, dedicação e memória.
Me envolvi então com o universo daquelas mulheres
e suas lutas para ultrapassar limites da idade e tudo
que envolve outra arte: a arte de envelhecer feliz.
Minha surpresa foi grande ao notar que todas
escolheram o caminho da alegria através da dança.
Eu, que queria ensinar, aprendi muito.
Era tratada como “mestra”, com todo sentido
que esta função tem. Assim, me sentia agradecida
e homenageada todos os dias.
Cada palavra minha, cada gesto ensinado era
recebido com reverência. Quanta responsabilidade!
Em 2010, por sugestão de uma aluna, Helena Muniz,
pensamos em criar um espetáculo de dança,
com objetivo de unir arte e solidariedade.
Uma forma de agradecer e celebrar a vida.
Em parceria com a dançarina e coreógrafa Ruth Santana, professora de danças ciganas no SESC-DF e a sua
Companhia de Dança “Os mais Vividos”, realizamos,
então, o primeiro Espetáculo de Dança Solidária.
Um sucesso de público e arrecadação de alimentos.
Hoje, muito felizes, realizamos o 3º Espetáculo Dança Solidária Brasília. Com muitas novidades, novas
Companhias, Grupos, Parceiros e Apoiadores.
Estamos crescendo!
É com muita emoção e carinho que dedicamos agora,
em 2013, o 3º Espetáculo Dança Solidária Brasília
à nossa querida – saudosa aluna, Lucenir Miranda Alves.
Lucenir era um exemplo de força e coragem de viver.
Mesmo doente, com dignidade exemplar dançou
e lutou pela vida até o fim.
Este ano, seu espírito vai dançar conosco
no primeiro domingo de dezembro, dia 1º,
no palco da Escola Parque 303/304 Norte.
E, se o céu existe, deve ter música para
ela continuar dançando para o infinito.

sábado, 26 de outubro de 2013

A DANÇA ORIENTAL E A AUTO ESTIMA DA MULHER

A DANÇA ORIENTAL E A AUTO ESTIMA DA MULHER






“Expressar a sua personalidade através da Dança Oriental, às vezes sozinha, outras acompanhadas, incita a Mulher a ter uma novo olhar sobre a sua auto-imagem (muitas vezes negativa) numa atmosfera fortalecedora e encorajadora. Este encontro entre o céu e a terra, entre a força e a sensibilidade, intensidade e paz interior, sensualidade e poesia leva muitas mulheres a alcançarem liberdade interior.” 
Autor desconhecido.

Dançar é uma forma de libertação. Libertação de tensões, medos, preconceitos, de fantasmas que criamos no nosso inconsciente.

Todo o ser humano, Homem ou Mulher nasce com uma liberdade interior, que se vai perdendo à medida que este vai crescendo, e ao atingir a idade adulta, a maioria de nós já perdeu a alegria, a paz, e a vivacidade próprias de uma criança. Essa perda atinge particularmente as mulheres.

A pressão que se vive hoje em dia, a exigência em ter que ser a chamada “mulher ideal” por uma sociedade materialista e obcecada pela perfeição (perfeição em sermos Mulheres, Mães, Esposas, Trabalhadoras, etc…), afasta a mulher de ser Ela Mesma, de saber aceitar-se com todos os seus defeitos e qualidades, com todas as suas capacidades e incapacidades.

Assim, vamos mergulhando numa ilusão dessa mesma “perfeição”, onde cada uma de nós passa a querer ser algo pré-definido, deixando de olhar para dentro de nós e esquecer o que realmente somos e o tão maravilhosas que podemos ser em todas as áreas da nossa vida.

A meu ver, o Oriente sempre foi mais sábio em relação ao ser humano, principalmente em relação à Mulher. Basta analisar a História para verificarmos a atenção e a importância que os antepassados do Oriente davam ao fato de se ser Mulher e tudo o que ela representava, fosse para o  bem ou para o mal, pelo fato de ser uma sociedade Matriarcal.

