domingo, 27 de novembro de 2011

Arquitetura irreversível – o corpo, o espaço e a flecha do tempo

Há alguma diferença entre Dança e Arquitetura? Essa pergunta, que pode parecer totalmente sem sentido à primeira vista, se mostra extremamente difícil de ser respondida quando começamos a esmiuçar as sutilezas de cada um desses dois campos de expressão do ser humano. É claro que existe uma diferença óbvia, que pode ser enunciada de forma quase tautológica dizendo-se que dança é dança e arquitetura é arquitetura. Por outro lado, ao olharmos com mais cuidado as questões colocadas atualmente pela dança e pela arquitetura percebemos que há evidentes mostras de uma convergência, ou talvez possamos dizer até mesmo de uma superposição, entre os domínios das duas atividades. Isso se faz notar especialmente quando observamos que profissionais de ambas as áreas começam a usar os mesmos termos e as mesmas estratégias para tratar do corpo, de sua existência no espaço e de sua relação com o tempo. Temas como a propriocepção, a indeterminação do corpo no espaço e a consideração da irreversibilidade do tempo têm surgido no discurso e na prática tanto de arquitetos quanto de profissionais da dança.
Na verdade, podemos dizer que o corpo, o espaço e o tempo sempre foram tópicos centrais no desenvolvimento da dança e da arquitetura e não é difícil levantar uma série de similaridades entre os dois campos. De imediato nos vêm a mente o fato de que ambos, arquitetura e dança, lidam com o corpo, ou para ser mais preciso, lidam com o corpo em movimento no espaço. Nesse sentido lidam também com a imagem desse corpo que se movimenta pelo espaço. Também lidam com a questão da força da gravidade como um problema a ser equacionado: a gravidade como algo essencial que tem que ser levado em conta, quer seja para aceitá-la ou para desafiá-la. O desafio do salto se assemelha ao desafio do concreto que vence um grande vão. Assim se na dança temos as danças aéreas (como os balés da tradição ocidental) contrapostas às danças telúricas (como as danças de origem africana), na arquitetura temos a leveza lírica (como nas obras de Niemeyer) contraposta a um ideal de peso dramático (como nas obras de Le Corbusier).
Mas para além desta coincidência de tópicos que vemos ao longo da história, a arquitetura e a dança contemporânea parecem confluir de maneira mais intensa, e em alguns momentos parecem até mesmo inverter suas posições e interesses no que se refere aos tópicos que se propõem pesquisar. Assim, se de um lado temos uma dança mais estruturada e arquitetônica, do outro encontramos uma arquitetura mais movimentada e mais dançante. Essa inversão aparece claramente, por exemplo, no intenso uso da geometria como base da dança por coreógrafos como Forsyth e o abandono da geometria pelos arquitetos contemporâneos como o holandês Lars Spuybroek. Mais ainda, quando a dança busca evitar a função narrativa associada aos balés tradicionais a arquitetura descobre seu potencial narrativo e ficcional. Será que estamos assistindo a uma convergência ou a uma mútua anulação? Diante desses indicativos, faz-se necessário compreender esta convergência, não por temer uma possível confusão, mas para que se possa levar aos limites do possível esta exploração e este jogo entre disciplinas e territórios distintos e até mesmo proceder a um trabalho de cross-fertilization.
O corpo – entre a coreografia e a habitação
De uma forma geral pode-se dizer que a questão essencial da arquitetura contemporânea é a sua relação com o evento; não a relação com o espaço ou o tempo de forma isolada, mas sim a relação com o evento enquanto acontecimento que não se repete, dotado de uma singularidade espaço-temporal. Assim, a questão que tem preocupado os arquitetos que praticam uma arquitetura investigativa é exatamente o jogo entre a determinação e a indeterminação de seus projetos e dos lugares deles resultantes. Em outras palavras qual o grau de liberdade dado ao habitante, usuário de espaços que prescrevem usos e modos de comportamento. E a grande aposta é o uso da indeterminação como abertura para a possibilidade de criação. Esta parece ser também uma questão essencial para a dança contemporânea – a relação entre a pré-determinação coreográfica dos movimentos e a liberdade de invenção no ato da dança, ou seja, qual o grau de liberdade entre o coreógrafo e o bailarino. A consideração dessa tensão entre um planejamento prévio e a invenção no ato do evento, na verdade, aponta para a consideração do tempo como algo irreversível (a flecha do tempo, como nos recorda Ilya Prigogine), que impossibilita a repetição idêntica de um mesmo evento, e por isso mesmo traz em si a possibilidade da criação.
