A HISTÓRIA DA ILUMINAÇÃO

A história da iluminação

1. Introdução

O homem sempre tentou aproxima-se de sua alma adorando a luz do sol ou da lua. Ao dominar o fogo, acendendo fogueiras, deu-se início a história da iluminação artificial. Até hoje a luz é um símbolo de espiritualidade e misticismo.

O homem primitivo deixou suas marcas nas cavernas escuras com o auxílio de tochas e, através de seus rituais e lendas, a luz funcionou como elemento teatral. O fogo acompanhou a magia dos sacerdotes no início da história, dando-lhes mistério e teatralidade dramática. Portanto, a melhor forma de se estudar a história da iluminação é através do teatro.

A luz natural foi usada no teatro pelos gregos. Basta examinar a estrutura da dramaturgia da Grécia para perceber como o drama acompanha o caminho do sol, do leste para o oeste. As peças foram escritas em harmonia com o ritmo da luz e seus anfiteatros projetados com o mesmo objetivo.

2. Primeiros caminhos da luz artificial

O teatro, como o conhecemos hoje, foi criado nos séculos XVI e XVII. A platéia, o palco, os bastidores e o proscênio foram institucionalizados junto com a cortina, o fosso dos músicos, os balcões e todas as regras básicas da iluminação teatral. Princípios inquestionáveis até o século XX. Durante 300 anos nenhuma inovação foi considerada necessária. Mesmo depois que as tochas, lamparinas a óleo e velas foram trocadas pelo gás e depois pela eletricidade.

Os teatros renascentistas, assim como os da Idade Média, eram construídos para serem desmontados. O teatro era itinerante e raramente encontrava uma casa de espetáculos fixa. Os objetos usados para criar iluminação dramática foram desde pedaços de madeira encharcados em pixe (para manter a chama acesa por mais tempo) até as tochas. As tochas foram usadas como iluminação de rua e nos primeiros candelabros. Na Idade Média eram colocados de fora dos castelos e as velas em seu interior.

Não há provas de que houvesse iluminação na época de Shakespeare. No entanto há indicações em seu texto sobre tochas. Romeu pede uma tocha. Se foi realmente acesa ou se era apenas simbólica, é um mistério. Bem antes de Shakespeare, as velas haviam causado problemas sérios de asfixia e mau cheiro.

Segundo um manual da Renascença, escrito por Nicola Sabbattini, intitulado “Practica”, “as velas devem ser acesas de modo prático e seguro para não causar desordens e acidentes além de atrasos no espetáculo”. Um dos métodos de iluminar a platéia, por exemplo, era usar uma espécie de trança com pavio de vela num fio de metal molhado com óleo de carvão. Esse fio passava pelo topo de todas as velas dos castiçais. Técnicos experientes acendiam o fio e as velas eram acesas. Sabbattini, no entanto, não acreditava muito nesse método, porque ou a chama se apagava antes de acender as velas ou, pior ainda, pedaços de vela quente caíam na platéia. Em sua opinião, o melhor era molhar o pavio de cada vela em óleo de carvão e depois mandar “um homem de confiança” acender vela por vela com o auxílio de duas longas varas: uma para acender as velas e a outra com uma esponja com água para o caso de alguma vela pingar. Assim, o público teria que esperar mais tempo para o espetáculo começar, mas não se queimaria. Outro modo seria descer todos os candelabros, acendê-los e depois subir tudo de novo.

Os problemas com a iluminação do palco eram menores. Bastava uma boa quantidade de lamparinas a óleo colocadas nos bastidores e tochas espalhadas pelo palco, fixas no chão com gesso. Sabbattini termina com uma observação excepcional para o seu tempo: “Apesar de se ver melhor o guarda-roupa dos artistas usando luzes brilhantes colocadas diante do palco e em posição baixa, o rosto dos atores ficam pálidos e parecem estar com febre”. Os princípios básicos de iluminação cênica foram criados por ele e sua insistência em que se deve começar pela iluminação e não pelo cenário, marcou a história do teatro durante mais de 300 anos.

3. A descoberta do uso da cor

Sebastiano Seslio, pintor, antes de se tornar arquiteto, foi um dos iluminadores preocupados com a cor. Criava o rubi, misturando vinho tinto e rosé, e topázio com vinhos brancos e água filtrada por feltros. O vinho era colocado em conteúdos de vidro em cima de tábuas próximas a lamparinas.

Plataformas e ribaltas foram usadas na Itália, mas quando David Garrick as colocou no palco em fileira, em 1775, usando copas de metal, foi considerado uma inovação. Em 1783 inventou-se o “Lampião Argand”, utilizando cânfora e querosene, criando luzes vivas e fortes. E depois a chaminé a gás, uma das maiores invenções dos últimos 400 anos. Foram penduradas no teto, paredes, balcões, ribaltas e bastidores. Para se ter uma idéia do material utilizado na iluminação teatral antes de 1783, basta ler o inventário do Covent Garden, em Londres, antes de seu incêndio: oito varas de iluminação, nove telas com quarenta e oito velas fixas, doze velas para efeito de trovão, cinco copas, cento e quinze velas triangulares, cento e noventa e duas velas fixas e quatorze candelabros. Quando o teatro foi remodelado em 1803, usou-se candelabros de cristal com duzentos e setenta velas (por espetáculo) e trezentas lamparinas para iluminar palco e bastidores.