A Dança Oriental nasce e é desenvolvida num período onde a mulher sem tabus e sem preconceitos, dança para ela própria e numa forma de comunicação com o divino/inconsciente/algo superior e o seu interior, conduzindo-a a um profundo auto-conhecimento, que a leva a uma aceitação plena de como realmente é, desenvolvendo um estado de paz interior (consigo) e exterior (com o mundo).

Desde esse período até aos dias de hoje a Dança Oriental sofreu várias metamorfoses e influências (boas e más), ganhou e perdeu qualidades, mas nunca deixou de transmitir a quem a pratica a possibilidade de se encontrar com o seu interior e saber ouví-lo. Sempre irá conter nos movimentos da técnica desta dança o treino e visualização de imagens arquetípicas que contêm uma acumulação de séculos de sabedoria.

Assim, a Dança Oriental desperta e desenvolve todos os sentidos, a intuição e a sensibilidade (tão característico das mulheres), desbloqueia e apura a nossa sensualidade melhorando o relacionamento com a nossa própria sexualidade.

Aprende-se a aceitar como somos e não como gostaríamos de ser, deixando-nos com uma segurança interior tão forte que acabamos por perder timidez e inibições, desenvolvendo a coragem e a comunicação tanto verbal como corporal. Tornamo-nos mulheres fortes, belas, sábias, com uma auto-estima fora do normal que nos faz enfrentar o Mundo com uma visão positiva e sonhadora.
                                                                                
SARA NAADIRAH
Professora e Bailarina de Dança do Ventre em Portugal
www.saranaadirah.com
saranaadirah@mail.pt                       

ALMA E ´TÉCNICA NA DANÇA





1. Respire e sinta o momento

Respire bem durante cada movimento; mantenha sua atenção focada em seus pés, seu ventre, sua pélvis e em sua respiração. Tente viver esse momento em seu ventre e em sua pélvis, sentindo seus pés tocando o chão e o fluxo de sua respiração passando pelo nariz e pela boca.

2. Relaxe os lábios
Aproxime os lábios de uma maneira mais sensual. Não force o maxilar ou a boca, deixe-os relaxados. Isso também fará com que você expire melhor pela boca e inspire mais profundamente o ar pelo nariz - dando mais energia a cada movimento.

3. Deixe a tensão de lado

Faça uma análise: você fica tensa o tempo todo durante a aula? Por que se a resposta é 'sim' e você de fato não consegue se divertir durante esse momento, talvez esteja perdendo o melhor disso tudo. Você sabe: o estresse se reflete no corpo, em seus movimentos. Faça da alegria o seu foco principal e uma mágica vai acontecer de repente, juntamente com seus movimentos: eles fluirão mais facilmente e melhor.

4. Monitore seus pensamentos

Comece mudando aqueles pensamentos negativos, de auto-crítica. Essa é uma chave poderosa para abrir a porta e encontrar sua verdadeira beleza feminina.

5. Tente deixar de lado a ambição e a concorrência

Pode parecer difícil, mas críticas demais a si mesma e aos outros só tornarão o momento da dança menos alegre e produtivo para você. Se esses pensamentos andam te atrapalhando, tente focar sua atenção em outros detalhes: sinta seus pés no chão, corrija sua postura, ou simplesmente ouça a música e se entregue a ela.

6. Faça amizades

Faça amigos, não se isole durante a aula. Tente conhecer a personalidade das outras mulheres de sua classe. Pode acreditar: isso dará mais sentido à sua dança.

7. Capriche no visual 

Lembre-se que as roupas são parte importante da dança do ventre. Compre alguns adereços para enfeitar seu lenço de quadril ou qualquer outro complemento para dar mais cor e tempero ao momento. Isso aumentará ainda mais seu interesse.

8. Atenção redobrada para os pés

Aprenda de verdade sobre o movimento dos pés. Eles são a sua base, da qual seus quadris e todo o seu corpo dependem. É como a base de uma pirâmide segurando toda sua estrutura. Então, não menospreze esse "detalhe".

9. Pergunte

Não tenha medo de fazer perguntas à sua professora. É como na escola: elas sempre servem para todo mundo, porque as outras alunas podem ter as mesmas dúvidas que você. E lembre-se: você é uma cliente, está pagando!