No que concerne à Arquitetura, a questão se esclarece quando entendemos uma mudança de abordagem feita pelos arquitetos contemporâneos, que deslocam a arquitetura do âmbito dos objetos para o âmbito das relações, ou seja, deixam de ver a arquitetura como a edificação pura e simples (o objeto em sua materialidade) e passam a abordá-la como o conjunto de interações que acontece entre os habitantes, mediados pela edificação. Na verdade, se olharmos desde o seu surgimento e as suas mais antigas manifestações, assistimos a uma crescente desmaterialização da arquitetura: das pirâmides egípcias que eram pura massa às catedrais góticas permeadas de luz; dos volumes transparentes e interpenetrantes da arquitetura moderna aos espaços fluidos e imateriais das arquiteturas do ciberespaço. Essa evolução, de fato, mostra um distanciamento cada vez maior do caráter objetual da arquitetura e a ênfase sobre aquilo que parece ser o fundamento da arquitetura, o seu caráter de vazio que articula eticamente as pessoas. Assim, a Arquitetura assume-se cada vez mais como um vazio relacional, onde a injunções do habitante enquanto um sujeito desejante passam a ser prioritárias.
Essa desmaterialização do objeto arquitetônico ocorrido ao longo dos tempos parece acompanhar um progressivo distanciamento entre o corpo e a edificação, apontado por Anthony Vidler em seu livro The architectural uncanny. Na antiguidade o edifício buscava uma analogia ao corpo em termos de proporção e simetria – as catedrais simbolizavam o corpo de Cristo. Posteriormente o edifício passa a expressar sentimentos mais abstratos baseados nas sensações corporais. Já no século vinte o edifício não guarda mais nenhuma relação metafórica direta com o corpo humano, mas sim com um animismo mais abrangente, no qual a edificação é vista como um organismo, que cresce, respira, se transforma e envelhece.
Ma se por um lado a associação entre o corpo e a edificação sofre um distanciamento, se considerarmos a arquitetura não mais como a edificação, mas sim como o vazio relacional onde se dá o encontro entre os habitantes, veremos que o corpo passa a ter um papel de crescente importância. Diante da irreversibilidade do tempo o corpo se transforma em peça chave da arquitetura como o agente que articula o tempo e o espaço no evento, dentro de uma relação cada vez maior com a indeterminação. Se no início do século XX Le Corbusier, um dos expoentes da arquitetura moderna, propunha o passeio arquitetural como uma grande inovação, no qual o habitante desvelaria a arquitetura ao percorrê-la, vemos hoje arquiteturas onde o corpo não só desvela o espaço, mas na verdade altera as qualidades do próprio espaço quando nele se movimenta. Aqui o corpo não é mais apenas referência analógica para a construção da edificação, e nem é apenas o elemento que descobre a arquitetura, aqui o corpo com seu movimento passa efetivamente a construir a arquitetura, certamente uma arquitetura que se faz e se refaz na relação com o habitante.
É curioso notar que ao longo da história da arquitetura praticamente todas as referências ao corpo dizem respeito ao corpo masculino, e talvez pudéssemos arriscar que esta referência é menos à idéia do corpo que à idéia do falo, daí a excessiva ênfase no caráter objetual da arquitetura. Uma verdadeira consideração do corpo vai gerar uma arquitetura de caráter mais feminino, uma arquitetura da interioridade e da recepção. Mas o que dizer de uma arquitetura da indeterminação, de uma arquitetura que se faz e se desfaz, que busca o trânsito entre uma forma e outra? Aaron Betsky, não sem polêmica, propõe que essas novas abordagens sejam relacionadas ao que ele chama de corpo queer, em que estas distinções entre o masculino e o feminino ganham outras nuances e possibilidades de intercâmbio.
