ARTE


Eu li uma vez que a arte nasceu do estômago, quando nossos ancestrais registravam no interior das cavernas o seu cotidiano, e atribuíam um papel mítico a esse ato, já que eles acreditavam que se fosse desenhado na parede um animal abatido, isso confirmava a fé na garantia do alimento. Outra coisa que me lembro , creio que a melhor forma encontrada pela humanidade para garantir a sua sobrevivência , era a união, a tribo, o clâ, a percepção de que um grupo em muitas situações permanece como o sentido lógico de nossa auto-preservação.
No meu processo de trabalho que é solitário, tenho um palco vazio todo para mim, encontrei pessoas muito queridas que ajudaram a construir para que essa história, feita de deslubramento pelo ser humano e a sua sombra.
Uma amiga atriz me disse , não sei onde ela ouviu isso, que o ator é solitário e solidário, eu entendo profundamente essas palavras, vivi momentos de solidão quando estava diante diante de mim, com um corpo ávido para dançar e a cabeça não acompanhava, uma total "síndrome do papel branco", como diria outro grande amigo meu publicitário, momentos de angústia e medo, de não conseguir. Nós artistas batalhamos por patrocínio, e quando ele chega na nossa mão, percebemos que o filme mal começou, e que cada dia é um roteiro diferente. Eu fiz a produção do meu espetáculo e fui forçada diante das circunstâncias a entender e dominar cada detalhe do meu processo, dominar a burocracia, administrar meu ego, enfim, hoje não basta criar, o artista preciso ter pleno domínio de sua arte e de todas as etapas do caminho da idéia até o projeto chegar no público. Estou muito exausta e muito feliz, porque percebi que posso , que não sou tão etéria como pensava que era , uma pessoa que não suportava burocracia, papéis , queria só criar , mas hoje é impossível, precisamos estar atentos a tudo, e que bom que é assim, isso garante a nossa autonomia. Imagino como era difícil para o artista, que no passado, se submetia a sua criação a faraós, Papas, mecenas, convenções , e era obrigado a lutar para dizer o que queria , enfrentando o furor da multidão incompreensiva.Lembro de Anita Malfati, criticada pela família e até pelo grande Monteiro Lobato, e em Bob Dylam , não esqueço daquele show nos anos 60, quando ele caiu fora do estígma músico de canções de protesto, e revelou sua essência, ignorando as vaias, a lista é enorme de artistas e pensadores que tomaram nas próprias mãos, essa força misteriosa que nos faz, virar" cordeiro de deus", morrer por dentro .
Eu continuo a pensar sobre como nós artistas somos seres extranhos, li sobre uma escritora que levantava da cama com a voz dos seus personagens na cabeça. Eu acordo com as melodias que vou dançar na cabeça. Meu corpo todo nesse momento se trasngrediu em possibilidade, eu preciso nascer.
Eu finalizo com ela, Anita Malfatti :



"Então, pela primeira vez em minha vida, comecei a entristecer-me pois estava certa de que meu trabalho era bom; tanto os modernos franceses como os americanos haviam dito espontaneamente, desinteressadamente. Só desejei esconder meus quadros, já que, para me consolar, os outros acharam que eu podia pintar como quisesse. Eles estavam desconsolados, porque me queriam bem. Entretanto eu sabia que aquela crítica não tinha fundamento, especialmente porque estava dentro de um regime completamente emocional. Eu nunca havia imitado a ninguém; só esperava com alegria que surgisse, dentro da forma e da cor aparente a mudança; eu pintava num diapasão diferente e era essa música da cor que me confortava e enriquecia minha vida." Anita Malfatti.

"Eu tinha 13 anos, e sofria porque não sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade[...]Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha personalidade. E veja o que fiz. Nossa casa ficava próxima da educada estação da Barra Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura."Anita Malfatti.


BOB DYLAN


All Along The Watchtower (tradução) Bob Dylan
"Deve haver alguma saída desse lugar", disse o bufão ao ladrão
"há confusão demais, não consigo nenhum alívio
homens de negócio bebem meu vinho, aradores cavam minha terra
nenhum deles sabe quanto vale uma parte disso"

"Não há razão para ficar excitado", o ladrão bondosamente falou
"existem muitos aqui entre nós que sentem
que a vida não passa de uma piada
mas você e eu já passamos por isso, e este não é nosso destino
por isso não conversemos com falsidade agora, está ficando tarde"

Por toda torre de observação, princípes guardavam a vista
enquanto todas as mulheres iam e vinham, criados descalços também

Lá fora, na distância, um gato selvagem grunhiu
dois cavaleiros se aproximavam, o vento começou a uivar"

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