10. Mergulhe de cabeça na música 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

DANÇAR O MOVIMENTO DA VIDA




Dançar o movimento da vida


Klaus Vianna
Professor de dança e ex-diretor do Teatro Municipal de São Paulo


I
Dançar não significa reproduzir formas. A forma é fria, estática, repetitiva. É aventurar-se na grande viagem do movimento que é a vida; lançar-se na espiral dinâmica que nos tira do círculo neurótico da repetição e da não-possibilidade de experiências primeiras. A forma pode ser comparada com a morte; o movimento, com a vida. Nosso corpo precisa de códigos para que possa se exprimir. Novos códigos nascidos, não da forma, e sim do movimento, devem surgir dentro de um processo de reclassificação interior de valores autênticos. Num passo subseqüente, esses códigos irão comunicar-se com o mundo exterior.

II
Sou um ser criador. Nós todos somos seres criadores. Somos a origem de uma estética que é filha do meu momento físico, emocional, mental e espiritual, bem como social e político (quando estes dois últimos aspectos estão ligados a nossos interesses primeiros).
Discute-se muito a respeito de uma dança política, no sentido da política do corpo. Mais do que na forma, uma real dança política estaria localizada na idéia, no conceito. Ela nasceria do movimento, que é eterno, que é vida.
Acredito que o corpo possua, internamente, uma política que lhe é própria. Uma política que se confunde com a dinâmica do movimento. Quando soltamos nosso movimento, ele tende a se organizar de forma natural e a organizar o corpo, obedecendo a uma série de prioridades. Tais prioridades obedecem a uma lógica que é em tudo semelhante à lógica da vida.
Como qualquer outro sistema honesto de autoconhecimento meu trabalho objetiva a descoberta do eu interno. Chega-se a ele através de muitas formas, mas, principalmente, através da intensa vivência da relação mundo-eu: minha individualidade emerge deste relacionamento.
O eu interno desabrocha a partir da maturação do "eu social" com o qual nos relacionamos com o mundo externo. A descoberta da singularidade do eu interno, o ser único, individual, criativo, que existe no fundo de cada um de nós, é fundamental para que ocorra a verdadeira descoberta da vida e do movimento.
Todos nós somos vítimas, desde que nascemos — talvez até mesmo antes — e durante todo o processo educacional, de uma quantidade enorme de condicionamentos. As coisas estão, de maneira fácil, catalogadas em nossa memória cerebral. Isto facilita os processos mecânicos (podemos recorrer à memória mecânica sempre que disso tivermos necessidade). Por outro lado, afasta e dificulta o processo de auto-conhecimento. Isso traduzido em termos de comunicação, mais especificamente de dança, faz com que a pessoa seja um mímico repetitivo e não um bailarino criativo. Em poucas palavras, a memória robotizada pode produzir formas, mas nunca criar movimento.

III
O processo de elaboração, com sentido didático, III de uma aula de dança, contém, na sua própria base, um tema principal: a derrubada da parede que separa a sala de aula — onde o aluno exercita o seu corpo — do mundo externo, onde ele exercita a vida cotidiana.
Antes de qualquer outra coisa, ele deve saber que o corpo que usa para correr, brincar, rir, amar, sofrer é o mesmo corpo que deverá ser usado no trabalho da dança. Quanto mais o aluno trouxer para a sala de aula os seus problemas existenciais, seus questionamentos, dúvidas; quanto mais ele trabalhar, durante a aula, as questões que nascem da relação de sua individualidade com o mundo externo, mais rico e mais profundo será o resultado dessa pesquisa. Uma pesquisa que objetiva a concientização de seu corpo e a descoberta de seu movimento próprio.
A "derrubada da parede" deverá ser levada a todos os aspectos da vida da pessoa. Tal eliminação de barreiras pode, inclusive, começar na relação a ser estabelecida entre professor e aluno, que deverá ser a mesma relação entre duas pessoas na vida. É, em boa medida, um fato normal, pelo menos nos estágios iniciais, que o aluno procure projetar no professor sua freqüente necessidade de um ponto de referência externo, destinado a absorver as carências de todo tipo que são típicas da personalidade ainda não completamente formada do aluno. Quando esta projeção ou transferência acontece, e é detectada pelo professor, este deverá encontrar um meio — e esse meio é sempre de tipo pessoal — para devolver ao aluno a energia de fundo neurótico que esse mesmo aluno gerou. É nesse processo que o aluno chegará a ajustar-se.
A relação de tipo "professor, guru onipotente" — "aluno, filho subserviente" pode ser altamente nociva ao processo do trabalho da dança, da mesma forma que o é no processo da vida. O professor é, simplesmente, uma pessoa dotada de mais experiência (alguém que já passou pelo processo que o aluno está passando), e ele deverá fazer com que o aluno se observe, estabelecendo uma linha de prioridades lógicas na trajetória da redescoberta, pelo aluno, do seu movimento próprio. O professor deve ser uma pessoa com mais experiência na relação mundo-eu: como veremos mais adiante, esta relação é fundamental em meu trabalho. Considero-a como origem e motor do movimento.

