quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Só movimentos necessários



Susanne Linke - “Só movimentos necessários”
Gisela Anauate, de Lyon (França)
 Divulgação
VIGOR
Aos 64 anos, a coreógrafa alemã Susanne Linke recriou Schritte Verfolgen, peça autobiográfica dos anos 80. Ela mostra a infância de Susanne, que até os 7 anos não conseguia falar por conta de uma doença

A coreógrafa Susanne Linke, de 64 anos, é um dos maiores nomes da dança na Alemanha. Ela estudou com Mary Wigman, pioneira da dança moderna alemã, e com Pina Bausch, representante do Tanztheater, corrente que usa dramaturgia no balé. Na Bienal de Dança de Lyon, que aconteceu em setembro na França, Susanne foi a atração mais aguardada. Apresentou a recriação de uma coreografia bem pessoal: Schritte Verfolgen (“passos seguidos”), de 1986. É uma biografia do corpo, que acompanha o nascimento do movimento em uma dançarina – no caso, a própria Susanne. Até os 7 anos, por conta de uma meningite, a coreógrafa não conseguia falar. Desesperada para se expressar, desenvolveu uma linguagem corporal, mais tarde incorporada na dança. SchritteVerfolgen II, antigamente um solo, conta essa história em quatro fases, com diferentes bailarinas (veja no quadro ao lado). Susanne Linke pensa em trazê-la ao Brasil, onde esteve três vezes nos anos 80. “Seria maravilhoso voltar”, diz. Segundo Susanne, sua força está em não produzir mais movimento do que mensagem. “É preciso que haja uma razão para o movimento.” O espetáculo levou o público de Lyon às lágrimas. Na manhã seguinte, ela conversou com ÉPOCA num hotel. Estava exultante com o sucesso. Até dançou pelo saguão.

ÉPOCA Por que decidiu recriar uma coreografia de 22 anos atrás?
Susanne Linke – Uma jornalista estava escrevendo um livro sobre mim e tive de me concentrar no passado. Assisti a vídeos de apresentações antigas e tive vontade de reviver essa peça. Foi preciso ver muitas vezes o vídeo para recuperar os movimentos. Mas foi incrível ver como meu corpo se lembrava de tudo. Os músculos sabiam! Consegui dançar todas as partes. Danço até melhor hoje que no passado. Mas fazer todas as partes é exaustivo. Então chamei três dançarinas mais jovens para cada parte e eu mesma danço a última.

ÉPOCA
A consciência que a personagem vai adquirindo em relação ao próprio corpo ao longo da peça é bonita, mas parece dolorosa.
Susanne – Dança profissional é em geral dolorosa quando é bem-feita. É preciso superar o ego para ter personalidade no palco. Isso é sempre doloroso. Nesta peça, quis mostrar o desenvolvimento de uma criança que não podia falar, o que é terrível. Na terceira parte, da mulher adulta, há alegria, há um jazz tocando. A última parte é a dança da maturidade. Encaro como uma conversa com a morte. Ali há portas para o outro mundo.

ÉPOCA
Como orientar as bailarinas a transmitir esse sentimento tão pessoal na dança?
Susanne – Muitas jovens aparecem nos ensaios mascando chiclete, não querem nada com nada, estão sempre com uma cara assim (Susanne faz cara de blasé). Não sei como é no Brasil, mas na Alemanha as jovens são desse jeito (risos). Tive de encontrar garotas que queriam expressar suas emoções. E que, além de talento, tivessem disciplina e imaginação. Armelle, a dançarina que faz a primeira parte, não teve a experiência de infância que eu tive. Era uma criança alegre. Mas não há alegria naquela dança, há o inferno. Quase tive de fazê-la sentir dor para que pudesse dançar. Levou tempo até que entendesse. Há uma ótima palavra alemã para isso: üben, üben, üben. Significa ensaiar, ensaiar, ensaiar.

ÉPOCA
O que mais faz um bom dançarino?
Susanne – Ele precisa de técnica, claro. Mas um bom dançarino é aquele cuja dança vem de dentro, em que o corpo, a mente e a alma trabalham juntos. Muito da prática de dança de hoje trabalha com esses elementos isolados. A dança se desenvolveu de um jeito em que o movimento se tornou mais livre. Os dançarinos estão mais relaxados, podem soltar o corpo. Mas é preciso dosar. A mensagem se perde quando há movimento demais. Minha força está em não produzir mais movimento do que mensagem. É preciso que haja uma razão para o movimento. Hoje, os coreógrafos não buscam tanto isso.

ÉPOCA
Há diferença entre dançarinos homens e mulheres?
Susanne – Sim. As mulheres são melhores para mostrar emoção, mais abertas para viver o momento. Os homens precisam de uma estrutura mais rígida. Fico pensando se é por isso que a imensa maioria dos coreógrafos que se destacam no balé clássico é composta de homens.

ÉPOCA
É verdade que ainda fica nervosa antes dos espetáculos?
Susanne – Claro! Há sempre a preocupação de que tudo dê certo. Penso nos bailarinos, no cenário, na música, nas luzes. Há muita expectativa do público. Quando eu danço, a preocupação vai além da coreografia. (Susanne se levanta e dá passos pelo saguão do hotel, dançando em volta das mesas e cadeiras. ) É preciso deixar o rosto relaxado, mesmo se eu estiver exausta. Não posso também ficar ofegante. (Ela continua rodopiando pelo salão, com um sorriso tranqüilo nos lábios, como se não estivesse fazendo nenhum esforço. ) Os movimentos mais lentos são os mais difíceis. (Susanne suspende a perna e a mantém retesada por vários segundos. )

ÉPOCA
Como é envelhecer para uma coreógrafa?
Susanne – Não é divertido perceber as mudanças no corpo, ver que tem algo desaparecendo. Esse algo não é o sexo, e sim o Eros. Mareike, a jovem bailarina que faz a segunda parte de Schritte Verfolgen II, já apresentou Transfiguration (1976) . É duro vê-la dançar meu solo favorito. Ao mesmo tempo, é bom ver que ele perdura com uma boa pessoa.

ÉPOCA
A senhora é vista como alguém que une importantes tradições da dança moderna. Como gostaria de ser lembrada no futuro?
Susanne – Como uma dançarina realizada. Uma dançarina de corpo, mente e alma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DANÇA DA CHUVA

Estou pesquisando sempre o eixo que emana na transição do efeito da dança na dançarina e o trabalho da dançarina sobre si mesma. Um c...