4. A era do gás

A iluminação a gás foi usada pela primeira vez pelo iluminador F. A. Wintzler num espetáculo no Lyceum Theatre, em Londres. Nos Estados Unidos, o primeiro teatro todo iluminado a gás foi o Chestnut Street Opera House, na Philadelphia. Mas o gás era tão caro que não foi colocado em uso até 1850.

A invenção da “Copa de Elsbach” trouxe novas possibilidades ao teatro. Agora era possível controlar a luz de um lugar central. Nasceu assim a mesa de luz, chamada na época de “mesa de gás”, usada no Lyceum Theatre de Londres e no Boston Theatre dos Estados Unidos. Uma chave geral controlava toda a planta.

Henry Irving, um dos maiores atores-empresários da era do gás, brincou com a iluminação com criatividade. Usou luzes individuais para iluminar objetos e fez experiências com cor usando seda e telas colocadas diante de luzes fortes. Quando surgiu a ribalta a gás, ele a utilizou para acompanhar os “spots”. O realismo romântico era parte da iluminação de Irving. Lady Macbeth, com cabelos vermelhos esvoaçantes, eram iluminados por tochas e Nero atravessou o palco montado num cavalo enquanto as casas e templos de Roma queimavam com chamas fortes e altas. Tudo nessa época se tornava em melodrama com ação irrealista. Acreditava-se que os atores principais representavam no proscênio enquanto o fundo do palco era utilizado apenas para o cenário.

A grande descoberta da época foram as luzes de ribalta. Obtinha-se um efeito de luz branca e brilhante e era operada ao lado do palco e apenas para dar destaque aos atores principais. No entanto, poderia ser perigoso. Ribaltas a gás muitas vezes queimavam os atores, especialmente as bailarinas com suas roupas esvoaçantes. Apesar desse perigo, a luz a gás era bela e durou, pelo menos nas ruas de Paris, até o fim da Segunda Guerra Mundial.

5. Chega a eletricidade

Em 1882, um grupo de donos de teatro resolveu elaborar um relatório recomendando todos os teatros a usarem eletricidade. A princípio, o técnico em eletricidade era considerado um “mágico”. Ele podia realizar qualquer efeito e cada vez mais eles se tornavam mais ousados. Os palcos foram elevados e rebaixados enquanto as luzes subiam e desciam. Nada de vinho ou sedas para se obter cores. As lâmpadas eram pintadas da cor desejada ou utilizavam-se gelatinas.

Um realismo mais sóbrio invadiu a iluminação teatral nas montagens das peças de Ibsen, Strindberg e outros. Produtores como David Belasco conceberam o realismo imaginando cenários e iluminação ultra-realistas. Durante a montagem do “The girl of the Golden West”, Belasco ordenou que se utilizasse um cenário de pôr-do-sol, de cinco mil dólares, porque “não era californiano”.

Salvo as exceções acima, a iluminação elétrica, a princípio, não trouxe inovações criativas. Nas comédias, a iluminação era clara; nos dramas, sem vida; o dia era amarelo e a noite, azul. Os efeitos empregados eram bem simples: incêndios, tempestades e nuvens.

Em geral, antes da década de 30, não se dava muita importância à iluminação. O cenógrafo era obrigado a conceber, executar e ainda criar a luz de um espetáculo. Na Europa, no entanto, pelo menos dois homens se preocuparam em compreender o papel da iluminação cênica: Adolphe Appia e Gordon Craig. Fizeram experiências para descobrir a dimensão dos objetos e desenvolveram cenários que possibilitavam efeitos repletos de dimensão. Utilizaram a luz como elemento unificador de formas criando composições parecidas com fotografias.

Mais tarde, nos extravagantes anos 20, nos Estados Unidos, Robert Edmond Jones, do Theatre Guild, acreditou que um tratamento visual poderia criar a atmosfera de uma peça. Por muito tempo, Jones foi um “profeta” sem discípulos na Broadway, apesar do teatro universitário e de vanguarda concordarem com suas idéias. Quando a crise atingiu a economia americana e, por conseqüência, o teatro comercial, abriu-se um espaço para idéias novas. Fazia-se qualquer coisa para chamar a atenção do público. Além disso, não havia dinheiro para grandes cenários realistas. Tornou-se necessário o uso da luz como geradora de clima e ambiente. Surgiram grupos experimentais com idéias revolucionárias, como Mastha Graham, Orson Welles, John Houseman, Jean Rosenthal etc. A partir desse momento, a iluminação cênica foi considerada arte e ofício e compreendeu-se sua contribuição ao espetáculo.

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Artigo extraído do livro “The magic of light”, de Jean Rosenthal e Lael Wertenbaker, e publicado na revista Cadernos de Teatro nº 102/1984, edição já esgotada. A tradução ficou a cargo de Liliana Neves.

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