IV
As figuras desenhadas pelo movimento circular são as mais relaxantes para o corpo humano. Mas esse movimento pode ser perigoso quando usado de maneira indevida e repetitiva. Sem uma capacidade madura de observação Física, emocional e intelectual do que se está fazendo, perde-se o sentido criativo da repetição e do amadurecimento dessa linha curva. Ela deverá, sempre, redundar numa espiral, ou seja, numa curva aberta.
Se a pessoa entende a curva como sendo uma linha fechada (círculo), ela roda, roda, e não sai do mesmo lugar. É preciso distinguir bem, portanto, entre a linha curva que uso em meu trabalho e o círculo fechado, que é o oposto dele. Este raciocínio é perfeitamente válido para todas as situações da vida; portanto, também pode ser válido para o trabalho da dança.
Em qualquer área da atividade humana, todas as técnicas profissionais foram aprendidas e desenvolvidas a partir da experiência de vida. Os problemas técnicos que aparecem nas profissões são os mesmos problemas que aparecem nas situações da vida. Se isso não acontece na dança, algo está errado com a técnica usada na sala de aula. Este é o caso do balé clássico quando mal orientado. Ele coloca uma verdadeira redoma de vidro que separa o bailarino da vida. Neste caso, os fluxos das duas linhas de experiência — a da vida e a da sala de aula — não se comunicam, não se encontram. Desta forma, o resultado final que se obtém não espelha ou reflete uma autêntica situação existencial.