De objeto fálico a vazio relacional
Polêmicas a parte, este deslocamento de objeto fálico para vazio relacional na verdade aponta o fim de uma proeminência estética e a recuperação de um caráter ético na arquitetura. Movimento semelhante pode ser constatado na dança, que tem seu caráter estético cada vez mais questionado quando, entre outras coisas, abandona a idéia de composição puramente visual. Tais deslocamentos fazem com que arquitetura e dança passem a se situar cada vez mais no campo da linguagem e, por extensão, do desejo, tornando as distinções entre as duas áreas ainda mais tênues. Por exemplo, quando se tira o determinismo da dança e a coreografia perde a excessiva marcação, o ato de dançar parece se transformar no ato de habitar, ou seja, quando é diminuído o papel tradicional do coreógrafo como aquele que antevê e desenha aprioristicamente o movimento no espaço, há uma aproximação grande entre o bailarino e o simples habitante do espaço. Por outro lado, quando o habitante ganha consciência de seus movimentos devido a uma conformação especial do espaço, ele adquire algo do bailarino que performa um movimento previamente planejado. Da mesma forma como a arquitetura passa a trabalhar com as questões da alteridade e explorar a interação entre os habitantes, a dança vai lançar mão de técnicas de contato e improvisação, nas quais o fundamental é a investigação da relação com o outro.
No entanto, apontadas as similaridades, a questão mais difícil aparece: já que intuitivamente sabemos haver uma distinção, o que é que na verdade distingue a arquitetura da dança? Um dos elementos chaves nessa diferenciação é certamente a idéia de espetáculo, no sentido da existência de uma platéia que assiste à dança. Essa diferenciação é crucial, apesar de sugerir um conservadorismo politicamente incorreto, especialmente quando lembramos que os tempos atuais são de ruptura e transdisciplinaridade, em que a dissolução das fronteiras de nossa atuação é quase impositiva. Mas é nesta diversificação na forma de participação, com a distinção entre o ver e o ser visto, que há o estabelecimento de uma distância crítica entre o público e o performer, distância fundamental para a manifestação artística. A rigor, o surgimento dessa linha divisória é que vai distinguir o ritual das outras manifestações como o teatro e a dança. Nesse sentido, o ato de habitar se aproximaria mais do ritual do que da performance, já que na arquitetura o habitante é performer e audiência simultaneamente, operando um intercâmbio fluido nesta função de ver e ser visto. Essa aproximação fica ainda mais clara se lembrarmos que o rito pretende consolidar uma visão de mundo e a performance busca a instauração de uma nova cosmologia.
Assim, o ato de habitar se assemelharia ao ritual, enquanto reafirmação de uma visão de mundo, e o dançar estaria mais ligado ao papel da performance, enquanto re-instalação de uma visão de mundo outra. Se por um lado parece difícil aceitar o ato de morar como algo da mais pura conservação, por outro lado não fica difícil aceitá-lo como um ato ligado à idéia de manutenção, que não traz embutida a idéia de estagnação ou cristalização, mas ao contrário, nos remete aos conceitos de processo e criação. Assim, poderíamos pensar que a arquitetura reafirma e assegura o lugar de meu corpo no mundo, e a dança indaga e repropõe o lugar desse corpo no mundo.
Essa abordagem nos permite sair de uma posição na qual a distinção entre dança e arquitetura seria resumida apenas a uma questão arbitrária de nomeação - isto é chamado arquitetura, portando passa a ser arquitetura; isto é chamado dança, portanto passa a ser considerado dança. Há na verdade um encontro entre arquitetura e dança, que acontece com as manifestações chamadas site specific, que poderíamos dizer ser a exploração radical da relação entre corpo e lugar. Nestas ações específicas, dirigidas a um lugar específico, temos na verdade um jogo que transcende a funcionalidade do lugar e a estetização associadas ao espetáculo e apresenta uma exploração da arquitetura e da dança em seu potencial de construção e criação, em que é considerado de forma incisiva o tempo como uma flecha irreversível.
Aqui o evento ganha proeminência e a arquitetura, mais que nunca, se faz irreversível: o ato não tem retorno (não há na vida real um comando desfazer, como nos teclados de nossos computadores). Essa consideração da irreversibilidade parece criar um momento particularmente frutífero no que concerne à inserção de nosso corpo no mundo, à nossa existência como seres habitantes de um tempo e um espaço singularizados e assim parece sinalizar uma inclusão mais vasta de meu corpo na totalidade do mundo, inclusive na totalidade de um mundo que esse próprio corpo reinventa e constrói.
sobre o autor
Arquiteto, mestre e PhD pela School of Architectural Studies – Sheffield University (Inglaterra). Professor Adjunto da Escola de Arquitetura da UFMG. Coordenador do LAGEAR – Laboratório Gráfico para a Experiência Arquitetônica (EAUMFG). Membro fundador do IBPA (Instituto Brasileiro de PerformanceArquitetura)

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