V
Técnica não é estética. Técnica tem um sentido V utilitário, claro e objetivo. Ela tem de ser cristalina, transparente. De que adianta fazer uma série de movimentos considerados bonitos, se isto não amadurece, não me faz crescer? Se isto não contribui para o processo do autoconhecimento? Essa mentalidade distorcida faz com que a técnica acabe sendo considerada um fim em si mesma, quando ela deve ser um meio eficaz. Há aqui uma inversão de posições.
A técnica eficaz e verdadeira é aquela que permite extrapolar todos os falsos e repetitivos conceitos de beleza que impregnam a memória mecânica. É aquela que leva o bailarino a descobrir o seu verdadeiro movimento.
Um dos requisitos de um bom movimento é que ele sempre seja claro e objetivo. A beleza surge naturalmente, como conseqüência natural da verdade e da objetividade do movimento. A mim interessa principalmente o movimento, pois é através dele que trafega a emoção. Seu valor estético é uma mera conseqüência. O movimento é fraco e vazio quando não estiver impulsionado pela verdade. Meu sentido pessoal de estética está muito mais baseado na clareza do movimento do que em referências condicionadas de forma ou conceitos preestabelecidos.
Por outro lado, as situações políticas e sócio-culturais influenciam de maneira determinante o comportamento gestual e postural das pessoas. Por exemplo, uma sociedade como a polinésia, havaiana ou taitiana, célebres pela liberdade de seus costumes, produz naqueles povos posturas e movimentos flexíveis, redondos, denotando o grau de liberdade interna e externa de que aquelas pessoas desfrutam. Já uma sociedade guerreira, de caçadores, de ênfase viril, como a de certas tribos africanas, produz posturas e movimentos fortes, intensos, de grande conteúdo rítmico. Todas estas são formas de condicionamento natural.
Cada um de nós é um microcosmo, uma síntese de todo o universo. Assim, nós somos o universo, e ele está inteiro dentro de nós. E a essência última do universo é, também, a nossa essência. Por isso, se eu não restabelecer o contato consciente com o meu eu interior, contato que em geral é perdido desde a mais tenra infância, permanecerei impotente e incapaz de estabelecer um verdadeiro diálogo, seja ele qual for. O resultado dessa situação de falta de sintonia com o eu interior, traduzido em termos corporais, faz com que meus gestos, posturas e atitudes — que são maneiras através das quais eu me projeto no mundo — sejam medrosos, curtos, inseguros.
O fato de cada pessoa ser, em síntese, o próprio mundo permite que ela encontre resposta para suas dúvidas, paixões e anseios quando mergulha com coragem — e com boa técnica — no seu universo interno. Isso faz com que, por exemplo, grandes atores consigam representar um mesmo personagem, um mesmo texto, dezenas e dezenas de vezes, todas elas distintas uma da outra. Buscando em si mesmo a verdade daquele personagem, esse ator consegue, a cada nova representação, explorar aspectos novos, e até mesmo inéditos, do ser fictício — mas ao mesmo tempo muito real — que ele encarna.
O mesmo processo se aplica à construção de personagens clássicos da dança. Quando ele é corretamente aplicado, as "Giselles, Odetes, Copélias" deixam de ser personagens acadêmicos, para serem verdadeiramente clássicos. Em outras palavras, deixam de ser estereótipos formalizados de personalidades humanas, para atingirem a dimensão de autênticos arquétipos de humanidade. No teatro ou na dança, o ator e o bailarino desencadeiam na substância de sua individualidade a chama da criatividade que nasce da observação e da sensação. Só a partir daí — e não antes — é que os elementos adquiridos através desse processo são codificados pelo cérebro. O passo seguinte é a utilização da técnica mais adequada para, a cada representação, dar corpo e alma cada vez mais ricos ao personagem. Este é, creio eu, o processo de criação da dança — movimento — bem como de todas as demais forças vivas da comunicação verdadeira.


A forma necessária
Movimento é experiência de vida. A vida repete infinitamente todas as suas criações, reproduzindo, com todas as coisas, ciclos cada vez mais aperfeiçoados de nascimento-vida-morte-renascimento. A técnica deve ser adquirida da mesma maneira. A técnica é uma conquista do dia. Exige reeducação, no sentido de que o estudo (ou criação) do movimento não deve ser repetido de maneira automática, mecânica, mas sim deve ser sentido e vivido interna e externamente. Para isso, é preciso que eu repita muitas vezes o movimento. Não adianta entendê-lo de maneira apenas intelectual. É na prática da repetição sensível e consciente que a pessoa conquista e desenvolve uma técnica formal adulta; é essa técnica que lhe permitirá criar movimentos próprios, cheios de espontânea e natural beleza.
A forma é necessária para gerar movimento. Portanto, não sou contra a forma, e sim contra a forma mal empregada.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

DANÇA ESPONTÂNEA

DANÇA ESPONTÂNEA

Rolf Gelewiski (1930/1988), alemão, dançarino e coreógrafo, era um homem que buscava em si mesmo
sua força criativa. Quando entrou em contato com Sri Arobindo, na Índia, construiu uma metodologia
de ensino cujo principal objetivo era incluir o corpo como o grande caminho para o ser humano expressar
os potenciais adormecidos e automatizados por uma civilização que nega o corpo e o associa a pecado.
Sua proposta pedagógica inclui o corpo e sua totalidade.

Percebi e senti profundamente o efeito desta metodologia em recente curso de aperfeiçoamento
do qual participei (“Dança Espontânea”, aqui em Brasília). Durante as aulas ministradadas por duas ex-alunas dele,
Rosa e Angelita, a mim foi dada a oportunidade  de entender, por meio de uma descrição precisa, o caminho
da energia percorrida no corpo; os deslocamentos energéticos, o efeito e a relação do movimento no espaço.

Nada místico, misterioso para poucos “escolhidos” ou “iniciados”.
Na verdade, uma abordagem que democratiza e amplia o conceito de criatividade.
Absolutas possibilidades de se obter perfeita relação entre pensamento, ação e transcedência.

A energia que nos foi apresentada – e cada um experimentou em si mesmo o deslumbramento
de estar totalmente no “aqui e agora” – levou-nos à consciência de nossa própria presença.
O despertar para uma folha que caía de uma árvore, o sutil andar de um gato que habitava
o espaço no qual estudávamos. Tudo revelou-se mais importante e integrado através da simplicidade e,
paradoxalmente, da complexidade. Preenchidos de sentido, nossos movimentos tornaram-se livres,
sem a mente a nos “empacotar” dentro de um “arquivo registrado” pelo corpo.
Lugares nunca antes visitados. Um benéfico salto para o desconhecido.

Os movimentos espontâneos deveriam ser (sempre) naturais. Como andar, respirar ou dormir.
Ações que, quase sempre, executamos sem muita consciência. Para o movimento brotar
mais espontâneo, orgânico e verdadeiro, quanto mais consciência e intensidade, mais presença do ser.
É preciso – e urgente – escutar o corpo. Seguir a intuição vinvenciando a intensidade da vida.
A descoberta da força e da delicadeza.

Ao final do treinamento, uma aluna, espontaneamente se deslocou em direção a uma das professoras.
O movimento, foi compreendido por ela como “uma bênção”, numa reverência à mestra.
Quando nossa colega nos relatou sua experiência, Angelita, a professora, nos deu uma resposta linda:
“Quando você fizer uma reverência a alguém, se olhe no espelho:
é você. Tudo parte de você. Desconfie de alguém que recebe uma reverência e se apropria dela”.

Este pensamento levou-me a refletir (repito) sobre a simplicidade – e paradoxalmente a complexidade
– de que todos nós somos “deuses” quando expressamos a nossa totalidade.

Para quem quiser pesquisar alguns princípios abordados na aula:


VIDA & MOVIMENTO
  Movimento Latente/Atual
  Movimento Parcial
  Definição do Movimento
  Presentificação das Situações
  Presença & Integração
  Intensidade/Força/Suave/Delicada
  Espaco & Direção
  Tempo - Tragetória
  Ritmo - Ciclos
  Frase Musical
  Pulsação
  Concentração
  Respiração & Deslocamentos Energéticos
  Educação integral e a abolição das fronteiras na arte,
  música, dança e artes visuais como ferramentas para ampliar as possibilidades criativas.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

DANÇA E ENERGIA

Dança e Energia

Como toda arte, a dança pode promover êxtase e admiração. O pensamento e o olhar  se equilibram em movimentos mil de prazer em mosaicos de interpretação, enquanto a música eleva o espírito, inebriando e contagiando com os sentidos aquecidos pela emoção. O que é dança, afinal?
Dançar é arte do movimento humano, plástico-rítmico, abstrato ou expressivo, realizado individual ou coletivamente. A dança possui três aspectos: 
  • o dinâmico;
  • o plástico;
  • o rítmico
Essa arte apresenta características essenciais próprias, embora existam elementos comuns a outras manifestações artísticas. Através de convenções e  realizações de um vocabulário tradicional, inusitado ou improvisado, pode-se limitar, dimensionar, expandir seu instrumento principal: o corpo e a alma humana. Sua precisão depende da harmonia e do equilíbrio entre seus elementos básicos e a técnica com que é produzida.

O ritmo que é peculiar a cada criação  nasce singularmente de sua  própria essência,  prescindindo de acompanhamento musical que varia desde o bater de palmas até os complexos ou mais simples e doces arranjos orquestrais.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

SHIVA NATARAJA " O SENHOR DA DANÇA "

Shiva Nataraja " O Senhor da Dança"


A DANÇA DE SHIVA

“Shiva, o senhor do linga, consorte de Shakti-Devi, é
também Nataraja, “Rei dos Dançarinos”.

A dança é uma ancestral forma de magia. O dançarino
ganha novas e maiores dimensões, torna-se um ser
dotado de poderes sobrenaturais.

Sua personalidade se transforma. Como a ioga, a dança
leva ao transe, ao êxtase, à vivência do divino. À
compreensão da própria e secreta natureza individual
e, por fim, à fusão com a essência divina. Por isso,
na Índia, a dança conviveu lado a lado com as severas
práticas ascéticas dos eremitas- jejum, exercícios
respiratórios, introversão absoluta.

Para, exercer a magia, para lançar encantamento sobre
outrem, é preciso que o indivíduo em primeiro lugar
encante a si mesmo.

Coisa que pode ser efetuada tanto através da dança
como da prece, do jejum e da meditação.

O que explica ser Shiva, portanto não só o arquiiogue
dos deuses, mas também, necessariamente, o senhor da
dança.

O propósito da dança pantomímica é transformar o
dançarino no demônio, deus ou entidade telúrica que
ele personificar.

A dança de guerra, por exemplo, converte os homens que
a executam em guerreiros; desperta-lhes as virtudes
bélicas, transformando-os em heróis destemidos.

A dança pantomima da caçada antecipa e assegura,
através da magia, o êxito da caça, convertendo os
participantes em infalíveis caçadores.

Para despertar de sua letargia os poderes naturais
referentes à fecundidade, os dançarinos imitam, com
sua mímica, os deuses da vegetação, da sexualidade e
da chuva.

A dança é um ato criador.

Suscita uma situação nova, e desperta no dançarino uma
personalidade nova e superior.

Possui uma função cosmogônica, isto é, desperta as
energias latentes para que confiram forma ao universo.

Numa escala universal, Shiva é o Dançarino Cósmico; em
sua manifestação dançante incorpora em si mesmo a
energia eterna que, simultaneamente, torna manifesta.

As forças reunidas e projetadas no seu girar frenético
e incessante são os poderes de evolução, preservação
e dissolução do universo.

A natureza e todas as suas criaturas são efeito dessa
dança eterna.

Shiva-Nataraja está representado numa bela série de
bronzes do sul da Índia, que datam dos séculos X e XII
d. C.

Os detalhes da imagem devem ser interpretados, de
acordo com a tradição hindu, como uma complexa
alegoria pictórica.

Ver-se- á que a mão direita superior porta, para a
marcação do ritmo, um pequeno tambor, cuja forma
sugere uma ampulheta.

Ele sugere o som, veículo da fala e portador da
revelação, tradição, encantamento, magia e verdade
divina.

Além disso, na Índia o som é associado ao éter, o
primeiro dos cinco elementos.

O Éter é a manifestação primordial e mais sutilmente
penetrante da Substância divina.

Dele emanaram, durante a evolução do universo, todos
os outros elementos: ar, fogo, água e terra.

Portanto, som e éter, unidos, significam o primeiro e
genuinamente verdadeiro momento da criação; são a
energia produtiva do Absoluto, em sua prístina força
cosmogenética.

No lado oposto, a mão esquerda superior, cujos dedos
formam uma meia-lua, mostra na palma uma língua de
fogo.

O fogo é o elemento da destruição do mundo.

No término do Kali-Yuga, o fogo aniquilará o corpo da
criação, sendo ele próprio então apagado pelo oceano
do vazio.

O equilíbrio das mãos ilustra o equilíbrio
criação-destruição no bailado cósmico.

Como exercício da crueldade dos opostos, o
transcendental mostra-se através da máscara do mestre
enigmático: criação incessante versus um insaciável
apetite de destruição: som contra chama.

O campo da terrível interação é o sítio onde ocorre a
dança do universo, que o bailar divino torna
esplêndido e horrendo.

O gesto de “não temas” confere proteção e paz, é feito
pela segunda mão direita, enquanto a outra mão
esquerda, na extremidade do braço transversal ao
peito, aponta para baixo, para o pé esquerdo erguido.

Este pé significa a liberação; nele o devoto encontra
refúgio e salvação.

Deve ser venerado, para que seja alcançada a união com
o Absoluto.

O gesto da mão que o aponta imita a tromba distendida
ou a “mão do elefante”, lembrando-nos o filho de
Shiva, Ganesha, o Removedor de Obstáculos.

A divindade é representada dançando sobre o corpo
prostrado de um anão-demônio.

Este é Apasmara-Purusha, “Homem ou Demônio (purusha),
chamado “Esquecimento” ou “Imprudência (apasmara)”.

Simboliza a cegueira da vida, a ignorância humana.

Subjuga-o a obtenção da verdadeira sabedoria.

Nesta está a libertação da servidão do mundo.

Um anel de chamas e luz emerge do deus e o circunda.

Diz-se que significa os processos vitais do universo e
de sua criaturas, e a natureza em sua dança, a
mover-se como se a impulsionasse um deus a dançar
dentro dela.

Ao mesmo tempo, diz-se que significa a energia da
sabedoria, a luz transcendental do conhecimento da
verdade, cuja dança emana da personificação do todo.

Outro significado alegórico atribuído ao halo
flamejante refere-se à sílaba sagrada AUM ou OM.("A"
mais "U" tem o som de "O") Considera-se esta expressão
mística (aye, amen), enraizada na sagrada linguagem
védica de prece e encantamento, como uma expressão
afirmativa da totalidade da criação.

“A” é o estado do despertar da consciência, de envolta
com seu mundo de experiência rudimentar.

“U” é o estado de consciência onírica, que vivencia as
sutis formas do sonho.

“M” é o estado do sono sem sonhos, a condição natural
da consciência imóvel e indiferenciada, na qual toda a
experiência é dissolvida numa não-experiência
bem-aventurada, num todo de consciência, num todo de
consciência potencial.

O silêncio que se segue à pronunciação trinaria A, U e
M, é a não-manifestação última, na qual se reflete a
perfeita supraconsciência, que se funde com a essência
pura e transcendental da realidade divina – Brahman é
vivenciado como Atman, o Self.

Por isso, AUM, fundido com o silêncio circundante, é
um som simbólico da totalidade da
existência-consciência, e ao mesmo tempo, sua
afirmação voluntária.

É provável que a origem do anel flamejante se refira
ao aspecto destrutivo de Shiva-Rudra; mas a
destruição, em Shiva, é, afinal idêntica à liberação.

Shiva enquanto Dançarino Cósmico personifica e
manifesta a energia eterna em suas “cinco atividades”:
1) Criação – o derramar ou expandir;
2) Preservação – a duração;
3) Destruição o retorno ou reabsorção;
4) Encobrimento – o velar do verdadeiro ser por trás
das vestes e máscaras das aparências, da indiferença,
da manifestação de Maya
5) Graça – aceitação do devoto, o reconhecimento do
empenho religioso do iogue, a concessão da paz através
de uma manifestação reveladora.

As três primeiras e as duas últimas são equivalentes,
grupos cooperantes de antagonismos mútuos; todas são
manifestadas pelo deus.

Ele as revela de modo não apenas simultâneo, mas
seqüencial. São simbolizadas pelas posições das mãos e
dos pés – sendo as três mãos superiores, criação,
conservação e destruição, respectivamente; o pé
plantado no Esquecimento é o “encobrimento” e o outro
erguido, a Graça; a “mão do elefante” assinala a
ligação entre as três e os dois, prometendo paz à alma
que vivencia a relação.

Todas as cinco atividades são manifestadas em
seqüência, simultaneamente à pulsação de cada momento,
através das transformações temporais”

(Mitos e Símbolos na arte e Civilização da Índia,
Heinrich Zimmer, 1993, Editora Palas,
Athena,p.122-125)

"TEMPOS MODERNOS"

Sou voluntária de uma ONG que tem como missão ajudar e promover conforto emocional e saúde mental a pacientes com depressão e pessoas...